Acho que acabei de ver um dos meus filmes favoritos. El Sur é magnífico. Um filme com a textura das memórias tão distantes que quase parecem sonhos.
El Sur captura uma melancolia que me bate sempre que vejo meus pais e percebo que eu não os conheço. Pelo menos não totalmente. Eu conheço histórias da infância e da juventude deles quase que por acaso, através de relatos de outras pessoas — o primeiro grande amor do meu pai, ou quando minha mãe fugiu de casa. Eles nunca falaram dessas coisas pra mim, mas eu sei porque uma tia, ou um amigo de infância deles, deixou escapar.
Tem isso em El Sur, o exato momento que Estrella deixa de ser criança: quando ela percebe que seus pais escondem dela uma vida inteira antes dela, e que ela começa a esconder deles a sua própria vida particular. É lindo como Víctor Erice preenche os espaços entre essas pessoas de sombras. As vezes elas consomem todo o quadro, as vezes uma luz irrompe e revela algo a mais. Mas a sombra está sempre lá — um lembrete de tudo aquilo que não sabemos nem saberemos das pessoas que amamos e que nos amam.