Posts sobre impressões

Emily Wilson sobre A Odisseia de Christopher Nolan

A tradutora Emily Wilson escreveu sobre a adaptação de Christopher Nolan para A Odisseia, e é uma das melhores críticas de cinema que eu já vi. Wilson avalia tanto a temática e a interpretação que Nolan usa, quanto a erótica do filme — aquilo que o filme a fez sentir.

Wilson no London Review of Books:

Nolan’s Odyssey lacks many of the elements that make the poem great. It has nothing convincing to say about time, memory, history, war, or about the relationship between one warrior’s glorious return and the lives of his family, adversaries, comrades, friends and neighbours. It lacks psychological, emotional, political and ethical depth. Its narrative structure is gimmicky. The writing is abysmal. None of the characters has convincing motivation for their actions or words. There are no sex scenes, and all the food looks horrible.

The most troubling ethical problem with Nolan’s Odyssey concerns the decision to film part of the movie in the occupied territory of Western Sahara, thus normalising the ongoing violence against the indigenous Sahrawi people. It is particularly galling that Nolan used this land simply as a visually striking backdrop for a film that centres, aggrandises and redeems the hero of a territorial war on account of his belated and partial acknowledgment of his own guilt.

Meu (novo) episódio favorito de Gilmore Girls

Lorelai cobre o rosto enquanto chora e se apoia no ombro de Luke, que a abraça

Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de Gilmore Girls, “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou.

Esse episódio é o que tudo dá errado: Lorelai percebe que ela e a Sookie não tem mais dinheiro para continuar a obra no novo hotel, o Dragonfly, e Sookie não consegue ter o mesmo compromisso que Lorelai com o negócio que elas querem começar porque ela acabou de ter o filho; já Rory tem que se despedir de Lane, sua amiga de infância que estava dormindo com ela em Yale, ao mesmo tempo que fica no meio da briga entre duas colegas de quarto e é convidada a diminuir sua carga de aulas na faculdade por estar com notas baixas. Para fechar com chave de ouro, as duas não conseguem se falar — elas trocam mensagens de voz (os áudios de WhatsApp da década de 2000) porque nunca conseguem atender os telefonemas uma da outra.

A quarta temporada de Gilmore Girls talvez seja a melhor das sete. A essa altura, ela já está no terceiro ano irretocável que Amy Sherman-Palladino construiu. Depois de três anos numa mesma fórmula, com Rory no seu ensino médio sendo apresentada ao mundo dos ricos de seus avós, e Lorelai vivendo no idílio excêntrico da cidade que a abraçou quando ela fugiu da vida que Rory está conhecendo. No quarto ano, Lorelai e Rory não convivem mais com tanta frequência e estão conhecendo quem são fora do lar que construíram juntas. Lorelai, por exemplo, escolhe visitar os pais por conta própria, algo impensável duas temporadas atrás; e Rory e Paris agora são amigas, um dos grandes relacionamentos marinados em fogo baixo que Gilmore Girls cria.

Tudo isso explode no episódio 14, que serve como a culminação de várias pequenas tramas que são pinceladas aqui e ali nos episódios anteriores. Lorelai e Rory finalmente desincronizaram suas rotinas totalmente, a ponto de não saberem sobre o dia-a-dia uma da outra. Rory não consegue ser quem ela esperava ser na faculdade, com mais e mais cenas dela percorrendo os corredores de Yale perdida em horários e em compromissos irrelevantes, como seu estágio na cafeteria; e Lorelai não sabe se vai conseguir realizar seu sonho, algo sugerido pela ausência de cenas dela comendo comida do Al’s Pancake World e pela casa usando luzes mais escuras. E tem mais: a série também consegue avançar o desenvolvimento de personagem de Luke, que no episódio anterior levou uma surra do sobrinho, e Lane tem seu primeiro reencontro com a mãe depois de sair de casa (é um dos arcos mais magníficos da série, que culmina no episódio seguinte); já Emily começa a entrar em conflito com Richard ao perceber que ele está cada vez mais distante e desatento (e dá oportunidade para Kelly Bishop e Edward Herrmann serem maravilhosos).

Gilmore Girls é uma das melhores séries que eu já vi em como desdobra o drama a partir de pequenas comédias do dia-a-dia. Embora faça piada com como Paris reage à Lane saber de seu caso com o professor, ou da dinâmica das colegas de quarto de Rory, tudo isso serve para isolá-la mais na frustração de que seus planos pra faculdade parecem não estar dando certo e sua melhor amiga sendo expulsa do quarto. Com Lorelai, é o cabelo cheio de creme e embaraçado, que vira comentário afiado da Emily, mas que só vai ficando mais e mais estranho conforme as coisas vão dando errada com seu dia, até que ela desaba nos braços de Luke que, também, está passando por uma barra.

Tudo isso vai se desdobrar nos episódios seguintes, mas é aqui que todas essas personagens começam a colapsar. Quando o episódio acaba, Rory e Lorelai finalmente conseguem atender o telefonema uma da outra, mas nesse ponto elas já choraram e estão exaustas e já não querem mais falar sobre os problemas pelos quais elas estão passando. Gilmore Girls é tão delicada na forma como essas duas personagens vão se afastando aos poucos enquanto embarcam vidas distintas, e esse é o primeiro passo de seu afastamento. Não com uma briga, como a série vai fazer com a reaproximação entre Rory e Dean que inicia aqui, mas com o silêncio no telefone no outro lado da linha, certas de que a outra não vai entender o que está acontecendo. É de partir o coração, e é exatamente a sensibilidade que faz Gilmore Girls ser uma das minhas séries favoritas.

Hal & Harper

Tem muita arte no mundo sobre como é difícil ser mãe e pai. Eu imagino que seja, mas são poucas as obras que mostram como é difícil ser um filho. Navegar pelas ambições, as expectativas e as frustrações dos adultos que te criam, enquanto você mesmo navega na experiência que é crescer.

Tive essa impressão enquanto assistia Hal & Harper, a minissérie do Cooper Raiff na MUBI, em que dois irmãos precisaram crescer rápido demais para aprender a lidar com o próprio pai.

Minha dieta cultural nas últimas semanas

Faz um tempo que eu não posto um desses resumões, não é mesmo? Eu mudei de emprego nesse último mês e, como eu não estou acostumado a fazer isso, esse tipo de mudança acaba demandando bastante de mim. Tá melhor agora! A mudança de emprego me fez mudar minha rotina, o que acabou me fazendo muito bem — algo que eu não pensei que poderia melhorar. Uma boa surpresa!

Também tem feito dias lindos por aqui, o que me faz escrever mais em outros lugares, geralmente que eu não publico. Eu escrevi um bocado de ficção nessas últimas semanas, coisa que eu não fazia há uns anos já. Eu também escrevi bastante no meu diário. Isso tem me feito muito bem.

Enfim, eu também não escrevi sobre minha dieta cultural porque, desse último mês, duas semanas inteiras foram dedicadas ao festival de filmes do estúdio Ghibli, que eu postei por aqui quase todos os dias. Foi ótimo, então não vou falar sobre isso. Vou falar sobre as outras coisas que fizeram parte da minha dieta cultural.

Jogos: Hades II, Super Mario Galaxy 1+2

Eu joguei um pouco de Hades II. O primeiro jogo nunca me prendeu muito (não é culpa do jogo, eu que não entro muito na zona mental de rogue-likes), e a mesma coisa aconteceu aqui. O que eu curto muito é a história, o desenvolvimento dos personagens conforme as tentativas-e-erros dos protagonistas vão continuando. Tô achando bem divertido assistir pessoas jogando por causa disso.

Eu joguei um bocado de outros jogos: Europa, Hidden Folks (amo), Alba: A Wildlife Adventure (um charme). Eu também rejoguei meu jogo favorito do ano passado, Monument Valley III. Tudo no Switch.

Meu maior tempo, porém, foi jogando os dois Super Mario Galaxy relançados pro Switch. Demorei um tempo pra me adaptar ao giroscópio dos Joy-Con ao invés da precisão da pontaria do Wii Remote, mas assim que eu peguei o jeito o jogo se abriu de novo. São duas obras-primas — eu terminei hoje de manhã o primeiro —, mas eu sempre vou ter um cantinho especial no coração pro segundo, que eu recém tô começando. Quando eu joguei pela primeira vez, em um verão no ensino médio, cada um dos níveis abria minha mente de um jeito novo. Nenhum outro jogo me inspirou tanto em termos de escrita. Tudo é possível se você der espaço suficiente pro jogador experimentar por ele mesmo. Com os relançamentos no Switch, eu finalmente posso aposentar meu Wii, que ficava ligado só pro caso de eu querer jogar Galaxy 2 de vez em quando. Foram 16 anos bem vividos.

Séries: Task, Hal & Harper

Duas séries com o Mark Ruffalo (🔥): Task na HBO Max e Hal & Harper, no MUBI. Ele tá bom nas duas, mas Hal & Harper, que tá no segundo episódio, talvez seja uma das minhas séries favoritas no ano, e muito por causa da atuação de Ruffalo. Como um pai corroído pela culpa, ele é uma parte do trio de protagonistas. Seus dois filhos, os personagens título, são jovens que cresceram rápido demais. Lili Reinhart, que interpreta a irmã mais velha, Harper, é o centro da série — e ela entrega. A jogada de Cooper Raiff de fazer as memórias de infância serem interpretadas pelos próprios atores na idade adulta parece meio bobo no início, mas ali pelo segundo episódio a série me puxou o tapete de um jeito… eu fiquei chorando por uma boa hora depois que ele acabou. Raiff é um excelente dialoguista.

Task é muito boa, e também é uma série sobre paternidade. Ela não é carnuda como Mare of Easttown, a série anterior do showrunner, que se focava tanto no lugar que você poderia se perder nos becos sem saída do cenário junto com a Mare, mas Task é tão boa tanto, e tem uma das sequências de ação mais fantásticas que eu vi esse ano

Livro: Frankenstein

Eu tô relendo pela terceira vez o Frankenstein de Mary Shelley. Não tenho muito o que dizer sobre esse livro além do fato de ele ser uma obra-prima, e provavelmente o melhor livro que eu já li na minha vida. Ele assombra toda a literatura de ficção científica depois dele, todos os filmes de monstros, e praticamente qualquer videogame. É realmente genial.

Música: West End Girl

Conversando com minha amiga sobre, eu disse que West End Girl parece com “Regret”, a música da Fiona Apple, mas explodida em um disco inteiro. Lilly Allen faz da traição uma montanha russa — com toda a raiva, vergonha, tristeza e redenção que ela vai trazer. Como Fetch the Bolt Cutters, que nos faz cantarolar uma música pesada como “Ladies”, West End Girl cria música-chiclete (o melhor estilo de música-chiclete!) de versos sobre descobrir que o marido tem um “pussy palace”, ou de sentir vergonha da raiva que ela está sentindo da outra. É tão divertido quanto genial.

Ghibli Fest: Dia 10

Eu atrasei total esse post, e peço desculpas. Os últimos dias no trabalho — meus últimos dias na empresa que eu trabalhei pelos últimos anos — foram intensos.

