A felicidade da @lilsimsie jogando a nova atualização do Animal Crossing: New Horizons é contagiante. Ontem eu tava só sorrisos jogando com os novos recursos do jogo também. Quero redecorar toda a minha ilha.
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Nintendo atualiza Animal Crossing: New Horizons de novo, quatro anos depois
Animal Crossing: New Horizons vai receber uma nova atualização dia 15 de janeiro (presente de aniversário!), além de uma versão melhorada para o Nintendo Switch 2.
A atualização, que vai estar disponível tanto na edição nova quanto no Switch original, traz uma série de melhorias no recurso de DIY (os jogadores podem “montar” móveis e acessórios para mobiliar sua casa e decorar a ilha), e nova jogabilidade: a ilha vai receber um hotel, que os jogadores vão poder ajudar a decorar e a receber hóspedes — é o mais novo “emprego” que o jogo oferece, depois da expansão Happy Home Paradise nos fazer decorar uma outra ilha inteira —, um serviço de limpeza do sr. Resetti e uma nova ilha colaborativa para que você possa decorar com seus amigos através da dimensão de sonhos da Luma. Além disso, a atualização vai trazer novos itens e colaboração com Lego e as séries The Legend of Zelda e Splatoon.
Já a versão melhorada para Nintendo Switch 2 vai oferecer suporte ao GameChat e os recursos online foram expandidos de 8 para 12 jogadores simultâneos. O jogo também foi remasterizado em 4K.
New Horizons talvez seja o jogo que eu mais joguei na minha vida. Eu ainda jogo quase que diariamente. Quando lançou, em 2020, nos primeiros dias do isolamento social da pandemia, parecia um refúgio pra mim e pros meus amigos. Eu escrevi pela primeira vez em maio daquele ano, sem muita perspectiva do que ainda estava por vir. Em outubro de 2020 New Horizons já fazia parte da minha rotina e da minha vida social de maneiras irreversíveis. Em dezembro de 2021, quando as coisas estavam começando a voltar a uma nova normalidade, a Nintendo anunciou uma suposta “última atualização”, e o jogo ficou para trás nas conversas do dia-a-dia.
Mas não pra mim. Eu tenho um problema de desapego muito forte. Eu não consigo dizer adeus à Léte, minha ilha, nem pros meus vizinhos. E eu acho que eu não quero também. Animal Crossing é um jogo que parece jardinagem. Ele muda com o tempo de maneiras sutis, mas reflete mais as mudanças do jogador. Nossos interesses, nosso cuidado. Tudo isso vai mudando com o tempo. Nesses cinco anos em que eu jogo New Horizons quase que diariamente, o mundo mudou completamente. É um jogo da COVID, de certa forma. É um jogo do mundo depois dela também.
Talvez eu devesse me sentir culpado por jogar Animal Crossing esse tempo todo?
Nas últimas semanas uns posts sobre Animal Crossing nos sites de jogos que eu leio têm me chamado a atenção. No , a manchete é sobre como a gente chegou na “fase de culpa” (quando a gente raramente visita as vilas e os vizinhos começam a nos xingar por deixarmos eles sozinhos lá); o pega ainda mais pesado:
At this point, it seems like New Horizons will become like the cycle of the seasons. It’s recurrent and reliable. You might think about it fondly, or not, but you sure don’t think about it every day.
Eu não parei de jogar Animal Crossing: New Horizons desde que ele foi lançado em março desse ano (se você lê a newsletter, sabe que eu tô sempre jogando). Eu penso nesse jogo todos os dias. Eu já movi compromissos profissionais porque eles ficavam no meu horário de jogar Animal Crossing (depois do almoço, das 13h às 13h30).
É verdade que o quanto eu jogo diariamente diminuiu um bocado desde o lançamento do jogo. Eu acho que, como todos os jogos da série, New Horizons fica ainda melhor em doses curtas. Animal Crossing se passa em tempo real, então um dia por aqui é um dia no jogo também, e isso mexe com meu emocional. Eu sou marinheiro de longa viagem nesse jogo, e eu sei como a Isabelle fica chorosa quando você parava de aparecer com tanta frequência em New Leaf.
