Posts sobre comportamento

Pessoas que pensam antes cortam a grama melhor depois

A edição mais recente do The Pudding é sobre cortar grama, mas na verdade é sobre produtividade, e como o nosso cérebro é, na grande maioria das vezes, tão eficiente quanto um computador para problemas computacionais. É super divertido ler sobre os resultados da pesquisa enquanto você mesmo tenta resolver as grades de grama que precisa cortar com o menor número possível de movimentos.

Uma das coisas mais interessantes nesse texto, pra mim, é a observação de quando o jogador está pensando (e como esse tempo pensando resulta em um melhor resultado no fim do experimento).

The HTML Review, nº 5

Saiu o novo volume da The HTML Review, uma revista sobre a internet feita à mão. Como todos os anos, ela é cheia de pequenos experimentos.

Toda a HTML Review é especial. Eu recomendo começar sempre da primeira página e ir seguindo, como se folheasse uma revista mesmo. Eu ainda tô adentrando essa edição, mas duas seções me cativaram muito:

  • Tell umma I’m walking to Baekdusan, um ensaio de Anne Lee Steele sobre a relação entre a sua “psicogeografia” e o próprio computador.
  • from mine to yours, um “monólogo interno” de Quennie Wu em uma caminhada. Acho que nada, em toda a minha vida, capturou tão bem a sensação que eu tenho de caminhar — um hábito que eu não perco por nada.

Bom sábado!

Software simples

Eu tô tentando zerar minha lista de leitura. Ela tem 209 links para ler, catalogar e arquivar. Pra me forçar a ler um pouco todo o dia, vou começar a postar aqui o que eu estou lendo, e talvez um comentário ou destaques.

Hoje, foi TextEdit and the Relief of Simple Software, no The New Yorker.

Kyle Chayka:

Amid the accelerating automation of our computers—and the proliferation of assistants and companions and agents designed to execute tasks for us—I’ve been thinking more about the desktop that’s hidden in the background of the laptop I use every day. […]

Over the past few years, I’ve found myself relying on TextEdit more as every other app has grown more complicated, adding cloud uploads, collaborative editing, and now generative A.I. TextEdit is not connected to the internet, like Google Docs. It is not part of a larger suite of workplace software, like Microsoft Word. You can write in TextEdit, and you can format your writing with a bare minimum of fonts and styling. Those files are stored as RTFs (short for rich-text format), one step up from the most basic TXT file.

I trust in TextEdit. It doesn’t redesign its interface without warning, the way Spotify does; it doesn’t hawk new features, and it doesn’t demand I update the app every other week, as Google Chrome does. […] Each encourages you to adapt to a certain philosophy of organization, with its own formats and filing systems. But nothing has served me better than the brute simplicity of TextEdit, which doesn’t try to help you at all with the process of thinking. Using the app is the closest you can get to writing longhand on a screen. I could make lists on actual paper, of course, but I’ve also found that my brain has been so irredeemably warped by keyboards that I can only really get my thoughts down by typing […]

We users have learned that cloud-based apps and digital platforms are more likely to surveil us, mine our data, and manipulate our attention than to provide us the precise content and services we seek […]

Acho que esse relato de como Chayka usa o editor de texto (e como interage com um desktop) me ajudou a entender porque eu acho que nenhum outro dispositivo — celular, tablet, nada disso — consegue capturar: a ideia de que o computador é uma “bicicleta para a mente”. Usar programas que lidam com arquivos, que nos pedem para organizar e catalogar eles nos fazem pensar na nossa própria organização — eles nos deixam responsáveis pelo nosso próprio pensamento, pela forma como estruturamos ele e a forma que criamos sentido.

Um celular, ao contrário, quer moldar sua organização para a abordagem de um app específico. Olha como a gente adapta nossos pensamentos para as limitações do app de notas que usamos, por exemplo, ou como as limitações na hora de organizar a tela de início de um celular não nos permite criar sentido na forma que operamos o dispositivo, diferente de como organizamos (ou não organizamos) nossa área de trabalho no computador.

O apogeu dos anos 90

Vai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas esse post do Chris Collins bateu forte em mim:

Most folk didn’t really care about technology. They had a few things like a CD player, a games console or a phone that just worked to call and maybe text. You bought it, you owned it, and everyone kind of accepted it would die eventually. […]

Photos were just… photos. […] You took one because it mattered.