Essa primeira etapa do Ghibli Fest acabou com dois filmes charmosos. Sussurros do Coração, que passou na terça-feira, é uma pérola. Um romance que tem um cenário tão marcante que eu nem sabia que ficava na memória com tanta intensidade: a loja de antiguidades que a protagonista Shizuku conhece depois de seguir um gato. Eu amo uma história de amor impossível, e a história de amor que Sussurros do Coração revela (não a dos protagonistas, mas a que existe nessa loja de antiguidades) é bem do tipinho que eu gosto. Toda a trama da frustração que é escrever também é muito a minha zona — e de uma especificidade deliciosa. O jeito como Shizuku parece aliviada a finalmente tirar essa história de dentro de si é linda.

Ponyo “anda” por cima dos espíritos do mar

Já Ponyo, que parece ser o menor filme do Miyazaki em escopo, também é uma pérola. Também é uma história de amor, bem A Pequena Sereia das ideias, mas é contada com tanto vigor e com tanta sinceridade que desarma qualquer um. Fora que a água é o cenário pra Miyazaki — a fluidez do movimento de seus filmes parece ainda maior quando tem líquidos envolvidos. É um bom filme pra acabar essa primeira parte da mostra, pensando em retrospecto. Não é A Viagem de Chihiro ou Totoro, mas deixa um gostinho de quero mais na boca, e uma satisfação no final da sessão. Bem aquilo que a gente quer.

Ghibli Fest: Dia 9

Desculpem a ausência ontem pra falar de Vidas ao Vento e Nausicaä do Vale do Vento. Eu acabei aproveitando pra assistir Uma Batalha Após A Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson (logo mais escrevo um pouquinho sobre o que é, provavelmente, o melhor filme que eu assisti esse ano).

Também tem um motivo de curadoria. Eu acho que A Viagem de Chihiro devia ser o último filme da primeira parte do Ghibli Fest. É um filme tão perfeito, tão definitivo, que não dá pra evitar uma certa decepção com o que vem a seguir, mesmo que os filmes que se seguiram na mostra sejam ótimos filmes.

Vidas ao Vento foi, por um pouco mais de uma década, o último filme de Hayao Miyazaki: uma carta de amor ao seu pai e ao conflito ético de ser um criador cujas criações destruiram vidas. O filme é muito lindo, como é de se esperar, mas é claramente um filme menor. As estruturas dos filmes de Miyazaki são movidas muito mais por sentimentos e um crescimento interno de seus personagens. A narrativa progride com uma lógica interna que, se você contar, parece que tá falando bobagem — ela só funciona nos filmes em si. Nesse caso, Vidas ao Vento é um filme menos inventivo, porque o caráter bibliográfico da história nunca bate bem com o fluxo narrativo que Miyazaki entrega, e um acaba interrompendo o outro. O Menino e a Garça parece muito mais um resumo da obra de um mestre que Vidas ao Vento. Não deixa de ser lindo e emocionante. Mas é aquele baque, depois de assistir uma obra-prima. Eu devia ter esperado mais um dia.

Nausicaä no meio de uma floresta de fungos gigantes

Nausicaä do Vale do Vento não tem o obstáculo estrutural que me incomoda em Vidas ao Vento, e não tem culpa também de existir Princesa Mononoke, uma versão muito mais impecável desse filme. Nausicaä foi feito um pouco antes do Studio Ghibli existir de fato, mas as preocupações que Miyazaki explora em sua carreira estão aqui: a ação regida pelo desenvolvimento emocional de sua protagonista mais do que progressão da história, o conflito entre o homem e a natureza, a conexão espiritual com o mundo e os seus mistérios. A animação já é surpreendente — desde cedo Miyazaki tem uma mão fantástica para criar esses mundos repletos de incertezas e caos, e cheios de beco sem saída que eu adoraria me perder. Não é tão impactante quanto Princesa Mononoke nem O Menino e a Garça, seus descententes mais semelhantes na filmografia do diretor, mas é ótimo mesmo assim.

Ghibli Fest: Dia 8

O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro não fazem sentido. Suas lógicas internas são incertas. As regras de seus mundos são inconstantes. O que uma pessoa vê na outra é um mistério. Nada faz muito sentido. Ainda bem.

O Castelo animado entre as montanhas

Em O Castelo Animado, uma chapeleira solitária é amaldiçoada e assume a forma de uma senhora de noventa anos. Ela foge para as Terras Devastadas, uma região longe da sua cidade, em um país que está em guerra com outro. Lá ela conhece Howl, e seu Castelo Animado. Ela forma uma família dentro daquele castelo, descobre a verdadeira natureza de seus sentimentos. Se apaixona, cruza dimensões, revela a verdadeira forma de um demônio e de um espantalho. Ela acaba se apaixonando por Howl, e ele acaba se apaixonando por ela também.

Não é o que acontece em O Castelo Animado que importa — mas como acontece. Sophie descobre que seus sentimentos importam, e que deve confiar neles. É uma lição simples, mas que reverbera a ponto de influenciar uma guerra inteira, a guiar um grupo de pessoas a formarem uma família. É um filme gigante — ele se extende em horizontes distantes, múltiplas cidades e linhas do tempo que se chocam. No centro de tudo isso, porém, está Sophie, que aprende a lidar com cada um dos sentimentos que ela aprendeu a reprimir — sua curiosidade, sua determinação, sua paixão. Todo esse mundo vasto e incerto vai ficando mais lindo conforme ela mesma vai se reconectando com seus sentimentos. Faz sentido porque o que Sophie sente faz sentido.

Chihiro olha um bonde passando no meio do mar durante a noite

Já A Viagem de Chihiro é uma obra-prima. E não faz sentido nenhum também: Chihiro e seus pais estão se mudando para uma nova cidade. Eles acabam cruzando o limiar e entrando no mundo dos kami. Os pais de Chihiro se comportam mal, e viram porcos. Para salvá-los, Chihiro precisa trabalhar para a bruxa Yubaba em sua casa de banhos.

As regras do lugar são incertas desde o início, e sempre que você acha que pegou o jeito, elas mudam. Mas Chihiro também muda. No início do filme, Chihiro mal sabe tudo o que está sentindo — ela está irritada de deixar os amigos pra trás, e o medo toma conta dela de tal maneira que ela mal consegue descer os degraus da escada que levará ela até o Kamaji. Quando ela toma a iniciativa de ajudar uma das fuligens a terminar seu trabalho, ela é movida pelos mesmos sentimentos grandiosos que ela sentia antes — compaixão, curiosidade, um pouco de medo. Mas ela age sobre eles, e então ganha a confiança do Kamaji. Ao usar seus sentimentos para guiar sua jornada, Chihiro vê seus colegas na casa de banho respeitando-a cada vez mais. Chihiro tem uma missão — duas, quando o filme acaba —, e sua determinação muda tudo dentro dela.

Muito de A Viagem de Chihiro é incompreensível. Por que as pernas de Chihiro param de funcionar? Por que o bebê de Yubaba é gigante? O que faz o selo de Zeniba? O filme passa por essas perguntas muito porque segue a lógica de um conto de fadas, que geralmente deixa mais dúvidas do que respostas em seu caminho; mas também passa por elas porque A Viagem de Chihiro tem confiança total em sua protagonista. Ela segue em frente em meio à essa incerteza toda. Não por falta de interesse, mas porque ela tem uma missão a cumprir. A menina que mal caminhava sem estar sendo carregada pelos pais anda descança pelos trilhos submersos no mar para pedir à uma bruxa a alma de seu amado de volta.

Todo A Viagem de Chihiro é perfeito, mas eu não consegui segurar a emoção quando Chihiro, Boo, o passarinho e o Sem Rosto pegam o trem e cruzam esse mundo de melancolia e solidão. As notas do piano na trilha de Joe Hisaishi parecem o vento noturno nas janelas do trem. Não tem sequência mais linda no cinema. Muito do que acontece ali é misterioso também. Tem a sombra de uma garota sozinha em uma estação de trem. Quem ela está esperando?

Nada disso faz sentido em A Viagem de Chihiro, mas tudo o que Chihiro sente faz. Desespero, medo, fascinação, confusão. E os filmes de Miyazaki são guiados pelos sentimentos de seus protagonistas, muito mais do que lógicas narrativas e arcos dramáticos. Seus vilões são temporários, as estruturas são impermanentes, e muitas vezes já viraram ruínas. Reinos e guerras mudam e acabam. Seus personagens tem apenas seus sentimentos como guia, e como companhia nesse mundo. São seus sentimentos que eles aprendem a entender e confiar. Não há um sentimento ruim — nem o medo, nem o desespero, são fúteis. Como as colinas gramadas gigantescas, os horizontes distantes, a mitologia incerta, os voos triunfais e a trilha de Joe Hisaishi, essa é uma das constantes do cinema de Hayao Miyazaki. E é o vento norte de sua obra-prima. Absurdamente mágico.

Ghibli Fest: Dia 7

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins é um absurdo. Quando eu vi esse filme pela primeira vez eu fiquei impressionado sobre quanto esse filme vai fundo na ideia, sem vergonha de parecer ridículo. É um épico de guerra que consegue, ao mesmo tempo, modular entre a devastação de um conflito e achar graça no comportamento preguiçoso dos seus personagens e seus sacos gigantes.

No meio de PomPoko tem o épico de guerra, a comédia de costumes, o filme de espião e o drama da imigração e assimilação. Sem mentira. E tem Takahata modulando estilos, criando três “camadas” visuais para cada estágio de transformação de um guaxinim. Desde o mais lúdico e fantástico ao mais realista (e triste).

Guaxinins observam casas durante a noite

É a segunda vez que eu assisto PomPoko no cinema. Ano passado a cinemateca exibiu esse filme, e eu fiquei impressionado com a beleza dos cenários no bosque em que os guaxinins, e como Takahata cria um baque quando esse cenário vaificando mais e mais concretado, quando as ruas começam a passar. Takahata trabalha com a mesma melancolia de Memórias de Ontem aqui — com personagens assimilando a transformação que eles vão precisar assumir para continuar existindo, ou o fim trágico que eles vão ter ao se negarem. Ele modula tão bem os aspectos lúdicos e trágicos desse filme que o finalzinho, quando vemos a família na cidade, eu não consigo evitar e choro toda a vez. É um filme triste, mesmo sendo engraçado, já PomPoko mostra logo cedo que essa guerra foi vencida antes mesmo de começar. É o que a derrota parece pros guaxinins que eu acho ainda mais desolador. Ainda bem que tem aquele epílogo, um suspiro no meio da tristeza.

Ghibli Fest: Dia 6

Revendo os filmes do Studio Ghibli assim, um atrás do outro, a gente querendo ou não fica fazendo paralelos e suposições. Por exemplo, os dois filmes menos excelentes até aqui — Eu Posso Ouvir o Oceano e Da Colina Korukiko — parecem querer muito beber da fonte de Memórias de Ontem, uma das pérolas do cinema de Isao Takahata.

