Adoro quando acontece dessas: ver um dos meus filmes favoritos no meu cineminha favorito da cidade.

Asfixiante e exaustivo, Cassavetes é implacável: tem pouco tempo para relaxar nas mais de duas horas e meia de Uma Mulher Sob Influência. Sempre me surpreende o quanto eu esqueço desse filme, mas eu acho que a culpa é da Gena Rowlands. Não que ela roube toda a atenção do filme, mas porque ela está trabalhando em tantos níveis aqui que, mesmo que Cassavetes esteja dirigindo à altura, a gente se perde no rosto dela. Na forma como o olhar dela foge e busca por alguma ajuda, algum conforto.

Ao mesmo tempo, filmes de ator assim têm o risco gigante de parecerem uma jaula, em que uma grande atuação está presa em uma direção contida, comportada, que não quer chamar tanta atenção para não roubar o brilho da atuação central. Não aqui: Cassavetes faz a gente enxergar o colosso que é o trabalho de Rowlands, e faz sua ausência ser sentida em todo o momento. É um retrato poderoso daquilo que é mais amedrontador na humanidade: tudo aquilo que não conseguimos compreender um ao outro plenamente, por mais que a gente tente desesperadamente se expressar. Mabel precisa de ajuda, mas todos ao redor são incapazes de perceber de que ajuda, e de que carinho, ela precisa e procura. Ao mesmo tempo, ninguém está disposto a ver que Nick, também, precisa de ajuda — ou sequer que há algo de errado em como ele está reagindo a como ele esfarela a vida das pessoas ao seu redor.

Que filme colossal. Muitos outros filmes depois desse tentam traduzir a incapacidade de um casal de se comunicar na totalidade que a gente gostaria em um relacionamento. Muitos outros tentam explorar a figura misteriosa de uma mulher enjaulada na vida alienante do subúrbio. Nenhum deles alcança a profundidade de Rowlands pedindo ao pai para apoiá-la, em um jogo de palavras tão bonito, e tão desesperador em como não é compreendido. Uma atuação tão cheia de grandes gestos e dos menores suspiros.

Tá aí um bom objetivo de relacionamento: confiar no seu parceiro tanto quanto Cassavetes e Rowlands confiaram um ao outro pra se expor num trabalho tão visceral, e acreditar que o outro vai estar lá para ajudar — ou simplesmente prestar atenção, e enxergar com cuidado.