[…] You waited for stuff and nobody lost their mind about it. Waiting was normal.

People worked hard, but it usually meant something tangible. You could point at it and say “I did that”. Not just emails and meetings and vibes. […]

Me lembrou de duas coisas: uma fala em Matrix, quando Morpheus explica pro Neo que a Matrix é uma simulação da humanidade no seu apogeu (os anos 1990). Também me lembrou de We Used To Wait do Arcade Fire pro álbum The Suburbs (um disco sobre os anos 1990, inclusive).

Eu vivi a segunda metade dos anos 1990, e concordo. Até ali por 2009, eu acho que a gente tinha o balanço certo do quanto a tecnologia, ou o digital em si, nos ajudava mais do que nos influenciava. As coisas mudaram com o iPhone.

Eu acho que tinha muita coisa errada naquela época, mas eu acho que as coisas tinham mais peso. Hoje em dia, tudo tem um peso de um post numa rede social — seja a barbárie contra um povo, a violência sexual contra crianças, e o prêmio de música que aconteceu na noite de ontem.

Ter saído do Instagram me ajudou muito a tirar esse efeito esmagador que ele tem de tornar tudo conteúdo. O problema é que muito da vida hoje é moldado por essa experiência. Eu vou num restaurante e ele tem “cenários instagramáveis” para as pessoas criarem memórias. As notícias no jornal tem frases curtas para caberem num post ou para serem lidos num story. É meio desesperador estar de fora mas ainda assim sentir seus efeitos.

Acho que é um caminho, e cada um tem sua própria jornada de volta ao mundo, à grama do jardim, à textura das coisas.

Amizade e sentido

Carol (um monstro peludo e gigante) e Max (um garoto de 10 anos) se abraçam em meio a flores laranjas.
“Onde Vivem os Monstros” de Spike Jonze, 2010.

Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.

No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.

Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.

Qual é o sentido de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.

Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.

Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.

Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.

Os benefícios de desistir

Molly Glick, na Nautilus:

O otimismo tende a estar fortemente ligado à abertura de uma pessoa para revisar um objetivo para melhor ajustá-lo às suas habilidades e recursos. “Esses achados indicam que a flexibilidade na busca de objetivos tem mais probabilidade de emergir quando os indivíduos se sentem seguros, exibem regulação estável e possuem resiliência emocional”, observa o artigo.

[…] Desistir de objetivos foi significativamente ligado à redução de estresse, ansiedade e depressão, por exemplo. E adotar novos objetivos foi fortemente associado a alto funcionamento social e físico. Encontrar novos objetivos também veio com benefícios de moderados a grandes para o funcionamento psicológico, senso de propósito na vida, satisfação e crescimento pessoal.

O artigo nota que ainda não há uma “medida de persistência” que possa ser considerada saudável antes de desistir de um objetivo. Lendo esse texto me fez lembrar que alguns dos momentos que eu estive genuinamente feliz foi quando eu decidi parar de insistir em uma coisa e replanejei minha rota pra outra. Tava precisando ler isso hoje.

Como dar uma boa festa

Eu adorei essa lista com 21 dicas de como dar uma boa festa. Tem dicas genuinamente práticas (como colocar comida e bebida em cantos diferentes, pra facilitar as pessoas a se mexerem e conversarem em círculos distintos). E também tem algo que eu acredito muito, mas nunca consegui colocar em palavras: festas são um serviço público. Uri:

Parties are a public service, you’re doing people a favor by throwing them. Someone might meet their new best friend or future lover at your gathering.

Uma semana sem notificações

Eu passei essa última semana com as notificações do meu celular desativadas e tudo fluiu bem. Bem demais, até: eu não perdi nada importante. Segundo o Tempo de Uso do iPhone, o meu número de ativações do celular também não aumentou com isso. Eu imaginei que aumentaria porque eu ia verificar o WhatsApp ou o iMessage com mais frequência para ver se eu não perdi uma mensagem dos meus amigos e da minha família, mas não aconteceu. Um dos motivos é que durante o trabalho eu uso o WhatsApp no navegador, então não preciso ficar conferindo o celular de tempos em tempos.