Embora Miyazaki seja o mais conhecido dos mestres do Studio Ghibli, Takahata não fica atrás em termos de qualidade. Dos seus cinco filmes pro estúdio, eu acredito que no mínimo três são obras-primas tremendas. Seu primeiro filme, O Túmulo dos Vagalumes, é um dos manifestos mais tristes e lindos contra os horrores da guerra que eu já vi. Seu último filme, O Conto da Princesa Kaguyia, é uma obra de arte, uma viagem sensorial pelo infinito e pelos mistérios da nossa existência, pelos limites do que a gente consegue imaginar que existe no mundo. Amanhã tem sua outra obra prima, PomPoko. (Eu considero Meus Vizinhos, os Yamada outra obra-prima, mas sei que é uma opinião impopular).

Uma plantação de flores em meio às montanhas, com pessoas coletando elas

Embora seja um filme “menor” do diretor, Memórias de Ontem é um colosso de filme. Em uma viagem de verão, uma mulher vai ao campo ajudar em uma fazenda, o que a faz lembrar de sua infância. Ao invés de fazer as memórias serem puxadas por eventos relacionados no presente, Memórias de Ontem parece muito mais interessado em capturar aquele sentimento que a gente tem de quando uma memória rouba a nossa atenção e nossos sentidos. É lindo como Taeko que lembra da vez que provou um abacaxi, e Takahata faz questão de mostrar como a mãe corta a fruta para a filha, como um daqueles detalhes que a gente guarda na memória e que, parece, não fazem sentido.

É como esse apanhado de momentos “aleatórios” da infância de Taeko são usados pelo filme para nos informar quem é essa mulher, o que a frustra e o que ela sente falta, que torna Memórias de Ontem brilhante. Embora seja um filme acessível, como todos os do estúdio são, é um filme sem grandes sequências de aventura ou fantasia. Nem mesmo o ritmo é constante: assim como na vida, tem dias que Taeko está mais no passado do que no presente, enquanto tem dias que o presente chama mais a atenção. Em termos de animação, Takahata está no seu lado mais pé no chão aqui, como em Túmulo dos Vagalumes, mas ele aproveita a estrutura de memórias do filme para contornar esse passado em névoas, com espaços vazios que se desfazem nas bordas da tela — esse é um mundo que existe nos limites das sensações de Taeko, mais do que tudo.

Ghibli Fest: Dia 5

Ontem foi aniversário do meu pai, então não consegui passar no meu computador e escrever sobre o filme de ontem do festival, Da Colina Kokuriko, de Gorō Miyazaki. Também não vou dizer que fiz muita questão, já que o filme não é lá essas coisas. Ele é bonito, mas a melancolia que ele evoca é muito básica, nem parece ser do mesmo estúdio em que o eco do vento pode ser sentido no farfalhar da floresta do Meu Amigo Totoro. Sua narração torna a melancolia em texto, ao invés do subtexto com a qual os melhores filmes do estúdio parecem trabalhar. Te dizer que eu tentei ver esse filme duas vezes, e nas duas vezes eu cochilei. Nem no cinema eu me aguentei.

A família Yamada assistindo TV, com o pai do lado de fora de casa com cara de brabo

Já Meus Vizinhos, os Yamada é genial. Eu amo o trabalho do Takahata, e sua liberdade em usar traços e estilos de animação distintos para dar vida ao cotidiano dos Yamada é de uma delicadeza que eu acho que poucos filmes capturam toda a beleza que existe na dinâmica familiar, em todas as suas especificidades e problemas — os Yamada estão longe de serem amorosos, eles estão sempre implicando entre si. Mas Takahata cria as esquetes da família com tanta beleza e atenção aos detalhes mais básicos da convivência que transparece o carinho desses personagens pela dinâmica que eles criaram entre si. Tem sequências impagáveis, como quando eles esquecem a caçula no shopping, ou quando a mãe corre para recolher as roupas quando a chuva começa, e percebe que ela esqueceu de estendê-las. Ou aquela em que o pai se levanta e oferece para buscar algo caso alguem queira, só por educação. É tão mundano, mas tão lindo, que dá uma animada no meu próprio dia-a-dia. As duas sequências que abrem e fecham o filme, das histórias de casamento, são brilhantes. Um filme que eu amo rever. Amanhã tem Memórias de Ontem, outra obra-prima dele.

Ghibli Fest: Dia 4

O Serviço de Entregas da Kiki foi ontem, mas depois da sessão eu tinha um aniversário pra ir e só consegui sentar agora no computador pra escrever sobre. Mais uma sessão cheia — essa a gente sabia que tava esgotada já fazia uns dias. Tava chovendo bastante, e mesmo assim quase todo mundo veio. Só tinham uns dois ou três lugares vagos nas poltronas da primeira fileira.

É um show. Kiki não foi o filme que eu vi quando eu era criança, como eu suspeito que muitos na sessão tenham visto. Eu vi ele pela primeira vez alguns anos atrás, mas ele parece ser um ótimo filme para assistir na casa dos avós num sábado. Como outros filmes do Miyazaki, é um filme que voa: a história passa voando, por diversos personagens, sem nunca parecer apressado. Kiki apresenta as dinâmicas da vida de uma bruxa com tanta facilidade, e sem precisar parar a história, que é de dar inveja a qualquer roteirista. Ela precisa sair de casa, encontrar uma cidade sem bruxa, e oferecer seus serviços à população — e, consequentemente, amadurecer. É muito pesado para uma criança de 13 anos, e Miyazaki sabe disso! A conversa com Ursula, sobre como ela não consegue desenhar todos os dias, é de uma honestidade e franqueza que me tira o chão.

O Serviço de Entregas da Kiki acaba exatamente quando o conflito se resolve, mas eu acho que muito do que me chama a atenção no filme é o que está ao redor dele. Por exemplo, eu amo como o marido da Osono parece um durão mas fica andando pelo salão da padaria enquanto a Kiki não volta pra casa numa noite; ou todo o arco de romance do Jiji. É um filme repleto de pessoas queridas e simpáticas e que querem ajudar um ao outro. Não é a toa que a gente sai dele inspirado a fazer parte de um mundo melhor.

Ghibli Fest: Dia 3

Eu e o Tobias estávamos nas manifestações aqui da minha cidade contra a PEC da blindagem e do PL da anistia. Foi muito bonito, muito alegre. Pra uma cidade cada vez mais cinza, até o sol abriu. Deu um bocado de esperança ver toda aquela galera junta.

Algumas horas depois deixei o Tobias em casa pra ir na sessão do Ghibli Fest de hoje. Deu tempo de pegar um pastel no bar aqui do lado de casa e seguir caminho. É muito bom ser brasileiro.

Totoro, totorinho, totorinhoinho, Satsuki e Mei em cima da árvore gigante

Meu Amigo Totoro é um dos filmes mais importantes da minha vida. Eu fui uma criança muito assustada e calma, e meu desenho favorito era a fita VHS desse filme que ficava na casa da minha avó, e que eu via nos fins de semana que eu ficava lá. Totoro é um filme mágico, e revendo ele depois de muitos em muitos anos eu achei ele mais emocionante ainda. Nunca percebi o esforço que a Satsuki faz em parecer forte para a Mei, em fazer a irmã acreditar que tudo vai ficar bem enquanto ela em si tá com muito medo de perder a mãe.

Vai ver eu já tava no espírito quando eu entrei na sessão, mas tem muito do senso de comunidade de um vilarejo pequeno em Meu Amigo Totoro, que me lembra tanto a infância quanto o ditado de que “é preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” (que tem origem incerta). É preciso de uma cidadezinha inteira, tanto as pessoas quanto a natureza dela, para cuidar de Satsuki e Mei, e mesmo assim vão ter momentos em que elas vão se sentir sozinhas e desprotegidas. Sorte a delas de o Totoro estar por perto.

E visualmente lindo, caramba. Não é a toa que esse filme fica na memória. Miyazaki é o rei das transformações da matéria — de tornar o sólido em líquido, o rígido em maleável. O mundo se desdobra na nossa frente de formas absurdas e naturais ao mesmo tempo. A cena em que Mei conhece o Totoro, e adormece sobre ele tirou sorrisos e bocejos do melhor sentido: é um filme que nos deixa tão confortáveis naquele espaço, naquela lembrança de tudo o que a gente consegue ver quando somos crianças e que deixamos pelo caminho conforme vamos crescendo, que parece que o filme vai nos ninar.

É um dos melhores filmes que eu já vi. Era quando eu tinha seis anos, e continua sendo agora. Que bom ter reencontrado ele nesse diazinho perfeito.

Ghibli Fest: Dia 2

Porco apoiado na parede enquanto fala em um telefone público — ele tá com uma posa muito charmosa

Sessão cheíssima pra assistir a Porco Rosso: O Último Herói Romântico. Foi bem divertida também. Porco Rosso é muito engraçado, e a plateia tava bem a fim de rir. Por mais séria que a história se torna, a forma física do herói — ele é um porco! — sempre vira um motivo pra sorrir. E é divertido como Hayao Miyazaki usa essa forma pra brincar com nossas expectativas. Porco é sempre filmado em posições típicas de um galã de cinema, ele parece até se vestir como um Jean Garbin em Trágico Amanhecer (do Marcel Carné, 1939).

Dos filmes do Miyazaki, esse é um daqueles fascinantes em segredo. Não é sobre o protagonista tentando quebrar uma maldição, ou aprendendo a amar de novo, ou a confiar em outras pessoas. Tem tudo isso no filme, mas seu final melancólico parece virar toda essa aventura de ponta cabeça — esse desse ser um filme definidor pro Wes Anderson, que adora pregar essa mesma peça nos seus filmes e puxar o tapete do espectador nas cenas finais, e empurrar ele em uma maré de melancolia. Bom demais.

Ghibli Fest: Dia 1

Hoje foi o primeiro dia do Ghibli Fest aqui na Cinemateca Paulo Amorim. Eu vou ir em todas as sessões, e vou tentar escrever sobre todos os filmes (brevemente) aqui.

O filme de hoje foi Eu Posso Ouvir o Oceano, que o Studio Ghibli lançou originalmente em 1993. O filme é uma espécie de romance, uma espécie de filme de memória. Como romance ele não é muito bom, mas acho que é proposital: na história, dois amigos adolescentes se apaixonam pela colega nova na escola. Contando assim parece um triângulo amoroso, mas o diretor Tomomi Mochizuki não parece tão interessado nesse aspecto. Eu Posso Ouvir o Oceano é muito melhor como um filme de memórias, porque é mais preocupado em capturar como esses jovens são desajeitados em se expressarem e nas suas preocupações (a viagem de férias, o festival do colégio, as dinâmicas entre os grupinhos na escola) do que o que eles estão sentindo. Taku é extremamente desajeitado e incerto sobre seus sentimentos — ele age por impulso, tá sempre se apoiando em algo porque parece que nem os pés ele consegue segurar. Quando o salto temporal acontece, o filme fica muito melhor — e me faz querer que ele tivesse indo e vindo no tempo mais vezes. A dinâmica dos ex-colegas na noitada é muito específica para não ser baseada em fatos (eu mesmo já tive noites assim com amigos de infância).

