<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xml:lang="pt-BR"><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="4.4.1">Jekyll</generator><link href="https://irrelefante.com.br/feed/textos.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://irrelefante.com.br/" rel="alternate" type="text/html" hreflang="pt-BR" /><updated>2026-10-10T03:59:16-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/feed/textos.xml</id><title type="html">Irrelefante | Textos</title><subtitle>Nada faz muito sentido.</subtitle><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><entry><title type="html">Mystery?!</title><published>2026-07-31T11:12:00-03:00</published><updated>2026-07-31T11:12:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/07/31/mystery</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/07/31/mystery/"><![CDATA[<p>Hoje de noite eu tive um sonho louco.</p>

<p>Meus sonhos costumam ser bem normais. Geralmente são só eventos do meu dia-a-dia, mas nessa última noite as coisas mudaram. Eu sonhei que eu tava vivendo em algum lugar do Canadá, e fui convidado pela Cardboard Computer (os desenvolvedores do meu jogo favorito, <em>Kentucky Route Zero</em>), para testar o novo jogo deles, que se chamava <em>Mystery?!</em>, em Montana. Infelizmente, eu não lembro o subtítulo, eu só lembro que era longo.</p>

<p>O jogo começa com um <abbr title="Full motion video, sigla em inglês para jogos que usam cenas filmadas com atores reais">FMV</abbr> em que dois atores estão em um prédio antigo. Parece uma antiga repartição pública ou uma fábrica. Tem muito a estética de um filme pornô softcore, orque tanto o ator quanto a atriz estão com roupas de seda e a iluminação é típica de uma produção barata do início dos anos 1990, branca e iluminando tudo.</p>

<p>Eu não lembro direito do que eles falavam, mas eu lembro que essa introdução acaba e o jogo começa. Então, magicamente, <em>eu</em> estava lá naquele prédio (mistério!), e o sonho todo ficou em primeira pessoa (muito <em>The Entertainment</em>!). O jogo era simples:</p>

<ul>
  <li>Nós assistíamos um vídeo numa TV velha com vários objetos.</li>
  <li>Nós recebíamos uma cartilha com várias palavras, e precisávamos circular o nome dos objetos que víamos.</li>
  <li>A cada rodada, mais um item era introduzido, então a gente tinha que lembrar progressivamente de mais e mais coisas.</li>
</ul>

<p>Eu lembro que uma das coisas que eu precisava lembrar era o bico de um pássaro, que eu <em>acho</em> que é um dos marcadores para se navegar na Zero em <em>KRZ</em>. Só que as coisas iam complicando conforme o jogo progredia, eu tinha que lembrar mais e mais de coisas específicas, como “urna antiga para se colocar as cinzas da vovó”. Eu joguei algumas partidas do jogo com um cara que eu não conhecia. Eu lembro que eu ia progressivamente me apaixonando por esse jogador. Tinham outras pessoas em outras mesas ao redor.</p>

<p>Depois da partida, nós saímos para a rua, estava anoitecendo. Era um edifício bem antigo e bem grande no meio do nada. Eu lembro que tinha um gramado gigante ao redor, e nós jogadores sentamos juntos próximos de uma árvore e da cerca e ficamos ali. Eu lembro que eu me senti feliz de conhecer outras pessoas e de fazer parte daquele grupo, e de sentir que seríamos amigos depois daquela tarde jogando <em>Mystery?!</em>.</p>

<p>E então eu acordei.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="jogos" /><category term="Cardboard Computer" /><category term="sonhos" /><summary type="html"><![CDATA[Hoje de noite eu tive um sonho louco.]]></summary></entry><entry><title type="html">Meu (novo) episódio favorito de Gilmore Girls</title><published>2026-07-20T21:48:00-03:00</published><updated>2026-07-20T21:48:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/07/20/meu-novo-epis%C3%B3dio-favorito-de-gilmore-girls</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/07/20/meu-novo-epis%C3%B3dio-favorito-de-gilmore-girls/"><![CDATA[<p>Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de <em>Gilmore Girls</em>, “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou.</p>

<p>Esse episódio é o que tudo dá errado: Lorelai percebe que ela e a Sookie não tem mais dinheiro para continuar a obra no novo hotel, o Dragonfly, e Sookie não consegue ter o mesmo compromisso que Lorelai com o negócio que elas querem começar porque ela acabou de ter o filho; já Rory tem que se despedir de Lane, sua amiga de infância que estava dormindo com ela em Yale, ao mesmo tempo que fica no meio da briga entre duas colegas de quarto e é convidada a diminuir sua carga de aulas na faculdade por estar com notas baixas. Para fechar com chave de ouro, as duas não conseguem se falar — elas trocam mensagens de voz (os áudios de WhatsApp da década de 2000) porque nunca conseguem atender os telefonemas uma da outra.</p>

<p>A quarta temporada de <em>Gilmore Girls</em> talvez seja a melhor das sete. A essa altura, ela já está no terceiro ano irretocável que Amy Sherman-Palladino construiu. Depois de três anos numa mesma fórmula, com Rory no seu ensino médio sendo apresentada ao mundo dos ricos de seus avós, e Lorelai vivendo no idílio excêntrico da cidade que a abraçou quando ela fugiu da vida que Rory está conhecendo. No quarto ano, Lorelai e Rory não convivem mais com tanta frequência e estão conhecendo quem são fora do lar que construíram juntas. Lorelai, por exemplo, escolhe visitar os pais por conta própria, algo impensável duas temporadas atrás; e Rory e Paris agora são amigas, um dos grandes relacionamentos marinados em fogo baixo que <em>Gilmore Girls</em> cria.</p>

<p>Tudo isso explode no episódio 14, que serve como a culminação de várias pequenas tramas que são pinceladas aqui e ali nos episódios anteriores. Lorelai e Rory finalmente desincronizaram suas rotinas totalmente, a ponto de não saberem sobre o dia-a-dia uma da outra. Rory não consegue ser quem ela esperava ser na faculdade, com mais e mais cenas dela percorrendo os corredores de Yale perdida em horários e em compromissos irrelevantes, como seu estágio na cafeteria; e Lorelai não sabe se vai conseguir realizar seu sonho, algo sugerido pela ausência de cenas dela comendo comida do Al’s Pancake World e pela casa usando luzes mais escuras. E tem mais: a série também consegue avançar o desenvolvimento de personagem de Luke, que no episódio anterior levou uma surra do sobrinho, e Lane tem seu primeiro reencontro com a mãe depois de sair de casa (é um dos arcos mais magníficos da série, que culmina no episódio seguinte); já Emily começa a entrar em conflito com Richard ao perceber que ele está cada vez mais distante e desatento (e dá oportunidade para Kelly Bishop e Edward Herrmann serem maravilhosos).</p>

<p><em>Gilmore Girls</em> é uma das melhores séries que eu já vi em como desdobra o drama a partir de pequenas comédias do dia-a-dia. Embora faça piada com como Paris reage à Lane saber de seu caso com o professor, ou da dinâmica das colegas de quarto de Rory, tudo isso serve para isolá-la mais na frustração de que seus planos pra faculdade parecem não estar dando certo e sua melhor amiga sendo expulsa do quarto. Com Lorelai, é o cabelo cheio de creme e embaraçado, que vira comentário afiado da Emily, mas que só vai ficando mais e mais estranho conforme as coisas vão dando errada com seu dia, até que ela desaba nos braços de Luke que, também, está passando por uma barra.</p>