Eu me inspirei a fazer isso a partir desse texto de Maxime Vaillancourt, sobre como transformar o celular em uma “ferramenta chata”:

Let’s open up an imaginary toolbox for a moment. Imagine a screwdriver.

A screwdriver is a tool in its purest form. It does not ask for anything, does not require maintenance, and doesn’t distract from the task at hand. It just sits there, patiently waiting to be picked up when needed.

A tool does its job, then gets out of the way.

This is the kind of relationship I want with my smartphone. It should be tool, and nothing else. With that in mind, I set out to turn my smartphone into a tool again. This “tool, not distraction” mentality is useful for all kinds of modern technology, not just smartphones. Cal Newport’s “Digital Minimalism” covers this idea pretty well too (view my reading notes).

A primeira dica que Vaillancourt oferece é desativar as notificações, e é algo muito eficaz. A gente é bombardeado por interrupções do celular para chamar a nossa atenção. Eu sempre fui muito atencioso quanto a quais notificações eu ativo — apps como iFood, Uber, Moovit nunca tiveram notificações ativadas no meu celular, por exemplo — mas mesmo assim o número de interrupções é grande.

O único aplicativo que eu senti falta das notificações foi o Lembretes. Eu uso bastante ele já faz alguns anos pra organizar as tarefas da minha rotina e, embora eu lembre das minhas tarefas, eu gosto da pequena dose de dopamina de dever concluído que é em marcar as notificações como concluídas. No fim das contas, o lembretes e o calendário são os únicos aplicativos que eu reativei as notificações hoje (o app Tempo tem a opção de enviar notificações críticas, o que eu mantenho ativado porque eu vivo em Porto Alegre, afinal de contas).

Vaillancourt sugere ativar um filtro de escalas de cinza no celular, algo que eu já uso, e a desinstalação de apps desnecessários. O filtro de escalas de cinza é algo bem profundo que eu acho que muita gente não adotaria, mas a dica de desinstalar apps desnecessários é ótima. O iPhone tem um auto-desinstalador de apps pouco usados, mas eu não gosto dessa abordagem. Ele costuma desinstalar apps que a gente usa com pouquíssima frequência, e no meu caso são apps como o do plano de saúde, ou do FGTS. O problema é que, quando eu preciso desses apps, eu preciso deles na hora, e dentro de um hospital o sinal de internet pode ser fraco (já aconteceu!). Minha dica é sempre dar uma conferida na lista de apps do seu celular e ser bem honesto consigo mesmo. Eu tô sempre apagando um ou outro app que não faz mais sentido ter. É incrível como nossa rotina digital muda bastante.

Esconder esses apps de pouco uso é bem eficaz também. Desde que o iOS implementou a “biblioteca”, movendo todos os apps pra uma lista categorizada e liberando sua tela de início para você definir quais apps e widgets você quer ver, eu mantenho uns oito apps no máximo. Atualmente são esses:

  • How We Feel
  • Gentler Streak
  • Fitness
  • Diário
  • Babbel
  • NetNewsWire
  • GoodLinks
  • Música

Outros apps aparecem como widgets rotativos — Tempo, Lembretes, Calendário, Mail por exemplo — porque geralmente só dar uma olhada na informação mais importante deles é o suficiente.

Essas mudanças me fizeram gostar mais do meu celular nessa última semana. Prestar atenção em como ele funciona pra mim é importante, e me ajuda a definir uns fluxos com o Atalhos, por exemplo. O celular nunca vai ser tão versátil quanto um computador, mas eu acho que boa parte do meu carinho pelo computador vem da atenção que eu dou a como ele funciona, como ele está organizado, etc. O celular tenta ser opinativo demais nesse sentido. Ele prefere que eu me adapte a ele, e não o contrário. Com um pouco de atenção e dedicação, eu acho que tô chegando num bom meio termo.

Desativando notificações

Vou fazer um experimento essa semana: desativei todas as notificações no celular. Nem mesmo o calendário e os lembretes se salvaram.

Meu objetivo é ver quais notificações são realmente essenciais pra mim (suspeito que nenhuma) para poder reativar na semana que vem. Também quero ver como meu celular se comporta. Por exemplo: se eu desativar as notificações do telefone e do FaceTime, eu não receberei chamadas desses apps?

Vou atualizando por aqui durante a semana.