Mochizuki e seus animadores também são muito bons em seus planos inseridos no meio da ação. As vezes é de um detalhe do cenário — como o corrimão de uma escada —, as vezes é do balançar da camisa de uma personagem e o que ela revela por baixo. Dá uma sensação de memória à flor da pele, quando a gente lembra da temperatura de um dia especial, ou do frescor do banheiro da casa de sua avó, que você não entra há muitos anos. São detalhes tão específicos, mas que elevam todo o filme com eles.

É um bom filme pra começar o festival. Não é o melhor, nem o pior, filme do estúdio. Mas é um bom exemplo de como o estúdio é capaz de trabalhar com personagens nem tão simpáticos assim. Nem Taku, nem Yutaka e muito menos Ritako são lá muito legais — mas cada um tá passando por algo nesse momento, e toda a esquisitice que eles aparentam em suas interações é muito honesta para a idade de seus personagens.

Eu peguei a sessão das 17h, então tô saindo mais cedo pra descer na Cinemateca. São dias assim que me fazem ser muito feliz em morar à algumas quadras do meu cinema favorito da cidade, e fazia um tempo que eu não pegava um filme depois do trabalho. Eu chego ali em menos de quinze minutos, e quando eu saio da sessão e cruzo a Andradas, o filme tá todo matutando na minha cabeça. Esse festival vai ser bom pra me deixar todo emocionadinho — são meus últimos dias na empresa que eu trabalho há quase cinco anos —, terminando meus dias saindo de filmes nostálgicos e melancólicos e cruzando pela minha parte favorita da cidade. Me fez lembrar, convenientemente, de quando eu era jovem e tinha a tarde livre para pegar filmes na Paulo Amorim, e voltava correndo para a rodoviária para pegar o ônibus pra minha cidade. A situação é invertida agora, mas a sensação de sair da sala de cinema no fim da tarde com os sentimentos aflorados é a mesma.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje o dia amanheceu cedo. Ontem eu levei o Tobias pra uma das minhas caminhadas longas, pensando que ele ia dormir até mais tarde hoje, mas me enganei. Eram seis e meia quando ele começou a pedir pra sair. Eu até consegui ficar na cama mais um pouquinho — mas não tanto quanto eu queria. Pelo menos o dia está bonito — o céu tá bem azul, e tá fresquinho (15°C). Eu quero aproveitar o máximo possível esse tempo ameno antes do calorão infernal de Porto Alegre começar.

Minha semana foi, ao mesmo tempo, muito longa e muito curta. Muito longa, porque as horas de trabalho foram sem sossego nenhum; muito curta, porque tive pouco tempo pra me divertir. Não consegui ler, porque quando caía na cama eu já pegava no sono (isso não justifica a completa ausência de um livro na dieta cultural dessa semana, eu sei), mas consegui caminhar todos os dias essa semana. Isso foi bacana, faziam meses que eu não conseguia bater o pé no chão e demandar esse tempo pras minhas caminhadas. Quero ver se a próxima semana me trata melhor, e se o tempo continua bom assim.

Filme: O Doce Amanhã.

Puta filme. Eu acho que não vi nenhum filme do Atom Egoyan antes, mas se eles forem tão bons quanto O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter, 1997), vou ter uma cambada de filme bom pra assistir daqui pra frente. Assisti porque foi o filme que o The Next Picture Show fez par com A Hora do Mal, e faz todo sentido. Ambos os filmes são sobre uma tragédia que acometeu as crianças de uma cidadezinha no interior, contados com idas e vindas temporais sob pontos de vida distintos. Se A Hora do Mal me lembrava The Leftovers, O Doce Amanhã foi uma inspiração de estrutura e de tom pra série.

Esse filme talvez a melhor descoberta que eu tive esse ano. É um filme frio e sombrio — quando você acha que a situação é ruim, ela fica pior —, mas O Doce Amanhã parece saber como modular seu tom muito bem. Embora todos os personagens estejam passando por uma barra, Egoyan ainda filma como essas pessoas ainda fazem parte de uma comunidade — e como essa comunidade é formada de indivíduos com seus próprios interesses. Assim como o tom, Egoyan modula muito bem o que é egoísmo e o que é senso de comunidade nessa tragédia.

Anos 90: a melhor década do cinema?

Jogo: Metroid Dread.

Eu ando bem negligente nos meus jogos. Comecei Ocarina of Time, A Link Between Worlds e Hollow Knight: Silksong nas últimas semanas, mas parei todos logo depois. Eu sou tão ruim em Silksong que eu mal cheguei no primeiro chefão antes de desistir e ir pra outra coisa. Silksong me deu vontade de dar mais uma chance à Metroid Dread (Switch), um metroidvania difícil, mas não tanto. E Dread fez muito mais sentido pra mim dessa vez. É difícil sim, mas a tentativa e o erro dos chefões faz mais sentido depois de ter jogado os Metroid Prime, que leva essa tentativa e erro para os ambientes também. Eu acho que esse jogo eu vou continuar até o final. É um jogo massa. A Samus é massa.

Eu fui especialmente negligente com minha ilha essa semana (falta de tempo, eu juro). Só iniciei New Horizons pra tomar café (Rooster é o meu melhor amigo) e tentar comprar uma obra de arte do Redd (a única original essa semana eu já tinha). Ontem de noite foi a única noite que eu tive mais tempo para dar oi pra todos os meus vizinhos. Ontem eu também joguei Breath of the Wild depois de umas duas semanas e iniciei a missão de Vah Ruta no Território Zora. Logo mais pego as flechas de raio.

Série: Mussolini: Filho do Século (primeiro episódio)

Não vi o episódio de Alien: Earth essa semana, talvez eu veja no fim de semana. Vou estar visitando meus pais e nossa assinatura do Disney+ fica na casa deles desde que a Disney bloqueou o compartilhamento de senhas. Essa semana eu terminei de rever a primeira temporada de Community.

Assisti o primeiro capítulo de Mussolini: O Filho do Século (na MUBI), a minissérie do Joe Wright. Gostei bastante do que a série ensaia nesse primeiro episódio — usar o carisma do ator para refletir o carisma que o facista teve na Itália, fazendo ele conversar com a audiência o tempo todo para “vender seu ponto”. Eu tenho um certo problema com bibliografias que se centram demais em seus personagens como as figuras públicas que eram, sem dar tempo para como eles eram ao redor de outros assuntos mais particulares, mas estou relevando isso por enquanto. É só o primeiro episódio.

É uma série que se assenta muito no discurso, Mussolini fala o tempo todo, seja pra agir ou pra explicar para a audiência o porque ele está fazendo tudo. Joe Wright parece saber disso, então preenche a série com seus visuais estonteantes. A cenografia é maravilhosa, o ritmo é muito bom, quase operístico. Ele encena muito bem — todos os seus filmes parecem ter aquele proscênio delimitado pela câmera, onde o mundo todo gira ao redor dela. Eu ainda quero ver ele voltar à fluidez do movimento que ele tinha de Orgulho & Preconceito (2005) até Hanna (2011).

Silksong

Eu tentei jogar Hollow Knight: Silksong esse último final de semana, mas é um jogo muito difícil pra mim. Porém, o pouco que eu joguei me fez querer dar uma segunda chance a outro metroidvania, Metroid Dread, um jogo que eu empaquei e nunca terminei. Dread é difícil, mas Silksong me fez perceber que não é tão difícil assim, e com essa nova perspectiva eu comecei um novo jogo e, realmente, Dread parece ser na medida de dificuldade pra mim.

Silksong me fez perceber que metroidvanias são um jogo quase que de desapego. Meu problema jogando a maioria dos jogos que não são aventura é que eu perco muito tempo explorando cada buraquinho e beco sem saída a procura de algo, e a maioria dos gêneros de jogo não funcionam assim. Metroidvanias, como roguelikes, são jogos de você alcançar um fluxo de consciência que seus dedos apertam os botões do controle quase que por instinto. Existe exploração em Dread, mas ela nunca interrompe esse fluxo de jogabilidade, e é o que torna a Samus Aran em uma baita personagem. É como se esse tipo de jogo transpõe a confiança da personagem pro jogador. É bacana demais.

Minha dieta cultural na última semana

O dia hoje tá lindo, e tá geladinho. Bem como eu gosto. Acho que eu vou pegar o Tobias e ir no Açorianos ler um livro de tarde. Tô pensando em voltar pro Feiticeiro de Terramar agora que terminei Uma Visão Pálida das Colinas, mas esse frescor no ar me pede uma história de mistério. Vou ver o que eu tenho aqui pra ler.

Como eu gosto do frio. Esse provavelmente é o último frio do ano — a primavera chega em algumas semanas, e os dias já estão mais quentes. Hoje amanheceu com 9°C, e eu aproveitei cada segundo tomando um café e vendo o sol se levantar. Vou sentir falta desse friozinho.

A semana foi corrida, profissionalmente falando (eu tô trocando de emprego, longa história), mas mesmo assim deu pra aproveitar bastante. Terminei um livro, vi três filmes (um dia eu alcanço os cinco ou seis por semana que eu via quando era jovem!), tô jogando um punhado de coisas… foi bom!

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro)

Amei. Eu terminei esse livro no sábado passado. Logo depois de terminar de escrever sobre a dieta cultural da semana. Eu achava que a puxada de tapete que acontece na metade da segunda parte do livro era quando Ishiguro ia tirar meu chão, mas ele deixa para as últimas palavras do penúltimo capítulo. Um absurdo de ler. Uma maravilha.

Uma Visão Pálida das Colinas se revela justamente nessa dificuldade de ver que o título sugere. É um livro embaçado e, quando o autor sugere que o que você está lendo é ainda mais incerto do que você imagina, o livro parece se embaçar ainda mais. É um feito difícil de conseguir: tornar a visão incerta do protagonista em algo ainda mais incerto sem que o leitor se sinta traído. Pelo contrário, ele prova nossas suspeitas aqui e ali, mas as peças não se encaixam perfeitamente, a sugestão ainda é imprecisa. Corta que é uma beleza.

Filmes: Interestelar (2014), Invocação do Mal 4: O Último Ritual (2025), Certas Mulheres (2014)

Entre sábado e domingo fez uma madrugada fria, e eu perdi o sono. Eu revi Certas Mulheres, um dos meus filmes favoritos, que é um filme calmo e frio, o que o torna uma boa cobertinha em noites em claro. Eu acho esse um filme perfeito, sutil em como a narrativa progride. Eu amo como a Kelly Reichardt observa essas mulheres trabalhando, se importando em capturar a textura de suas roupas, o frio do ar ao redor delas, o som das folhas e galhos quebrando aos seus pés, o ócio das suas noites. É um filme de solidões, é verdade. E é por isso que é tão lindo quando uma dessas personagens tenta se conectar com alguém. Um daqueles filmes que capturam um milagre.