<p>Tudo isso vai se desdobrar nos episódios seguintes, mas é aqui que todas essas personagens começam a colapsar. Quando o episódio acaba, Rory e Lorelai finalmente conseguem atender o telefonema uma da outra, mas nesse ponto elas já choraram e estão exaustas e já não querem mais falar sobre os problemas pelos quais elas estão passando. <em>Gilmore Girls</em> é tão delicada na forma como essas duas personagens vão se afastando aos poucos enquanto embarcam vidas distintas, e esse é o primeiro passo de seu afastamento. Não com uma briga, como a série vai fazer com a reaproximação entre Rory e Dean que inicia aqui, mas com o silêncio no telefone no outro lado da linha, certas de que a outra não vai entender o que está acontecendo. É de partir o coração, e é exatamente a sensibilidade que faz <em>Gilmore Girls</em> ser uma das minhas séries favoritas.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="impressões" /><category term="séries" /><category term="episódios" /><category term="Gilmore Girls" /><summary type="html"><![CDATA[Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de Gilmore Girls, “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://64.media.tumblr.com/24252a48d6a6aa44f138c7ef1284c84a/0eacf528f34eec48-cd/s1280x1920/f85129aeb297bfaf4cb91593e93f72a5cbeeab10.webp" /><media:content medium="image" url="https://64.media.tumblr.com/24252a48d6a6aa44f138c7ef1284c84a/0eacf528f34eec48-cd/s1280x1920/f85129aeb297bfaf4cb91593e93f72a5cbeeab10.webp" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">Em defesa dos navegadores em consoles de videogame</title><published>2026-06-15T16:55:00-03:00</published><updated>2026-06-15T16:55:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/06/15/em-defesa-dos-navegadores-em-consoles-de-videogame</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/06/15/em-defesa-dos-navegadores-em-consoles-de-videogame/"><![CDATA[<p>Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.</p>

<p>O primeiro, é <a href="https://vale.rocks/posts/game-console-browsers">esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow</a> em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes.</p>

<p>Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página.</p>

<p>Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em <a href="https://mohkohn.co.uk/writing/html-first/">um artigo</a> sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para <em>outro</em> artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É <a href="https://shkspr.mobi/blog/2021/01/the-unreasonable-effectiveness-of-simple-html/">nesse link</a> que está essa pequena anedota de Terence Eden:</p>

<blockquote>
  <p>Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando.</p>

  <p>No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com <em>Candy Crush</em>.</p>

  <p>Ou, pelo menos, era o que eu pensava.</p>

  <p>Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do <a href="https://www.gov.uk/housing-benefit">GOV.UK sobre Auxílio-Moradia</a>. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento.</p>

  <p>O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente.</p>

  <p>Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos.</p>
</blockquote>

<p>Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. <em>Todo o resto</em> de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível.</p>

<p>É um pouco do que me faz querer que o nosso <em>gov.br</em> fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do <em>gov.br</em> é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima.</p>

<p>Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="web" /><category term="desenvolvimento" /><category term="hardware" /><category term="consoles" /><summary type="html"><![CDATA[Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.]]></summary></entry><entry><title type="html">Shape of Dreams (ou: eu quero um filme novo do Spike Jonze)</title><published>2026-05-12T22:53:00-03:00</published><updated>2026-05-12T22:53:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/05/12/shape-of-dreams-ou-eu-quero-um-filme-novo-do-spike-jonze</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/05/12/shape-of-dreams-ou-eu-quero-um-filme-novo-do-spike-jonze/"><![CDATA[<p>Eu quero poucas coisas na vida. Uma das coisas que eu mais quero na vida, é um novo filme do Spike Jonze, um dos meus diretores favoritos. Ele fez obras-primas como <a href="https://paomortadela.com.br/2019/02/onde-vivem-os-monstros-uma-obra-prima-sobre-a-inf-ncia/"><em>Onde Vivem Os Monstros</em></a>, talvez o melhor filme sobre o que é ser criança já feito, e <a href="https://paomortadela.com.br/2016/02/ela/"><em>Ela</em></a>, seu último filme — em 2013.</p>

<p>Desde então, eu espero ansiosamente por um novo trabalho dele. Jonze ia dirigir uma série para a Netflix, mas pelo visto o projeto degringolou. Eu não sei porque a Apple TV ainda não ofereceu pra ele um cheque em branco — tem mais de uma série no serviço que bebe tanto da criatividade de Jonze que quase dá pra processar por cópia (<em>Sunny</em>, <em>Mr. Corman</em>).</p>

<p>Enquanto isso, nos resta o trabalho com publicidade dele. O mais recente é <em>Shape of Dreams</em>, que ele escreveu e dirigiu para a coleção de roupas que a Zendaya criou para a marca suíça On:</p>

<article class="link-preview h-cite u-like-of">
    <a class="u-url" href="https://www.youtube.com/watch?v=6NVAzWEgTXo" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-image u-photo" src="https://i.ytimg.com/vi/6NVAzWEgTXo/maxresdefault.jpg" alt="" role="presentation" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">On | Shape of Dreams, starring Zendaya. Written and directed by Spike Jonze.</cite>
            <span class="link-domain p-publication">YouTube</span>
          </header>

          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>Como todos os trabalhos de Jonze, suas publicidades também têm essa impressão tão bonita e cada vez mais rara de serem feitas à mão. A ideia é muito simples — Zendaya “molda” as roupas das outras pessoas “puxando” e “apertando” formas ao redor delas, em um jogo de encenação e posicionamento de câmera. Das ideias de Jonze, é uma das mais simples. Mas a execução é um charme, realmente delicada e bem humorada.</p>

<p>É do Jonze também a insana <em>Kenzo World</em>:</p>

<article class="link-preview h-cite u-like-of">
    <a class="u-url" href="https://www.youtube.com/watch?v=mBdbJbEnTzI" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-image u-photo" src="https://i.ytimg.com/vi/mBdbJbEnTzI/maxresdefault.jpg?sqp=-oaymwEmCIAKENAF8quKqQMa8AEB-AH-CYAC0AWKAgwIABABGHIgYSg3MA8=&amp;rs=AOn4CLB4Xed1gK8ksoaZ-Y0vs5-UvPts_g" alt="" role="presentation" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">Kenzo - Kenzo World - Eau de Parfum</cite>
            <span class="link-domain p-publication">YouTube</span>
          </header>

          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>E a minha favorita das suas publicidades recentes, a <em>Welcome Home</em> apresentando o primeiro HomePod da Apple. É genial tanto em ideia (uma simplicidade de dar inveja) e execução (maravilhosa, toda em efeitos práticos):</p>

<article class="link-preview h-cite u-like-of">
    <a class="u-url" href="undefined" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-icon u-photo" width="64" height="64" src="https://www.youtube.com/s/desktop/dc4e66d7/img/favicon.ico" alt="" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">undefined</cite>
            <span class="link-domain p-publication">undefined</span>
          </header>

          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>Lá vou eu rever <em>Quero Ser John Malkovich</em>.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="vídeos" /><category term="Spike Jonze" /><category term="pendentes" /><summary type="html"><![CDATA[Eu quero poucas coisas na vida. Uma das coisas que eu mais quero na vida, é um novo filme do Spike Jonze, um dos meus diretores favoritos. Ele fez obras-primas como Onde Vivem Os Monstros, talvez o melhor filme sobre o que é ser criança já feito, e Ela, seu último filme — em 2013.]]></summary></entry><entry><title type="html">Quanto céu tem aqui fora</title><published>2026-05-06T22:59:00-03:00</published><updated>2026-05-06T22:59:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/05/06/quanto-c%C3%A9u-tem-aqui-fora</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/05/06/quanto-c%C3%A9u-tem-aqui-fora/"><![CDATA[<p>Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos.</p>

