“There is life and there is work. Yet we have but one heart.”
Showing Up tem algo muito especial em comum com Paterson: é um filme que enxerga o artista como um trabalhador, e a arte como um trabalho: uma vida profissional com altos e baixos, que as vezes atrapalha sua rotina, e as vezes faz parte dela. É algo que sempre me surpreende no filme de Jim Jarmusch — ele não diferencia o Paterson motorista de ônibus do Paterson poeta, ambas atividades são enquadradas da mesma forma: como um trabalho, que requer esforço, certa disciplina, e que traz pequenas belezas e pequenas frustrações.
No novo filme de Kelly Reichardt, que acompanha uma escultora se preparando para expôr sua obra, a arte é o fruto de um trabalho. É quase banal escrever algo assim, mas artistas tendem a embelezar a feitura da arte de uma maneira que me desanima quando o meu processo artístico geralmente é o mais banal possível. O que torna Showing Up especial é muito daquilo que faz os outros filmes da diretora especiais: pegar a banalidade da nossa existência e observá-la, do início ao fim. Era assim com Cookie ordenhando Evie em First Cow, ou a personagem de Lily Gladstone cuidando dos cavalos em Certas Mulheres para depois dirigir até o centro da cidade e assistir uma aula de direito escolar. É nos detalhes dessas vidas que existe alguma beleza, mesmo que passageira, de pessoas construindo algo, ou sonhando em construir algo.
Eu assisto filmes como Showing Up e Paterson e me sinto um pouco mais confortável. São filmes que enxergam os artistas como trabalhadores, e que dignificam um pouco mais o meu processo artístico. Eu acordo de manhã cedo, preparo meu café e sento na minha mesa com meu caderno e tento escrever algo antes do meu turno de trabalho começar. Nem sempre eu consigo escrever, nem sempre eu gosto do que eu escrevo, mas as vezes sai algo que fez valer a pena todos os dias que não valeram. É, como o meu outro trabalho, um tantinho maçante, suscetível a qualquer probleminha que a vida gosta de colocar na minha frente — o dia em que uma lâmpada queima, ou que a geladeira para de funcionar, ou que eu esqueci a sacada aberta e está absurdamente frio justamente no lugar que eu escrevo.
Mas também é somente esse processo, e aquilo que sai dele, que enchem meu coração de propósito. E ele some assim que as palavras aparecem nas páginas, porque quando elas forem lidas, o propósito se perde. E lá vou eu procurar ele de novo, em outras palavras, em outras páginas. Um dia, quem sabe, eu encontro elas como Reichardt parece ter encontrado nessas pequenas pérolas delicadas que são seus filmes que só ela consegue fazer, e que ela luta para continuar fazendo exatamente desse jeito. Esse é o processo dela, e aqui está um filme que enxerga artistas como ela, pequenas por natureza, mas que fazem essas coisas misteriosamente gigantes. Como todo fruto desse processo artístico, parece mesmo com um milagre. Justamente o que torna ele especial.