Segunda-feira fui com a Deise rever o Interestelar do Christopher Nolan. Envelhece bem. Eu não sou o maior fã do diretor, e eu acho que ele precisa urgentemente de um roteirista. O início desse filme é Nolan no seu pior — cheio de frases de efeito que comprovam a inteligência do protagonista contra a burrice de todos os outros. Me fez querer ver Ad Astra de James Gray, um filme também cheio de clichês, mas que os usa para tornar o protagonista cada vez menor em meio à imensidão do espaço. O filme fica muito melhor quando vira um filme espacial de fato, e Nolan pode brincar com a relatividade do tempo, que ele ama tanto. Eu ainda acho que o melhor uso desse artifício ficou lá em O Grande Truque, de 2006, o único filme em que Nolan foi honesto consigo mesmo sobre suas pretenções como artista.

Me decepcionei pra caramba com o Invocação do Mal 4. Eu gosto muito desses filmes, o primeiro é um dos meus filmes de terror favoritos dos anos 2010. Em O Último Ritual, o diretor Michael Chaves tenta demais fazer uma continuação dos dois primeiros filmes da franquia depois do seu desastroso terceiro filme, que fugiu muito à fórmula, se centrando em uma assombração em uma casa. O Último Ritual não entrega nem uma família carismática mas claramente com outros problemas além de paranormais (que é o que faz o primeiro e segundo filme terem tanta textura em seus sustos), nem um bom fantasma. Não há análogo à Basheeba aqui, ou eu cochilei bem na hora que eles expliraram que demônio era esse (eu cochilei por uns 10 minutos nesse filme, eu acho). O filme não consegue unir bem o arco da família e dos Warren, e acaba esquecendo um ou outro por mais de meia hora, o que tira o impulso do filme. Alguém arrasta o James Wan de volta pra essa franquia, por favor.

Silksong chegou quinta-feira e eu sou um zero à esquerda nesse jogo, como de costume. Eu sou bem ruim em metroidvanias em geral, mas eu sou terrível em jogos difíceis. Eu gosto muito da ambientação do jogo, tanto visual quanto narrativa, então quero insistir um pouco. Eu acabei desistindo do Hollow Knight original por causa da dificuldade e acabei assistindo outras pessoas jogarem, mas Silksong tem a mesma qualidade de jogabilidade: os movimentos são bons demais, a resposta aos cliques é forte o suficiente… dá muita vontade de continuar. Inclusive: coisa boa poder pagar menos de 100 reais por um baita jogo.

Além dos jogos eternos que eu continuo jogando (Animal Crossing, Breath of the Wild), eu dei uma jogada em A Link Between Worlds, meu jogo favorito do 3DS. Eu amo como ele é um jogo perfeito para um portátil, e eu acho que é porque a distância do campo de visão é o ideal para esse jogo? Ele é, teoricamente, um jogo de mundo aberto como Breath of the Wild, e a posição da câmera sobre Link é longe o suficiente para sugerir os seus arredores, mas não o suficiente para te fazer questionar o que tem naquela montanha, como é em Breath of the Wild. Me fez sentir uma certa nostalgia por jogos de portátil, que possuem loops de jogabilidade bem sucintos. Sobre isso, Breath of the Wild é meio que excepcional. Seus loops de jogabilidade são modulares o suficiente para você ter objetivos tanto quando está jogando por 20 minutos quanto 12 horas — você quer terminar um shrine antes de dormir, mas tem toda uma montanha para explorar por horas a fio depois disso.

Também me fez querer que jogos do Switch fossem mais adaptativos quanto à como o jogador joga, em relação à câmera. Acho que eu ia ser legal ver mais do horizonte em um Super Mario em 3D quando eu estou jogando na tela grande, mas mais detalhes dos meus arredores quando eu tô jogando no modo portátil.

Séries: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 5), Community (primeira temporada)

Me sentindo meio culpado de ter gostado bem mais do quinto episódio de Alien: Earth depois das decepções dos três episódios anteriores… justamente porque a série praticamente só fez um filme de Alien redux. Eu ainda acho que a série quer muito fazer com o filme o que a série de Watchmen fez com o quadrinho, tanto que a estrutura é parecida. Estamos no meio da temporada e a série interrompe sua propulsão para voltar atrás, beber explicitamente da fonte original enquanto revela alguns detalhes que ainda não tinha largado pro espectador. Me parece muito This Extraordinary Being, o magnífico sexto episódio que revela as origens do Justiceiro Mascarado.

Continuo revendo Community (tô nostálgico!), e cheguei nos finalmentes da primeira temporada. Como essa série tem coração nesse início, não é a toa que essa primeira temporada garantiu duas renovações diretas. É o melhor momento tanto para Britta quanto para Chang, que continuam bons na segunda temporada mas degringolam para versões ininteligíveis deles mesmos depois disso. Passei pelo episódio do frango frito, inspirado nos filmes do Martin Scorsese, que eu acho que é um dos melhores episódios temáticos que a série entregou justamente pelo carinho que tem tanto pelos seus personagens quanto pela dinâmica entre eles. Esqueço sempre que esse episódio é a origem do Peitos da Annie, o macaco do Troy. Tô soltando uma risadinha só de escrever essa bobagem.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje tá um dia lindo e a temperatura está gostosa. 21°C e ensolarado, com uma brisa leve e gostosa. Vou passar a tarde na praça lendo com o Tobias… mas agora pela manhã, eu tô fazendo feijão. Ontem saí de um dia bem bomba porrada e tiro do trabalho e desci aqui no bar do lado de casa pra tomar uma cerveja com o Erê e me senti bem feliz por ser brasileiro. Sensação boa, essa.

Em outras realizações sobre ser brasileiro, eu decidi que Vale Tudo vai ser a última novela que eu vou acompanhar. Vale Tudo não é tão boa assim (é mais divertido assistir pra falar mal com os amigos) e gasto um tempinho pós-trabalho que eu queria gastar fazendo outras coisas. Como Vale Tudo deve acabar em setembro, e setembro tá logo ali, logo mais vou ter uma mudança na rotina. Vamos ver como vai mudar minha dieta cultural semanal. Vou avisando por aqui.

Filme: Wanda (1970).

Wanda é o único filme dirigido por Barbara Lorden, e que pecado isso, porque Wanda é magnífico. Eu descrevi pro Erê como se John Cassavetes tivesse dirigido o Acossado de Jean-Luc Godard, mas isso não faz justiça ao trabalho de Lorden na direção e na atuação. É justamente na confusão entre as duas coisas que o filme brilha: direção e atuação estão tão intrinsicamente ligadas nesse filme que parece que Lorden controla a câmera com seu olhar, de tanto que a imagem absorve seu estado de espírito em cena. É um filme tão perdido quanto sua personagem principal, que com sua falta de rumo acaba se relacionando com um assaltante e fugindo com ele. Mas Wanda não tem uma “trama” em si. Ela segue acontecimentos que em outros filmes talvez fossem becos sem saída. Mas aqui tudo revela algo sobre Wanda, mesmo que nem ela saiba o que é.

Jogo: The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D (Nintendo 3DS).

Comecei a jogar a versão para o Nintendo 3DS de Ocarina of Time, que eu considero a melhor versão do jogo. Eu tô bem no início — eu acabei de encontrar a Zelda e logo mais vou para Kakariko Village antes de seguir para a vila dos Gorons.

Sempre me esqueço como esse jogo é triste. Sua primeira missão acaba com a morte do seu mentor, e tem uma melancolia já na tela de start que define o tom do jogo todo, mesmo quando ele é bobo (Gorons!). Eu jogo ele no meu New 2DS, que eu particularmente acho o melhor videogame que a Nintendo já fez, e embora o jogo ainda tenha os visuais do Nintendo 64, eu acho ele lindo. Seu trabalho de animação é fantástico, e seu uso esparso das cores é muito inteligente (mesmo que tenha sido uma limitação de hardware). Eu geralmente empaco no reino dos Zoras, vou ver se dessa vez eu avanço mais.

Série: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 4).

O episódio dessa semana anda mais com a narrativa, mas eu ainda acho todo o uso da história de Peter Pan aqui meio cansativa. Não consigo parar de comparar com a série de Watchmen que a HBO lançou há uns anos e que usa uma paródia de American Horror Story para pontuar a série também. Mas lá era algo muito mais pontual. Em Alien: Earth a série para pra alinhar a analogia com os personagens o tempo todo. Pelo menos um Xenomorfo nasceu no fim desse episódio, o que é sempre um bom sinal. Logo mais começa o carnaval.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro).

Ok. Eu cheguei na parte que Ishiguro decide tirar seu chão. Eu tô nos finalmentes do livro. Pelo que diz o progresso no ebook, 68%, mas a progressão é muito rápida, acho que acabo ele esse fim de semana. É incrível como Ishiguro torna um livro bastante interno em um virador de página com muita facilidade. Acho que semana que vem já vou ter mais ideia de onde esse íntimo todo vai dar. Por mais que o livro esteja desabrochando agora, eu não tenho ideia de onde ele quer chegar (e que sentimento legal esse).

Minha dieta cultural na última semana

Tem feito muito frio por aqui, mas tem feito sol. Então eu tento aproveitar o máximo de tempo que eu tenho na rua com o Tobias. O que me dá menos tempo na frente da TV (eu tô tentando ficar menos tempo sentado no sofá, porque eu acabo dormindo), e mais tempo caminhando pela cidade — a coisa que eu mais gosto de fazer de todas. Mesmo assim, consegui fazer minha rotina cultural bem certinha, e fui atualizando esse rascunho pela semana. Agora, sentado no fim da tarde de sábado, vertendo coriza e com uma dor de cabeça descomunal, eu consegui escrever essa introdução. Queria que ela fosse mais inteligente, comentando como foi meu dia (foi um bom dia!), mas o cansaço tá batendo. Talvez semana que vem…

Eu queria ter escrito isso pela manhã, mas eu fiquei tão doente nessa última semana que eu acordei às 9h parecendo que eu apanhei a noite inteira. E isso que eu ando dormindo todos os segundos possíveis. Não escrevi sobre nenhum disco porque eu ainda não parei de tocar Geraes o tempo inteiro. Que disco gigante.

Jogos: Breath of the Wild, New Horizons.

Nada de novo essa semana. Eu tive pouco tempo de jogar na segunda, o dia que eu “reservo” pra isso. O pouco tempo que tive foi fazendo as rondas na minha ilha em Animal Crossing: New Horizons (Switch 2). Eu também cheguei à Vila Kakariko e encontrei a Impa pela primeira vez em Breath of the Wild (também no Switch 2), e comecei meu rumo até Hateno. Eu gosto de fazer esse trajeto a pé, como eu fiz na primeira vez que eu joguei esse jogo. Mais pra frente, quando a gente domina o mapa, esse trajeto é bem curto e comum. Mas nesse início ele parece imenso e perigoso. Bacana demais as mudanças de perspectiva que BOTW provoca no jogador conforme ele vai dominando os sistemas do jogo.