<p>Nós nos levantamos da mesa e vamos ao caixa. Eu insisto em pagar a conta dessa vez. Você finge se irritar, mas me beija na bochecha. A mulher do caixa me olha preocupada, vira o rosto pra você e me olha outra vez.</p>

<p>“Se vocês se separarem, o sonho vai acabar”, ela diz baixinho. Eu não entendo. Não que eu não tenha <em>ouvido</em> o que ela disse, mas eu não entendo o que ela quer dizer. Ela fala mais alto. “Se vocês se separarem”, e olha pra você, “o sonho vai acabar”.</p>

<p>A gente se olha. Você franze o rosto com aquela sua falsa preocupação e pisca o olho pra mim. Eu não lembro de conferir o troco, porque eu só quero chegar perto de você pra sairmos juntos do café. Eu digo bom dia pra moça do caixa e caminhamos, abraçados, em direção à porta.</p>

<p>A manhã está linda. É verão e as roupas são leves. Eu seguro seu rosto com as duas mãos e te beijo. Você me beija de volta, pega minhas mãos e as segura perto do rosto. Você me olha por cima dos nossos dedos entrelaçados. Você sempre encontra meus olhos, acho que foi isso que me fez te amar.</p>

<p>“Até mais tarde”, você me diz, e nossos dedos se desentrelaçam. Você se vira e começa a se afastar. Eu me viro pro outro lado da rua e, também, me afasto. Eu sei que você deu uma olhadinha em mim — sua verdadeira despedida, sempre — enquanto nos afastamos. E aí, tudo começa.</p>

<p>Eu demoro pra reconhecer o som que vem crescendo de longe. Eu percebo que ele é alto e me atrapalha, mas eu demoro para pôr a ideia de que ele existe na minha mente. Meu raciocínio é mais lento que meus olhos, que veem no fim da rua um helicóptero ir direto ao encontro do prédio. A explosão é alta, e as pessoas saem correndo. Umas vão em direção ao caos, e outras correm dele.</p>

<p>Eu fico imóvel, sem conseguir entender o que eu acabei de ver. Todo mundo parece que já entendeu. Um homem sai do carro e corre em minha direção. Eu ouço outra explosão acontecendo em algum lugar, mas não consigo entender de onde.</p>

<p>O homem grita “ei ei ei”, apontando para você. Você também está imóvel, alguns metros atrás de mim, a boca entreaberta e os olhos assustados. Você se acorda do transe feito de pavor e me olha. Seus olhos sempre me encontram, não é mesmo? O homem te chama, e ele repete.</p>

<p>“Se vocês se separarem”, e então bem devagar, “o sonho vai acabar”. Ele te olha, ele me olha. “Vocês entenderam isso?”. Eu quase me ofendo com a sugestão da minha ignorância, mas eu não vou mentir que eu não sei se entendi.</p>

<p>Você segura minha mão, e nos olhamos. E daí eu acho que entendemos tudo ao mesmo tempo. Eu seguro firme em você e saio correndo para longe daquele caos.</p>

<p>Corremos, e corremos. E <em>corremos</em>. Os carros estão todos parados, muitos sem ninguém dentro. Todo mundo fugiu, ou todo mundo foi em direção às explosões que causamos? Eu sei que a gente precisa correr. Você me acompanha, eu sinto o baque dos seus pés no chão ao meu redor.</p>

<p>Quando o fôlego acaba, e a gente chega em uma praça onde as coisas parecem estar mais calmas, eu sento em um banco e olho pra você, que ainda está de pé, respirando fundo. Eu nunca perguntei sobre seu histórico de fumante, mas essa dúvida me passa pela cabeça nesse instante.</p>

<p>“De quem é o sonho?”, você pergunta primeiro. Por um milésimo de segundo eu fico com raiva — <em>eu</em> queria ter perguntado isso, porque eu achei que você sabia a resposta. Agora o peso dessa resposta tá sobre mim, e eu não sei o que dizer. Eu olho ao redor, e não vejo ninguém.</p>

<p>“Eu não sei”, eu digo. “Eu não reconheço esse lugar, e você?”</p>

<p>Você caminha em círculos, olhando os arredores. “Eu não sei. Eu tenho a impressão de que conheço, mas eu não sei onde a gente tá. Faz sentido?”</p>

<p>Nada faz sentido, a raiva cresce um pouquinho. “Como que a gente vai saber quem tá sonhando?” eu pergunto. Você se belisca. Eu me belisco. Parecia fácil demais. É óbvio que não funciona.</p>

<p>“Onde a gente tá?”. É estranho. Instantes atrás eu achava que sabia onde eu tinha que ir. “Agora parece que eu não reconheço onde a gente tá”, eu digo. “Eu achava que sabia até pouco tempo.”</p>

<p>Você percebe a mesma coisa. Me olha com sua cara confusa — que coisa mais fofa. “Onde é que eu tinha que ir?”</p>

<p>Parece que a gente está nessa praça por muito tempo quando você senta do meu lado e me fala as palavras mais bonitas do mundo. “Acho que a gente pode fazer o que a gente quiser, não acha?”. Eu vejo seu olhar se abrindo pra um sorriso quando eu levanto o rosto e te encaro.</p>

<p>“É verdade”. Eu seguro sua mão e te levanto.</p>

<p>Você tenta se lembrar onde você mora. Ou onde eu moro. Ou se a gente mora junto. “Eu só lembro que quando eu deito no sofá no fim da tarde, a luz do sol entra pela janela da sala e ilumina os meus pés”, você me explica.</p>

<p>Eu não acho que eu sabia desse detalhe, e meu coração se parte um pouco. Será que a gente não mora junto, então? Se eu tiver dormindo, será que eu te conheço?</p>

<p>Nós estamos passando por um subúrbio cheio de ruas tortas e casas espaçosas, com jardins abertos. “Minha mãe mora aqui”, eu digo de repente, como se isso fosse verdade. A casa dela está ali, logo em frente. Eu bato na porta, mas ninguém atende. A porta está destrancada, então eu entro. Você está logo atrás de mim.</p>

<p>Não existem fotos minhas ou da minha mãe pela casa. Essa poderia ser a casa de qualquer um. Mas eu sei que é a casa da minha mãe — eu sei exatamente onde está o banheiro e te explico, porque você precisa usá-lo, que a descarga é demorada. Eu te peço pra não trancar a porta. Quando você me pede um motivo, eu respondo que eu tenho medo que você desapareça.</p>

<p>Eu ouço você puxar a descarga e a lavar as mãos. Um alívio percorre meu corpo quando eu vejo você abrir a porta.</p>

<p>Nós esperamos minha mãe chegar, mas ela não chega. O dia começa a escurecer quando a gente decide sair dali. Você me dá sua mão e caminhamos de mãos dadas pela rua onde nós crescemos e eu sinto que foi assim que a gente se apaixonou.</p>

