Posts sobre filmes

You Can See Everything

Fissurado no primeiro trailer de You Can See Everything, novo documentário do Nathan Fielder sobre Elizabeth Holmes.

Se Fielder realmente estiver escalando em escopo como fez entre as Nathan for You e as duas temporadas de O Ensaio, eu não duvido que esse filme me tire do cinema com o cérebro como um mingau, estilo Close-up.

Registrando já a minha aposta pra esse filme na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2027, o qual vai resultar na terceira temporada de O Ensaio.

O instrumento que fez o som de “Os Pássaros”

Eu descobri hoje que o som dos pássaros perigosos no clássico Os Pássaros de Alfred Hitchcock são, na verdade, sons sintetizados usando um instrumento chamado trautônio por Oskar Sala. Ouvindo eles sem o contexto do filme, eu percebi que justamente o que tornam os pássaros tão assustadores é, justamente, o som estranho que eles fazem. Meio mecânico e meio fantasmagórico (mas, ainda assim, um som que parece o de um pássaro):

Aqui tem é um documentário sobre o trabalho de Oskar Sala, que ajudou no desenvolvimento do instrumento até a sua morte, em 2002.

Emily Wilson sobre A Odisseia de Christopher Nolan

A tradutora Emily Wilson escreveu sobre a adaptação de Christopher Nolan para A Odisseia, e é uma das melhores críticas de cinema que eu já vi. Wilson avalia tanto a temática e a interpretação que Nolan usa, quanto a erótica do filme — aquilo que o filme a fez sentir.

Wilson no London Review of Books:

Nolan’s Odyssey lacks many of the elements that make the poem great. It has nothing convincing to say about time, memory, history, war, or about the relationship between one warrior’s glorious return and the lives of his family, adversaries, comrades, friends and neighbours. It lacks psychological, emotional, political and ethical depth. Its narrative structure is gimmicky. The writing is abysmal. None of the characters has convincing motivation for their actions or words. There are no sex scenes, and all the food looks horrible.

The most troubling ethical problem with Nolan’s Odyssey concerns the decision to film part of the movie in the occupied territory of Western Sahara, thus normalising the ongoing violence against the indigenous Sahrawi people. It is particularly galling that Nolan used this land simply as a visually striking backdrop for a film that centres, aggrandises and redeems the hero of a territorial war on account of his belated and partial acknowledgment of his own guilt.

Filmes que me fazem me sentir em casa

Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.

Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas.

Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme.

Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede.

Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço.


  1. Daguerreótipos (Agnès Varda, 1975)

O filme que me fez pensar nessa lista. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabeleireiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora.

Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como *Daguerreótipos*. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor. 2. **Meu Amigo Totoro** (Hayao Myazaki, 1988)

Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão.

Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo. 3. **Memórias de Ontem** (Isao Takahata, 1991)

Memórias de Ontem é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória.

(Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.) 4. **Amantes** (John Cassavetes, 1984)

Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em Amantes tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome.

Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma. 5. **Certas Mulheres** (Kelly Reichardt, 2016)

Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo.

Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, [eu escrevi][kelly]:   > Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar.

Isso é se sentir em casa. 6. **Onde Vivem Os Monstros** (Spike Jonze, 2009)

Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver.

Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O em *Food Is Still Hot*. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. 7. **Lovers Rock** (Steve McQueen, 2020)

Grace foge de casa de noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi.

*Lovers Rock* é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar. 8. **Todos Nós Desconhecidos** (Andrew Haigh, 2023)

Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil.

Em *Todos Nós Desconhecidos*, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos. 9. **Pequena Mamãe** (Céline Sciamma, 2021)

Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali.

Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.

Notas de diretores aos projecionistas

Gosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público.

Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz.

Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de A Árvore da Vida, de 2011:

Carta em papel timbrado da Fox Searchlight Pictures, intitulada Notice to Projectionists Regarding The Tree of Life. Assinada por Terrence Malick, diretor, a carta pede aos projecionistas atenção a detalhes técnicos como aspect ratio de 1:85, volume dos faders em no mínimo 7.5, lâmpadas a 5400 Kelvin com nível de foot Lambert em 14, e alerta que não há créditos iniciais no filme. O tom é respeitoso, chamando os projecionistas de os últimos artesãos remanescentes da exibição cinematográfica e encerrando com a fraternal salute.

Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico Barry Lyndon, e todas as suas especificidades:

Carta datilografada de 8 de dezembro de 1975, com o logotipo estilizado de Barry Lyndon no topo. Assinada à mão por Stanley Kubrick, a carta detalha em 10 pontos as instruções técnicas de projeção do filme, incluindo correção de erro nos dots de changeover do Reel 3B, aspect ratio de 1:1.66, luminosidade entre 15 e 18 foot lamberts, duração total de 184 minutos com intervalo no Reel 6, e instruções para uso de um LP com a trilha sonora durante o pré-filme e o intervalo.

Agora, sobre Cidade dos Sonhos, quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch:

Aviso em formato de pôster tipográfico, dirigido ao departamento de projeção, sobre o filme Mulholland Drive. Assinado à mão por David Lynch, o documento pede que o volume seja aumentado em 3dB acima do normal e que a imagem receba um pequeno headroom extra em relação ao enquadramento padrão 1:85, com um diagrama comparativo ilustrando o ajuste. O tom é direto e pessoal, abrindo com I understand this is an unusual request yet I do need your help e fechando com Your friend, David Lynch.

Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.

As cinco melhores coisas de 2025

Um elefante está sentadinho, olhando o pôr-do-sol. As nuvens formam
Ilistração por Raul (@raulranma)

Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 elas foram publicadas no Pão com Mortadela a do ano passado no meu blog pessoal. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no Irrelefante.

Eu vou mudar um pouco como essa lista é pensada esse ano. Ao invés de só considerar lançamentos, a lista desse ano também terá minhas descobertas favoritas. É uma mudança que ajuda a refletir como minha dieta cultural tá mudando com o tempo também: as vezes eu só consigo jogar um jogo anos depois dele ter sido lançado, ou vejo um filme décadas depois, explorando alguma recomendação antiga que recebi de alguém. Principalmente, eu descubro músicas favoritas lançadas antes mesmo de eu nascer, e raramente leio livros lançados no ano atual. Abrindo a lista para descobertas me permite escrever sobre meus livros favoritos do ano, e refletem melhor como eu escuto música ultimamente.

Talvez a mudança seja sentida menos em listas de filmes e séries, por exemplo. Boa parte da minha dieta cultural no cinema e na TV é de lançamentos, mas não se surpreenda se um filme dos anos 1940 ou uma série que você viu há muitos anos começar a aparecer nessas listas com o tempo.

Lembrando: embora o melhor de cada categoria seja destacado, as outras quatro recomendações estão em ordem alfabética.

(Meu muito obrigado ao Raul (@raulranma pela ilustração no topo desse post. Eu sempre peço as artes de última hora pro Raul e ele sempre arrasa, mesmo no prazo apertado. Ano que vem vou fazer diferente, Raul! Eu juro!)

Eu espero que você goste das sugestões e que essa lista te ajude a descobrir coisas bacanas em 2026. A gente se vê por lá.

O filme:

A nova obra-prima de Jafar Panahi, e talvez seu melhor filme para começar com a carreira do diretor até aqui. Um lindo exemplo de como o cinema iraniano emprega uma poesia visual que cinema nenhum do mundo consegue se equiparar, essa pequena história de um grupo de pessoas que acham que encontram seu torturador e discutem o que devem fazer com ele é assombroso — literalmente, seu final me assombra até hoje, por tudo o que ele não mostra e por tudo o que ele indica.

E também:

  • A Hora do Mal (Zach Cregger, 2025). O evento cinematográfico do ano para mim. Uma conquista ousada na direção, Zach Cregger tem o público na palma da mão enquanto navega pela vida de pessoas desesperadas tentando entender o que aconteceu com elas e com as crianças que desapareceram. A virada de faca no estômago no último ato é tão magnífica que quase ofusca as duas horas de perfeição que vieram antes dela.
  • Uma Batalha Após A Outra (Kelly Reichardt, 2025). Eu não estava esperando um filme tão tópico de Paul Thomas Anderson. Ele entrega um de seus filmes mais ousados, um filme de ação em que o motor é o amor de um pai por uma filha, mas que deixa pelo caminho histórias de revoluções implodidas e arrancadas das mãos das pessoas. É desesperador de assistir, mas tem um fiozinho de esperança tão lindo no final que traz aquele PTA romântico de Trama Fantasma de volta.
  • The Mastermind (Kelly Reichardt, 2025). Kelly Reichardt observa a pequenez do homem ressentido nesse filme de assalto em que, em um filme mais tradicional, um ex-filho prodígio deveria aprender a lidar com a própria mesquinharia. Não aqui: Reichardt leva o ex-artista, ex-arquiteto, agora-ladrão de Josh O’Connor até às últimas consequências do seu egoísmo, e desfere a ele um último golpe de justiça divina no final.
  • Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025). São poucos os filmes que sobrevivem à própria inspiração quando essa inspiração é o drama de Ingmar Bergman mas Joachim Trier consegue ao não confundir inspiração com emulação. Esse não é um filme bergmaniano, mas um filme que, como os de Bergman, se preocupa com as emoções mais ocultas, aquelas que nós fingimos que não sentimos, que escondemos sobre nossos outros sentimentos porque seria doloroso demais mostrar a saudade ao invés da raiva, ou a solidão ao invés do amor. Valor Sentimental é um filme que respira, que vibra, e que sente.

O jogo

As vezes, bem raramente, aparece um jogo como Despelote que consegue alcançar o que eu imagino que seja a ambição máxima de um game designer: de permitir que você sinta uma experiência além da sua própria vida através de novos olhos. Em Despelote, é a sensação de orgulho nacional quando a seleção de futebol avança para uma nova etapa na Copa do Mundo. Despelote é todo sobre o amor pelo futebol, pela forma como esse amor move sonhos e cria comunidades. É um jogo que me faz querer estar junto das pessoas, de sentir com elas, de tirar os calçados e sentir a textura do chão. Um dos melhores jogos que eu já joguei.

E também:

  • Blippo+ (Panic para Nintendo Switch, Playdate e PC). Uma das experiências mais mágicas que eu já tive foi ir visitar uns amigos dos meus pais que viviam em outro lugar e, numa noite mal dormida, ficar navegando na TV por canais estranhos, muito longe dos habituais 5, 7, 10, 12 e 14 da TV da minha casa. Blippo+ traduz essa experiência para um jogo, e traz de volta um pouco daquela TV feita na marra, de programas feitos por universidades regionais e colocados na TVE no meio da semana. É tudo tão estranho e tão lindo.
  • Blue Prince (Dogubomb para PlayStation, PC e Xbox). Antes de Despelote tomar o primeiro lugar, Blue Prince foi meu jogo do ano. Um mistério sobre como chegar na última sala de uma mansão com determinadas regras, me lembra muito de um outro jogo que eu amo e que é organizado proceduralmente, Dear Esther. É ótimo se sentir perdido nos corredores de Blue Prince.
  • Metroid Prime 4: Beyond _(Retro Games para Nintendo Switch). Insuportável o discurso ao redor do quarto _Metroid Prime, mas esse é o legado do primeiro jogo da série, uma perfeição que até hoje pouquíssimos jogos conseguiram alcançar. Beyond não chega nos altos do primeiro Prime, mas é um jogo de ação e exploração como poucos — explorar Viewros através dos olhos de Samus é uma das experiências mais bacanas que eu já tive, e o maior motivo hoje para ter um Nintendo Switch 2. É um jogo belíssimo.
  • To a T (uvula para PlayStation, PC e Xbox). Estranho, no melhor sentido em que um jogo pode ser estranho. To a T é um belíssimo jogo que consegue traduzir para a jogabilidade a sensação de ser estranho em uma situação, de não conseguir fazer do jeito que outras pessoas fazem. Nunca vi um jogo explorar as diferentes capacidades humanas na jogabilidade. Que bom que esse charme de jogo tem um olho apurado pra isso.

(Richard MacManus). Virou leitura obrigatória pra mim: de vez em quando, Richard MacManus publica uma cápsula do tempo para a internet que eu cresci. Ele já escreveu sobre como os blogs apareceram e cresceram. Como o RSS se formou. Como o Last.FM capturou algo quando as pessoas começaram a compartilhar o que ouviam. Ele chegou em 2003 agora, o mesmo ano em que eu comecei a usar o computador sem supervisão dos meus pais. Ele provavelmente não vai escrever sobre o Exchange do The Sims 2, mas acho que logo mais chegam os fóruns. Um momento na internet que eu presenciei, que eu participei e que eu adorei. Será que ele vai falar do Orkut também? Lembra quando a internet nos fascinava ao invés de nos ressentir? Esse espírito ainda existe, Cybercultural está me ajudando a reencontrá-lo.

E também:

  • “21 Facts About Throwing Good Parties” (Uri, Atom Bits). “Festas são um serviço público” é uma constatação que mudou um pouco a forma como eu vejo o porquê de eu gostar de receber meus amigos, de ver eles socializando, de estar feliz em ser uma boa casa para eles. Além de ser um ótimo ensaio sobre como uma festa presta um serviço à sociedade, traz dicas genuinamente boas para tornar as suas melhores (em resumo: faça as pessoas andarem pelo espaço).
  • “Notas sobre zumbis” (Aline, Le chouchou). Le chouchou é uma pérola. De vez em quando, Aline escreve sobre o ofício de ensinar uma língua nova. As vezes, ela aponta uma curiosidade sobre como a língua francesa evoluiu com o tempo. Nesse, ela observa a figura dos mortos-vivos, e encontra a comunhão que temos em como enxergamos a mortalidade e a saudade. Le chouchou sempre emociona.
  • Ringtones and Customization: Summer Yapfest 2025 (Never Post). Outra cápsula do tempo, esse episodio do Never Post, meu podcast favorito, é sobre como a gente podia personalizar tudo: de capinhas removíveis dos celulares a fundos na página do MySpace. Onde foi essa possibilidade de fazer as nossas coisas serem nossas? Como sempre, Never Post é revelador, divertido e um pouco triste demais. Bem como o fim do ano.
  • “You’re overspending because you lack values” (Sherry Ning). Venha para uma análise de como trocamos afeto por consumo. Fique pela resenha belíssima de A Viagem de Chihiro.

A música

(Anna von Hausswolff, do álbum ICONOCLASTS). Eu descobri ICONOCLASTS por acaso: lendo alguns comentários no Stereogum, pessoas estavam suplicando para que o autor de um post desse uma ouvida no novo álbum da sueca Anna von Hausswolff. Ainda bem que sou xereta e fui conferir, porque é um álbum transcendental: a música de von Hausswolff é imensa — uma composição de orquestra sinfônica, para traduzir a grandeza e a pequenez de seus pensamentos. A dobradinha “The Beast” e “Facing Atlas”, que abrem o disco, escancaram a metamorfose da grandeza de sensações que parecem que vão nos consumir em sentimentos que precisamos deixar passar.