Eu dei uma jogada no beta de Battlefield 6 (PlayStation 5) na sexta-feira. Eu sou péssimo em jogos de tiro. Eu também joguei um pouco de Hades (Switch 2), um jogo que eu jogo muito mas nunca fui muito longe. Dessa vez eu ativei o “modo deus”, porque eu sou péssimo em jogos e só quero me divertir e não me sentir um fracasso. Acho que gostei mais dele assim.

Filme: A Hora do Mal.

Coisa boa ver um filme-montanha-russa como A Hora do Mal (Weapons). Zach Cregger é um baita diretor, e modula o ritmo e o humor do filme pra atingir picos altíssimos até descarrilhar numa loucurada das boas e voltar pros eixos (aqui acaba a analogia com a montanha-russa). É muito bom, muito divertido e muito inesperado. O grande suspense do filme é apresentado no prólogo mesmo, e todo o resto é consequência. Eu amo filmes estruturados assim, dividindo a história em pontos de vista que circulam os mesmos eventos e progridem a narrativa um passo de cada vez. Me lembrou muito a segunda temporada de The Leftovers (HBO), tanto pela angústia dos personagens não saberem o que está acontecendo, quanto pela capacidade de mostrar com bom humor o absurdo da situação quando ela é apresentada por outro ponto de vista (e não existe um elogio melhor). Quando o filme realmente se revela, Cregger já nos tem presos nas mãos dele, e daí ele faz o que ele quiser — e que chacoalhada das boas que é.

Séries: A Idade Dourada, Alien: Earth.

Tô botando A Idade Dourada (HBO, terceira temporada) em dia. A série tá ainda melhor esse ano, com os conflitos confluindo mais naturalmente sem precisar de uma muleta como a guerra das óperas da temporada anterior: tem a crise financeira do George, o casamento da Gladys, a crise no casamento dos Russel. Marion ainda não tem muita história, mas acho que talvez emplaque algo na segunda metade da temporada (tô no quarto episódio ainda!) Eu gosto muito da observação da Kathryn VanArendonk para a Vulture que A Idade Dourada vive numa “zona infinitesimal de consequências”, e a grande sacada da série é de criar o suspense se algum evento vai abalar as estruturas rígidas dessa alta sociedade. Aqui, a todo o momento, parece que tudo está pra mudar, e é muito divertido ver essas mulheres segurando esse mundo no lugar com as próprias mãos.

Comecei os dois primeiros episódios de Alien: Earth (Disney+, primeira temporada). Por enquanto, parece uma mistura perfeita entre o Alien original (1979) e Aliens: O Resgate (1986): tem o terror de estar preso em um lugar com uma máquina de carnificina; e a ação de uma trupe de “heróis” querendo exterminar essa máquina. Eu ainda não abracei muito a analogia da corrida pela imortalidade das grandes corporações que compõem o futuro dessa série com a analogia à Peter Pan. Também tenho um pé atrás com o Noah Hawley: embora eu goste muito das três primeiras temporadas de Fargo e do piloto de Legião, essas séries se perdem muito depois do início e não conseguem parar em pé. Espero que Alien: Earth seja diferente.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas.

Hoje de tarde eu e o Tobias fomos na praça aproveitar o sol e tomar um ar fresco e eu comecei esse livro do Kazuo Ishiguro que carrego há anos no Kindle e nunca comecei a ler. Em duas horas eu engoli metade do livro. Ishiguro é sempre genial, e eu adoro mergulhar nos livros dele sem saber de absolutamente nada antes. A forma com que ele desdobra tanto o interior quanto o exterior dos seus personagens é fascinante — e tem uma limpidez na sua narrativa, que parece que enxugou todo o desnecessário ao redor sem tirar dele a riqueza dos detalhes. Eu ainda não tenho ideia de onde o livro, sobre uma mulher que relembra uma amizade de sua juventude após o suicídio de sua filha mais velha, quer chegar. Mas como em Não Me Abandone Jamais, eu tô adorando ser carregado pelo autor daqui pra lá com tanta delicadeza e com tanta força ao mesmo tempo que eu nem sei se quero descobrir o que ele tá aprontando tão cedo.

(Dei uma pausa no O Feiticeiro de Terramar essa semana pela densidade, meu trabalho tá muito puxado).

Minha dieta cultural na última semana

Eu vou tentar escrever toda semana sobre o que eu tô vendo, lendo, jogando e ouvindo. Eu parei de usar o Letterboxd há uns meses e sinto que eu tô esquecendo dos filmes que eu vejo. Não quero voltar para o Letterboxd por enquanto, então acho que uma boa solução é manter minhas impressões por aqui mesmo. A partir da semana que vem, esses resumos devem ser publicados no sábado pela manhã.

Jogos: skate., Time Flies.

Eu joguei bastante dois testes de jogabilidade: o novo skate. (PlayStation 5), que eu gostei bastante, e o playtest online da Nintendo (Switch 2), que eu ainda não sei o que é e não gostei muito. Eu não joguei os jogos anteriores de Skate pra poder falar, mas eu gostei da fluidez das manobras desse novo. Ele não tá nada otimizado ainda, mas se o mundo aberto tiver mais cheio de gente depois do lançamento (o acesso antecipado vai começar até o fim do ano), acho que vai ser um jogo legal de passar o tempo com os amigos no Discord.

Eu também joguei o curtíssimo Time Flies (Switch 2), e tem a chance dele chegar na minha lista de jogos favoritos no fim do ano (vai ser o segundo lançamento da Panic no top 5 se isso acontecer). É curtinho de propósito e eu achei bem emocionante — me lembrou muito de jogos que eu jogava no Kongregate, e é um grande elogio.

Jogos de rotina continuam sendo Breath of the Wild (recomecei pela enésima vez, mas agora com a desculpa de testar a edição pro Switch 2) e Animal Crossing: New Horizons. Minha ilha finalmente alcançou o nível da Léte original, que eu apaguei sem querer em 2023.

Filme: Amores Materialistas, Superman.

Eu adorei Amores Materialistas (Celine Song, 2025), o novo filme da diretora de Vidas Passadas (2023). Não despedaçou o meu coração como seu filme anterior, mas tem a mesma fluidez. Amei como Song apresenta a personagem da Dakota Johnson, uma verdadeira casamenteira, que procura pares para seus clientes se apaixonarem. Tem uma leveza na forma como Song move a câmera e o ritmo do filme que parece flutuar, o que conversa bem com o humor do filme também.

Gostei muito do novo Superman (James Gunn, 2025). Acho que tem o mesmo feito de Barbie (Greta Gerwig, 2023), de conseguir ser um bom arrasa-quarteirão que tem algo a dizer e que consegue não parar o filme em nenhum momento pra isso. Também assume a inteligência do espectador, o que poupa um bocado de tempo que blockbusters ultimamente parecem perder em tentar justificar ações de seus personagens. Aqui, tudo o que importa sobre esse Super-Homem a gente aprende nas ações e nas suas reações: ele ainda tá começando a ser um super-herói, e está aprendendo a entender onde está sua própria força. É uma ideia muito bacana e muitíssimo bem feita. Me lembrou muito da dinâmica familiar de Os Incríveis (Brad Bird, 2007) e dos desenhos animados de super-herói que davam sábado de manhã na TV. Acho esse o ritmo e o humor correto pro Super-Homem.

Também revi dois filmes: Orgulho e Preconceito (Joe Wrightm, 2005) e O Profeta (Jacques Audiard, 2009), dois favoritos. Wright era tão bom no início da carreira, dá uma tristeza de ver como sua direção ficou cheia de afetação a partir de Anna Karenina (2012). Ele traduz muito bem a fluidez da prosa de Austen em uma câmera que dança entre seus personagens em um filme que não para um segundo, e mesmo assim consegue respirar. Ainda acho O Profeta incrível (é a primeira vez que eu revejo ele em muitos anos). Sempre acho a transformaçào do protagonista em algo ao mesmo tempo inevitável e surpreendente. Dá pra saber logo no início que ele vai se transformar na prisão, mas é muito eficaz como Audiard transforma ele. (Pela primeira vez eu percebi que os intertítulos são, na verdade, a divisão de capítulos do filme…)

Livro: O Feiticeiro de Terramar.

Em 2021 eu li todos os livros do Ciclo Hainish, e agora eu tô começando a ler o ciclo Terramar da Ursula K. Le Guin. O Feiticeiro de Terramar ( ed. Morro Branco) é fundo. É um livro que se passa tanto dentro quanto fora da mente do protagonista, Ged, e é incrível como a escritora captura tão bem sua transformação tanto interna quanto externa, enquanto cria um mundo riquíssimo de histórias, lendas e tradições. Me lembra muito tanto o Princesa Mononoke (Hayao Myazaki, 1997) quanto Zelda na sua fantasia, que faz parte de um mundo que existe muito antes de nós entrarmos nele e continuará quando o livro acaba — e não cai na bobagem de querer contar a história de um escolhido. Algo que eu já sabia que ela evitaria por causa dos seus livros de ficção científica.

Tô lendo devagarinho.

Música: Geraes.

Não consigo parar de ouvir o Geraes (1976) do Milton Nascimento. Nada de novo… Milton cria músicas imensas, e Geraes parece ser a música do fundo das montanhas e do campo. Parece uma música que ecoa pra sempre nos lugares que ela foi cantada. A voz de Milton parece o próprio vento. “O Ceio da Terra” é lindo. (Dei o vinil pro meu pai do dia dos pais).

A sequência de trocas de Link's Awakening

Link’s Awakening é o meu jogo de Zelda favorito. Eu tô jogando ele de novo (no remake lançado pro Nintendo Switch em 2019), e eu lembrei da genialidade que é a sequência de trocas que existe nele.

Em Link’s Awakening, o Link se perdeu atravessando o Grande Mar e acaba naufragando na Ilha Koholint. Ela é diferente de tudo o que já vimos na Hyrule dos Zelda anteriores: é uma ilha tropical cheia de monstros vindos de outros jogos da Nintendo, como os Goomba do Super Mario e uma criatura que parece muito o Kirby.

Eu escrevi sobre isso no ranking: o que torna Link’s Awakening especial pra mim é a sua densidade. Embora o mapa seja pequeno (ele foi desenvolvido dentro dos limites do Game Boy original), Koholint está repleta de personagens marcantes. Embora eles sejam aqueles típicos NPCs, com seus roteiros de diálogo prontos e ciclos de movimento, eles complementam a estranheza do cenário: o senhor Ulhira não gosta de falar pessoalmente, então você precisa sempre falar com ele por telefone; a vovó Yahoo adora gritar “yahoo”; o Mr. Write troca correspondências com Christine, uma coelha que dá um catfish nele com a foto da princesa Peach; e por aí vai.

Como em todos os Zelda depois de A Link to the Past, Link não é só um herói que tenta aniquilar um vilão. Ele é um “amigo da vizinhança” que tenta ajudar os habitantes de Hyrule em missões paralelas: seja resgatar os cuckoos de um morador da vila Kakariko ou encontrar as botas de neve de alguém no deserto Gerudo, as aventuras de Link sempre são espiralantes.