<p>Nós estamos na beira da interestadual. Muitos carros ainda andam pra lá e pra cá. O sol recém se pôs quando a gente chega no estacionamento em que você se apaixonou por mim. Não tem carros ali, mas a gente ouve os que andam ao longe. Nós descemos o barranco onde a grama ainda é alta e eu me sento onde sempre me sentei quando ia ali com você. Os fachos de luz dos carros pintam seu rosto por instantes.</p>

<p>“Eu sempre gostei de quanto céu tem aqui fora”, você diz, olhando pra cima. É verdade. O céu vai até muito longe. Não tem nenhum prédio a vista. A estrada vai de um horizonte ao outro. O céu é gigante nesse lugar. O azul ainda não é preto, mas o sol não tá mais no horizonte. É a última luz que a gente vai ver.</p>

<p>Você não me olha quando você fala nossos medos.</p>

<p>“Eu não quero acordar e ver que você não tá comigo”.</p>

<p>“Eu também não”.</p>

<p>“Eu tô com medo de acordar e perceber que a gente nem se conhece”.</p>

<p>Eu penso. “Se a gente não se conhece, onde a gente se viu?”</p>

<p>Você me olha. Até no escuro, você me encontra.</p>

<p>“No trem?”</p>

<p>“No banco?”</p>

<p>Você sorri. “Ou quem sabe no café?”</p>

<p>“Eu acho que eu teria sorrido pra você no café”</p>

<p>“Você sorriu”</p>

<p>“Vou lembrar de sorrir de novo, então”.</p>

<p>Eu acho que a gente chegou no fim do mundo caminhando. A gente olha ao redor, e tem um posto de gasolina fechado. Não tem movimento nenhum, mas eu escuto o som do mar. Você também escuta?</p>

<p>“Sim”, você me responde. Mas eu não fiz essa pergunta.</p>

<p>Eu te olho e você sorri. Com uma barra de ferro você quebra a porta de vidro da loja de conveniência. Eu espero pelo pior, mas ele não vem.</p>

<p>Um flash da luz de emergência pisca e ilumina as prateleiras. “Eu tô com fome”, você se justifica.</p>

<p>A gente entra na loja vazia e você procura por algo muito específico nas prateleiras de salgadinho. Eu vou em direção às geladeiras, e ouço o zumbido delas. Meu coração bate forte. Eu sei o que está acontecendo.</p>

<p>Os rótulos das bebidas estão todos em idiomas que eu não sei identificar. Eu pisco e tento decifrar as linhas das palavras do que obviamente é uma Coca-Cola, mas nada na lata é compreensível pra mim. Eu percebo que meu coração desacelerou, e ao perceber isso o desespero bate. A loja de conveniência não é mais a mesma.</p>

<p>Você me dá um beijo e eu me viro pra te ver, mas você não está mais aqui. Minha respiração começa a ficar curta conforme meu medo vai aumentando. Eu lembro do que você me disse uma vez. “Pra lembrar que está sonhando, lembre de olhar para as palmas das suas mãos”. É a última vez que eu ouço sua voz.</p>

<p>Eu tento respirar fundo. O coração vai sair pela boca se eu não fizer isso.</p>

<p>Eu olho para as palmas das minhas mãos. Eu levanto o rosto e consigo perceber o sonho derretendo ao meu redor. As lojas ao redor começam a desmoronar e os carrinhos de supermercado começam a derreter. Eu volto a perder o fôlego.</p>

<p>Eu sinto a textura do lençol da minha cama, que eu escolhi a dedo. O peso da minha cabeça no travesseiro. Eu ainda sinto que o coração vai explodir e o pulmão não vai aguentar. Por um breve segundo, eu abro os olhos e esqueço onde está a porta do quarto. Eu mudei a posição da cama essa noite, por acaso?</p>

<p>No canto do meu olho eu enxergo a silhueta coberta pelo lençol. Eu a observo com cuidado, com medo do coração se partir. Eu me recuso a puxar a coberta e descobrir a verdade.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="contos" /><category term="ficção" /><category term="sonhos" /><summary type="html"><![CDATA[Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos.]]></summary></entry><entry><title type="html">Filmes que me fazem me sentir em casa</title><published>2026-03-27T11:21:00-03:00</published><updated>2026-03-27T11:21:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/03/27/filmes-que-me-fazem-me-sentir-em-casa</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/03/27/filmes-que-me-fazem-me-sentir-em-casa/"><![CDATA[<p>Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.</p>

<p>Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas.</p>

<p>Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme.</p>

<p>Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede.</p>

<p>Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço.</p>

<hr />

<ol>
  <li><strong>Daguerreótipos</strong> (Agnès Varda, 1975)</li>
</ol>

<p><a href="/reviews/2026/03/20/daguerre%C3%B3tipos/">O filme que me fez pensar nessa lista</a>. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabeleireiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como *Daguerreótipos*. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor. 2. **Meu Amigo Totoro** (Hayao Myazaki, 1988)
</code></pre></div></div>

<p>Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo. 3. **Memórias de Ontem** (Isao Takahata, 1991)
</code></pre></div></div>

<p><em>Memórias de Ontem</em> é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>(Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.) 4. **Amantes** (John Cassavetes, 1984)
</code></pre></div></div>

<p>Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em <em>Amantes</em> tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma. 5. **Certas Mulheres** (Kelly Reichardt, 2016)
</code></pre></div></div>

<p>Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, [eu escrevi][kelly]:   &gt; Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar.

Isso é se sentir em casa. 6. **Onde Vivem Os Monstros** (Spike Jonze, 2009)
</code></pre></div></div>

<p>Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O em *Food Is Still Hot*. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. 7. **Lovers Rock** (Steve McQueen, 2020)
</code></pre></div></div>

<p>Grace foge de casa de noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>*Lovers Rock* é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar. 8. **Todos Nós Desconhecidos** (Andrew Haigh, 2023)
</code></pre></div></div>

<p>Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Em *Todos Nós Desconhecidos*, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos. 9. **Pequena Mamãe** (Céline Sciamma, 2021)
</code></pre></div></div>

<p>Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali.</p>

<div class="language-plaintext highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code>Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.
</code></pre></div></div>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="filmes" /><category term="listas" /><summary type="html"><![CDATA[Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.]]></summary></entry><entry><title type="html">O apogeu dos anos 90</title><published>2026-02-03T11:17:00-03:00</published><updated>2026-02-03T11:17:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/02/03/o-apogeu-dos-anos-90</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/02/03/o-apogeu-dos-anos-90/"><![CDATA[<p>Vai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas <a href="https://chris.pagecord.com/we-as-a-society-peaked-in-the-90s" class="u-in-reply-to">esse post do Chris Collins</a> bateu forte em mim:</p>

<blockquote>
  <p>Most folk didn’t really care about technology. They had a few things like a CD player, a games console or a phone that just worked to call and maybe text. You bought it, you owned it, and everyone kind of accepted it would die eventually. […]</p>

  <p>Photos were just… photos. […] You took one because it mattered.</p>

  <p>[…] You waited for stuff and nobody lost their mind about it. Waiting was normal.</p>

  <p>People worked hard, but it usually meant something tangible. You could point at it and say “I did that”. Not just emails and meetings and vibes. […]</p>
</blockquote>

<p>Me lembrou de duas coisas: uma fala em <em>Matrix</em>, quando Morpheus explica pro Neo que a Matrix é uma simulação da humanidade no seu apogeu (os anos 1990). Também me lembrou de <em>We Used To Wait</em> do Arcade Fire pro álbum <em>The Suburbs</em> (um disco sobre os anos 1990, inclusive).</p>

