Eu tenho um carinho especial por filmes sobre as “gerações perdidas”, com seus personagens sem grandes ambições, ou sem rumo e sem expectativas de encontrar um. Eu gosto como Betty Blue, o clássico de Jean-Jacques Beineix, é um romance de duas pessoas que não conseguem enxergar um futuro pra si. Os horizontes desses filmes tendem a ser imensos, embora vazios — as pessoas que habitam esses lugares podem ir pra qualquer lugar, mas isso não significa que tem algo à sua espera.
Esse é o segundo filme de Reichardt sobre uma geração perdida. Seu filme anterior, o maravilhoso Showing Up, se passa nos dias atuais, e sua protagonista interpretada por Michelle Williams até tem ambições e expectativas, mas ela vive em um mundo onde espera-se cada vez mais dela e que retribui cada vez menos. O trabalho dela, uma artista-formiguinha, que está sempre fazendo algo mais por necessidade do que por gratificação, não tem perspectivas sobre ter a estabilidade que os pais tiveram, ou a chance de comprar uma casa própria que seja. Tudo é precário e incerto.
The Mastermind parece complementar Showing Up ao apresentar a situação inversa, em uma outra geração perdida — a dos jovens que ficaram nos EUA durante a guerra contra o Vietnã. As cidades pequenas que JB cruza enquanto foge de um roubo que deu errado parecem todas cidades fantasmas, com poucas almas ocupando elas. Pessoas que o próprio país parece ter deixado para trás enquanto buscava conquistas lá fora.
O JB de Josh O’Connor (excelente e charmoso demais, chegava a me distrair) tem suas pretensões, como a Lizzy de Michelle Williams no outro filme. Mas o que ela tem de determinação, ele tem de preguiça e desleixo. O fruto de um lar mais abastado (seu pai é um juiz), JB parece muito aqueles jovens que nunca tentaram muito antes de insistir derrota, de argumentar que o mundo agia contra eles. Isso reflete no péssimo plano que ele traça para roubar quatro pinturas de Arthur Dove do museu local que move o filme pra frente; mas também na forma como ele trata sua esposa e seus dois filhos, que fincam os dois pés de The Mastermind nos detalhes.
Todo o filme de Kelly Reichardt é feito desses detalhes, dessa textura quase tátil entre os menores detalhes em cena. É o que faz seus filmes, na maioria das vezes lentos e esparsos, parecerem tão cheios de vida. Reichardt observa a languidez com que JB percorre o corredor de sua casa, desinteressado por tudo à sua volta, e se preocupa não só com a forma com que ele caminha, mas como ele tropeça nas coisas ao redor, como seus filhos o enxergam ir de um lado pro outro. É o que faz filmes sobre momentos tão breves como os que Reichardt filma me assombrarem. Ela parece mexer na estrutura das minhas próprias moléculas.
Todo o primeiro ato de The Mastermind me fez pensar que esse seria um filme dos irmãos Cohen dirigido por Reichardt. É engraçada a forma com que a comédia de erros se desenvolve, no ritmo que a diretora quer. Os detalhes que ela pega com sua câmera e com seu som (que faz um desenho de som espetacular, que eu acho que pouquíssimos entendem como fazer tão bem como ela), da demora pra abrir a vidraça de um porta-malas ao som de uma escada caindo a um porco entrando em um enquadramento tornando-o perfeito (provavelmente meu plano do ano), são feitos com a mesma delicadeza com que ela observa o dia-a-dia de suas protagonistas em Certas Mulheres.
Mas The Mastermind se transforma, na sua segunda metade no trajeto cambaleante de JB. Em busca do quê, exatamente, nem ele sabe. A falta de perspectiva, e de vontade, que traz graça à primeira metade do filme pesa nas costas do protagonista, como a tragédia de um país inteiro que (seja para um preguiçoso como JB ou uma artista dedicada como Lizzy) é incapaz de oferecer algum tipo de sonho, de possibilidade. Diferentemente de Lizzy, porém, JB não se permitiu encontrar um pouco de alento nas pessoas que cruzaram seu caminho. Ele cambaleia e segue em frente, perdido.