Só que, diferente de outros jogos, Link’s Awakening coloca esses aspectos no palco central com a chamada sequência de trocas. No início, ele parece muito algo paralelo e opcional: você compra um boneco do Yoshi para a mãe de uma criança, mas ao invés de ela retribuir com rúpias ou uma arma, ela te retribui com um laço.

Conforme o jogo progride, você encontra um personagem que vai trocar o laço por uma outra coisa, e então isso vai ser trocado por outra. Eventualmente, a sequência de trocas deixa as margens da história e se torna sua missão principal. A essa altura você já vai conhecer Koholint e seus habitantes naturalmente, e você vai saber naturalmente o que fazer com o item que você recebeu — talvez porque alguém tenha falado que precisava de algo com o item que você está agora, ou porque o item tem a cara de um personagem específico.

Acho que a sequência de trocas é o meu detalhe favorito de Link’s Awakening, e provavelmente é meu detalhe favorito dentre todos os jogos que eu já joguei. É incrível, principalmente com o quão trágico esse jogo é. Sua missão nessa lenda de Zelda é acordar o Peixe-Vento, e suas boas ações nesse jogo te faz se aproximar dos personagens, que te ajudam nessa missão. Porém (e spoilers para a trama do jogo), é justamente o que irá “destruir” Koholint e a vida desses personagens que você quis tanto ajudar.

Isso tudo, porém, pontuado o humor e estranheza típicos de Link’s Awakening tornam esse jogo em algo realmente único pra mim. Embora seja engraçado e trágico ao mesmo tempo, Link’s Awakening é o único jogo além de Breath of the Wild que parece capturar um lugar com tanta vivacidade. Mesmo pequena, a ilha Koholint é imensa em história — cada personagem tá fazendo algo ou precisa de algo, tem alguma relação com outro personagem ou outro lugar, e assim por diante. É mágico e surpreendente, porque a sequência de trocas (e Link’s Awakening como um todo) opera como um sonho: você lembra que está lá e lembra que uma coisa leva a outra, mas as especificidades são tão intricadas que você as perde com o tempo, já que para lembrar de algo tão detalhadinho você precisaria lembrar de todos os detalhes ao redor também. Sempre que eu jogo Link’s Awakening, eu me surpreendo de novo.

Os contos de Raymond Carver

Um dos meus planos para 2020, lá no longínquo ano de 2019, era que eu ia voltar a ler mais. Eu fui uma criança que lia muito, mas quando eu entrei na faculdade eu magicamente parava de ler. É estranho, porque desde que eu me lembro eu estou sempre “lendo um livro”. Nos últimos anos, isso significava ler algumas páginas, ficar alguns meses sem ler, daí ler mais algumas páginas, e assim mais uns meses sem ler até terminá-lo. Mas eu sempre considerava que eu tava lendo um livro. Eu decidi parar com essa baboseira e ler de uma vez, e se o livro não me chama a atenção pra voltar no outro dia, simplesmente procurar outro pra ler. Desde que eu saí da faculdade eu acho que eu lia um livro por ano, e muito porque eu ocupei o que eu considerava meus horários de leitura com outras coisas (ver o Twitter, principalmente). Então eu mudei isso esse ano.

Demorou um bocado pra eu encontrar meu tempo pra ler como eu queria em 2020, mas se tem um plano pra esse ano que eu me dediquei (e que não se chama Animal Crossing), foi o de ler mais. Eu finalmente encontrei meu horário de leitura perfeito: depois do almoço e antes de voltar pro trabalho. Eu costumava usar esses trinta ou quarenta minutos pra ficar descansando na frente do computador, mas eu acho que eu nunca descanso na frente do computador. Então eu decidi usar esse tempo pra ler.

Eu já tô lendo muito mais do que eu li nos últimos anos. Eu decidi que ia ler todos os contos do Raymond Carver, que se espalham por sete livros publicados e duas coleções de “restos” no gigantíssimo 68 Contos de Raymond Carver. Eu comecei relendo Iniciantes, um livro com a versão “original” dos seus primeiros contos publicados. Eu já tinha lido esse livro em 2014 e gostado muito. Reli e continuei gostando muito, então decidi seguir em frente.

Raymond Carver foi considerado um dos grandes autores do minimalismo americano, uma abordagem à escrita que reduz a narrativa aos seus elementos mais básicos. Eu tenho a impressão que isso torna os contos do autor mais cinemáticos, também. Eles são bem diretos em termos do que está acontecendo, e torna o detalhismo bem mais eventual, e bem mais forte quando aparece. Em um dos meus contos favoritos, “Coreto”, Carver detalha a textura do lençol da cama de hotel que o casal está deitado. Mas ele o faz porque eles estão sobre aquele lençol por horas, e a textura começa a chamar a atenção de seus personagens.

Segundo a introdução de Iniciantes, esse minimalismo talvez não fosse um aspecto inicial do autor, mas sim do editor Gordon Lish, que reduziu os contos daquele livro em até 60% para publicação em Do que estamos falando quando falamos de amor. Lendo eles depois de ver suas versões maiores me causou uma estranheza, porque eu já achava Iniciantes bem direto ao ponto, e alguns contos de Do que estamos falando… parecem “capados” de fim ou de início como resultado.

Mas é algo que eu acabei me acostumando, e que parece que o escritor foi se adaptando conforme seus próximos contos, que parecem menos capados e mais como momentos eventuais nas vidas ordinárias que Carver se especializou em escrever. Todos os contos do autor são sobre o cotidiano de pessoas de classe média-baixa dos EUA, satisfeitas por não estarem na linha de pobreza, mas conscientes que se algo acontecer — se elas perderem o trabalho, sofrerem um acidente, ou a geladeira estragar — pode ser a catástrofe que vai levar todo o pouco de estabilidade que eles têm. É como a versão literária dos quadros de Edward Hopper, como o famoso Nighthawks: composições simples de pessoas em meio à imensidão americana. Distantes o suficiente pra gente saber o que elas estão sentindo de verdade — mas o rosto delas não nos engana.

Carver nunca escreveu dois personagens iguais (embora alguns livros possuam versões diferentes de contos de outros livros, o que eu acho bacana), mas todos os seus contos parecem ter aspectos autobiográficos. Carver também viveu de bicos e trabalhos temporários enquanto não conseguia publicar seu primeiro livro, e em todas as suas histórias a presença de bebidas alcoólicas (ou a ausência delas) é bastante demarcada, talvez um reflexo do alcoolismo que ele enfrentou até os quarenta anos.

Esses fatores comuns, e o minimalismo que guia a forma de todos os seus contos, fazem suas histórias serem simples de você sair lendo e acompanhando seus personagens; mas os sentimentos que elas provocam estão longe de serem fáceis de suportar. São famílias se desfazendo, amigos percebendo que estão se afastando, ou o medo de se perder tudo que os deixa imóveis. Em V_ocê poderia ficar quieta, por favor?, seu primeiro livro de contos, os personagens estão todos silenciosamente desesperados, mesmo quando estão felizes. O tom se complexifica bastante durante a carreira do autor, até chegar nos magníficos _Catedral e Fogos, seus dois últimos livros.

A coletânea Catedral é considerada a obra-prima do autor, e o seu conto-título talvez seja o mais marcante de todos os que eu li: nele, o marido precisa receber um amigo da esposa que não ama mais, de uma época bem antes dos dois terem se conhecido. O amigo é um homem velho e cego, e o conto acontece todo dentro da cabeça do marido, com seus preconceitos aflorando e então despencando, um após o outro. A história é bem direta: o amigo aparece, eles jantam, o marido tenta não falar bobagem, ele convida o amigo pra assistir TV enquanto a esposa arruma a cozinha, está dando um documentário sobre catedrais, o amigo pede pro marido descrever como são as catedrais, já que ele nunca viu uma, e o marido percebe coisas que ele parece nunca ter visto dessa forma — e o leitor também.

Já é em Fogos que eu vi o autor explorando mais a sua abordagem. Os contos ainda são bastante minimalistas e centrados no que os personagens estão fazendo e pensando, mais do que o que acontece ao seu redor; mas Carver parece mais confortável em transformar sua forma e adaptá-la. Alguns contos têm mais de um narrador em primeira pessoa, e as vezes o que um fala contradiz o outro. Outras vezes o tempo da narrativa muda — começa com uma primeira pessoa no presente, e se transforma numa primeira pessoa no passado, como se o que está acontecendo do nada se transforme em uma memória. Nada que acabe nos tirando da história para observarmos a forma como ela está sendo contada, e essa é a magia dos contos de Carver pra mim: elas acontecem tão naturalmente, mesmo as mais tristes, as mais violentas, que você só percebe o que aconteceu quando elas acabam, quando elas mesmas se transformam em memória para o leitor.

São pequenos momentos na vida de pessoas comuns que eu acompanhei o ano inteiro, e fico muito feliz de ter escolhido esse autor como minha porta de entrada pra literatura de novo. Eu não sei se eu teria a mentalidade de ler um romance nos últimos meses, mas era bom sempre ter um pequeno momento na vida de alguém que eu podia mergulhar e observar, as vezes compartilhar um pensamento, ou as vezes só ver elas com a distância que o autor me deixou.

Talvez eu devesse me sentir culpado por jogar Animal Crossing esse tempo todo?

Nas últimas semanas uns posts sobre Animal Crossing nos sites de jogos que eu leio têm me chamado a atenção. No Polygon, a manchete é sobre como a gente chegou na “fase de culpa” (quando a gente raramente visita as vilas e os vizinhos começam a nos xingar por deixarmos eles sozinhos lá); o Kotaku pega ainda mais pesado:

At this point, it seems like New Horizons will become like the cycle of the seasons. It’s recurrent and reliable. You might think about it fondly, or not, but you sure don’t think about it every day.

Eu não parei de jogar Animal Crossing: New Horizons desde que ele foi lançado em março desse ano (se você lê a newsletter, sabe que eu tô sempre jogando). Eu penso nesse jogo todos os dias. Eu já movi compromissos profissionais porque eles ficavam no meu horário de jogar Animal Crossing (depois do almoço, das 13h às 13h30).

É verdade que o quanto eu jogo diariamente diminuiu um bocado desde o lançamento do jogo. Eu acho que, como todos os jogos da série, New Horizons fica ainda melhor em doses curtas. Animal Crossing se passa em tempo real, então um dia por aqui é um dia no jogo também, e isso mexe com meu emocional. Eu sou marinheiro de longa viagem nesse jogo, e eu sei como a Isabelle fica chorosa quando você parava de aparecer com tanta frequência em New Leaf.

O problema é: é fácil de queimar na largada de Animal Crossing. Tudo é tão bonito, e os personagens são tão bem escritos, que você quer participar ao máximo do dia-a-dia desse vilarejo, principalmente porque quase todos são tão legais pra você. Porém, se você coleciona todos os fósseis, todos os peixes e todos os insetos em questão de algumas semanas (o que é impossível, mas digamos que você crie paradoxos temporais…), se você constrói todas as pontes que precisa para maximizar sua produtividade muito rapidamente, logo você não vai ter mais o que fazer, e então você vai começar de novo, ou desistir.