<article class="link-preview h-cite u-like-of">
    <a class="u-url" href="https://music.apple.com/br/album/the-suburbs/1252757950" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-image u-photo" src="https://is1-ssl.mzstatic.com/image/thumb/Music124/v4/ea/9f/1a/ea9f1ab0-4cac-c925-590d-14461f676912/886446576510.jpg/1200x630wp-60.jpg" alt="" role="presentation" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">We Used to Wait de Arcade Fire no Apple Music</cite>
            <span class="link-domain p-publication">Apple Music — versão web</span>
          </header>

          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>Eu vivi a segunda metade dos anos 1990, e concordo. Até ali por 2009, eu acho que a gente tinha o balanço certo do quanto a tecnologia, ou o digital em si, nos ajudava mais do que nos influenciava. As coisas mudaram com o iPhone.</p>

<p>Eu acho que tinha muita coisa errada naquela época, mas eu acho que as coisas tinham mais peso. Hoje em dia, tudo tem um peso de um post numa rede social — seja a barbárie contra um povo, a violência sexual contra crianças, e o prêmio de música que aconteceu na noite de ontem.</p>

<p>Ter saído do Instagram me ajudou muito a tirar esse efeito esmagador que ele tem de tornar tudo <em>conteúdo</em>. O problema é que muito da vida hoje é moldado por essa experiência. Eu vou num restaurante e ele tem “cenários instagramáveis” para as pessoas criarem memórias. As notícias no jornal tem frases curtas para caberem num post ou para serem lidos num story. É meio desesperador estar de fora mas ainda assim sentir seus efeitos.</p>

<p>Acho que é um caminho, e cada um tem sua própria jornada de volta ao mundo, à grama do jardim, à textura das coisas.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="sociedade" /><category term="tecnologia" /><category term="comportamento" /><summary type="html"><![CDATA[Vai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas esse post do Chris Collins bateu forte em mim:]]></summary></entry><entry><title type="html">Amizade e sentido</title><published>2026-01-06T07:05:00-03:00</published><updated>2026-01-06T07:05:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2026/01/06/amizade-e-sentido</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2026/01/06/amizade-e-sentido/"><![CDATA[<p>Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.</p>

<p>No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.</p>

<p>Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.</p>

<p>Qual é o <em>sentido</em> de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.</p>

<p><a href="https://archive.is/49yUL">Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida</a>. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.</p>

<p>Eu defini, há muito tempo, que <a href="https://archive.is/gICow">amizades são as relações mais importantes da minha vida</a>. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.</p>

<p><a href="https://paomortadela.com.br/2021/02/sobre-amizade-e-imortalidade/">Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje</a>. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.</p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="comportamento" /><category term="amigos" /><category term="pendente" /><summary type="html"><![CDATA[Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://64.media.tumblr.com/0bfe7505322ed6c0918028cd77fad63c/07824a574ced5982-80/s640x960/d2120c145f6e3a1b2ab2d630d16a985c959797ab.jpg" /><media:content medium="image" url="https://64.media.tumblr.com/0bfe7505322ed6c0918028cd77fad63c/07824a574ced5982-80/s640x960/d2120c145f6e3a1b2ab2d630d16a985c959797ab.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">As cinco melhores coisas de 2025</title><published>2025-12-30T09:00:00-03:00</published><updated>2025-12-30T09:00:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2025/12/30/as-cinco-melhores-coisas-de-2025</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2025/12/30/as-cinco-melhores-coisas-de-2025/"><![CDATA[<p>Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 <a href="https://paomortadela.com.br/tag/melhores-do-ano/">elas foram publicadas no <em>Pão com Mortadela</em></a> a do ano passado <a href="/textos/2024/12/19/as-cinco-melhores-coisas-de-2024/">no meu blog pessoal</a>. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no <em>Irrelefante</em>.</p>

<p>Eu vou mudar um pouco como essa lista é pensada esse ano. Ao invés de só considerar lançamentos, a lista desse ano também terá minhas descobertas favoritas. É uma mudança que ajuda a refletir como minha dieta cultural tá mudando com o tempo também: as vezes eu só consigo jogar um jogo anos depois dele ter sido lançado, ou vejo um filme décadas depois, explorando alguma recomendação antiga que recebi de alguém. Principalmente, eu descubro músicas favoritas lançadas antes mesmo de eu nascer, e raramente leio livros lançados no ano atual. Abrindo a lista para descobertas me permite escrever sobre meus livros favoritos do ano, e refletem melhor como eu escuto música ultimamente.</p>

<p>Talvez a mudança seja sentida menos em listas de filmes e séries, por exemplo. Boa parte da minha dieta cultural no cinema e na TV é de lançamentos, mas não se surpreenda se um filme dos anos 1940 ou uma série que você viu há muitos anos começar a aparecer nessas listas com o tempo.</p>

<p>Lembrando: embora o melhor de cada categoria seja destacado, as outras quatro recomendações estão em ordem alfabética.</p>

<p>(Meu muito obrigado ao Raul (<a href="https://raulranma.itch.io/">@raulranma</a> pela ilustração no topo desse post. Eu sempre peço as artes de última hora pro Raul e ele sempre arrasa, mesmo no prazo apertado. Ano que vem vou fazer diferente, Raul! Eu juro!)</p>

<p>Eu espero que você goste das sugestões e que essa lista te ajude a descobrir coisas bacanas em 2026. A gente se vê por lá.</p>

<!-- more -->
<h2 id="o-filme">O filme:</h2>

<aside class="h-item h-review">
  <div class="review-widget">
    <div class="review-details">
      <div class="item-details">
        <h2 class="review-title item-name p-name p-item">Foi Apenas Um Acidente</h2>

        <div class="item-meta">
          

          <span class="item-summary e-description">Jafar Panahi, 2025</span>

          
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      </div>
    </div>

    <img class="review-poster u-photo" src="/uploads/2025/12/acidente.jpg" alt="" />
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</aside>

<p>A nova obra-prima de Jafar Panahi, e talvez seu melhor filme para começar com a carreira do diretor até aqui. Um lindo exemplo de como o cinema iraniano emprega uma poesia visual que cinema nenhum do mundo consegue se equiparar, essa pequena história de um grupo de pessoas que acham que encontram seu torturador e discutem o que devem fazer com ele é assombroso — literalmente, seu final me assombra até hoje, por tudo o que ele não mostra e por tudo o que ele indica.</p>

