Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de Gilmore Girls, “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou.

Esse episódio é o que tudo dá errado: Lorelai percebe que ela e a Sookie não tem mais dinheiro para continuar a obra no novo hotel, o Dragonfly, e Sookie não consegue ter o mesmo compromisso que Lorelai com o negócio que elas querem começar porque ela acabou de ter o filho; já Rory tem que se despedir de Lane, sua amiga de infância que estava dormindo com ela em Yale, ao mesmo tempo que fica no meio da briga entre duas colegas de quarto e é convidada a diminuir sua carga de aulas na faculdade por estar com notas baixas. Para fechar com chave de ouro, as duas não conseguem se falar — elas trocam mensagens de voz (os áudios de WhatsApp da década de 2000) porque nunca conseguem atender os telefonemas uma da outra.

A quarta temporada de Gilmore Girls talvez seja a melhor das sete. A essa altura, ela já está no terceiro ano irretocável que Amy Sherman-Palladino construiu. Depois de três anos numa mesma fórmula, com Rory no seu ensino médio sendo apresentada ao mundo dos ricos de seus avós, e Lorelai vivendo no idílio excêntrico da cidade que a abraçou quando ela fugiu da vida que Rory está conhecendo. No quarto ano, Lorelai e Rory não convivem mais com tanta frequência e estão conhecendo quem são fora do lar que construíram juntas. Lorelai, por exemplo, escolhe visitar os pais por conta própria, algo impensável duas temporadas atrás; e Rory e Paris agora são amigas, um dos grandes relacionamentos marinados em fogo baixo que Gilmore Girls cria.

Tudo isso explode no episódio 14, que serve como a culminação de várias pequenas tramas que são pinceladas aqui e ali nos episódios anteriores. Lorelai e Rory finalmente desincronizaram suas rotinas totalmente, a ponto de não saberem sobre o dia-a-dia uma da outra. Rory não consegue ser quem ela esperava ser na faculdade, com mais e mais cenas dela percorrendo os corredores de Yale perdida em horários e em compromissos irrelevantes, como seu estágio na cafeteria; e Lorelai não sabe se vai conseguir realizar seu sonho, algo sugerido pela ausência de cenas dela comendo comida do Al’s Pancake World e pela casa usando luzes mais escuras. E tem mais: a série também consegue avançar o desenvolvimento de personagem de Luke, que no episódio anterior levou uma surra do sobrinho, e Lane tem seu primeiro reencontro com a mãe depois de sair de casa (é um dos arcos mais magníficos da série, que culmina no episódio seguinte); já Emily começa a entrar em conflito com Richard ao perceber que ele está cada vez mais distante e desatento (e dá oportunidade para Kelly Bishop e Edward Herrmann serem maravilhosos).

Gilmore Girls é uma das melhores séries que eu já vi em como desdobra o drama a partir de pequenas comédias do dia-a-dia. Embora faça piada com como Paris reage à Lane saber de seu caso com o professor, ou da dinâmica das colegas de quarto de Rory, tudo isso serve para isolá-la mais na frustração de que seus planos pra faculdade parecem não estar dando certo e sua melhor amiga sendo expulsa do quarto. Com Lorelai, é o cabelo cheio de creme e embaraçado, que vira comentário afiado da Emily, mas que só vai ficando mais e mais estranho conforme as coisas vão dando errada com seu dia, até que ela desaba nos braços de Luke que, também, está passando por uma barra.

Tudo isso vai se desdobrar nos episódios seguintes, mas é aqui que todas essas personagens começam a colapsar. Quando o episódio acaba, Rory e Lorelai finalmente conseguem atender o telefonema uma da outra, mas nesse ponto elas já choraram e estão exaustas e já não querem mais falar sobre os problemas pelos quais elas estão passando. Gilmore Girls é tão delicada na forma como essas duas personagens vão se afastando aos poucos enquanto embarcam vidas distintas, e esse é o primeiro passo de seu afastamento. Não com uma briga, como a série vai fazer com a reaproximação entre Rory e Dean que inicia aqui, mas com o silêncio no telefone no outro lado da linha, certas de que a outra não vai entender o que está acontecendo. É de partir o coração, e é exatamente a sensibilidade que faz Gilmore Girls ser uma das minhas séries favoritas.