E também:

  • “Left For Tomorrow” (Perfume Genius, Glory). É estranho como sentimentos e pensamentos podem ficar muito tempo na minha cabeça, sem nunca deixarmos eles respirarem, assumirem um pouco o nosso ponto de vista para que a gente possa sentir e pensar neles. “Left For Tomorrow” é uma música que parece um desses pensamentos: ela não começa e nem termina, é como se a gente só conseguisse apreciar um momento da música do excelente novo álbum do Perfume Genius antes dela voltar para o fundo da mente. Me lembrou de quando eu era pequeno, e eu viajava com meus pais para visitar os parentes e cochilava olhando para a janela, e ia acordando de vez em quando — as vastidões do pampa aparecendo e desaparecendo enquanto eu abria e fechava os olhos. Que música linda.
  • “Love Theme from the Robe” (Yusef Lateef, Eastern Sounds). Eu comecei a ouvir essa música muito antes de eu encontrar ela. A gente tava subindo uma das muitas escadarias de Valparaíso quando eu comecei a ouvir ela saindo de algum lugar. Conforme a gente seguia na rua, eu encontrei: um pequeno antiquário com um senhorzinho sentado numa cadeira de praia no fundo da loja, com o disco de Lateef tocando no vinil. O chiado era a maior parte da música, mas de alguma forma tudo isso parecia perfeito. Eu coloquei muitas vezes ela pra tocar depois desse dia, só pra lembrar desse momento perfeito que eu vivi.
  • “Minas Geraes” (Milton Nascimento, Geraes). Geraes provavelmente foi minha trilha-sonora do ano. O épico do interior do Brasil que Milton Nascimento fez no fim dos anos 1970 é genial. Sua música final, “Minas Geraes”, é uma música imensa: ela contém uma vida inteira, de um país inteiro. Ela usa toda a voz de Milton, para cantar todas as canções possíveis. Dá pra sentir o tempo passando ao nosso redor.
  • “Ruminating” (Lilly Allen, West End Girl). Nenhuma experiência é única mesmo. Eu já ouvi, senti, pensei muitas das coisas que Lilly Allen descreve no seu escandaloso disco novo. “Ruminating”, que transfere todo um fluxo de pensamento para uma música, sem edições, é cru e cruel para a própria protagonista. É quando ela faz graça dos seus próprios sentimentos. Nunca é mais doloroso, nem mais honesto, do que nesse momento.

A série

Foi um ano sensacional para a TV, daqueles que é difícil de escolher quais cinco séries eu vou escolher pra colocar na lista de fim de ano, e qual das cinco eu vou destacar. Eu bambeei durante o ano, porque teve muita coisa boa, mas ninguém tirou o reinado de Ruptura, que veio lá no início de 2025 e assombrou todo o meu ano.

Três anos depois da primeira temporada, eu tava curioso pra ver se Ruptura ia conseguir ser a série estranha mas apaixonante que foi em sua segunda temporada. Segundas temporadas são, eu acho, as mais difíceis de acertar: você precisa entender o que as pessoas gostaram na estréia, mas também precisa “explodir” a série para permitir que ela cresça para além da premissa original. E “explodir” é exatamente o que Ruptura faz em sua segunda temporada, e eu não tenho ideia de como a série vai seguir em frente quando voltar para seu (já confirmado) terceiro ano. O que importa aqui é que Ruptura conseguiu: pegando exatamente do gancho de onde paramos, a série se contorceu e se transformou em uma visão ainda mais madura e assombrosa da relação do ser humano com o trabalho — e encontrou, ali no meio, uma história de amor assombrosa de tão trágica. Nenhuma outra série esse ano foi tão bonita, tão audaciosa, e tão emocionante. Mas não foi por falta de tentativa.

E também:

  • Hal & Harper (minissérie, MUBI). Queria que não fosse uma minissérie, mas é uma pérola — Cooper Raiff cria uma das poucas históricas que conseguem enxergar como é difícil ser filho, de navegar pelas frustrações e expectativas de seus pais, mesmo quando crescemos.
  • Andor (2ª temporada, Disney+). Eu duvidava que iam conseguir, mas o segundo ano de Andor superou a já incrível primeira temporada, e é a melhor história do universo Star Wars, a ponto de ter estragado todo o resto um pouquinho. A gente se contentava com pouco. Andor entregou uma das visões mais didáticas sobre como o fascismo vence, e o custo que é revolucionar.
  • Pluribus (1ª temporada, Apple TV). Eu acho que todo mundo já viu Pluribus, mas se você não viu, eu não quero estragar a maior surpresa que você vai ter nesse ano. Eu não te duvido que ela seja a melhor série do ano na segunda temporada — é muito bem escrita, dirigida, montada e, principalmente, atuada. O tipo de série que a gente quer ir pro escritório conversar sobre com os colegas no dia seguinte. Nem parece feita no nosso tempo.
  • The Pitt (1ª temporada, HBO Max). Outra série que parece vinda de outro tempo: uma mistura de 24 Horas com Plantão Médico. Eu não sabia que eu queria algo assim, mas fiquei tão feliz que The Pitt entrega. Tem a crueza, a intensidade e a emoção do clássico drama médico; mas é nova, empolgante e audaciosa com sua estrutura narrativa. Louco pra ver a segunda temporada que estreia no início de 2026.

Ghibli Fest: Dia 10

Eu atrasei total esse post, e peço desculpas. Os últimos dias no trabalho — meus últimos dias na empresa que eu trabalhei pelos últimos anos — foram intensos.

Essa primeira etapa do Ghibli Fest acabou com dois filmes charmosos. Sussurros do Coração, que passou na terça-feira, é uma pérola. Um romance que tem um cenário tão marcante que eu nem sabia que ficava na memória com tanta intensidade: a loja de antiguidades que a protagonista Shizuku conhece depois de seguir um gato. Eu amo uma história de amor impossível, e a história de amor que Sussurros do Coração revela (não a dos protagonistas, mas a que existe nessa loja de antiguidades) é bem do tipinho que eu gosto. Toda a trama da frustração que é escrever também é muito a minha zona — e de uma especificidade deliciosa. O jeito como Shizuku parece aliviada a finalmente tirar essa história de dentro de si é linda.

Ponyo “anda” por cima dos espíritos do mar

Já Ponyo, que parece ser o menor filme do Miyazaki em escopo, também é uma pérola. Também é uma história de amor, bem A Pequena Sereia das ideias, mas é contada com tanto vigor e com tanta sinceridade que desarma qualquer um. Fora que a água é o cenário pra Miyazaki — a fluidez do movimento de seus filmes parece ainda maior quando tem líquidos envolvidos. É um bom filme pra acabar essa primeira parte da mostra, pensando em retrospecto. Não é A Viagem de Chihiro ou Totoro, mas deixa um gostinho de quero mais na boca, e uma satisfação no final da sessão. Bem aquilo que a gente quer.

Ghibli Fest: Dia 9

Desculpem a ausência ontem pra falar de Vidas ao Vento e Nausicaä do Vale do Vento. Eu acabei aproveitando pra assistir Uma Batalha Após A Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson (logo mais escrevo um pouquinho sobre o que é, provavelmente, o melhor filme que eu assisti esse ano).

Também tem um motivo de curadoria. Eu acho que A Viagem de Chihiro devia ser o último filme da primeira parte do Ghibli Fest. É um filme tão perfeito, tão definitivo, que não dá pra evitar uma certa decepção com o que vem a seguir, mesmo que os filmes que se seguiram na mostra sejam ótimos filmes.

Vidas ao Vento foi, por um pouco mais de uma década, o último filme de Hayao Miyazaki: uma carta de amor ao seu pai e ao conflito ético de ser um criador cujas criações destruiram vidas. O filme é muito lindo, como é de se esperar, mas é claramente um filme menor. As estruturas dos filmes de Miyazaki são movidas muito mais por sentimentos e um crescimento interno de seus personagens. A narrativa progride com uma lógica interna que, se você contar, parece que tá falando bobagem — ela só funciona nos filmes em si. Nesse caso, Vidas ao Vento é um filme menos inventivo, porque o caráter bibliográfico da história nunca bate bem com o fluxo narrativo que Miyazaki entrega, e um acaba interrompendo o outro. O Menino e a Garça parece muito mais um resumo da obra de um mestre que Vidas ao Vento. Não deixa de ser lindo e emocionante. Mas é aquele baque, depois de assistir uma obra-prima. Eu devia ter esperado mais um dia.

Nausicaä no meio de uma floresta de fungos gigantes

Nausicaä do Vale do Vento não tem o obstáculo estrutural que me incomoda em Vidas ao Vento, e não tem culpa também de existir Princesa Mononoke, uma versão muito mais impecável desse filme. Nausicaä foi feito um pouco antes do Studio Ghibli existir de fato, mas as preocupações que Miyazaki explora em sua carreira estão aqui: a ação regida pelo desenvolvimento emocional de sua protagonista mais do que progressão da história, o conflito entre o homem e a natureza, a conexão espiritual com o mundo e os seus mistérios. A animação já é surpreendente — desde cedo Miyazaki tem uma mão fantástica para criar esses mundos repletos de incertezas e caos, e cheios de beco sem saída que eu adoraria me perder. Não é tão impactante quanto Princesa Mononoke nem O Menino e a Garça, seus descententes mais semelhantes na filmografia do diretor, mas é ótimo mesmo assim.

Ghibli Fest: Dia 8

O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro não fazem sentido. Suas lógicas internas são incertas. As regras de seus mundos são inconstantes. O que uma pessoa vê na outra é um mistério. Nada faz muito sentido. Ainda bem.

O Castelo animado entre as montanhas

Em O Castelo Animado, uma chapeleira solitária é amaldiçoada e assume a forma de uma senhora de noventa anos. Ela foge para as Terras Devastadas, uma região longe da sua cidade, em um país que está em guerra com outro. Lá ela conhece Howl, e seu Castelo Animado. Ela forma uma família dentro daquele castelo, descobre a verdadeira natureza de seus sentimentos. Se apaixona, cruza dimensões, revela a verdadeira forma de um demônio e de um espantalho. Ela acaba se apaixonando por Howl, e ele acaba se apaixonando por ela também.

Não é o que acontece em O Castelo Animado que importa — mas como acontece. Sophie descobre que seus sentimentos importam, e que deve confiar neles. É uma lição simples, mas que reverbera a ponto de influenciar uma guerra inteira, a guiar um grupo de pessoas a formarem uma família. É um filme gigante — ele se extende em horizontes distantes, múltiplas cidades e linhas do tempo que se chocam. No centro de tudo isso, porém, está Sophie, que aprende a lidar com cada um dos sentimentos que ela aprendeu a reprimir — sua curiosidade, sua determinação, sua paixão. Todo esse mundo vasto e incerto vai ficando mais lindo conforme ela mesma vai se reconectando com seus sentimentos. Faz sentido porque o que Sophie sente faz sentido.

Chihiro olha um bonde passando no meio do mar durante a noite

Já A Viagem de Chihiro é uma obra-prima. E não faz sentido nenhum também: Chihiro e seus pais estão se mudando para uma nova cidade. Eles acabam cruzando o limiar e entrando no mundo dos kami. Os pais de Chihiro se comportam mal, e viram porcos. Para salvá-los, Chihiro precisa trabalhar para a bruxa Yubaba em sua casa de banhos.

As regras do lugar são incertas desde o início, e sempre que você acha que pegou o jeito, elas mudam. Mas Chihiro também muda. No início do filme, Chihiro mal sabe tudo o que está sentindo — ela está irritada de deixar os amigos pra trás, e o medo toma conta dela de tal maneira que ela mal consegue descer os degraus da escada que levará ela até o Kamaji. Quando ela toma a iniciativa de ajudar uma das fuligens a terminar seu trabalho, ela é movida pelos mesmos sentimentos grandiosos que ela sentia antes — compaixão, curiosidade, um pouco de medo. Mas ela age sobre eles, e então ganha a confiança do Kamaji. Ao usar seus sentimentos para guiar sua jornada, Chihiro vê seus colegas na casa de banho respeitando-a cada vez mais. Chihiro tem uma missão — duas, quando o filme acaba —, e sua determinação muda tudo dentro dela.

Muito de A Viagem de Chihiro é incompreensível. Por que as pernas de Chihiro param de funcionar? Por que o bebê de Yubaba é gigante? O que faz o selo de Zeniba? O filme passa por essas perguntas muito porque segue a lógica de um conto de fadas, que geralmente deixa mais dúvidas do que respostas em seu caminho; mas também passa por elas porque A Viagem de Chihiro tem confiança total em sua protagonista. Ela segue em frente em meio à essa incerteza toda. Não por falta de interesse, mas porque ela tem uma missão a cumprir. A menina que mal caminhava sem estar sendo carregada pelos pais anda descança pelos trilhos submersos no mar para pedir à uma bruxa a alma de seu amado de volta.

Todo A Viagem de Chihiro é perfeito, mas eu não consegui segurar a emoção quando Chihiro, Boo, o passarinho e o Sem Rosto pegam o trem e cruzam esse mundo de melancolia e solidão. As notas do piano na trilha de Joe Hisaishi parecem o vento noturno nas janelas do trem. Não tem sequência mais linda no cinema. Muito do que acontece ali é misterioso também. Tem a sombra de uma garota sozinha em uma estação de trem. Quem ela está esperando?

Nada disso faz sentido em A Viagem de Chihiro, mas tudo o que Chihiro sente faz. Desespero, medo, fascinação, confusão. E os filmes de Miyazaki são guiados pelos sentimentos de seus protagonistas, muito mais do que lógicas narrativas e arcos dramáticos. Seus vilões são temporários, as estruturas são impermanentes, e muitas vezes já viraram ruínas. Reinos e guerras mudam e acabam. Seus personagens tem apenas seus sentimentos como guia, e como companhia nesse mundo. São seus sentimentos que eles aprendem a entender e confiar. Não há um sentimento ruim — nem o medo, nem o desespero, são fúteis. Como as colinas gramadas gigantescas, os horizontes distantes, a mitologia incerta, os voos triunfais e a trilha de Joe Hisaishi, essa é uma das constantes do cinema de Hayao Miyazaki. E é o vento norte de sua obra-prima. Absurdamente mágico.

Ghibli Fest: Dia 7

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins é um absurdo. Quando eu vi esse filme pela primeira vez eu fiquei impressionado sobre quanto esse filme vai fundo na ideia, sem vergonha de parecer ridículo. É um épico de guerra que consegue, ao mesmo tempo, modular entre a devastação de um conflito e achar graça no comportamento preguiçoso dos seus personagens e seus sacos gigantes.

No meio de PomPoko tem o épico de guerra, a comédia de costumes, o filme de espião e o drama da imigração e assimilação. Sem mentira. E tem Takahata modulando estilos, criando três “camadas” visuais para cada estágio de transformação de um guaxinim. Desde o mais lúdico e fantástico ao mais realista (e triste).

Guaxinins observam casas durante a noite

É a segunda vez que eu assisto PomPoko no cinema. Ano passado a cinemateca exibiu esse filme, e eu fiquei impressionado com a beleza dos cenários no bosque em que os guaxinins, e como Takahata cria um baque quando esse cenário vaificando mais e mais concretado, quando as ruas começam a passar. Takahata trabalha com a mesma melancolia de Memórias de Ontem aqui — com personagens assimilando a transformação que eles vão precisar assumir para continuar existindo, ou o fim trágico que eles vão ter ao se negarem. Ele modula tão bem os aspectos lúdicos e trágicos desse filme que o finalzinho, quando vemos a família na cidade, eu não consigo evitar e choro toda a vez. É um filme triste, mesmo sendo engraçado, já PomPoko mostra logo cedo que essa guerra foi vencida antes mesmo de começar. É o que a derrota parece pros guaxinins que eu acho ainda mais desolador. Ainda bem que tem aquele epílogo, um suspiro no meio da tristeza.