A internet é um grande jogo

Spencer Chang, em sua newsletter:

I like newsletters that feel more like dispatches than editorialized posts. Inspired by Laurel and Robin, I’d like to share a little bit about where I am and where I’ve been lately.
[…]
The world manages to find a way to strike you with the most indescribable beauty when you need it most.

[…]
Websites are the future of video games.

They are the “end game” of video games. They are spaces where the end players (the website visitors) have the agency to freely interact with others, and not towards any predetermined object, but purely for themselves, discovering who they are in each new environment and finding new ways of relating to one another.

Somewhere in the push to make the internet the infrastructure of a global capitalist economy, we lost this perspective on what the internet is. If I asked people to define what websites are to them, they might talk about the capabilities they provide: “the world’s information at your fingertips,” “AI that does whatever you ask of it,” “a platform for selling products.” Or as design artifacts: they provide the basis of interactive, creative pieces of art, media, and writing.

But if we distill a website down to its base components, it is a space that allows people to talk to each other. In the era when the internet was new and before we had predetermined what it was “for,” everyday internet pioneers found ways to talk to one another by making websites for each other.

WWW

Jason Kottke, citando um diálogo nos momentos finais de Halt & Catch Fire:

Joe: How did we all get here today? The choices we made? The sheer force of our wills, something like that? Here’s another answer: the winds of fate, random coincidence, some unseen hand pushing us along. Destiny. How did we all get here today? We walked through this door. We don’t have to build a big white box or stadium or invent rock n’ roll. The moment we decide what the Web is, we’ve lost. The moment we try to tell people what to do with it, we’ve lost. All we have to do is build a door and let them inside.

When I was five, my mother took me to the city. And we went through the Holland Tunnel and it was basic, concrete and steel, but it was also my excitement sitting in the backseat, wondering when it was going to be our turn to emerge, it was the explosion of sunlight. And when we exited the tunnel, all of Manhattan was laid out before us. And that was the best part of the trip: the amazing possibility to be able to go anywhere within something that is magnificent and never-ending.

This is the first Web browser, the one CERN built to view and edit research. I wrote it up here for you to see how simple it is. It takes up one whiteboard — that’s basic concrete and steel — but we can take this and we can build a door and we can be the first ones to do it because right now, everyone else sees this…

Donna: …as an online research catalog…

Gordon: …running on NeXT…

Cameron: …on a network in Europe.

Joe: And with this handful of code, we can build the Holland Tunnel.

Essa é uma das melhores traduções da linda possibilidade do que é um navegador, e o que é, em si, navegar na internet.

Kottke:

But the open Web enthusiasts and advocates missed an opportunity to take what the Web was in the 90s and make that available to everyone. Instead of walled gardens like Facebook, Pinterest, and Medium (which echo the closed online services like AOL, Prodigy, and Compuserve that predated the Web), imagine a bunch of smaller services bound together with open protocols where individuals have both freedom and convenience. […] I hope I’m wrong, but with all of the entrenched incumbents and money pumping into online services, I’m afraid that time has truly passed. And it’s breaking my heart.

Transformando a internet em um lugar

Tenho feito um experimento de “isolar” meu contato direto com a web para a minha escrivaninha, e os resultados têm sido bons. É impossível isolar a internet da minha vida hoje em dia, mas estou me referindo como “contato direto” à minha navegação na web, tanto para trabalho quanto para lazer. Com isso, meu relacionamento com ela tem sido cada vez melhor.

Essa experiência vem de uma espécie de nostalgia por um tempo em que eu só podia acessar a internet depois da meia-noite nos dias de semana ou aos finais de semana, quando o pulso era mais barato. Era como atravessar por um portal para a internet. Era um lugar — na “salinha do computador” na casa dos meus pais, explorando a Wikipédia ou o blog de alguém sobre um tópico específico. Foi assim que descobri meu amor pela história do cinema e meu primeiro contato com os jogos e a própria arquitetura da web. Coisas que moldaram profundamente minha vida profissional e pessoal.