<p><strong>E também:</strong></p>

<ul>
  <li><em>A Hora do Mal</em> (Zach Cregger, 2025). O evento cinematográfico do ano para mim. Uma conquista ousada na direção, Zach Cregger tem o público na palma da mão enquanto navega pela vida de pessoas desesperadas tentando entender o que aconteceu com elas e com as crianças que desapareceram. A virada de faca no estômago no último ato é tão magnífica que quase ofusca as duas horas de perfeição que vieram antes dela.</li>
  <li><em>Uma Batalha Após A Outra</em> (Kelly Reichardt, 2025). Eu não estava esperando um filme tão tópico de Paul Thomas Anderson. Ele entrega um de seus filmes mais ousados, um filme de ação em que o motor é o amor de um pai por uma filha, mas que deixa pelo caminho histórias de revoluções implodidas e arrancadas das mãos das pessoas. É desesperador de assistir, mas tem um fiozinho de esperança tão lindo no final que traz aquele PTA romântico de <em>Trama Fantasma</em> de volta.</li>
  <li><em>The Mastermind</em> (Kelly Reichardt, 2025). Kelly Reichardt observa a pequenez do homem ressentido nesse filme de assalto em que, em um filme mais tradicional, um ex-filho prodígio deveria aprender a lidar com a própria mesquinharia. Não aqui: Reichardt leva o ex-artista, ex-arquiteto, agora-ladrão de Josh O’Connor até às últimas consequências do seu egoísmo, e desfere a ele um último golpe de justiça divina no final.</li>
  <li><em>Valor Sentimental</em> (Joachim Trier, 2025). São poucos os filmes que sobrevivem à própria inspiração quando essa inspiração é o drama de Ingmar Bergman mas Joachim Trier consegue ao não confundir inspiração com emulação. Esse não é um filme bergmaniano, mas um filme que, como os de Bergman, se preocupa com as emoções mais ocultas, aquelas que nós fingimos que não sentimos, que escondemos sobre nossos outros sentimentos porque seria doloroso demais mostrar a saudade ao invés da raiva, ou a solidão ao invés do amor. <em>Valor Sentimental</em> é um filme que respira, que vibra, e que sente.</li>
</ul>

<h2 id="o-jogo">O jogo</h2>

<aside class="h-item h-review">
  <div class="review-widget">
    <div class="review-details">
      <div class="item-details">
        <h2 class="review-title item-name p-name p-item">Despelote</h2>

        <div class="item-meta">
          

          <span class="item-summary e-description">Julián Cordero e Sebastián Valbuena, para PlayStation, Xbox, Switch, PC e Mac</span>

          
        </div>
      </div>
    </div>

    <img class="review-poster u-photo" src="/uploads/2025/12/despelote.jpeg" alt="" />
  </div>
</aside>

<p>As vezes, bem raramente, aparece um jogo como <em>Despelote</em> que consegue alcançar o que eu imagino que seja a ambição máxima de um game designer: de permitir que você sinta uma experiência além da sua própria vida através de novos olhos. Em <em>Despelote</em>, é a sensação de orgulho nacional quando a seleção de futebol avança para uma nova etapa na Copa do Mundo. <em>Despelote</em> é todo sobre o amor pelo futebol, pela forma como esse amor move sonhos e cria comunidades. É um jogo que me faz querer estar junto das pessoas, de sentir com elas, de tirar os calçados e sentir a textura do chão. Um dos melhores jogos que eu já joguei.</p>

<p><strong>E também:</strong></p>

<ul>
  <li><em>Blippo+</em> (Panic para Nintendo Switch, Playdate e PC). Uma das experiências mais mágicas que eu já tive foi ir visitar uns amigos dos meus pais que viviam em outro lugar e, numa noite mal dormida, ficar navegando na TV por canais estranhos, muito longe dos habituais 5, 7, 10, 12 e 14 da TV da minha casa. <em>Blippo+</em> traduz essa experiência para um jogo, e traz de volta um pouco daquela TV feita na marra, de programas feitos por universidades regionais e colocados na TVE no meio da semana. É tudo tão estranho e tão lindo.</li>
  <li><em>Blue Prince</em> (Dogubomb para PlayStation, PC e Xbox). Antes de <em>Despelote</em> tomar o primeiro lugar, <em>Blue Prince</em> foi meu jogo do ano. Um mistério sobre como chegar na última sala de uma mansão com determinadas regras, me lembra muito de um outro jogo que eu amo e que é organizado proceduralmente, <em>Dear Esther</em>. É ótimo se sentir perdido nos corredores de <em>Blue Prince</em>.</li>
  <li><em>Metroid Prime 4: Beyond _(Retro Games para Nintendo Switch). Insuportável o discurso ao redor do quarto _Metroid Prime</em>, mas esse é o legado do primeiro jogo da série, uma perfeição que até hoje pouquíssimos jogos conseguiram alcançar. <em>Beyond</em> não chega nos altos do primeiro <em>Prime</em>, mas é um jogo de ação e exploração como poucos — explorar Viewros através dos olhos de Samus é uma das experiências mais bacanas que eu já tive, e o maior motivo hoje para ter um Nintendo Switch 2. É um jogo belíssimo.</li>
  <li><em>To a T</em> (uvula para PlayStation, PC e Xbox). Estranho, no melhor sentido em que um jogo pode ser estranho. <em>To a T</em> é um belíssimo jogo que consegue traduzir para a jogabilidade a sensação de ser estranho em uma situação, de não conseguir fazer do jeito que outras pessoas fazem. Nunca vi um jogo explorar as diferentes capacidades humanas na jogabilidade. Que bom que esse charme de jogo tem um olho apurado pra isso.</li>
</ul>

<h2 id="o-link">O link</h2>

<article class="link-preview h-cite ">
    <a class="u-url" href="https://cybercultural.com/" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-image u-photo" src="https://cybercultural.com/assets/images/33d48ded-f999-4173-8440-9d752446428b_3400x2134.jpg" alt="" role="presentation" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">Cybercultural: Internet History and Its Impact on Our Culture</cite>
            <span class="link-domain p-publication">Cybercultural</span>
          </header>

          <footer class="link-article-info">
              
                <span class="link-author p-author h-card">Richard MacManus</span>
              
              
            </footer>
          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>(Richard MacManus). Virou leitura obrigatória pra mim: de vez em quando, Richard MacManus publica uma cápsula do tempo para a internet que eu cresci. Ele já escreveu sobre <a href="https://cybercultural.com/p/blogs-rss-2002/">como os blogs apareceram e cresceram</a>. <a href="https://cybercultural.com/p/blogosphere-2003/">Como o RSS se formou</a>. <a href="https://cybercultural.com/p/lastfm-audioscrobbler-2002/">Como o Last.FM capturou algo</a> quando as pessoas começaram a compartilhar o que ouviam. Ele chegou em 2003 agora, o mesmo ano em que eu comecei a usar o computador sem supervisão dos meus pais. Ele provavelmente não vai escrever sobre o Exchange do <em>The Sims 2</em>, mas acho que logo mais chegam os fóruns. Um momento na internet que eu presenciei, que eu participei e que eu adorei. Será que ele vai falar do Orkut também? Lembra quando a internet nos fascinava ao invés de nos ressentir? Esse espírito ainda existe, <em>Cybercultural</em> está me ajudando a reencontrá-lo.</p>