Ghibli Fest: Dia 6

Revendo os filmes do Studio Ghibli assim, um atrás do outro, a gente querendo ou não fica fazendo paralelos e suposições. Por exemplo, os dois filmes menos excelentes até aqui — Eu Posso Ouvir o Oceano e Da Colina Korukiko — parecem querer muito beber da fonte de Memórias de Ontem, uma das pérolas do cinema de Isao Takahata.

Embora Miyazaki seja o mais conhecido dos mestres do Studio Ghibli, Takahata não fica atrás em termos de qualidade. Dos seus cinco filmes pro estúdio, eu acredito que no mínimo três são obras-primas tremendas. Seu primeiro filme, O Túmulo dos Vagalumes, é um dos manifestos mais tristes e lindos contra os horrores da guerra que eu já vi. Seu último filme, O Conto da Princesa Kaguyia, é uma obra de arte, uma viagem sensorial pelo infinito e pelos mistérios da nossa existência, pelos limites do que a gente consegue imaginar que existe no mundo. Amanhã tem sua outra obra prima, PomPoko. (Eu considero Meus Vizinhos, os Yamada outra obra-prima, mas sei que é uma opinião impopular).

Uma plantação de flores em meio às montanhas, com pessoas coletando elas

Embora seja um filme “menor” do diretor, Memórias de Ontem é um colosso de filme. Em uma viagem de verão, uma mulher vai ao campo ajudar em uma fazenda, o que a faz lembrar de sua infância. Ao invés de fazer as memórias serem puxadas por eventos relacionados no presente, Memórias de Ontem parece muito mais interessado em capturar aquele sentimento que a gente tem de quando uma memória rouba a nossa atenção e nossos sentidos. É lindo como Taeko que lembra da vez que provou um abacaxi, e Takahata faz questão de mostrar como a mãe corta a fruta para a filha, como um daqueles detalhes que a gente guarda na memória e que, parece, não fazem sentido.

É como esse apanhado de momentos “aleatórios” da infância de Taeko são usados pelo filme para nos informar quem é essa mulher, o que a frustra e o que ela sente falta, que torna Memórias de Ontem brilhante. Embora seja um filme acessível, como todos os do estúdio são, é um filme sem grandes sequências de aventura ou fantasia. Nem mesmo o ritmo é constante: assim como na vida, tem dias que Taeko está mais no passado do que no presente, enquanto tem dias que o presente chama mais a atenção. Em termos de animação, Takahata está no seu lado mais pé no chão aqui, como em Túmulo dos Vagalumes, mas ele aproveita a estrutura de memórias do filme para contornar esse passado em névoas, com espaços vazios que se desfazem nas bordas da tela — esse é um mundo que existe nos limites das sensações de Taeko, mais do que tudo.

Ghibli Fest: Dia 5

Ontem foi aniversário do meu pai, então não consegui passar no meu computador e escrever sobre o filme de ontem do festival, Da Colina Kokuriko, de Gorō Miyazaki. Também não vou dizer que fiz muita questão, já que o filme não é lá essas coisas. Ele é bonito, mas a melancolia que ele evoca é muito básica, nem parece ser do mesmo estúdio em que o eco do vento pode ser sentido no farfalhar da floresta do Meu Amigo Totoro. Sua narração torna a melancolia em texto, ao invés do subtexto com a qual os melhores filmes do estúdio parecem trabalhar. Te dizer que eu tentei ver esse filme duas vezes, e nas duas vezes eu cochilei. Nem no cinema eu me aguentei.

A família Yamada assistindo TV, com o pai do lado de fora de casa com cara de brabo

Já Meus Vizinhos, os Yamada é genial. Eu amo o trabalho do Takahata, e sua liberdade em usar traços e estilos de animação distintos para dar vida ao cotidiano dos Yamada é de uma delicadeza que eu acho que poucos filmes capturam toda a beleza que existe na dinâmica familiar, em todas as suas especificidades e problemas — os Yamada estão longe de serem amorosos, eles estão sempre implicando entre si. Mas Takahata cria as esquetes da família com tanta beleza e atenção aos detalhes mais básicos da convivência que transparece o carinho desses personagens pela dinâmica que eles criaram entre si. Tem sequências impagáveis, como quando eles esquecem a caçula no shopping, ou quando a mãe corre para recolher as roupas quando a chuva começa, e percebe que ela esqueceu de estendê-las. Ou aquela em que o pai se levanta e oferece para buscar algo caso alguem queira, só por educação. É tão mundano, mas tão lindo, que dá uma animada no meu próprio dia-a-dia. As duas sequências que abrem e fecham o filme, das histórias de casamento, são brilhantes. Um filme que eu amo rever. Amanhã tem Memórias de Ontem, outra obra-prima dele.

Ghibli Fest: Dia 4

O Serviço de Entregas da Kiki foi ontem, mas depois da sessão eu tinha um aniversário pra ir e só consegui sentar agora no computador pra escrever sobre. Mais uma sessão cheia — essa a gente sabia que tava esgotada já fazia uns dias. Tava chovendo bastante, e mesmo assim quase todo mundo veio. Só tinham uns dois ou três lugares vagos nas poltronas da primeira fileira.

É um show. Kiki não foi o filme que eu vi quando eu era criança, como eu suspeito que muitos na sessão tenham visto. Eu vi ele pela primeira vez alguns anos atrás, mas ele parece ser um ótimo filme para assistir na casa dos avós num sábado. Como outros filmes do Miyazaki, é um filme que voa: a história passa voando, por diversos personagens, sem nunca parecer apressado. Kiki apresenta as dinâmicas da vida de uma bruxa com tanta facilidade, e sem precisar parar a história, que é de dar inveja a qualquer roteirista. Ela precisa sair de casa, encontrar uma cidade sem bruxa, e oferecer seus serviços à população — e, consequentemente, amadurecer. É muito pesado para uma criança de 13 anos, e Miyazaki sabe disso! A conversa com Ursula, sobre como ela não consegue desenhar todos os dias, é de uma honestidade e franqueza que me tira o chão.

O Serviço de Entregas da Kiki acaba exatamente quando o conflito se resolve, mas eu acho que muito do que me chama a atenção no filme é o que está ao redor dele. Por exemplo, eu amo como o marido da Osono parece um durão mas fica andando pelo salão da padaria enquanto a Kiki não volta pra casa numa noite; ou todo o arco de romance do Jiji. É um filme repleto de pessoas queridas e simpáticas e que querem ajudar um ao outro. Não é a toa que a gente sai dele inspirado a fazer parte de um mundo melhor.

Ghibli Fest: Dia 3

Eu e o Tobias estávamos nas manifestações aqui da minha cidade contra a PEC da blindagem e do PL da anistia. Foi muito bonito, muito alegre. Pra uma cidade cada vez mais cinza, até o sol abriu. Deu um bocado de esperança ver toda aquela galera junta.

Algumas horas depois deixei o Tobias em casa pra ir na sessão do Ghibli Fest de hoje. Deu tempo de pegar um pastel no bar aqui do lado de casa e seguir caminho. É muito bom ser brasileiro.

Totoro, totorinho, totorinhoinho, Satsuki e Mei em cima da árvore gigante

Meu Amigo Totoro é um dos filmes mais importantes da minha vida. Eu fui uma criança muito assustada e calma, e meu desenho favorito era a fita VHS desse filme que ficava na casa da minha avó, e que eu via nos fins de semana que eu ficava lá. Totoro é um filme mágico, e revendo ele depois de muitos em muitos anos eu achei ele mais emocionante ainda. Nunca percebi o esforço que a Satsuki faz em parecer forte para a Mei, em fazer a irmã acreditar que tudo vai ficar bem enquanto ela em si tá com muito medo de perder a mãe.

Vai ver eu já tava no espírito quando eu entrei na sessão, mas tem muito do senso de comunidade de um vilarejo pequeno em Meu Amigo Totoro, que me lembra tanto a infância quanto o ditado de que “é preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” (que tem origem incerta). É preciso de uma cidadezinha inteira, tanto as pessoas quanto a natureza dela, para cuidar de Satsuki e Mei, e mesmo assim vão ter momentos em que elas vão se sentir sozinhas e desprotegidas. Sorte a delas de o Totoro estar por perto.

E visualmente lindo, caramba. Não é a toa que esse filme fica na memória. Miyazaki é o rei das transformações da matéria — de tornar o sólido em líquido, o rígido em maleável. O mundo se desdobra na nossa frente de formas absurdas e naturais ao mesmo tempo. A cena em que Mei conhece o Totoro, e adormece sobre ele tirou sorrisos e bocejos do melhor sentido: é um filme que nos deixa tão confortáveis naquele espaço, naquela lembrança de tudo o que a gente consegue ver quando somos crianças e que deixamos pelo caminho conforme vamos crescendo, que parece que o filme vai nos ninar.

É um dos melhores filmes que eu já vi. Era quando eu tinha seis anos, e continua sendo agora. Que bom ter reencontrado ele nesse diazinho perfeito.

Ghibli Fest: Dia 2

Porco apoiado na parede enquanto fala em um telefone público — ele tá com uma posa muito charmosa

Sessão cheíssima pra assistir a Porco Rosso: O Último Herói Romântico. Foi bem divertida também. Porco Rosso é muito engraçado, e a plateia tava bem a fim de rir. Por mais séria que a história se torna, a forma física do herói — ele é um porco! — sempre vira um motivo pra sorrir. E é divertido como Hayao Miyazaki usa essa forma pra brincar com nossas expectativas. Porco é sempre filmado em posições típicas de um galã de cinema, ele parece até se vestir como um Jean Garbin em Trágico Amanhecer (do Marcel Carné, 1939).

Dos filmes do Miyazaki, esse é um daqueles fascinantes em segredo. Não é sobre o protagonista tentando quebrar uma maldição, ou aprendendo a amar de novo, ou a confiar em outras pessoas. Tem tudo isso no filme, mas seu final melancólico parece virar toda essa aventura de ponta cabeça — esse desse ser um filme definidor pro Wes Anderson, que adora pregar essa mesma peça nos seus filmes e puxar o tapete do espectador nas cenas finais, e empurrar ele em uma maré de melancolia. Bom demais.

Ghibli Fest: Dia 1

Hoje foi o primeiro dia do Ghibli Fest aqui na Cinemateca Paulo Amorim. Eu vou ir em todas as sessões, e vou tentar escrever sobre todos os filmes (brevemente) aqui.

O filme de hoje foi Eu Posso Ouvir o Oceano, que o Studio Ghibli lançou originalmente em 1993. O filme é uma espécie de romance, uma espécie de filme de memória. Como romance ele não é muito bom, mas acho que é proposital: na história, dois amigos adolescentes se apaixonam pela colega nova na escola. Contando assim parece um triângulo amoroso, mas o diretor Tomomi Mochizuki não parece tão interessado nesse aspecto. Eu Posso Ouvir o Oceano é muito melhor como um filme de memórias, porque é mais preocupado em capturar como esses jovens são desajeitados em se expressarem e nas suas preocupações (a viagem de férias, o festival do colégio, as dinâmicas entre os grupinhos na escola) do que o que eles estão sentindo. Taku é extremamente desajeitado e incerto sobre seus sentimentos — ele age por impulso, tá sempre se apoiando em algo porque parece que nem os pés ele consegue segurar. Quando o salto temporal acontece, o filme fica muito melhor — e me faz querer que ele tivesse indo e vindo no tempo mais vezes. A dinâmica dos ex-colegas na noitada é muito específica para não ser baseada em fatos (eu mesmo já tive noites assim com amigos de infância).

Mochizuki e seus animadores também são muito bons em seus planos inseridos no meio da ação. As vezes é de um detalhe do cenário — como o corrimão de uma escada —, as vezes é do balançar da camisa de uma personagem e o que ela revela por baixo. Dá uma sensação de memória à flor da pele, quando a gente lembra da temperatura de um dia especial, ou do frescor do banheiro da casa de sua avó, que você não entra há muitos anos. São detalhes tão específicos, mas que elevam todo o filme com eles.

É um bom filme pra começar o festival. Não é o melhor, nem o pior, filme do estúdio. Mas é um bom exemplo de como o estúdio é capaz de trabalhar com personagens nem tão simpáticos assim. Nem Taku, nem Yutaka e muito menos Ritako são lá muito legais — mas cada um tá passando por algo nesse momento, e toda a esquisitice que eles aparentam em suas interações é muito honesta para a idade de seus personagens.

Eu peguei a sessão das 17h, então tô saindo mais cedo pra descer na Cinemateca. São dias assim que me fazem ser muito feliz em morar à algumas quadras do meu cinema favorito da cidade, e fazia um tempo que eu não pegava um filme depois do trabalho. Eu chego ali em menos de quinze minutos, e quando eu saio da sessão e cruzo a Andradas, o filme tá todo matutando na minha cabeça. Esse festival vai ser bom pra me deixar todo emocionadinho — são meus últimos dias na empresa que eu trabalho há quase cinco anos —, terminando meus dias saindo de filmes nostálgicos e melancólicos e cruzando pela minha parte favorita da cidade. Me fez lembrar, convenientemente, de quando eu era jovem e tinha a tarde livre para pegar filmes na Paulo Amorim, e voltava correndo para a rodoviária para pegar o ônibus pra minha cidade. A situação é invertida agora, mas a sensação de sair da sala de cinema no fim da tarde com os sentimentos aflorados é a mesma.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje o dia amanheceu cedo. Ontem eu levei o Tobias pra uma das minhas caminhadas longas, pensando que ele ia dormir até mais tarde hoje, mas me enganei. Eram seis e meia quando ele começou a pedir pra sair. Eu até consegui ficar na cama mais um pouquinho — mas não tanto quanto eu queria. Pelo menos o dia está bonito — o céu tá bem azul, e tá fresquinho (15°C). Eu quero aproveitar o máximo possível esse tempo ameno antes do calorão infernal de Porto Alegre começar.

Minha semana foi, ao mesmo tempo, muito longa e muito curta. Muito longa, porque as horas de trabalho foram sem sossego nenhum; muito curta, porque tive pouco tempo pra me divertir. Não consegui ler, porque quando caía na cama eu já pegava no sono (isso não justifica a completa ausência de um livro na dieta cultural dessa semana, eu sei), mas consegui caminhar todos os dias essa semana. Isso foi bacana, faziam meses que eu não conseguia bater o pé no chão e demandar esse tempo pras minhas caminhadas. Quero ver se a próxima semana me trata melhor, e se o tempo continua bom assim.

Filme: O Doce Amanhã.

Puta filme. Eu acho que não vi nenhum filme do Atom Egoyan antes, mas se eles forem tão bons quanto O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter, 1997), vou ter uma cambada de filme bom pra assistir daqui pra frente. Assisti porque foi o filme que o The Next Picture Show fez par com A Hora do Mal, e faz todo sentido. Ambos os filmes são sobre uma tragédia que acometeu as crianças de uma cidadezinha no interior, contados com idas e vindas temporais sob pontos de vida distintos. Se A Hora do Mal me lembrava The Leftovers, O Doce Amanhã foi uma inspiração de estrutura e de tom pra série.