Eu ainda tenho uma TV que funciona majoritariamente pela internet, por exemplo, e meu relógio também é “inteligente”. Ele me avisa que está chovendo muito e eu não deveria sair de casa esta semana (o que é verdade, está chovendo muito lá fora!), mas meu telefone geralmente está perto da minha escrivaninha hoje em dia — ou no meu bolso quando estou cozinhando e esperando uma ligação. Eu acabo respondendo às minhas mensagens e ao meu e-mail apenas quando chego perto do computador, e tem sido ótimo. “Hora de conversar com meus amigos” ou “hora de ler sobre o design de circuitos do GameCube”. Chega de lutar contra o tédio enquanto estou sentado no sofá, tentando prestar atenção em um programa de TV ou na cama, antes de dormir. Meu tempo de leitura tem aumentado muito ultimamente, e também minha pesquisa na web. Quando chego na internet, geralmente é para fazer algo específico — escrever no meu blog, pesquisar sobre um tema, me aventurar no meu Pocket…

Eu acho que isso tem sido tão, tão bom. A internet se tornou um lugar na minha casa, e não uma coisa que eu guardo no meu bolso. Tornou-se um portal novamente, para a curiosidade e para a descoberta. Também tem sido libertador. Depois de um dia inteiro de trabalho, deixo ela para trás para fazer outra coisa, e não está mais me incomodando no meu telefone — agora que é uma ferramenta “entediante”, com as notificações desativadas.

Sobre “blogar”

Algumas leituras dessa madrugada foram sobre o ato de escrever em um blog.

Whiona, wiwi blog:

I want to write more frequently about anything and everything, because it’s good for you, and I have so many thoughts constantly assailing this brain of mine

Tim Larew, Complex:

Sometimes it feels like we’ve traded drawn-out storytelling for fleeting moments where the audience bounces from one to the next
[…] The blog era represented freedom and opportunity.

There was no central hub, like a Spotify today, where all the playlists and means of discovering music are organized neatly within the platform. You had to search, to dig! Even when you grabbed a song directly from an artist’s social media, you almost always wanted to know more because context was the norm. So you’d go to your favorite blog, which is what everyone did the night “Acid Rain” surfaced out of nowhere, and you’d get the full story.

I, however, miss going to Blockbuster because it forced me to actively discover, to take in more elements of the art beyond just the film file. Did the cover catch my eye? How about the description on the back? Did it rope me in? Was the film I wanted not in stock, forcing me to search for something new?

A perfeição de Zodíaco

Emily St. James, Episodes:

The comfort in Zodiac is the comfort of doomerism, the idea that we are completely fucked, and it’s better to just admit it. The only people who matter are the monsters in the shadows who’ve broken the world and the people sitting right in front of you, who might be able to help you shine what meager light you possess into those shadows.

[…]

The kind of light dehumanization that peppers the edges of Zodiac’s frames is something we all practice from time to time. When you are engaged in a really intense conversation in a restaurant, the server might become an abstraction to you. You’re aware they’re there, but you’re also really locked in on what you and your friend are chatting about. This filtering of the world is normal, even healthy. Our brains have to shut out some information to make sense of what’s important to us in that moment.

Yet watch Zodiac again with an eye toward how Fincher utilizes this technique. The longer the movie goes on, the more other people only seem to exist as disconnected blobs in the background somewhere. The second you start to really look at them, you might start to think they mean to do something horrible to you. So you learn not to see them, and the world becomes a collection of scary stories waiting to happen.

Como minha navegação na internet mudou nesses últimos meses

Minha saída do Twitter há alguns meses mudou profundamente a forma como eu navego na internet. Por mais de uma década, o Twitter servia como a verdadeira página inicial da minha navegação. Era o que eu abria primeiro para descobrir links que meus amigos ou pessoas que eu seguia estavam compartilhando, e começava minha jornada diária na internet por aí.

Com minha saída, o efeito imediato foi parecer que a internet encolheu consideravelmente. Meu tempo na frente do navegador diminuiu (um efeito bom!) e nenhuma das outras redes que tentam substituir o que o Twitter criou (o Bluesky, o Mastodon, o Threads) conseguiu me cativar da mesma forma. A maior parte do conteúdo nesses feeds aponta para eles mesmos, quando minha experiência no Twitter era a oposta. Eu clicava em links para fora, que me ajudavam a explorar tópicos que eu tinha curiosidade, mas que não sabia muito sobre. Foi assim que eu li sobre astronomia e ecologia e arquitetura e linguística. Tópicos que eu adoro ler sobre, mas preciso que pessoas me guiem para eu conseguir me aventurar.