<p><strong>E também:</strong></p>

<ul>
  <li><em><a href="https://www.atvbt.com/21-facts-about-throwing-good-parties/">“21 Facts About Throwing Good Parties”</a></em> (Uri, <em>Atom Bits</em>). “Festas são um serviço público” é uma constatação que mudou um pouco a forma como eu vejo o porquê de eu gostar de receber meus amigos, de ver eles socializando, de estar feliz em ser uma boa casa para eles. Além de ser um ótimo ensaio sobre como uma festa presta um serviço à sociedade, traz dicas genuinamente boas para tornar as suas melhores (em resumo: faça as pessoas andarem pelo espaço).</li>
  <li><em><a href="https://le-chouchou.ghost.io/notas-sobre-zumbis/">“Notas sobre zumbis”</a></em> (Aline, <em>Le chouchou</em>). <em>Le chouchou</em> é uma pérola. De vez em quando, Aline escreve sobre o ofício de ensinar uma língua nova. As vezes, ela aponta uma curiosidade sobre como a língua francesa evoluiu com o tempo. Nesse, ela observa a figura dos mortos-vivos, e encontra a comunhão que temos em como enxergamos a mortalidade e a saudade. <em>Le chouchou</em> sempre emociona.</li>
  <li><em><a href="https://www.neverpo.st/ringtones-and-customization-summer-yapfest-2025/">Ringtones and Customization: Summer Yapfest 2025</a></em> (<em>Never Post</em>). Outra cápsula do tempo, esse episodio do <em>Never Post</em>, meu podcast favorito, é sobre como a gente podia personalizar tudo: de capinhas removíveis dos celulares a fundos na página do MySpace. Onde foi essa possibilidade de fazer as nossas coisas serem <em>nossas</em>? Como sempre, <em>Never Post</em> é revelador, divertido e um pouco triste demais. Bem como o fim do ano.</li>
  <li><em><a href="https://www.sherryning.com/p/youre-overspending-because-you-lack-values">“You’re overspending because you lack values”</a></em> (Sherry Ning). Venha para uma análise de como trocamos afeto por consumo. Fique pela resenha belíssima de <em>A Viagem de Chihiro</em>.</li>
</ul>

<h2 id="a-música">A música</h2>

<article class="link-preview h-cite ">
    <a class="u-url" href="https://annavonhausswolff.bandcamp.com/track/facing-atlas" target="_blank" rel="noopener">
      <div class="link-details">
        <img class="link-image u-photo" src="https://f4.bcbits.com/img/a1200576438_5.jpg" alt="" role="presentation" />

        <div class="link-citation">
          <header class="link-header">
            <cite class="link-title p-name">Facing Atlas, by Anna von Hausswolff</cite>
            <span class="link-domain p-publication">Anna von Hausswolff</span>
          </header>

          
        </div>
      </div>
    </a>
  </article>

<p>(Anna von Hausswolff, do álbum <em>ICONOCLASTS</em>). Eu descobri <em>ICONOCLASTS</em> por acaso: lendo alguns comentários no Stereogum, pessoas estavam suplicando para que o autor de um post desse uma ouvida no novo álbum da sueca Anna von Hausswolff. Ainda bem que sou xereta e fui conferir, porque é um álbum transcendental: a música de von Hausswolff é imensa — uma composição de orquestra sinfônica, para traduzir a grandeza e a pequenez de seus pensamentos. A dobradinha <em>“The Beast”</em> e <em>“Facing Atlas”</em>, que abrem o disco, escancaram a metamorfose da grandeza de sensações que parecem que vão nos consumir em sentimentos que precisamos deixar passar.</p>

<p><strong>E também:</strong></p>

<ul>
  <li><em>“Left For Tomorrow”</em> (Perfume Genius, <em>Glory</em>). É estranho como sentimentos e pensamentos podem ficar muito tempo na minha cabeça, sem nunca deixarmos eles respirarem, assumirem um pouco o nosso ponto de vista para que a gente possa sentir e pensar neles. <em>“Left For Tomorrow”</em> é uma música que parece um desses pensamentos: ela não começa e nem termina, é como se a gente só conseguisse apreciar um momento da música do excelente novo álbum do Perfume Genius antes dela voltar para o fundo da mente. Me lembrou de quando eu era pequeno, e eu viajava com meus pais para visitar os parentes e cochilava olhando para a janela, e ia acordando de vez em quando — as vastidões do pampa aparecendo e desaparecendo enquanto eu abria e fechava os olhos. Que música linda.</li>
  <li><em>“Love Theme from the Robe”</em> (Yusef Lateef, <em>Eastern Sounds</em>). Eu comecei a ouvir essa música muito antes de eu encontrar ela. A gente tava subindo uma das muitas escadarias de Valparaíso quando eu comecei a ouvir ela saindo de algum lugar. Conforme a gente seguia na rua, eu encontrei: um pequeno antiquário com um senhorzinho sentado numa cadeira de praia no fundo da loja, com o disco de Lateef tocando no vinil. O chiado era a maior parte da música, mas de alguma forma tudo isso parecia perfeito. Eu coloquei muitas vezes ela pra tocar depois desse dia, só pra lembrar desse momento perfeito que eu vivi.</li>
  <li><em>“Minas Geraes”</em> (Milton Nascimento, <em>Geraes</em>). <em>Geraes</em> provavelmente foi minha trilha-sonora do ano. O épico do interior do Brasil que Milton Nascimento fez no fim dos anos 1970 é genial. Sua música final, <em>“Minas Geraes”</em>, é uma música imensa: ela contém uma vida inteira, de um país inteiro. Ela usa toda a voz de Milton, para cantar todas as canções possíveis. Dá pra sentir o tempo passando ao nosso redor.</li>
  <li><em>“Ruminating”</em> (Lilly Allen, <em>West End Girl</em>). Nenhuma experiência é única mesmo. Eu já ouvi, senti, pensei muitas das coisas que Lilly Allen descreve no seu escandaloso disco novo. <em>“Ruminating”</em>, que transfere todo um fluxo de pensamento para uma música, sem edições, é cru e cruel para a própria protagonista. É quando ela faz graça dos seus próprios sentimentos. Nunca é mais doloroso, nem mais honesto, do que nesse momento.</li>
</ul>

<h2 id="a-série">A série</h2>

<aside class="h-item h-review">
  <div class="review-widget">
    <div class="review-details">
      <div class="item-details">
        <h2 class="review-title item-name p-name p-item">Ruptura</h2>

        <div class="item-meta">
          

          <span class="item-summary e-description">Segunda temporada, Apple TV</span>

          
        </div>
      </div>
    </div>

    <img class="review-poster u-photo" src="/uploads/2025/12/ruptura.jpg" alt="" />
  </div>
</aside>

<p>Foi um ano sensacional para a TV, daqueles que é difícil de escolher quais cinco séries eu vou escolher pra colocar na lista de fim de ano, e <em>qual das cinco</em> eu vou destacar. Eu bambeei durante o ano, porque teve muita coisa boa, mas ninguém tirou o reinado de <em>Ruptura</em>, que veio lá no início de 2025 e assombrou todo o meu ano.</p>

<p>Três anos depois da primeira temporada, eu tava curioso pra ver se <em>Ruptura</em> ia conseguir ser a série estranha mas apaixonante que foi em sua segunda temporada. Segundas temporadas são, eu acho, as mais difíceis de acertar: você precisa entender o que as pessoas gostaram na estréia, mas também precisa “explodir” a série para permitir que ela cresça para além da premissa original. E “explodir” é exatamente o que <em>Ruptura</em> faz em sua segunda temporada, e eu não tenho ideia de como a série vai seguir em frente quando voltar para seu (já confirmado) terceiro ano. O que importa aqui é que <em>Ruptura</em> conseguiu: pegando exatamente do gancho de onde paramos, a série se contorceu e se transformou em uma visão ainda mais madura e assombrosa da relação do ser humano com o trabalho — e encontrou, ali no meio, uma história de amor assombrosa de tão trágica. Nenhuma outra série esse ano foi tão bonita, tão audaciosa, e tão emocionante. Mas não foi por falta de tentativa.</p>