Esse filme talvez a melhor descoberta que eu tive esse ano. É um filme frio e sombrio — quando você acha que a situação é ruim, ela fica pior —, mas O Doce Amanhã parece saber como modular seu tom muito bem. Embora todos os personagens estejam passando por uma barra, Egoyan ainda filma como essas pessoas ainda fazem parte de uma comunidade — e como essa comunidade é formada de indivíduos com seus próprios interesses. Assim como o tom, Egoyan modula muito bem o que é egoísmo e o que é senso de comunidade nessa tragédia.

Anos 90: a melhor década do cinema?

Jogo: Metroid Dread.

Eu ando bem negligente nos meus jogos. Comecei Ocarina of Time, A Link Between Worlds e Hollow Knight: Silksong nas últimas semanas, mas parei todos logo depois. Eu sou tão ruim em Silksong que eu mal cheguei no primeiro chefão antes de desistir e ir pra outra coisa. Silksong me deu vontade de dar mais uma chance à Metroid Dread (Switch), um metroidvania difícil, mas não tanto. E Dread fez muito mais sentido pra mim dessa vez. É difícil sim, mas a tentativa e o erro dos chefões faz mais sentido depois de ter jogado os Metroid Prime, que leva essa tentativa e erro para os ambientes também. Eu acho que esse jogo eu vou continuar até o final. É um jogo massa. A Samus é massa.

Eu fui especialmente negligente com minha ilha essa semana (falta de tempo, eu juro). Só iniciei New Horizons pra tomar café (Rooster é o meu melhor amigo) e tentar comprar uma obra de arte do Redd (a única original essa semana eu já tinha). Ontem de noite foi a única noite que eu tive mais tempo para dar oi pra todos os meus vizinhos. Ontem eu também joguei Breath of the Wild depois de umas duas semanas e iniciei a missão de Vah Ruta no Território Zora. Logo mais pego as flechas de raio.

Série: Mussolini: Filho do Século (primeiro episódio)

Não vi o episódio de Alien: Earth essa semana, talvez eu veja no fim de semana. Vou estar visitando meus pais e nossa assinatura do Disney+ fica na casa deles desde que a Disney bloqueou o compartilhamento de senhas. Essa semana eu terminei de rever a primeira temporada de Community.

Assisti o primeiro capítulo de Mussolini: O Filho do Século (na MUBI), a minissérie do Joe Wright. Gostei bastante do que a série ensaia nesse primeiro episódio — usar o carisma do ator para refletir o carisma que o facista teve na Itália, fazendo ele conversar com a audiência o tempo todo para “vender seu ponto”. Eu tenho um certo problema com bibliografias que se centram demais em seus personagens como as figuras públicas que eram, sem dar tempo para como eles eram ao redor de outros assuntos mais particulares, mas estou relevando isso por enquanto. É só o primeiro episódio.

É uma série que se assenta muito no discurso, Mussolini fala o tempo todo, seja pra agir ou pra explicar para a audiência o porque ele está fazendo tudo. Joe Wright parece saber disso, então preenche a série com seus visuais estonteantes. A cenografia é maravilhosa, o ritmo é muito bom, quase operístico. Ele encena muito bem — todos os seus filmes parecem ter aquele proscênio delimitado pela câmera, onde o mundo todo gira ao redor dela. Eu ainda quero ver ele voltar à fluidez do movimento que ele tinha de Orgulho & Preconceito (2005) até Hanna (2011).

Minha dieta cultural na última semana

O dia hoje tá lindo, e tá geladinho. Bem como eu gosto. Acho que eu vou pegar o Tobias e ir no Açorianos ler um livro de tarde. Tô pensando em voltar pro Feiticeiro de Terramar agora que terminei Uma Visão Pálida das Colinas, mas esse frescor no ar me pede uma história de mistério. Vou ver o que eu tenho aqui pra ler.

Como eu gosto do frio. Esse provavelmente é o último frio do ano — a primavera chega em algumas semanas, e os dias já estão mais quentes. Hoje amanheceu com 9°C, e eu aproveitei cada segundo tomando um café e vendo o sol se levantar. Vou sentir falta desse friozinho.

A semana foi corrida, profissionalmente falando (eu tô trocando de emprego, longa história), mas mesmo assim deu pra aproveitar bastante. Terminei um livro, vi três filmes (um dia eu alcanço os cinco ou seis por semana que eu via quando era jovem!), tô jogando um punhado de coisas… foi bom!

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro)

Amei. Eu terminei esse livro no sábado passado. Logo depois de terminar de escrever sobre a dieta cultural da semana. Eu achava que a puxada de tapete que acontece na metade da segunda parte do livro era quando Ishiguro ia tirar meu chão, mas ele deixa para as últimas palavras do penúltimo capítulo. Um absurdo de ler. Uma maravilha.

Uma Visão Pálida das Colinas se revela justamente nessa dificuldade de ver que o título sugere. É um livro embaçado e, quando o autor sugere que o que você está lendo é ainda mais incerto do que você imagina, o livro parece se embaçar ainda mais. É um feito difícil de conseguir: tornar a visão incerta do protagonista em algo ainda mais incerto sem que o leitor se sinta traído. Pelo contrário, ele prova nossas suspeitas aqui e ali, mas as peças não se encaixam perfeitamente, a sugestão ainda é imprecisa. Corta que é uma beleza.

Filmes: Interestelar (2014), Invocação do Mal 4: O Último Ritual (2025), Certas Mulheres (2014)

Entre sábado e domingo fez uma madrugada fria, e eu perdi o sono. Eu revi Certas Mulheres, um dos meus filmes favoritos, que é um filme calmo e frio, o que o torna uma boa cobertinha em noites em claro. Eu acho esse um filme perfeito, sutil em como a narrativa progride. Eu amo como a Kelly Reichardt observa essas mulheres trabalhando, se importando em capturar a textura de suas roupas, o frio do ar ao redor delas, o som das folhas e galhos quebrando aos seus pés, o ócio das suas noites. É um filme de solidões, é verdade. E é por isso que é tão lindo quando uma dessas personagens tenta se conectar com alguém. Um daqueles filmes que capturam um milagre.

Segunda-feira fui com a Deise rever o Interestelar do Christopher Nolan. Envelhece bem. Eu não sou o maior fã do diretor, e eu acho que ele precisa urgentemente de um roteirista. O início desse filme é Nolan no seu pior — cheio de frases de efeito que comprovam a inteligência do protagonista contra a burrice de todos os outros. Me fez querer ver Ad Astra de James Gray, um filme também cheio de clichês, mas que os usa para tornar o protagonista cada vez menor em meio à imensidão do espaço. O filme fica muito melhor quando vira um filme espacial de fato, e Nolan pode brincar com a relatividade do tempo, que ele ama tanto. Eu ainda acho que o melhor uso desse artifício ficou lá em O Grande Truque, de 2006, o único filme em que Nolan foi honesto consigo mesmo sobre suas pretenções como artista.

Me decepcionei pra caramba com o Invocação do Mal 4. Eu gosto muito desses filmes, o primeiro é um dos meus filmes de terror favoritos dos anos 2010. Em O Último Ritual, o diretor Michael Chaves tenta demais fazer uma continuação dos dois primeiros filmes da franquia depois do seu desastroso terceiro filme, que fugiu muito à fórmula, se centrando em uma assombração em uma casa. O Último Ritual não entrega nem uma família carismática mas claramente com outros problemas além de paranormais (que é o que faz o primeiro e segundo filme terem tanta textura em seus sustos), nem um bom fantasma. Não há análogo à Basheeba aqui, ou eu cochilei bem na hora que eles expliraram que demônio era esse (eu cochilei por uns 10 minutos nesse filme, eu acho). O filme não consegue unir bem o arco da família e dos Warren, e acaba esquecendo um ou outro por mais de meia hora, o que tira o impulso do filme. Alguém arrasta o James Wan de volta pra essa franquia, por favor.

Silksong chegou quinta-feira e eu sou um zero à esquerda nesse jogo, como de costume. Eu sou bem ruim em metroidvanias em geral, mas eu sou terrível em jogos difíceis. Eu gosto muito da ambientação do jogo, tanto visual quanto narrativa, então quero insistir um pouco. Eu acabei desistindo do Hollow Knight original por causa da dificuldade e acabei assistindo outras pessoas jogarem, mas Silksong tem a mesma qualidade de jogabilidade: os movimentos são bons demais, a resposta aos cliques é forte o suficiente… dá muita vontade de continuar. Inclusive: coisa boa poder pagar menos de 100 reais por um baita jogo.

Além dos jogos eternos que eu continuo jogando (Animal Crossing, Breath of the Wild), eu dei uma jogada em A Link Between Worlds, meu jogo favorito do 3DS. Eu amo como ele é um jogo perfeito para um portátil, e eu acho que é porque a distância do campo de visão é o ideal para esse jogo? Ele é, teoricamente, um jogo de mundo aberto como Breath of the Wild, e a posição da câmera sobre Link é longe o suficiente para sugerir os seus arredores, mas não o suficiente para te fazer questionar o que tem naquela montanha, como é em Breath of the Wild. Me fez sentir uma certa nostalgia por jogos de portátil, que possuem loops de jogabilidade bem sucintos. Sobre isso, Breath of the Wild é meio que excepcional. Seus loops de jogabilidade são modulares o suficiente para você ter objetivos tanto quando está jogando por 20 minutos quanto 12 horas — você quer terminar um shrine antes de dormir, mas tem toda uma montanha para explorar por horas a fio depois disso.

Também me fez querer que jogos do Switch fossem mais adaptativos quanto à como o jogador joga, em relação à câmera. Acho que eu ia ser legal ver mais do horizonte em um Super Mario em 3D quando eu estou jogando na tela grande, mas mais detalhes dos meus arredores quando eu tô jogando no modo portátil.

Séries: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 5), Community (primeira temporada)

Me sentindo meio culpado de ter gostado bem mais do quinto episódio de Alien: Earth depois das decepções dos três episódios anteriores… justamente porque a série praticamente só fez um filme de Alien redux. Eu ainda acho que a série quer muito fazer com o filme o que a série de Watchmen fez com o quadrinho, tanto que a estrutura é parecida. Estamos no meio da temporada e a série interrompe sua propulsão para voltar atrás, beber explicitamente da fonte original enquanto revela alguns detalhes que ainda não tinha largado pro espectador. Me parece muito This Extraordinary Being, o magnífico sexto episódio que revela as origens do Justiceiro Mascarado.

Continuo revendo Community (tô nostálgico!), e cheguei nos finalmentes da primeira temporada. Como essa série tem coração nesse início, não é a toa que essa primeira temporada garantiu duas renovações diretas. É o melhor momento tanto para Britta quanto para Chang, que continuam bons na segunda temporada mas degringolam para versões ininteligíveis deles mesmos depois disso. Passei pelo episódio do frango frito, inspirado nos filmes do Martin Scorsese, que eu acho que é um dos melhores episódios temáticos que a série entregou justamente pelo carinho que tem tanto pelos seus personagens quanto pela dinâmica entre eles. Esqueço sempre que esse episódio é a origem do Peitos da Annie, o macaco do Troy. Tô soltando uma risadinha só de escrever essa bobagem.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje tá um dia lindo e a temperatura está gostosa. 21°C e ensolarado, com uma brisa leve e gostosa. Vou passar a tarde na praça lendo com o Tobias… mas agora pela manhã, eu tô fazendo feijão. Ontem saí de um dia bem bomba porrada e tiro do trabalho e desci aqui no bar do lado de casa pra tomar uma cerveja com o Erê e me senti bem feliz por ser brasileiro. Sensação boa, essa.

Em outras realizações sobre ser brasileiro, eu decidi que Vale Tudo vai ser a última novela que eu vou acompanhar. Vale Tudo não é tão boa assim (é mais divertido assistir pra falar mal com os amigos) e gasto um tempinho pós-trabalho que eu queria gastar fazendo outras coisas. Como Vale Tudo deve acabar em setembro, e setembro tá logo ali, logo mais vou ter uma mudança na rotina. Vamos ver como vai mudar minha dieta cultural semanal. Vou avisando por aqui.

Filme: Wanda (1970).

Wanda é o único filme dirigido por Barbara Lorden, e que pecado isso, porque Wanda é magnífico. Eu descrevi pro Erê como se John Cassavetes tivesse dirigido o Acossado de Jean-Luc Godard, mas isso não faz justiça ao trabalho de Lorden na direção e na atuação. É justamente na confusão entre as duas coisas que o filme brilha: direção e atuação estão tão intrinsicamente ligadas nesse filme que parece que Lorden controla a câmera com seu olhar, de tanto que a imagem absorve seu estado de espírito em cena. É um filme tão perdido quanto sua personagem principal, que com sua falta de rumo acaba se relacionando com um assaltante e fugindo com ele. Mas Wanda não tem uma “trama” em si. Ela segue acontecimentos que em outros filmes talvez fossem becos sem saída. Mas aqui tudo revela algo sobre Wanda, mesmo que nem ela saiba o que é.

Jogo: The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D (Nintendo 3DS).

Comecei a jogar a versão para o Nintendo 3DS de Ocarina of Time, que eu considero a melhor versão do jogo. Eu tô bem no início — eu acabei de encontrar a Zelda e logo mais vou para Kakariko Village antes de seguir para a vila dos Gorons.

Sempre me esqueço como esse jogo é triste. Sua primeira missão acaba com a morte do seu mentor, e tem uma melancolia já na tela de start que define o tom do jogo todo, mesmo quando ele é bobo (Gorons!). Eu jogo ele no meu New 2DS, que eu particularmente acho o melhor videogame que a Nintendo já fez, e embora o jogo ainda tenha os visuais do Nintendo 64, eu acho ele lindo. Seu trabalho de animação é fantástico, e seu uso esparso das cores é muito inteligente (mesmo que tenha sido uma limitação de hardware). Eu geralmente empaco no reino dos Zoras, vou ver se dessa vez eu avanço mais.

Série: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 4).

O episódio dessa semana anda mais com a narrativa, mas eu ainda acho todo o uso da história de Peter Pan aqui meio cansativa. Não consigo parar de comparar com a série de Watchmen que a HBO lançou há uns anos e que usa uma paródia de American Horror Story para pontuar a série também. Mas lá era algo muito mais pontual. Em Alien: Earth a série para pra alinhar a analogia com os personagens o tempo todo. Pelo menos um Xenomorfo nasceu no fim desse episódio, o que é sempre um bom sinal. Logo mais começa o carnaval.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro).

Ok. Eu cheguei na parte que Ishiguro decide tirar seu chão. Eu tô nos finalmentes do livro. Pelo que diz o progresso no ebook, 68%, mas a progressão é muito rápida, acho que acabo ele esse fim de semana. É incrível como Ishiguro torna um livro bastante interno em um virador de página com muita facilidade. Acho que semana que vem já vou ter mais ideia de onde esse íntimo todo vai dar. Por mais que o livro esteja desabrochando agora, eu não tenho ideia de onde ele quer chegar (e que sentimento legal esse).