Foi legal participar do zeitgeist no início do ano, e no início do isolamento social, quando todo o mundo descobriu e começou a montar suas ilhas juntos. Eu sou um jogador lento naturalmente, eu demoro meses pra jogar o joguinho de plataforma mais simples que você encontrar, então eu não me preocupei muito de ver meus amigos desenvolvendo suas prefeituras e suas casas em questões de semanas, jogando alto no mercado de nabos. Eu adoro visitá-los pra pegar inspiração no que eu eventualmente vou fazer na minha ilha, mas por aqui as coisas precisam progredir bem pouco a cada dia, porque eu vou jogar esse jogo por anos, e eu não estou nem perto de economizar o suficiente pra conseguir o porão.

Eu comentei brevemente sobre como jogar Animal Crossing demais de uma só vez é meio que contra o espírito do jogo em maio. Pode não ser o que o jogo espera, mas ele não tenta te impedir de ficar quatorze horas na frente do videogame criando ruas entre as casas dos seus vizinhos (eu certamente fiz isso). Acho que isso torna Animal Crossing especial. Ele pode até ter seu ritmo próprio, mas o jogo não impede que você faça seu próprio ritmo. Seus vizinhos vão soltar alguns comentários maldosos de qualquer forma, seja se você jogar demais (“Você tem um irmão gêmeo?!”), ou se você desaparecer por meses.

O meu ritmo em New Horizons é mais ou menos o mesmo de New Leaf, um jogo que “encerrei” no fim do ano passado, dando adeus à minha vila depois de anos jogando alguns minutos por dia. Eu jogava New Leaf no ônibus indo pro meu primeiro trabalho (eu comprei o jogo, e o 3DS, com o meu primeiro salário); depois no trem para a faculdade; e finalmente durante o café da manhã no último ano antes de eu aposentá-lo. Eu ainda não tinha encontrado todos os insetos (eu sou horrível com a rede), nem completado todos os destinos do Gulliver, nem sequer liberado a tenda da Katrina na rua principal (eu nunca tenho dinheiro consultar com ela quando ela aparece!).

Em New Horizons, eu faço o mesmo. Eu jogo um pouquinho a cada dia. Eu vou na loja e na alfaiataria ver se tem algo que me agrade. Eu já completei minha coleção de fósseis, então só cavo eles quando preciso de dinheiro. Eu ainda tenho uns três ou quatro insetos e peixes pra capturar por mês, e tenho todo o catálogo de criaturas do fundo do mar que sequer comecei. Meu grande amigo Erik me deixou mês passado, e isso me deixou bem triste, mas também me aproximou de alguns vizinhos novos, como a Amelia e o Spike. Eu ainda tô economizando pra conseguir o segundo piso da minha casa.

Amelia é a minha vizinha mais sábia.

Acho que minha surpresa favorita com New Horizons foi uma amizade que eu criei graças à esse jogo. Eu tenho um conhecido em Chicago, o David. A gente nunca conversou muito antes de começarmos a visitar a ilha um do outro no Switch. Com o passar do tempo, nossas visitas viraram um compromisso: todos os sábados, eu e o David ficamos a tarde inteira conversando usando o (péssimo, cruel e terrível) chat interno do jogo. Ele limita a apenas alguns caracteres por mensagem, e você precisa usar o seu celular enquanto joga pra poder digitar. É terrível, e é magnífico, porque isso nos impede de fazer qualquer outra coisa senão ficar conversando.

Eu gosto de visitar as lojas durante a semana pra encontrar algo bacana pra presentear o David (nós estamos em hemisférios diferentes, então sempre tem algo novo pra presentear), ou aprender receitas novas pra dar algo completamente aleatório, ou capturar um inseto que ele ainda não pode ter por causa do clima diferente. E então a gente fica, caminhando por nossas ilhas, conversando sobre o pouco que mudou na última semana, o que nos ajuda a enxergar o que muda no meio do marasmo, porque o outro nota esse ou aquele detalhe diferente. Ninguém ali tá progredindo na vida (do jogo ou na vida real), pelo menos não agora. A gente tá ali fazendo algo que eu sinto muita falta de fazer com meus amigos num sábado de sol: conversar, fazendo nada, vendo o tempo passar.

Os filmes de Kelly Reichardt oferecem um conforto estranho durante a quarentena

Wendy & Lucy (2008)

Eu me tornei fã de carteirinha da diretora americana Kelly Reichardt desde quando eu vi Certas Mulheres pela primeira vez, depois do meu amigo Leo recomendar o filme dizendo que “é exatamente o tipo de filme que eu gosto”. O Leo acertou em cheio, Certas Mulheres podia muito bem se chamar “Arthur Freitas Favorite Hits™”. Desde então eu assisti todos os outros filmes da diretora, e espero ansiosamente pelo First Cow que ela lançou ano passado.

Como todos meus filmes favoritos, eu revejo os filmes da Kelly Reichardt direto. Seja quando eles entram na seleção do MUBI ou quando acordo cedo num domingo (o meu momento favorito pra ver filmes é no domingo de manhã).

Não que seus filmes sejam feitos pra serem assistidos a qualquer momento. Pelo contrário. Eu acho que a melhor analogia que eu consigo pensar é que os filmes da diretora são como quando eu aprendi a tomar café. Eu odiava no início, porque era forte e o gosto não parecia com nada que eu tinha provado antes — por que diabos eu ia querer tomar aquilo?! —, mas então minha mãe me apresentou café com leite, e como café com leite era bom numa manhã de inverno. Tinha um momento certo pra aprender a gostar de café, e era aquele. Hoje eu continuo tomando café, não só nas manhãs de inverno, mas a ideia é a mesma: não é algo que eu queira tomar quando tô numa noite com amigos (embora já tenha acontecido), mas é perfeito pra aquecer a mente antes do trabalho ou pra baixar um almoço especialmente pesado.

Os filmes da Kelly Reichardt são assim também. Por um acaso o Leo acertou em cheio na recomendação e eu vi Certas Mulheres num momento perfeito pra ele. São filmes quietos e simples, mas nunca vazios e simplórios, sobre pessoas isoladas, literalmente ou não, que procuram desesperadamente por alguma conexão com alguém, ou que são incapazes de conseguir firmar uma conexão assim. São pequenas histórias de momentos breves não necessariamente de epifanias, mas daquela realização estranha de que se está vivo, um misto de empolgação pelas possibilidades, e frustração por tudo aquilo que deu errado, ou que nos segura em uma situação que queríamos que fosse melhor.

O Atalho (Meek’s Cutoff, 2010)

Em Wendy & Lucy (2008), talvez o melhor filme da diretora, Michelle Williams interpreta Wendy, uma mulher que está indo para o Alaska para procurar emprego acompanhada de sua cadela, Lucy. Wendy não tem dinheiro (ela está vivendo no próprio carro), e tenta roubar um saco de ração para Lucy, quando é pega e vai presa. Wendy passa a noite na cadeia, e quando volta Lucy está desaparecida. O filme então acompanha Wendy fazendo pequenas tarefas para tentar conseguir um pouco de dinheiro/descobrir onde está sua cadela/ocupar a cabeça pro desespero não bater. Se a trama parece que vai criar um thriller, Reichardt se recusa a criar a tensão necessária pelo gênero, preferindo acompanhar, com certa distância mas bastante identidade, Wendy fazendo o que pode: recolhendo latinhas por uns trocados, indo ao abrigo de animais para ter alguma notícia de Lucy.

Não é necessariamente calmante, porque é uma situação tensa, mas Wendy está segurando os nervos para não se desesperar, e Reichardt segura a reação emocional do espectador para acompanhá-la (ela guarda isso pro momento mais forte do filme, quando descobrimos o que aconteceu com Lucy). Acho que essa é a maior regra dos filmes da diretora, e o porquê eles oferecem um conforto nessa época de distanciamento: seus filmes se centram em observar pessoas sozinhas — física ou emocionalmente —, tentando viver mais um dia. E é na forma como elas passam esses dias, lavando a louça ou arando a terra, que é um tanto confortável de assistir. Mesmo quem divide a casa com alguém nessa quarentena, o quanto todos nós, em alguma medida, nos sentimos sozinhos, e damos atenção ao nosso cotidiano para não enlouquecer?

Em Antiga Alegria (Old Joy, 2006), o segundo filme da diretora, dois amigos que não se viam há muito tempo saem para acampar. É quando eles percebem que não têm muito mais em comum, e muito dessa viagem de fim de semana é passada no silêncio entre eles. Ainda há alguma coisa entre os dois — o resquício de uma amizade, ou a memória de algum tempo em que os dois passaram juntos —, mas Reichardt os observa montando uma barraca ou tomando banho nas piscinas térmicas de uma montanha. Ela observa o silêncio desconfortável dos dois, próximos um do outro, mas há anos de distância. Em Movimentos Noturnos (Night Moves, 2013), três ativistas planejam uma ação para chamar a atenção da população de uma cidade no interior dos EUA. É um thriller de cima abaixo, mas muito dele é feito com Reichardt observando as diferenças em como cada um dos personagens leva o plano em frente e como aquela missão em grupo significa coisas diferentes para cada um, que enfrentam dilemas sozinhos.

Certas Mulheres (Certain Women, 2016)

Muito pouco acontece nos filmes da Kelly Reichardt, e eu tô vendo essa torcida na cara que você tá fazendo agora, mas deixa eu te garantir: existe uma diferença entre cinema lento, que é o que Reichardt faz, e muito do que alguns diretores contemporâneos acham que estão fazendo. Um dos princípios do cinema lento, como o de diretores como Michelangelo Antonioni e Andrei Tarkovsky, é que pouquíssima coisa acontece na tela, mas tudo o que acontece é essencial. É um dos segredos de Stalker, um dos clássicos do cinema soviético, que observa a natureza se movimentar até que ela pareça estranha o suficiente para parecer ser de outro mundo.

Reichardt opera no nível desses mestres, mas se foca em detalhes muito menores do dia-a-dia, e isso é algo que tá me trazendo muito conforto nesses últimos dois meses. Eu sempre gostei de como ela enxerga, como ela quer ver seus personagens enfrentando o cotidiano, e a calma que ela tem para observá-los é quase que terapêutica: seja uma trupe de colonos que atravessa o deserto em O Atalho ou uma advogada passeando pelo shopping depois de um dia estressante em Certas Mulheres, Reichardt os acompanha nos detalhes: como os colonos vão atravessar uma duna se o gado não anda para trás; ou como Laura Dern termina de comer, olha ao redor e parece que o peso do mundo cai em suas costas.

Todos nós vivemos nossas pequenas comédias e tragédias do cotidiano, e nesse tempo que estamos passando em casa parece que nos força a parar de olhar lá pra fora, lá pro futuro, e ter que se deparar com aquilo que nós temos agora e quem somos agora. É exatamente esse tipo de realização que emana dos filmes de Reichardt, e ver essas pessoas enfrentando elas cada um do seu jeito, com diferentes níveis de sucesso, pelo menos tá me fazendo me sentir menos sozinho.