<p><strong>E também:</strong></p>

<ul>
  <li><em>Hal &amp; Harper</em> (minissérie, MUBI). Queria que não fosse uma minissérie, mas é uma pérola — Cooper Raiff cria uma das poucas históricas que conseguem enxergar como é difícil ser filho, de navegar pelas frustrações e expectativas de seus pais, mesmo quando crescemos.</li>
  <li><em>Andor</em> (2ª temporada, Disney+). Eu duvidava que iam conseguir, mas o segundo ano de <em>Andor</em> superou a já incrível primeira temporada, e é a melhor história do universo <em>Star Wars</em>, a ponto de ter estragado todo o resto um pouquinho. A gente se contentava com pouco. <em>Andor</em> entregou uma das visões mais didáticas sobre como o fascismo vence, e o custo que é revolucionar.</li>
  <li><em>Pluribus</em> (1ª temporada, Apple TV). Eu acho que todo mundo já viu <em>Pluribus</em>, mas se você não viu, eu não quero estragar a maior surpresa que você vai ter nesse ano. Eu não te duvido que ela seja a melhor série do ano na segunda temporada — é muito bem escrita, dirigida, montada e, principalmente, atuada. O tipo de série que a gente quer ir pro escritório conversar sobre com os colegas no dia seguinte. Nem parece feita no nosso tempo.</li>
  <li><em>The Pitt</em> (1ª temporada, HBO Max). Outra série que parece vinda de outro tempo: uma mistura de <em>24 Horas</em> com <em>Plantão Médico</em>. Eu não sabia que eu queria algo assim, mas fiquei tão feliz que <em>The Pitt</em> entrega. Tem a crueza, a intensidade e a emoção do clássico drama médico; mas é nova, empolgante e audaciosa com sua estrutura narrativa. Louco pra ver a segunda temporada que estreia no início de 2026.</li>
</ul>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="listas" /><category term="filmes" /><category term="músicas" /><category term="séries" /><category term="jogos" /><category term="links" /><summary type="html"><![CDATA[Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 elas foram publicadas no Pão com Mortadela a do ano passado no meu blog pessoal. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no Irrelefante.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://irrelefante.com.br/uploads/2025/12/2025.jpg" /><media:content medium="image" url="https://irrelefante.com.br/uploads/2025/12/2025.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">Balu</title><published>2025-11-18T19:22:00-03:00</published><updated>2025-11-18T19:22:00-03:00</updated><id>https://irrelefante.com.br/textos/2025/11/18/balu</id><content type="html" xml:base="https://irrelefante.com.br/textos/2025/11/18/balu/"><![CDATA[<p><img src="/uploads/2025/11/balu1.jpg" alt="O Balu no gramado do quintal dos meus pais em 2010." /> <em>2010.</em></p>

<p>Uma parte de mim tava genuinamente curioso pra saber como a notícia ia chegar. Eu estaria lá pra presenciar — como estive com a <a href="/textos/2024/07/03/delinha/">Delinha</a>, a Duquesa, e a <a href="/textos/2025/08/27/vivi-cinco-anos-com-seis-anos-sem/">Vivi</a> —, ou eu saberia por telefone, como foi com o <a href="/textos/2025/01/13/i%C3%B3/">Ió</a>? Quem me daria a notícia, meus pais ou o veterinário? Seria num dia de sol, ou num dia de chuva? Seria triste e violento, ou silencioso e em paz?</p>

<p>No fim, foi por telefone. Eu recebi a notícia duas vezes. Na primeira, foi minha irmã, me avisando que uma notícia triste estava para chegar. Um tempo depois, meu pai me ligou. Lá no fundo, eu já sabia. Mas a delicadeza do meu pai com a notícia me fez chorar. O Balu morreu hoje de manhã, deitadinho na caminha dele, depois de meu pai colocar ele ali para buscar uma encomenda — os soros que eu havia comprado pra ajudar na alimentação, que estava cada vez mais difícil. Quando meu pai voltou, o Balu estava na mesma posição, sem ter se aninhado como ele costumava se aninhar, com as patas embaixo do corpo. Ele tinha quase vinte anos.</p>

<p>Eu me perguntava como a notícia ia vir porque, nos últimos anos, o Balu nos deu vários sustos. Em 2019, ele perdeu todos os dentes. Alguns anos depois, ele iria desenvolver uma alergia à proteína e perderia todo o pelo do corpo, e sua pele ia ficar quase em carne viva. Ano passado, ele desenvolveria uma síndrome vestibular. Eu me preparava emocionalmente para me despedir do Balu em todas essas situações. Mas, algumas semanas depois de cada um desses problemas aparecerem, ele reagia. Se acostumou a comer papinhas, e depois voltou a comer sólidos; a pele melhorou, e seu pelo voltou a crescer, mais bonitinho do que nunca; em questão de dois dias tomando a medicação, ele voltou a ficar em pé e, depois, a caminhar.</p>

<p>Nesse último ano, embora ele tenha perdido a visão, sua rotina era basicamente a mesma — sentia muito sono, dormia bastante, comia bastante, pedia pra fazer xixi, e dormia mais um pouco. Ela só acontecia mais devagar, e mais silenciosa. O Balu ficou cego e, com o tempo, foi parando de latir também. Ele só nos reconhecia pelos nossos sons e pelo nosso tato. Até o final, ele se aninhou em mim do mesmo jeito que ele fez desde filhote, embrulhadinho no meu braço, com a cabeça apoiada.</p>

<p>Não sei mais o que escrever sobre o Balu. Eu escrevi e apaguei vários parágrafos já, mas a verdade é que escrever sobre a vida do Balu seria basicamente escrever sobre a minha — sobre o fim da minha infância, toda a minha adolescência, e o início da minha vida adulta. Balu foi uma constante na minha vida por muito tempo, e eu ainda não sei o que sua partida vai tirar de mim, e o que sua ausência vai trazer. Uma parte de mim está curioso pra saber. A maior parte, porém, tá com medo.</p>

<p>Domingo, quando vi Balu pela última vez, eu tive um daqueles momentos de paz que as vezes nos acomete. Eu sentei na mesa e olhei para o cantinho em que ele ficava em casa, perto da porta de entrada. Mesmo cego, ele estava deitado com a cabeça virada para a rua, o sol da tarde no rosto. Ele respirava fraquinho, mas foi um momento em que meu cérebro só quis aproveitar o presente, sem nenhuma outra preocupação ao meu redor. Por aqueles instantes em que eu vi o Balu sendo banhado pelo sol, olhando para algo, talvez para o nada, eu só pensei nele. Na vida imensa que ele teve — os lugares que ele conheceu, as pessoas que cruzaram por ele, tudo o que mudou ao redor dele —, mas também naquele momentinho em que ele aproveitava o sol, encolhido na sua almofada. Tudo o que eu mais amei nele continuava ali: a personalidade forte que o fez viver a vida do jeito que ele queria, não importa o que nós tentássemos fazer; a força de ter vivido quase duas décadas com os mais diversos obstáculos; e a doçura com que ele se aninhava no meu braço, ou que se aprumava no sol.</p>

<p>Balu domou o próprio tempo. Até o final, esse cachorrinho nunca deixou de me impressionar.</p>

<p><img src="/uploads/2025/11/balu2.jpg" alt="O Balu na minha casa em 2024." /> <em>2024.</em></p>]]></content><author><name>Arthur Freitas</name><email>arthur@arthr.me</email><uri>https://arthr.me</uri></author><category term="textos" /><category term="cachorros" /><category term="Balu" /><category term="morte" /><category term="memórias" /><summary type="html"><![CDATA[2010.]]></summary></entry></feed>