Minha dieta cultural na última semana

Tá chovendo bastante por aqui hoje. Dá pra ouvir o vento subir correndo a escadaria aqui do lado de casa. Não vou mentir, eu tava torcendo por essa chuva. Minha semana foi tão movimentada que eu tava torcendo por uma chuvinha pra me forçar a ficar quietinho em casa, tomando café e vendo Gilmore Girls.

Não quero prometer nada, mas quero escrever mais essa semana. Eu fiquei feliz de ter organizado meu tempo bem o suficiente pra conseguir caminhar todos os dias, e pra estudar francês todos os dias. Quem sabe eu vou conseguir escrever todos os dias mais pra frente? Não custa tentar.

Filme: Hard Truths.

Hard Truths (2024) é incrível. Eu amei toda a primeira parte, quando ele se estrutura de um jeito quase que como um filme de esquetes — vemos quatro mulheres, cada uma em um punhado de situações pequenas, e como elas reagem às adversidades dessas situações. Lentamente, Mike Leigh vai tecendo as tramas ao redor delas — as irmãs, a morte da mãe, a relação delas com suas respectivas famílias — sem pressa e sem julgamentos. Criamos uma antipatia tremenda (e muito bem humorada) com Pansy, uma mulher furiosa com sua própria vida e interpretada com uma força descomunal pela Marianne Jean-Baptiste (que se reúne com Leigh depois do magnífico Segredos e Mentiras). Ela é cruel com seu filho, com seu marido, com sua irmã, com suas sobrinhas, e com qualquer pessoa que ouse estar perto dela. Hard Truths é sensível o suficiente para nos mostrar as causas da dor de Pansy, mas não as vê como desculpa para a dor que ela aflige. É incrível, então, que ao final do filme você está aos prantos querendo o melhor para Pansy, que ela consiga se livrar dessa dor tremenda que ela carrega e que ela despeja por aí. Jogada de mestre.

Séries: Alien: Earth, Community.

Terceiro episódio de Alien: Earth não leva a lugar nenhum. Nem sempre isso é um problema. Várias séries se enriquecem em episódios onde “nada acontece” mas tudo acontece também. A gente conhece mais os personagens, ou a série aproveita a falta de movimento para aprofundar as dinâmicas. Não acontece aqui. “Metamorfose” (S01E03) só existe para jogar migalhas dos mistérios que já tínhamos pegado nos dois primeiros episódios — o que a Weyland-Yutani quer? Qual o limite da humanidade dos “meninos perdidos”? Até onde a série vai abraçar essa analogia com Peter Pan???… Meu pé atrás com o Noah Hawley tem seus motivos.

Comecei a rever Community (S01E01 — S01E03). Sempre me impressiono ao lembrar como a primeira temporada tem um coração gigante pra esses personagens. É uma temporada que mostra porque as pessoas se tornam amigas. Muito desse espírito se perde ali pela terceira temporada, quando ela abraça os episódios temáticos com força, mas é justamente o que deu a força pra Community ser o que quisesse em cada episódio.

Jogos: Herdling.

Tava empolgado fazia um tempo pra jogar Herdling (Okomotive), é um jogo em montanhas e me lembra muito os Andes. Eu acho que a versão pro Switch é bem ruim: tem problemas sérios de performance e as texturas parecem ser de jogo do Nintendo 64. Eu imagino que isso é fruto do fato de que o estúdio não recebeu dev kits do Switch 2 antes do lançamento do jogo, e eu espero que eles lancem algumas atualizações para melhorar a performance do jogo no console. Ele parece muito bonito, mas esse port é um pouco desleixado.

Além de Herdling, eu joguei os jogos da rotina também: Breath of the Wild (tô indo pro Domínio de Zora) e Animal Crossing: New Horizons (fiz nada na ilha essa semana, mas tentei pegar o Blue Marlin).

Música: Nina Simone, The Tomato Collection.

Encontrei o CD duplo da coletânea The Tomato Collection (1994) da Nina Simone essa semana. É o mesmo disco que toca durante os momentos finais de Antes do Pôr-do-Sol (Linklater, 2004). Esse CD não existe no Apple Music (e não existia no Spotify quando eu tinha uma conta lá), e a única cópia que encontrei para baixar tinha algumas faixas cortadas — “Porgy” e “But Beautiful”, e “When I Was In My Prime” tinha uma deforminade no final.

O CD, em dois volumes, tem um livreto com um ensaio sobre a curadoria da coleção, e tem algumas das minhas versões favoritas de “Just in Time” (a música que toca no filme do Linklater), “See-Line Woman” e “Ain’t Got No”. Acho que a maioria é ao vivo.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas.

Cheguei na metade do livro, começando a segunda parte, e ainda sinto que ele tá escondendo o jogo de mim. No outro livro de Ishiguro que eu li esse sentimento era comum também, mas a essa altura do livro já dava pra ver que o autor estava desenhando algo. Uma Visão Pálida das Colinas se limita tanto ao ponto de vista de sua protagonista que as limitações dela sobre as outras pessoas (seus anseios, suas frustrações) parece ser a própria história. Não é ruim em nenhuma página, vale dizer. É tão bom estar imerso na mente de Etsuko e naquilo que ela não sabe (principalmente as circunstâncias da vida e morte de sua filha mais velha, Keiko). Toda a realização que Etsuko tem é feita com sutilezas, como uma paisagem que se revela devagar na neblina. Eu ainda acho que o livro vai tirar o meu chão — e talvez o faça justamente dessa forma silenciosa.

Minha dieta cultural na última semana

Tem feito muito frio por aqui, mas tem feito sol. Então eu tento aproveitar o máximo de tempo que eu tenho na rua com o Tobias. O que me dá menos tempo na frente da TV (eu tô tentando ficar menos tempo sentado no sofá, porque eu acabo dormindo), e mais tempo caminhando pela cidade — a coisa que eu mais gosto de fazer de todas. Mesmo assim, consegui fazer minha rotina cultural bem certinha, e fui atualizando esse rascunho pela semana. Agora, sentado no fim da tarde de sábado, vertendo coriza e com uma dor de cabeça descomunal, eu consegui escrever essa introdução. Queria que ela fosse mais inteligente, comentando como foi meu dia (foi um bom dia!), mas o cansaço tá batendo. Talvez semana que vem…

Eu queria ter escrito isso pela manhã, mas eu fiquei tão doente nessa última semana que eu acordei às 9h parecendo que eu apanhei a noite inteira. E isso que eu ando dormindo todos os segundos possíveis. Não escrevi sobre nenhum disco porque eu ainda não parei de tocar Geraes o tempo inteiro. Que disco gigante.

Jogos: Breath of the Wild, New Horizons.

Nada de novo essa semana. Eu tive pouco tempo de jogar na segunda, o dia que eu “reservo” pra isso. O pouco tempo que tive foi fazendo as rondas na minha ilha em Animal Crossing: New Horizons (Switch 2). Eu também cheguei à Vila Kakariko e encontrei a Impa pela primeira vez em Breath of the Wild (também no Switch 2), e comecei meu rumo até Hateno. Eu gosto de fazer esse trajeto a pé, como eu fiz na primeira vez que eu joguei esse jogo. Mais pra frente, quando a gente domina o mapa, esse trajeto é bem curto e comum. Mas nesse início ele parece imenso e perigoso. Bacana demais as mudanças de perspectiva que BOTW provoca no jogador conforme ele vai dominando os sistemas do jogo.

Eu dei uma jogada no beta de Battlefield 6 (PlayStation 5) na sexta-feira. Eu sou péssimo em jogos de tiro. Eu também joguei um pouco de Hades (Switch 2), um jogo que eu jogo muito mas nunca fui muito longe. Dessa vez eu ativei o “modo deus”, porque eu sou péssimo em jogos e só quero me divertir e não me sentir um fracasso. Acho que gostei mais dele assim.

Filme: A Hora do Mal.

Coisa boa ver um filme-montanha-russa como A Hora do Mal (Weapons). Zach Cregger é um baita diretor, e modula o ritmo e o humor do filme pra atingir picos altíssimos até descarrilhar numa loucurada das boas e voltar pros eixos (aqui acaba a analogia com a montanha-russa). É muito bom, muito divertido e muito inesperado. O grande suspense do filme é apresentado no prólogo mesmo, e todo o resto é consequência. Eu amo filmes estruturados assim, dividindo a história em pontos de vista que circulam os mesmos eventos e progridem a narrativa um passo de cada vez. Me lembrou muito a segunda temporada de The Leftovers (HBO), tanto pela angústia dos personagens não saberem o que está acontecendo, quanto pela capacidade de mostrar com bom humor o absurdo da situação quando ela é apresentada por outro ponto de vista (e não existe um elogio melhor). Quando o filme realmente se revela, Cregger já nos tem presos nas mãos dele, e daí ele faz o que ele quiser — e que chacoalhada das boas que é.

Séries: A Idade Dourada, Alien: Earth.

Tô botando A Idade Dourada (HBO, terceira temporada) em dia. A série tá ainda melhor esse ano, com os conflitos confluindo mais naturalmente sem precisar de uma muleta como a guerra das óperas da temporada anterior: tem a crise financeira do George, o casamento da Gladys, a crise no casamento dos Russel. Marion ainda não tem muita história, mas acho que talvez emplaque algo na segunda metade da temporada (tô no quarto episódio ainda!) Eu gosto muito da observação da Kathryn VanArendonk para a Vulture que A Idade Dourada vive numa “zona infinitesimal de consequências”, e a grande sacada da série é de criar o suspense se algum evento vai abalar as estruturas rígidas dessa alta sociedade. Aqui, a todo o momento, parece que tudo está pra mudar, e é muito divertido ver essas mulheres segurando esse mundo no lugar com as próprias mãos.

Comecei os dois primeiros episódios de Alien: Earth (Disney+, primeira temporada). Por enquanto, parece uma mistura perfeita entre o Alien original (1979) e Aliens: O Resgate (1986): tem o terror de estar preso em um lugar com uma máquina de carnificina; e a ação de uma trupe de “heróis” querendo exterminar essa máquina. Eu ainda não abracei muito a analogia da corrida pela imortalidade das grandes corporações que compõem o futuro dessa série com a analogia à Peter Pan. Também tenho um pé atrás com o Noah Hawley: embora eu goste muito das três primeiras temporadas de Fargo e do piloto de Legião, essas séries se perdem muito depois do início e não conseguem parar em pé. Espero que Alien: Earth seja diferente.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas.

Hoje de tarde eu e o Tobias fomos na praça aproveitar o sol e tomar um ar fresco e eu comecei esse livro do Kazuo Ishiguro que carrego há anos no Kindle e nunca comecei a ler. Em duas horas eu engoli metade do livro. Ishiguro é sempre genial, e eu adoro mergulhar nos livros dele sem saber de absolutamente nada antes. A forma com que ele desdobra tanto o interior quanto o exterior dos seus personagens é fascinante — e tem uma limpidez na sua narrativa, que parece que enxugou todo o desnecessário ao redor sem tirar dele a riqueza dos detalhes. Eu ainda não tenho ideia de onde o livro, sobre uma mulher que relembra uma amizade de sua juventude após o suicídio de sua filha mais velha, quer chegar. Mas como em Não Me Abandone Jamais, eu tô adorando ser carregado pelo autor daqui pra lá com tanta delicadeza e com tanta força ao mesmo tempo que eu nem sei se quero descobrir o que ele tá aprontando tão cedo.

(Dei uma pausa no O Feiticeiro de Terramar essa semana pela densidade, meu trabalho tá muito puxado).

Minha dieta cultural na última semana

Eu vou tentar escrever toda semana sobre o que eu tô vendo, lendo, jogando e ouvindo. Eu parei de usar o Letterboxd há uns meses e sinto que eu tô esquecendo dos filmes que eu vejo. Não quero voltar para o Letterboxd por enquanto, então acho que uma boa solução é manter minhas impressões por aqui mesmo. A partir da semana que vem, esses resumos devem ser publicados no sábado pela manhã.

Jogos: skate., Time Flies.

Eu joguei bastante dois testes de jogabilidade: o novo skate. (PlayStation 5), que eu gostei bastante, e o playtest online da Nintendo (Switch 2), que eu ainda não sei o que é e não gostei muito. Eu não joguei os jogos anteriores de Skate pra poder falar, mas eu gostei da fluidez das manobras desse novo. Ele não tá nada otimizado ainda, mas se o mundo aberto tiver mais cheio de gente depois do lançamento (o acesso antecipado vai começar até o fim do ano), acho que vai ser um jogo legal de passar o tempo com os amigos no Discord.

Eu também joguei o curtíssimo Time Flies (Switch 2), e tem a chance dele chegar na minha lista de jogos favoritos no fim do ano (vai ser o segundo lançamento da Panic no top 5 se isso acontecer). É curtinho de propósito e eu achei bem emocionante — me lembrou muito de jogos que eu jogava no Kongregate, e é um grande elogio.

Jogos de rotina continuam sendo Breath of the Wild (recomecei pela enésima vez, mas agora com a desculpa de testar a edição pro Switch 2) e Animal Crossing: New Horizons. Minha ilha finalmente alcançou o nível da Léte original, que eu apaguei sem querer em 2023.

Filme: Amores Materialistas, Superman.

Eu adorei Amores Materialistas (Celine Song, 2025), o novo filme da diretora de Vidas Passadas (2023). Não despedaçou o meu coração como seu filme anterior, mas tem a mesma fluidez. Amei como Song apresenta a personagem da Dakota Johnson, uma verdadeira casamenteira, que procura pares para seus clientes se apaixonarem. Tem uma leveza na forma como Song move a câmera e o ritmo do filme que parece flutuar, o que conversa bem com o humor do filme também.

Gostei muito do novo Superman (James Gunn, 2025). Acho que tem o mesmo feito de Barbie (Greta Gerwig, 2023), de conseguir ser um bom arrasa-quarteirão que tem algo a dizer e que consegue não parar o filme em nenhum momento pra isso. Também assume a inteligência do espectador, o que poupa um bocado de tempo que blockbusters ultimamente parecem perder em tentar justificar ações de seus personagens. Aqui, tudo o que importa sobre esse Super-Homem a gente aprende nas ações e nas suas reações: ele ainda tá começando a ser um super-herói, e está aprendendo a entender onde está sua própria força. É uma ideia muito bacana e muitíssimo bem feita. Me lembrou muito da dinâmica familiar de Os Incríveis (Brad Bird, 2007) e dos desenhos animados de super-herói que davam sábado de manhã na TV. Acho esse o ritmo e o humor correto pro Super-Homem.

Também revi dois filmes: Orgulho e Preconceito (Joe Wrightm, 2005) e O Profeta (Jacques Audiard, 2009), dois favoritos. Wright era tão bom no início da carreira, dá uma tristeza de ver como sua direção ficou cheia de afetação a partir de Anna Karenina (2012). Ele traduz muito bem a fluidez da prosa de Austen em uma câmera que dança entre seus personagens em um filme que não para um segundo, e mesmo assim consegue respirar. Ainda acho O Profeta incrível (é a primeira vez que eu revejo ele em muitos anos). Sempre acho a transformaçào do protagonista em algo ao mesmo tempo inevitável e surpreendente. Dá pra saber logo no início que ele vai se transformar na prisão, mas é muito eficaz como Audiard transforma ele. (Pela primeira vez eu percebi que os intertítulos são, na verdade, a divisão de capítulos do filme…)

Livro: O Feiticeiro de Terramar.

