Eu já imaginava que isso ia acontecer: eu me diverti um bocado. Zach Cregger subiu pro topo da minha lista de diretores interessantes com seu magnífico A Hora do Mal, então eu estava bem empolgado pra ver ele usar seu bom humor e sua atenção para a tensão na adaptação de Resident Evil pro cinema.
É divertido demais. Captura muito bem duas experiências muito específicas: a primeira, de assistir alguém jogando, e você ficar pensando “não, pula ali”, “pega aquela arma”, “faz isso mais rápido”, etc.; a segunda, e talvez mais específica e especial pra mim, é que o filme traduz exatamente a minha experiência jogando esses jogos de terror. Eu me cago de medo. Eu ignoro qualquer instrução que o mundo do jogo pode tentar me indicar. Eu atiro pra todo o lado na expectativa de que, eventualmente, eu vá acertar o monstro. O Bryan é exatamente como eu controlo os personagens desses jogos.
Gosto muito como o filme também traduz a mecânica de jogabilidade aqui. O filme é composto por trilhas claras — a estrada, a casa, as ruas da cidade, etc. São “caminhos”, e não um jogo de mundo aberto. Isso nunca parece algo que limita a forma do filme, e sim dá a ele a propulsão necessária. A fuga do Bryan nos becos de Raccoon City, por exemplo, parece vinda direto de um jogo. Há um caminho claramente delineado pro que ele precisa pular sobre, se agachar e se esgueirar. Algumas das “dicas visuais” ele entende, outras ele ignora completamente. É um show.
Eu acho que o filme tem uma barriga quando chega na cidade, mas tudo bem. Eu quero mais blockbusters assim. Rápidos e que fazem uma coisa muito, muito bem. Cregger entende como usar o humor pra desarmar o espectador e, então, dar um cagaço logo em seguida. Funciona muito bem comigo, e me aproximou muito de um personagem que faz várias escolhas erradas nas melhores das intenções. Evita que a gente sinta que ele seja um personagem burro que merece a morte, como filmes de terror piores fazem, e sim como uma pessoa carismática que tá fazendo o possível no pior dia da vida dela.
O final tira toda a potência diretamente de INSIDE, um jogo maravilhoso. Não esperava que ia funcionar comigo mas funcionou muito bem. É uma tragédia em INSIDE, e aqui dá ao filme uma carga dramática que até então eu não tava sentindo.
Se for pra continuar fazendo filmes de jogos e quadrinhos e tudo o mais, que seja assim: uma perspectiva nova e atenta, com pulso de um grande diretor interessado em nos fazer sentir algo.