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Amizade e sentido

Carol (um monstro peludo e gigante) e Max (um garoto de 10 anos) se abraçam em meio a flores laranjas.
“Onde Vivem os Monstros” de Spike Jonze, 2010.

Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.

No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.

Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.

Qual é o sentido de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.

Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.

Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.

Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.

Descobrindo músicas novas

Três Músicos Tocando Trompas e Flauta
(Sem data, provavelmente de Bernardo Strozzi, 1581—1664)

Desde a pandemia, a minha relação com música tem mudado e se aprofundado muito. Começou com a dobradinha Fetch the Bolt Cutters, da Fiona Apple; e Set My Heart On Fire Immediately, do Perfume Genius. Eu escrevi sobre isso no Pão em 2020.

Eu descobria muita música quando eu era mais jovem. Algumas eram descobertas “herdadas”: grandes discos que eu só descobri muito depois. Outras eram genuínas pérolas, músicas de artistas no MySpace e no Bandcamp que tinham pouquíssimas reproduções. Com o tempo, principalmente com o Spotify e a piora da minha depressão, eu parei de ouvir músicas diferentes da que eu já ouvia — e ouvia elas cada vez menos.

Uma das coisas que mais me ajudaram a voltar a descobrir música foi parar de usar o Spotify e começar a ouvir as recomendações de pessoas — amigos, família, desconhecidos na internet. Realmente ouvir a música que eles têm pra me indicar. É um presente, um pedacinho deles que eles querem compartilhar comigo. Em 2023 eu escrevi sobre essa mudança:

Plataformas como o Last.FM ajudam bastante, claro. O Last.FM tem um algoritmo que recomenda artistas similares aos artias que você ouve, como o Spotify e o Apple Music e o Tidal fazem. Mas uma coisa que o Last.FM tem que os streamings não tem é uma caixa de comentários. É lá que as pérolas estão. Pessoas comentando as influências de uma música ou de um álbum inteiro, ou sobre como tal artista lembra eles de outro artista que eles gostam. Você vai explorando e explorando e quando vê você nem lembra exatamente do trajeto que chegou. É o significado real da expressão “navegar na internet”.

Enfim… recentemente eu venho pegando recomendações de comentários de blogs de música, como o Stereogum. A comunidade do Stereogum é excelente — eles comentam lá há tanto tempo que os próprios comentários das colunas tem suas próprias colunas, com autores recorrentes. É fantástico. Em especial, a coluna “As 5 Melhores Músicas da Semana” é um baú de tesouros. Além das cinco recomendações dos editores, os comentaristas deixam suas próprias recomendações para complementar. A edição dessa semana me apresentou duas artistas fantásticas.

A primeira foi The BPM de Sudan Archives, que serviu de trilha-sonora enquanto eu escrevia esse post:

A outra recomendação é (eu acho) meu disco favorito desse ano: ICONOCLASTS, da Anna von Hausswolff. Olha que barato:

Eu acho essas descobertas empolgantes. Conhecer um artista novo, ver um filme e descobrir ali no meio dele que ele é um novo favorito, ler algo que acaba tirando teu chão do melhor jeito… É uma sensação única. Como se o mundo estivesse se abrindo pra nós.

Nintendo atualiza Animal Crossing: New Horizons de novo, quatro anos depois

Animal Crossing: New Horizons vai receber uma nova atualização dia 15 de janeiro (presente de aniversário!), além de uma versão melhorada para o Nintendo Switch 2.

A atualização, que vai estar disponível tanto na edição nova quanto no Switch original, traz uma série de melhorias no recurso de DIY (os jogadores podem “montar” móveis e acessórios para mobiliar sua casa e decorar a ilha), e nova jogabilidade: a ilha vai receber um hotel, que os jogadores vão poder ajudar a decorar e a receber hóspedes — é o mais novo “emprego” que o jogo oferece, depois da expansão Happy Home Paradise nos fazer decorar uma outra ilha inteira —, um serviço de limpeza do sr. Resetti e uma nova ilha colaborativa para que você possa decorar com seus amigos através da dimensão de sonhos da Luma. Além disso, a atualização vai trazer novos itens e colaboração com Lego e as séries The Legend of Zelda e Splatoon.

Já a versão melhorada para Nintendo Switch 2 vai oferecer suporte ao GameChat e os recursos online foram expandidos de 8 para 12 jogadores simultâneos. O jogo também foi remasterizado em 4K.

New Horizons talvez seja o jogo que eu mais joguei na minha vida. Eu ainda jogo quase que diariamente. Quando lançou, em 2020, nos primeiros dias do isolamento social da pandemia, parecia um refúgio pra mim e pros meus amigos. Eu escrevi pela primeira vez em maio daquele ano, sem muita perspectiva do que ainda estava por vir. Em outubro de 2020 New Horizons já fazia parte da minha rotina e da minha vida social de maneiras irreversíveis. Em dezembro de 2021, quando as coisas estavam começando a voltar a uma nova normalidade, a Nintendo anunciou uma suposta “última atualização”, e o jogo ficou para trás nas conversas do dia-a-dia.

Mas não pra mim. Eu tenho um problema de desapego muito forte. Eu não consigo dizer adeus à Léte, minha ilha, nem pros meus vizinhos. E eu acho que eu não quero também. Animal Crossing é um jogo que parece jardinagem. Ele muda com o tempo de maneiras sutis, mas reflete mais as mudanças do jogador. Nossos interesses, nosso cuidado. Tudo isso vai mudando com o tempo. Nesses cinco anos em que eu jogo New Horizons quase que diariamente, o mundo mudou completamente. É um jogo da COVID, de certa forma. É um jogo do mundo depois dela também.