Em 2021 eu li todos os livros do Ciclo Hainish, e agora eu tô começando a ler o ciclo Terramar da Ursula K. Le Guin. O Feiticeiro de Terramar ( ed. Morro Branco) é fundo. É um livro que se passa tanto dentro quanto fora da mente do protagonista, Ged, e é incrível como a escritora captura tão bem sua transformação tanto interna quanto externa, enquanto cria um mundo riquíssimo de histórias, lendas e tradições. Me lembra muito tanto o Princesa Mononoke (Hayao Myazaki, 1997) quanto Zelda na sua fantasia, que faz parte de um mundo que existe muito antes de nós entrarmos nele e continuará quando o livro acaba — e não cai na bobagem de querer contar a história de um escolhido. Algo que eu já sabia que ela evitaria por causa dos seus livros de ficção científica.

Tô lendo devagarinho.

Música: Geraes.

Não consigo parar de ouvir o Geraes (1976) do Milton Nascimento. Nada de novo… Milton cria músicas imensas, e Geraes parece ser a música do fundo das montanhas e do campo. Parece uma música que ecoa pra sempre nos lugares que ela foi cantada. A voz de Milton parece o próprio vento. “O Ceio da Terra” é lindo. (Dei o vinil pro meu pai do dia dos pais).

As cinco melhores coisas de 2024

Queridos,

Esse é o último post do ano. Que ano… talvez o mais estranho e difícil que eu tive até aqui. Mas o Tobias está melhor agora, e as contas estão em dia.

Agora é hora de uma antiga tradição que eu tinha no Pão com Mortadela de elencar os cinco destaques da minha dieta cultural do ano. Pela primeira vez, eu vou postar ela no meu site pessoal. Pela última vez, ela vai ser exclusiva de lançamentos do ano. Isso porque muito dos melhores filmes, jogos ou séries que eu encontrei esse ano são, na verdade, mais antigos. E não é que lançamentos não são tão bons quanto os clássicos — é que, conforme o tempo passa, eu tenho menos tempo para acompanhá-los, e muito do meu tempo livre hoje é botando em dia séries que eu queria ter visto antes, livros que eu queria ter lido antes, jogos que eu só consegui terminar agora, e por aí vai.

Então aí vão as cinco melhores coisas de 2024, e cinco outros filmes, jogos, séries, músicas e links que eu gostei bastante.

O filme

Que filme incrível. Uma história de amor tão misteriosa quanto saborosa de assistir. O filme de Tran Anh Hung parece ser um experimento molecular: ele aguça os sentidos com seus planos ao redor da cozinha, em que Juliette Binoche e Benoît Magimel quase dançam entre fornos e tábuas de cortar, entre as carnes e as massas e os legumes; e aquece o coração com uma paixão e um amor que surge entre cozinheiros. Narrado entre as estações do ano, O Sabor da Vida é um daqueles filmes impecáveis — seu diretor desenrola a estética do filme de uma maneira que revê-lo abre uma nova dimensão para o espectador. É um daqueles filmes que fica no nosso corpo.

E também:

  • Dahomey (Mati Diop, 2024). Uma fábula-documentário sobre artefatos que viajam da terra de seus colonizadores de volta para sua terra natal no oeste da África. Diop filma “a história” dessas peças saqueadas e retornadas — o que elas “viram”, do que elas “lembram”. O mais único, e mais especial, filme que eu vi esse ano.
  • La Chimera (Alice Rohrwacher, 2023). Rohrwacher faz filmes mágicos, e La Chimera talvez seja o melhor deles até aqui. Eu saí da sessão querendo viver nesse filme, uma colisão de passado e presente, de mito e de realidade, tradicional e inventivo.
  • Tudo Que Imaginamos Como Luz (Payal Kapadia, 2024). Um filme cheio de alma, e cheio de momentos de vidas. No plural. Retratando a imensa Mumbai, é um filme que nos isola em nossa solidão, em nosso íntimo. Dentre as milhões de histórias que participamos e assistimos, algumas são pérolas milagrosas como as desse filme.
  • Todos Nós Desconhecidos (Andrew Haigh, 2023). Um dos meus filmes favoritos. Eu escrevi sobre ele no Pão: é uma daquelas obras-primas extremamente íntimas. É algo surreal quando um diretor consegue ilustrar uma sensação tão interna, de desejo e de solidão, em um filme. Haigh conseguiu, de novo.

Música: “Clouding Clouds” (Sarah Neufeld, Richard Reed Parry & Rebecca Foon)

Clouding Clouds de Sarah Neufeld, Rebecca Foon & Richard Reed Parry no Apple Music

A música

Eu tava subindo os Andes ouvindo o First Sounds, o novo disco dos instrumentistas do Arcade Fire, quando a dobradinha “Clouding Clouds” e “First Sound” tocou. Tem algo de perfeito nesse momento: as cordas dos violinos pontuaram o dia nublado que cobria o céu e a pedra escura que formava aquele lugar — um mar de montanhas imensas, maiores do que qualquer coisa que eu já vi na minha vida. Envoltos em mistério, como essa música, que parece lapidada pelo próprio vento. Todo o First Sounds reflete o trabalho de Neufeld, Reed Parry e Foon nos seus primeiros anos de colaboração (o que explica alguns trabalhos que parecem terem vindo de Funeral), mas é o ambiente que eles criam — cheio de textura, de espaço entre os instrumentos — que tornaram esse o meu disco do ano, e foi o momento que tornou “Clouding Clouds” a sua música chave pra mim. É uma música que respira o ar que está ao nosso redor, e exala na nossa mente.

E também:

  • “Alone” (The Cure). Um disco novo totalmente tomado pela morte e pela solidão, e “Alone” talvez seja minha nova música favorita do The Cure. E que voz cristalina essa do Robert Smith, hm?
  • “Mary Boone” (Vampire Weekend). Como o novo álbum dos Yeah Yeah Yeahs antes, o Only God Is Above Us encontra o Vampire Weekend naquele momento que você percebe que eles amadureceram, como esse post no Bluesky consegue descrever tão bem. “Mary Boone” nos lembra do tipo de som que essa banda já fez — mas tem uma nova camada de maturidade em cima, que não a torna tão enérgica, mas adiciona uma profundidade no seu som.
  • “TEXAS HOLD’EM” (Beyoncé). Pra mim, Cowboy Carter entregou tudo o que Renaissance não tinha. Em “TEXAS HOLD’EM”, a Beyoncé encontra um ponto entre o que tornou seu Lemonade em uma obra-prima e seu I am… Sasha Fierce tão enérgico de ouvir. Tomou 1/3 do meu ano.
  • “VELUDO MARROM” (Liniker). Quando começa, “VELUDO MARROM” parece uma típica música de Liniker: uma descrição muito íntima de um momento que ela busca eternalizar. A descrição de um toque, de um beijo, de uma manhã. Mas quando a orquestra chega, Liniker explode a música aos quatro ventos em uma grandiosidade que eu não tinha ouvido ela manejar antes. Seu íntimo se transforma em transcendental.

A série

Alguém em Algum Lugar foi um daqueles milagres que são cada vez mais raros na TV: uma série sobre nada, falando em termos gerais; mas sobre tudo, em específico. Como Betty, era leve, mas nunca foge das imperfeições de suas personagens. Aqui, sobre um grupo de pessoas no interior do Kansas que se sentem fora de si encontram, entre eles, um lugar para chamar de seus. É uma última temporada que não parece um fim, o que é de partir o coração mas também honesta com essa série, esperançosa até seus últimos momentos.

E também:

  • Conan O’Brien Must Go (1ª temporada, HBO). Eu queria muito esse trabalho, encontrar uma desculpa pra viajar o mundo e fazer uma série sobre isso.
  • Ripley (minissérie, Netflix). A série mais linda do ano, as vezes até demais — distraindo da construção de personagem ou de trama porque estamos vislumbrando a beleza estonteante da série, até ela puxar seu tapete.
  • Sunny (1ª temporada, Apple TV+). Que ótima surpresa! Sunny parece um pouco como The Leftovers, um pouco como Westworld, se é que isso faz sentido. É divertido até ser triste, como The Leftovers; e tem o orçamento necessário pra fazer sua ficção científica funcionar, como Westworld — mas também tem aquela textura e vivência de filmes como Ela. Esperando muito a nova temporada.
  • Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (1ª temporada, Disney+). A maior série do ano e, eu acho, a próxima série essencial da TV. Assim como outras grandes séries, como Sopranos e Breaking Bad, a primeira temporada é excelente — mas é melhor ainda no que ela sugere: que será ainda maior, ainda mais profunda, nos anos seguintes. Eu mal posso esperar.

O jogo

Chegou no finzinho do ano, e roubou meu coração. Como os anteriores, Monument Valley 3 é lindo, mas também parece um milagre: ele te ensina a ver de novo, de novos jeitos. Virou uma rotina minha, todo dia de manhã tomar um café e brincar em seus quebra-cabeças arquitetônicos enquanto levo Noor de ilha a ilha, encontrando e formando uma comunidade na imensidão do oceano que tomou seu mundo. Como o original, é um jogo inesquecível.

E também:

  • Animal Well (Shared Memory, PC, PlayStation, Switch, Xbox). Um mistério em forma de metroidvania, Animal Well é o jogo mais impressionante que eu joguei esse ano. Um jogo que te ensina a jogar ele, e te ensina a jogar ele de uma forma completamente nova logo depois. Além disso, é belíssimo.
  • The Legend of Zelda: Echoes of Wisdom (Nintendo, Switch). Eu não tava esperando um novo Zelda esse ano, e nem um Zelda tão bom. Mas foi muito acertado os desenvolvedores voltarem para a fórmula mais clássica da franquia após Tears of the Kingdom e transcrever muito do que eles aprenderam no jogo anterior. É refrescante jogar um novo Zelda que parece, mas não é, aqueles Zeldas de quando eu cresci.
  • Thank Goodness You’re Here! (Coal Supper, PC/Mac, PlayStation e Switch). Mais jogos deviam ser uma comédia como esse “slapformer” de um homem visitando uma cidadezinha e as várias vinhetas das situações que ele encontra por lá. É curtinho, mas é uma delícia de jogar. Antes da chegada do novo Monument Valley, era o meu jogo do ano.
  • UFO 50 (Mossmouth, PC). Uma coletânea de jogos que reune um espírito de diversão, descoberta e experimentação que não se vê nos jogos de hoje em dia. Como os jogos da geração de 8-bit, cada jogo de UFO 50 é como aprender a jogar pela primeira vez de novo.

Eu venho lendo a The New Atlantis há um tempo, mas de alguma forma eu nunca tinha lido esse belíssimo artigo sobre a condição da existência dos elefantes (e de animais como um todo) em um planeta moldado por humanos. Não só a busca pela evidência de alma nessas criaturas magníficas, mas também a busca pela nossa responsabilidade ao moldarmos leis ao redor delas. Eu li esse artigo no avião, indo pro Chile, e chorei várias vezes. Pela beleza do que ele descreve — existe um mundo inteiro intocado e intocável por nós dentro do monumento que é um elefante — e pela atrocidade do sofrimento que causamos nesse mundo, para além da nossa compreensão.

E também:

  • “Madalena” (Le Chouchou). A Aline (@tdbem criou uma newsletter nesse ano e se tornou numa leitura obrigatória pra mim. Esse belíssimo texto sobre Em Busca do Tempo Perdido é um de seus melhores — nos dando um incentivo para ler a obra-prima, mas também nos indicando o que podemos encontrar por lá.
  • Never Post (podcast). Um novo podcast favorito! Never Post, um podcast sobre a internet, é como ler a Wikipédia: cheio de histórias surpreendentes, conexões inesperadas, e a lembrança de que são seres humanos, e não robôs, que criaram tudo isso. Experimente o episódio ao vivo na XOXO desse ano, é o melhor ponto de entrada.
  • “We need to rewild the internet” ((NOĒMA). A melhor descrição que eu já li para a internet está nesse texto — e a melhor descrição de como podemos tomá-la de volta também.
  • “‘Agora somos nós em um barco de resgate, tendo que contar ao mundo que estamos nos afogando’” (SUMAÚMA). Isso aconteceu esse ano. A cidade ainda cheira, ainda tem marcas. A SUMAÚMA registrou durante o ano a destruição e o descaso das enchentes no RS como nenhum outro lugar. Nesse artigo de relatos, eternizou a experiência do que foi. O silêncio da cidade ainda assombra.

É isso pra 2024.

Nos vemos no futuro.

Minha dieta cultural de janeiro

Eu tô bem contente com esse primeiro mês desde que eu comecei a minha nova “rotina cultural”. Não precisar escolher o que fazer no fim de cada dia liberou muito mais tempo para eu ler, ver e jogar mais. Por exemplo, embora o “dia de ler” seja na terça, o tempo que antes passaria decidindo o que ia fazer na quinta eu acabo usando para ler mais, etc.

Um outro efeito interessante dessa rotina: a pesquisa do filme que eu vou ver, ou do próximo livro que eu vou ler, virou uma diversão. Eu gosto de usar os intervalos do trabalho, ou o meu dia “livre” na sexta, para ler sobre um diretor ou um movimento do cinema que eu quero explorar nas próximas quartas, ou planejar a ida no cinema. É uma empolgaçãozinha que eu não sentia faz tempo. Essa rotina acabou me trazendo aquela curiosidade cultural que eu tinha de volta, e eu tô muito satisfeito com isso.

Enfim. Aí vai um resumo desse início de ano:

  • Filmes: eu corri atrás de alguns dos filmes do ano passado, como Folhas de Outono, Fale Comigo, Anatomia de uma Queda, a restauração de Tempo de Amar e o meu filme de aniversário (e novo favorito!), Segredos de um Escândalo. 2023 foi um bom ano pra filmes!
  • Jogos: pouquíssima coisa nova, eu voltei a jogar Breath of the Wild porque eu sou apaixonado pelo silêncio e a solidão desse jogo, algo que eu sinto falta em Tears of the Kingdom. Eu também dei uma explorada no catálogo do Apple Arcade e joguei um bocado de Outlanders e Japanese Rural Life Adventure. Os dois são joguinhos muito charmosos.
  • Séries: eu comecei a acompanhar a quarta temporada de True Detective, que arrasa (a única temporada boa da série desde a primeira), reprisei as segundas temporadas de The Bear e Somebody Somewhere, e acompanhei a primeira fase de Renascer. Acho que é a novela mais bonita que eu já vi.
  • Livros: eu comecei A Casa de Doces, a continuação espiritual do meu livro favorito (A Visita Cruel do Tempo). Os primeiros dois capítulos são frios demais pro meu gosto, mas logo que Sasha reaparece na história, Jennifer Egan dá aquela imensidão de escopo e emoção na história que atravessa décadas e dezenas de vidas. Ela ainda sabe capturar o tempo, e agora com aquele gostinho da tragédia da promessa do digital. Demorei, mas agora por fevereiro eu engatei nessa leitura.