Eu tomei algumas ações para me ajudar a substituir o Twitter da minha rotina de navegação na internet. Primeiro, eu adicionei a capa da Wikipédia inglesa como a página inicial do meu navegador. Todo o dia, de manhã, quando eu abro o Safari, eu recebo um trecho do artigo em destaque, algumas notícias e algumas curiosidades. É ótimo para aflorar minha curiosidade.

Eu também incrementei meu leitor RSS com mais blogs, mesmo que os temas não sejam muito do meu interesse. Antes, eu usava meu leitor RSS como minha fonte central dos sites que eu visito diariamente (Defector, Kottke, Waxy, etc.), então eu só adicionava nele os feeds de sites que eu lia todos os posts. Eu decidi criar uma categoria de “descobertas”, com feeds de sites e blogs (como o Colossal e o Atlas Obscura) de sites que eu visito ocasionalmente.

Por último, e eu acho que a mudança mais significativa pra mim, foi começar a acessar o Kagi Small Web quase que diariamente. Ele funciona tipo o StumbleUpon lá no início da web 2.0: sempre que você acessa, uma página aleatória carrega, com um post de um blog ou um álbum de fotografias de um fotolog, ou algo assim.

A diferença entre o Kagi e o StumbleUpon é a curadoria. O StumbleUpon aceitava praticamente tudo, então tinha muita chance de você ficar recarregando a página frequentemente até se deparar com algo realmente interessante. Existe uma curadoria no Kagi que permite apenas sites pertencentes à “small web”, um conceito que significa algo como a internet feita por sites de pessoas ou pequenas comunidades (geralmente, centralizadas nesses próprios sites). Então eu vejo blogs de um cozinheiro, ou atualizações de uma comunidade de observadores de pássaros, ou isso (que eu não tenho ideia do que seja).

O mais bacana é perceber como o Twitter, ou o Instagram ou outras redes sociais, parecem dar uma impressão de que a internet é pequena, quando na verdade existem milhares dessas pequenas comunidades por aí, sem muito interesse em se conectar com outras. É a forma que eu navegava na internet antes do Twitter também: eu encontrava algum fórum de um assunto que me interessava, e acabava adentrando uma comunidade com suas próprias regras e gramática. O Kagi tem me ajudado muito ultimamente a perceber que, embora o Facebook tenha matado muitas dessas comunidades nessas últimas décadas, existem outras tantas que prevaleceram e, conforme a gente vai se distanciando da época da centralização das mídias sociais, outras estão surgindo de novo.

Eu acabo adicionando vários desses sites que descubro no Kagi em uma pastinha de favoritos na minha barra de favoritos. Não são sites que eu acesso todos os dias ou acompanho seus feeds, mas que de vez em quando, enquanto eu dou uma pausa do trabalho ou procuro algo pra ler depois do almoço, eu gosto de sortear um deles para navegar em seus arquivos ou encontrar uma seção de comentários bacana. Faz um bem danado ler sobre coisas que eu não entendo, ou uma variedade de opiniões entre pessoas conversando (eu acho que quase toda a toxicidade da internet moveu pros comentários do Instagram e do YouTube, onde elas são mais impulsionadas) e trocando opiniões, ao invés de caçarem umas as outras. A “small web” é gigante e colorida e divertida, é como visitar uma feira do mercado de pulgas. Por que diabos existem pessoas interessadas nessa coisa extremamente específica? Porque existe beleza em todo o lugar.

Agora

Eu não sei se eu vou voltar a ter uma Rede Social Para Mim, como o Twitter foi há mais de uma década. Não parece ser algo que faz sentido na minha vida nesse momento… ter uma presença web daquela forma e tal. Mas eu tô curtindo demais brincar no Tumblr ultimamente. Eu não conheço quase ninguém aqui, e isso é um pouco libertador, eu acho. Eu converso com pessoas que eu não conheço, eu leio textos e vejo fotos de coisas que eu não sei o que são, e assim vou explorando um mundinho novo. E as vezes eu mesmo coloco aqui meus interesses estranhos. Sem muito contexto, sem muita ordem, é mais algo no “fluxo do pensamento”, como o Twitter parecia ser no início. Tá sendo divertido.