As cinco melhores coisas de 2023

Ilustração: Raul Fontoura

Duas coisas que percebi fazendo a lista de fim de ano do Pão em 2023:

  1. Minha dieta cultural esse ano foi bem rala. Um pouco culpa do trabalho. Um pouco culpa de Eventos Acontecendo Em Minha Vida (contas).
  2. Eu desaprendi a escrever. Meu maior norte (conte o que acontece, não o que faz) ao escrever minhas resenhas não acontece nas cápsulas a seguir. Me desculpem, eu estou destreinado.

Eu escrevi pouco em 2023. E escrevi menos ainda sobre cultura em 2023. Não é culpa do que eu vi, joguei, li, ouvi, cliquei, etc. Escrever é terapêutico pra mim, mas muito desse último ano eu me descuidei da minha saúde mental, de desvendar o que eu estou sentindo. Eu também fui perdendo, aos poucos, a vontade de falar o que eu estou sentindo ou o que eu experimentei. É algo que eu quero mudar em 2024, e espero que meus queridos leitores, fieis escudeiros, estejam dispostos — eu estou empolgado para uma penca de filmes que vão estrear nos próximos três meses! Espero que estejam preparados para minhas péssimas opiniões!!

Enfim… não foi um ano ruim. Eu consegui realizar meu plano de assistir filmes majoritariamente no cinema, por exemplo. E de jogar quase todos os jogos que eu quis jogar. Eu tive tempo, e eu tive disposição. Mas eu não sei o que houve, mas na maioria das vezes eu não tinha palavras pra descrever o que eu sentia. É pura falta de prática. Como corrida, que eu também parei na segunda parte desse ano, eu só preciso exercitar um pouquinho mais pro ritmo das ideias voltarem. Eu só preciso me organizar. Eu planejo me organizar. Só essa semana eu escrevi bem mais que meses inteiros nesse último ano! Eu tô empolgado por 2024. Vocês acreditam que o blog vai fazer onze anos? Foi nessa idade que eu aprendi a ler!

O filme

Todo ano eu fico com esse questionamento. Meu filme do ano é a melhor experiência que eu tive no cinema (Barbie)? Ou é o filme que mais me deu material pra pensar (Tár)? Ou é o filme que simplesmente me conectou àquela cinefilia adormecida dentro de mim (Showing Up)?

Assassinos da Lua de Flores não é nenhum desses casos. Mas é o meu filme do ano. O filme que eu saí do cinema sabendo que uma parte de mim mudou, que uma parte de mim nunca tinha visto nada igual. Em parte, porque é um dos meus tipos de filme favorito: parece ser uma coisa, mas Scorsese está fazendo outra. E, quando a gente percebe o que ele está fazendo, o filme se abre na nossa frente. Parece mais um dos seus filmes de gângster, mas Assassinos da Lua de Flores é muito mais. É uma história de amor doentio, de uma ganância monstruosa, da beleza arrancada e perdida dos povos nativos. Tudo isso sob os olhos da melhor atriz de sua geração, com Lilly Gladstone entregando ondas de emoção inteiras através de seu olhar, impenetrável e dilacerante.

Tudo isso. Tudo isso enquanto Scorsese se questiona, o tempo todo e humildemente, se ele é capaz de contar essa história como deveria ser contada. Se ele tem o que é capaz de ver através dos olhos de sua protagonista como ele queria tanto ver. Se ele fez jus à história dela. Nem ele, o grande mestre do cinema ainda vivo, sabe responder. É uma cicatriz que ele deixa à mostra para seu espectador.

E também:

  • Barbie (Greta Gerwig, 2023). Provavelmente o filme do ano? Eu sou fascinado pelo cinema de Gerwig, que com apenas três filmes já tem o que é provavelmente a melhor adaptação de um livro para a tela, e agora esse feito inacreditável de um filme realmente questionador, usando o dinheiro de uma mega-corporação. Na primeira vez que eu assisti, ficava me perguntando como a Mattel permitiu um filme desses. Mas foi na segunda, no natal com minha família, que eu me deparei com o filme muito sensível que existe por baixo do conceito de fachada. Uma dramédia às avessas sobre pessoas não aceitando seu espaço na sociedade, e como elas agem para mudar. Umas se fingem de mortas, outras criam o patriarcado, outras conversam umas com as outras e mudam de pouquinho em pouquinho. Quero que o Caetano cresça com esse filme por perto.
  • Monster (Hirokazu Kore-eda, 2023). Até dezembro, Assassinos da Lua de Flores tinha o meu final favorito do ano. Mas Kore-eda fez o que eu achei impossível: um filme tão bem construído que a mera ideia de um final feliz parece um sonho. Não é só de final que Monster se sustenta, é claro. Talvez o melhor roteiro que eu já tenha visto em tela desde que David Fincher encarou o Facebook, aqui vários pontos de vista se juntam para moldar uma história que eu acharia um crime dar mais detalhes. Grande parte da beleza desse filme tão sensível, tão delicado, está na forma que Kore-eda desdobra-o em nossa frente, com sua precisão estética igualmente sensível. É avassalador, mas também sabe ser belíssimo.
  • Showing Up (Kelly Reichardt, 2022). Não tem nem previsão de estreia no Brasil, mas Showing Up é mais uma obra-prima de uma diretora que nunca fez um filme menos que impecável. Eu escrevi no meio do ano como esse filme parece conversar com uma parte de mim que acredita no processo artístico como uma forma de arte em si. Mas Showing Up não é tão chato: é uma comédia sobre uma mulher querendo fazer arte, mas a vida se intrometendo no meio. E é nesse vai-e-vem de vida e trabalho que Reichardt, com a ajuda de sua grande escudeira Michelle Williams, encontra sua arte. A arte do processo, das pequenas coisas, que se constroem devagar. Que preciosidade de filme.

Tár (Todd Field, 2022). Nenhum filme esse ano me deu material como o novo do Todd Field. Tár é um colosso de cinema, daqueles poucos filmes que tudo reverbera, que é difícil de apontar e classificar. E, ainda assim, é bem claro sobre o que ele quer: dissecar a alma de uma regente no topo do mundo, no seu poder máximo. Quando se tá no topo, porém, o único movimento possível é a queda. E Tár dá tons operísticos à queda de sua personagem título (Cate Blanchett, em uma performance pra vida toda). O verdadeiro filme ruminante — pra ficar mastigando por meses após visto.

O jogo

Eu me debati muito se Mario ou Zelda levariam esse ano, mas foi em uma breve conversa com o Erê, a qual transcreverei abaixo, em que isso foi decidido:

Arthur: É Mario ou Zelda?
Erê: Zelda, né?
Arthur: É, é Zelda.

Significativo, porque Tears of the Kingdom, a continuação do monumental Breath of the Wild, só fez sentido pra mim quando eu compartilhei o controle com o Erê, e nós tivemos algumas das madrugadas mais divertidas que eu tive em anos. Não só pra ver o que é possível de fazer nesse jogo gigantesco, mas também pra poder dividir essa aventura com alguém. TotK é um jogo de se criar histórias — sobre como você subiu aquela montanha, ou como construiu algo para enfrentar aquele quebra-cabeça — e depois contá-las, compartilhar notas e descobertas. É um jogo comunal, como seu antecessor foi, que expande e aprofunda os conceitos de BotW. Nem sempre de maneiras necessárias, mas sempre inesquecíveis.

E também:

  • Cocoon (Geometric Interactive; PlayStation, Switch, Windows, Xbox). Como seus antecessores, Limbo e Inside, Cocoon maneja entrar na sua mente. À primeira vista, parece ser um daqueles jogos que se joga automaticamente, que as respostas para seus quebra-cabeças são fáceis demais, ou lineares demais. Mas é a pura alquimia do próprio jogo: de apresentar seus conceitos tão bem e espaçá-los com uma cadência precisa para fazer você pensar na velocidade que seus desenvolvedores delimitaram. É uma delícia de jogar. De uma fluidez de botar inveja em muitos arrasa-quarteirão por aí.
  • Japanese Rural Life Adventure (GameSTART, Apple Arcade). Obrigado Victor, que me apresentou esse jogo depois de eu (finalmente) aposentar minha ilha em Animal Crossing. JRLA é, acredite, um Stardew Valley aperfeiçoado. Um simulador rural simples, mas charmoso, que me fez perder horas do meu dia enquanto eu tentava coletar bambu o suficiente para construir meu templo. Me fez querer ir morar numa fazenda no Japão, e a me questionar se minhas preocupações são realmente preocupações. Tá aí um novo objetivo de vida.
  • Lil Gator Game (MegaWobble; macOS, PlayStation, Switch, Windows, Xbox). Não foi só Breath of the Wild que ganhou continuação esse ano. Outro jogo seminal dos anos 2010, A Short Hike, ganhou uma sequência espiritual com esse jogo de aventura carismático e delicado. Inspirado em BotW e, de maneiras peculiares, Link’s Awakening, Lil Gator Game é uma aventura sobre um irmão se deparando com uma irmã que cresceu para além de suas brincadeiras de infância. Curtinho e lindo, foi uma boa entrada para o mundo de Zelda antes de Tears of the Kingdom chegar.
  • Super Mario Bros. Wonder (Nintendo, Switch). Esse é o melhor Super Mario desde Super Mario World (e tenho dito!!!), um jogo pingando criatividade e genialidade, imenso sem ser maçante. O único jogo que eu joguei esse ano em que eu cogitei que, talvez, tivesse superado TotK em sua engenhosidade. Em alguns momentos, eu ainda acho que sim. É tão — mas tão — divertido, de maneiras completamente inesperadas, que foi como jogar um Super Mario pela primeira vez outra vez. Que tipo de feito grandioso, e impossível, é esse?

A música

Sabe o que eu mais gosto nos mitos de criação? Como eles dão precisão para os verbos mais complicados. Atos como criar a luz, ou assoprar a vida, são maiores do que a minha cabeça pode compreender. Mas eles trazem essa complexidade inteira com um toque de fascínio, de mágica.

Foi exatamente o mesmo sentimento, de excitação, de presenciar essa mágica primordial que dá vida e que cria sentido, que eu senti ao ouvir The Great Collapse, uma das músicas que Joe Hisaishi compôs para O Menino e a Garça, pela primeira vez. Como ver alguém dobrar um origami na frente dos meus olhos pela primeira vez. Ver algo que eu não sabia o que seria ganhar forma, e então significado. Eu não sei exatamente o que é isso que se cria ao ouvir essa música. Mas ele é real, eu sinto ele no fundo do meu peito. No infinito da minha mente.

E também:

  • A Running Start (Sufjan Stevens, Javelin). O delicado novo álbum do Sufjan Stevens é pra se ouvir de manhã, tomando café. De certa forma, qualquer música dele poderia estar nessa lista (foi, e ainda é, um dos álbuns que eu mais ouvi logo depois de acordar nos sábados). Mas tem algo em A Running Start que me chama a atenção. Talvez seja o lampejo de animação, ou talvez seja porque ela me faz parar e prestar atenção, não só servir como música de fundo enquanto eu lavo a louça do café da manhã. É íntima, como todo Javelin, mas é estranhamente etérea, como uma música ambiente. Entra na pele.
  • Deceiver (M83, Fantasy). O novo álbum do M83 foi a trilha-sonora do meu ano. Deceiver, em especial, me acompanhou em dois dos momentos mais inesquecíveis que eu tive. Muito pelo fato de eu estar ouvindo a música certa na hora certa: o primeiro raio de sol em uma estrada infinita, e Anthony Gonzalez gritando “distance driver” com aquela imensidão musical que ele sabe criar? Foi a minha música do ano até o novo trabalho do Joe Hisaishi aparecer, quase que no último minuto.
  • Madrugada Maldita (FBC, O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta). A batida dessa música, a abertura do disco, é a mais contagiante que eu ouvi em anos. As letras continuam sendo o que menos me impressiona no trabalho de FBC, mas ele trabalha com o som que as acompanha em um espaço todo dele. Madrugada Maldita é uma daquelas músicas que eu não teria problema nenhum se durasse para sempre.
  • One Without (Oliver Coates, Aftersun). Provavelmente a música que eu mais ouvi esse ano, essa faixa da trilha-sonora de Aftersun me ajudou a decodificar o que torna o filme tão eficaz, e algo que eu tentei traduzir nesse texto. É um trabalho fantástico de entender o tom de um filme e transpô-lo para outro meio. É como ouvir a maré de um mar até então silencioso finalmente rugir.

A série

Talvez seja a resposta mais óbvia de se dar, mas também é a única que eu consigo. Misturando o tom farsesco com uma tragédia shakespereana, Succession finaliza com uma quarta temporada que alcança os pontos altos da segunda, e então os extravasa. Seja na perfeição de um episódio como Connor`s Wedding quanto a construção do arco narrativo que desemboca no devastador All The Bells Say, talvez a series finale mais emblemática desse lado de The Leftovers.

Succession sempre foi de difícil classificação. É uma série sobre seres humanos horríveis que, mesmo assim, nos força a ter empatia por suas dores (é o que nos diferencia deles, afinal de contas). É, também, uma comédia de erros, em que herdeiros se provam incapazes de navegar nos absurdos capitalistas que seu pai ajudou a fundar. É uma típica novela das oito, mas também é uma tragédia de como inescapável e destruidor pode ser o legado de nossas famílias em nós mesmos. É tudo isso, e é também uma baita duma série que me faz passar a vergonha alheia mais dolorosa, semanalmente. Vai fazer muita falta.

E também:

  • Alguém em Algum Lugar (2ª temporada, HBO). Já faz muito tempo que meu subgênero favorito da TV são as tragicomédias de meia-hora da HBO (Looking, Togetherness, Betty). Alguém em Algum Lugar talvez seja a melhor delas, e a sua segunda temporada aperfeiçoou os acertos da temporada anterior, expandindo a série em intensidade, e não em escopo. Uma série sobre procurar, encontrar e construir uma comunidade ao redor de si, é um deleite e uma preciosidade, sempre carismática e melancólica (e, quase sempre, as duas ao mesmo tempo).
  • Barry (4ª temporada, HBO). Por toda a sua trajetória na TV, Barry tem sido um joia oculta na programação. É uma comédia, mas não é engraçada. Na maior parte de suas duas últimas temporadas, é até muito depressiva. Mas é única e, se o experimento nem sempre funcionou (principalmente na terceira temporada), ainda assim entregou os episódios mais interessantes dos últimos anos. Unindo o cômico e o doloroso, Barry nunca perdeu o coração humano de seus personagens de vista. Não oferece nenhuma resposta fácil para os dilemas morais de um assassino arrependido, uma atriz arrependida, e um pai arrependido. Mas termina seus arcos com aquela precisão cirúrgica entre absurdo e humanismo em que Barry sempre encontrou algo de muito real.
  • Mrs. Davis (1ª temporada, seu torrent favorito). Que saudade que eu tava das séries de Damon Lindelof (The Leftovers, Watchmen). A estranheza perfeita. A construção de significados cumulativos através do tempo. O drama absurdo. O manejo entre a tragédia e a comédia. Não existem séries iguais às dele. Mrs. Davis, curtinha (vai ser uma antologia daqui pra frente), hilária e emocionalmente dilacerante em igual medida, faz as nossas perguntas difíceis que todo o mundo está com medo de fazer sobre IA. E as faz sem medo de olhar ao redor das respostas, e de questionar aquele belo e se que Lindelof sabe tão bem fazer. Aposta mais alto, e daí aposta mais alto ainda.
  • O Urso (2ª temporada, Star+). Das séries que parecem um milagre por existirem, O Urso mistura a comédia de espaço de trabalho com a tragédia da vida mundana. Todos os seus episódios beiram a perfeição (e Fishes e Forks a encontram), então é uma série boa de recomendar por momentos específicos. Para mim, porém, O Urso brilha pela construção, as vezes quase imperceptível, dos seus personagens. É uma série como as poucas que sabem construir e nutrir significado através do tempo. Seja com um talher, com um prato ou um jogo de olhares. O segredo de uma série que vai longe. Eu aceito, no mínimo, oito temporadas.

Me emociona toda a vez ler o relato sobre a morte da sumaúma. Um apelo à natureza, mas uma lembrança da nossa humanidade, capaz de velar a morte, mesmo daqueles tão diferentes de nós. Eu linkei pra esse texto no início do ano aqui no blog, e eu ainda paro para relê-lo de tempos em tempos.

Também me fez conhecer o site em si, SUMAÚMA, que se transformou em um dos meus feeds favoritos no meu RSS.

E também:

  • Aftermath. Meus escritores favoritos sobre jogos debandaram um a um, o Kotaku nos últimos anos. Foi difícil de acompanhar o trabalho deles desde então, em cadernos de jornais que foram terminados logo depois, ou em sites questionáveis. Um pouco disso porque textos sobre jogos ainda tem muito de publicidade, e o trabalho desse pessoal é questionador e difícil. Outro, porque jornalismo de jogos não é levado a sério, e publicações desistem logo que veem que a comunidade ao redor, geralmente avessa às críticas, tende ao violento. Aftermath segue o exemplo de Defector, e cria algo uma comunidade, sem publicidade, voltado para seus assinantes, e já tem alguns dos melhores textos desde o tempo deles no Kotaku. É bom ter eles de volta.
  • Everything is Alive Presents: The Animals. Pensando seriamente em tornar Everything is Alive um hors-concurs nessa categoria, porque todo o ano eles entregam um dos meus podcasts favoritos. Esse ano, um spin-off entrevista alguns animais sobre suas vidas, e o charme e deleite em encontrar humanidade em tudo continua. Curtinho, delicado e mágico, como sempre.
  • Radio Garden. Minha dificuldade de listar cinco músicas que me marcaram esse ano se deve ao Radio Garden, meu principal meio de ouvir música desde que eu o descobri: eu sintonizo em uma estação de rádio aleatória no mundo (eu ando gostando muito das rádios romenas, por algum motivo?), e fico ouvindo absurdos. Músicas que eu nunca vou ouvir de novo, comentários em idiomas que eu não entendo. Como a Wikipédia, o Radio Garden deixa o mundo grande.
  • The Retrievals. Desde a terceira temporada de Serial, a equipe de produtores e escritores vem trabalhando em minisséries que seguem a mesma linha do podcast-fenômeno: uma história, contada com maestria em vários episódios. Esse método produziu alguns dos melhores podcasts dos últimos anos, como S-Town e We Were Three. The Retrievals talvez seja o melhor até aqui, e o meu podcast favorito no ano. O caso de um crime médico em uma clínica de fertilidade nos EUA é surreal, mas em cinco episódios, The Retrievals torna a dor e a injustiça palpáveis.

É isso! Muito obrigado por esse décimo ano acompanhando esse espacinho na internet. Muito obrigado, especialmente, ao meu amigo Raul, que fez a ilustração de capa do post (e o sanduíche que você vê em todas as páginas desse blog).

Feliz 2024, nos vemos lá!

Ela

Scott Tobias, The Dissolve:

“Dramatizing one man’s love affair with a computer is only slightly less absurd than imagining a portal into John Malkovich’s head, but at a certain point, the whimsy gives way to raw desire and hurt. It’s a deft kind of magic.”

“Call it narcissism, but everyone seeks a partner who understands and appreciates them, and it’s only human that Theodore would fall for an entity that reflects his best image of himself.”

“If there’s a measure of hope to Her, it’s in the thought that we’re capable of learning lessons and evolving—maybe not as fast as Samantha, with her seemingly infinite processing power, but enough to understand ourselves and other human beings better the next time around.”

“There’s comedy in asking a computer how it feels, but the answer feels important, because Samantha has become every bit as real to the audience as she is to Theodore. Her is a reminder of how much love is a melding of psyches, and how the memories it produces can judder and lose resolution once it’s over. Whether it can transcend the body is another question, but the film’s stunning final shot implies an answer.”

A perfeição de Zodíaco

Emily St. James, Episodes:

The comfort in Zodiac is the comfort of doomerism, the idea that we are completely fucked, and it’s better to just admit it. The only people who matter are the monsters in the shadows who’ve broken the world and the people sitting right in front of you, who might be able to help you shine what meager light you possess into those shadows.

[…]

The kind of light dehumanization that peppers the edges of Zodiac’s frames is something we all practice from time to time. When you are engaged in a really intense conversation in a restaurant, the server might become an abstraction to you. You’re aware they’re there, but you’re also really locked in on what you and your friend are chatting about. This filtering of the world is normal, even healthy. Our brains have to shut out some information to make sense of what’s important to us in that moment.

Yet watch Zodiac again with an eye toward how Fincher utilizes this technique. The longer the movie goes on, the more other people only seem to exist as disconnected blobs in the background somewhere. The second you start to really look at them, you might start to think they mean to do something horrible to you. So you learn not to see them, and the world becomes a collection of scary stories waiting to happen.

O Assassino é “sigma cinema”

Max Read:

The killer thinks of himself as having an unmatched clarity about his life and the world, but the movie mostly regards him as self-deluded. He botches his hits, he forms attachments, he misunderstands his own importance. Rather than being freed by his careful planning and elaborately articulated life philosophy, he’s trapped by his own paranoias and resentments.

“The killer as sigma male” is obviously not the only way to read this movie; as suggested in the footnotes you could see it as an personal story about a fastidious craftsman learning his own limits, or also a movie about how annoying work is, especially as a contractor. (To quote the killer’s favorite band: “this position I’ve held/It pays my way and it corrodes my soul.”)

But I like the sigma male reading because it reminds us that throughout his career Fincher has been in dialogue with the concerns of 4chan and the rest of Loser Internet

To be clear, I don’t think that Fincher is endorsing these ideas, specifically–except for goth gf–just that he’s interested in exploring them and the kinds of characters who believe them.What’s particularly interesting for such an internet-y set of ideas is that Fincher doesn’t really make movies “about” the internet–even The Social Network was a lot more about ambition, sociopathy, and freak loners than it was about “the internet,” per se. Instead, he made a body of work around a set of broad social (and gender) anxieties that have been particularly shaped by digital culture.

More to the point, it reminds us that the killer and his sociopathic boorishness live in the same tech-wrecked world as the rest of us.

What we get instead of “action,” it turns out, is a lot of travel and logistical work, which suggests that the funniest way to read the movie is “autobiographically”: it is, after all, roughly two hours of an meticulous and obsessive freak planning and executing a tightly scheduled multi-city production.

As contradições no cerne de Assassinos da Lua de Flores

Soraya Roberts, no Defector:

The reason I keep thinking of that storm scene is because there seems to be a collective inability in our culture to sit in silence without saying something reflexively, particularly when that silence is pregnant with the kind of contradiction art is meant to produce. I know social media doesn’t exactly promote reticence or nuance of any kind, but this appears to be something more widespread. The compulsion to assess films, television series, music, books, anything, really, based on whether they are moral has leaked out of conservative enclaves into the mainstream. And just as equating the art with the artist has always struck me as a strange reduction, so too is equating the politics with the art

It’s hard to parse where this need for prescriptive morality comes from, particularly since prescription is the opposite of art’s intention. Art is intended to provoke questions, not provide answers. This new requirement for clear direction seems to have emerged not just from a culture which is in a constant panic over the prospect of being canceled—no matter how nebulous that threat is—but is also of a piece with the less abstract, more technical processing of art you find in fandom circles. These are places where explicit parameters must be set forth within which the audience then feels permitted to operate. This is an audience that needs rules, or else it doesn’t know how to react.

To read art is to be read by it. And the types who censor art are always the last to look in the mirror.

David Byrne sobre Jonathan Demme e Stop Making Sense

Jill Krajewski, para a Vulture:

“I realized that he was looking at it as an ensemble film,” said Byrne of the late director. “You have a bunch of actors, you get to know each character one by one, and then you watch how they all interact with one another. I thought, I’m in my own world, but he saw what was going on there.”

Os filmes de Kelly Reichardt oferecem um conforto estranho durante a quarentena

Wendy & Lucy (2008)

Eu me tornei fã de carteirinha da diretora americana Kelly Reichardt desde quando eu vi Certas Mulheres pela primeira vez, depois do meu amigo Leo recomendar o filme dizendo que “é exatamente o tipo de filme que eu gosto”. O Leo acertou em cheio, Certas Mulheres podia muito bem se chamar “Arthur Freitas Favorite Hits™”. Desde então eu assisti todos os outros filmes da diretora, e espero ansiosamente pelo First Cow que ela lançou ano passado.

Como todos meus filmes favoritos, eu revejo os filmes da Kelly Reichardt direto. Seja quando eles entram na seleção do MUBI ou quando acordo cedo num domingo (o meu momento favorito pra ver filmes é no domingo de manhã).

Não que seus filmes sejam feitos pra serem assistidos a qualquer momento. Pelo contrário. Eu acho que a melhor analogia que eu consigo pensar é que os filmes da diretora são como quando eu aprendi a tomar café. Eu odiava no início, porque era forte e o gosto não parecia com nada que eu tinha provado antes — por que diabos eu ia querer tomar aquilo?! —, mas então minha mãe me apresentou café com leite, e como café com leite era bom numa manhã de inverno. Tinha um momento certo pra aprender a gostar de café, e era aquele. Hoje eu continuo tomando café, não só nas manhãs de inverno, mas a ideia é a mesma: não é algo que eu queira tomar quando tô numa noite com amigos (embora já tenha acontecido), mas é perfeito pra aquecer a mente antes do trabalho ou pra baixar um almoço especialmente pesado.

Os filmes da Kelly Reichardt são assim também. Por um acaso o Leo acertou em cheio na recomendação e eu vi Certas Mulheres num momento perfeito pra ele. São filmes quietos e simples, mas nunca vazios e simplórios, sobre pessoas isoladas, literalmente ou não, que procuram desesperadamente por alguma conexão com alguém, ou que são incapazes de conseguir firmar uma conexão assim. São pequenas histórias de momentos breves não necessariamente de epifanias, mas daquela realização estranha de que se está vivo, um misto de empolgação pelas possibilidades, e frustração por tudo aquilo que deu errado, ou que nos segura em uma situação que queríamos que fosse melhor.

O Atalho (Meek’s Cutoff, 2010)

Em Wendy & Lucy (2008), talvez o melhor filme da diretora, Michelle Williams interpreta Wendy, uma mulher que está indo para o Alaska para procurar emprego acompanhada de sua cadela, Lucy. Wendy não tem dinheiro (ela está vivendo no próprio carro), e tenta roubar um saco de ração para Lucy, quando é pega e vai presa. Wendy passa a noite na cadeia, e quando volta Lucy está desaparecida. O filme então acompanha Wendy fazendo pequenas tarefas para tentar conseguir um pouco de dinheiro/descobrir onde está sua cadela/ocupar a cabeça pro desespero não bater. Se a trama parece que vai criar um thriller, Reichardt se recusa a criar a tensão necessária pelo gênero, preferindo acompanhar, com certa distância mas bastante identidade, Wendy fazendo o que pode: recolhendo latinhas por uns trocados, indo ao abrigo de animais para ter alguma notícia de Lucy.

Não é necessariamente calmante, porque é uma situação tensa, mas Wendy está segurando os nervos para não se desesperar, e Reichardt segura a reação emocional do espectador para acompanhá-la (ela guarda isso pro momento mais forte do filme, quando descobrimos o que aconteceu com Lucy). Acho que essa é a maior regra dos filmes da diretora, e o porquê eles oferecem um conforto nessa época de distanciamento: seus filmes se centram em observar pessoas sozinhas — física ou emocionalmente —, tentando viver mais um dia. E é na forma como elas passam esses dias, lavando a louça ou arando a terra, que é um tanto confortável de assistir. Mesmo quem divide a casa com alguém nessa quarentena, o quanto todos nós, em alguma medida, nos sentimos sozinhos, e damos atenção ao nosso cotidiano para não enlouquecer?

Em Antiga Alegria (Old Joy, 2006), o segundo filme da diretora, dois amigos que não se viam há muito tempo saem para acampar. É quando eles percebem que não têm muito mais em comum, e muito dessa viagem de fim de semana é passada no silêncio entre eles. Ainda há alguma coisa entre os dois — o resquício de uma amizade, ou a memória de algum tempo em que os dois passaram juntos —, mas Reichardt os observa montando uma barraca ou tomando banho nas piscinas térmicas de uma montanha. Ela observa o silêncio desconfortável dos dois, próximos um do outro, mas há anos de distância. Em Movimentos Noturnos (Night Moves, 2013), três ativistas planejam uma ação para chamar a atenção da população de uma cidade no interior dos EUA. É um thriller de cima abaixo, mas muito dele é feito com Reichardt observando as diferenças em como cada um dos personagens leva o plano em frente e como aquela missão em grupo significa coisas diferentes para cada um, que enfrentam dilemas sozinhos.

Certas Mulheres (Certain Women, 2016)

Muito pouco acontece nos filmes da Kelly Reichardt, e eu tô vendo essa torcida na cara que você tá fazendo agora, mas deixa eu te garantir: existe uma diferença entre cinema lento, que é o que Reichardt faz, e muito do que alguns diretores contemporâneos acham que estão fazendo. Um dos princípios do cinema lento, como o de diretores como Michelangelo Antonioni e Andrei Tarkovsky, é que pouquíssima coisa acontece na tela, mas tudo o que acontece é essencial. É um dos segredos de Stalker, um dos clássicos do cinema soviético, que observa a natureza se movimentar até que ela pareça estranha o suficiente para parecer ser de outro mundo.

Reichardt opera no nível desses mestres, mas se foca em detalhes muito menores do dia-a-dia, e isso é algo que tá me trazendo muito conforto nesses últimos dois meses. Eu sempre gostei de como ela enxerga, como ela quer ver seus personagens enfrentando o cotidiano, e a calma que ela tem para observá-los é quase que terapêutica: seja uma trupe de colonos que atravessa o deserto em O Atalho ou uma advogada passeando pelo shopping depois de um dia estressante em Certas Mulheres, Reichardt os acompanha nos detalhes: como os colonos vão atravessar uma duna se o gado não anda para trás; ou como Laura Dern termina de comer, olha ao redor e parece que o peso do mundo cai em suas costas.

Todos nós vivemos nossas pequenas comédias e tragédias do cotidiano, e nesse tempo que estamos passando em casa parece que nos força a parar de olhar lá pra fora, lá pro futuro, e ter que se deparar com aquilo que nós temos agora e quem somos agora. É exatamente esse tipo de realização que emana dos filmes de Reichardt, e ver essas pessoas enfrentando elas cada um do seu jeito, com diferentes níveis de sucesso, pelo menos tá me fazendo me sentir menos sozinho.