O problema é: é fácil de queimar na largada de Animal Crossing. Tudo é tão bonito, e os personagens são tão bem escritos, que você quer participar ao máximo do dia-a-dia desse vilarejo, principalmente porque quase todos são tão legais pra você. Porém, se você coleciona todos os fósseis, todos os peixes e todos os insetos em questão de algumas semanas (o que é impossível, mas digamos que você crie paradoxos temporais…), se você constrói todas as pontes que precisa para maximizar sua produtividade muito rapidamente, logo você não vai ter mais o que fazer, e então você vai começar de novo, ou desistir.
Foi legal participar do zeitgeist no início do ano, e no início do isolamento social, quando todo o mundo descobriu e começou a montar suas ilhas juntos. Eu sou um jogador lento naturalmente, eu demoro meses pra jogar o joguinho de plataforma mais simples que você encontrar, então eu não me preocupei muito de ver meus amigos desenvolvendo suas prefeituras e suas casas em questões de semanas, jogando alto no mercado de nabos. Eu adoro visitá-los pra pegar inspiração no que eu eventualmente vou fazer na minha ilha, mas por aqui as coisas precisam progredir bem pouco a cada dia, porque eu vou jogar esse jogo por anos, e eu não estou nem perto de economizar o suficiente pra conseguir o porão.
Eu comentei brevemente sobre como jogar Animal Crossing demais de uma só vez é meio que contra o espírito do jogo em maio. Pode não ser o que o jogo espera, mas ele não tenta te impedir de ficar quatorze horas na frente do videogame criando ruas entre as casas dos seus vizinhos (eu certamente fiz isso). Acho que isso torna Animal Crossing especial. Ele pode até ter seu ritmo próprio, mas o jogo não impede que você faça seu próprio ritmo. Seus vizinhos vão soltar alguns comentários maldosos de qualquer forma, seja se você jogar demais (“Você tem um irmão gêmeo?!”), ou se você desaparecer por meses.
O meu ritmo em New Horizons é mais ou menos o mesmo de New Leaf, um jogo que “encerrei” no fim do ano passado, dando adeus à minha vila depois de anos jogando alguns minutos por dia. Eu jogava New Leaf no ônibus indo pro meu primeiro trabalho (eu comprei o jogo, e o 3DS, com o meu primeiro salário); depois no trem para a faculdade; e finalmente durante o café da manhã no último ano antes de eu aposentá-lo. Eu ainda não tinha encontrado todos os insetos (eu sou horrível com a rede), nem completado todos os destinos do Gulliver, nem sequer liberado a tenda da Katrina na rua principal (eu nunca tenho dinheiro consultar com ela quando ela aparece!).
Em New Horizons, eu faço o mesmo. Eu jogo um pouquinho a cada dia. Eu vou na loja e na alfaiataria ver se tem algo que me agrade. Eu já completei minha coleção de fósseis, então só cavo eles quando preciso de dinheiro. Eu ainda tenho uns três ou quatro insetos e peixes pra capturar por mês, e tenho todo o catálogo de criaturas do fundo do mar que sequer comecei. Meu grande amigo Erik me deixou mês passado, e isso me deixou bem triste, mas também me aproximou de alguns vizinhos novos, como a Amelia e o Spike. Eu ainda tô economizando pra conseguir o segundo piso da minha casa.
Amelia é a minha vizinha mais sábia.
Acho que minha surpresa favorita com New Horizons foi uma amizade que eu criei graças à esse jogo. Eu tenho um conhecido em Chicago, o David. A gente nunca conversou muito antes de começarmos a visitar a ilha um do outro no Switch. Com o passar do tempo, nossas visitas viraram um compromisso: todos os sábados, eu e o David ficamos a tarde inteira conversando usando o (péssimo, cruel e terrível) chat interno do jogo. Ele limita a apenas alguns caracteres por mensagem, e você precisa usar o seu celular enquanto joga pra poder digitar. É terrível, e é magnífico, porque isso nos impede de fazer qualquer outra coisa senão ficar conversando.
Eu gosto de visitar as lojas durante a semana pra encontrar algo bacana pra presentear o David (nós estamos em hemisférios diferentes, então sempre tem algo novo pra presentear), ou aprender receitas novas pra dar algo completamente aleatório, ou capturar um inseto que ele ainda não pode ter por causa do clima diferente. E então a gente fica, caminhando por nossas ilhas, conversando sobre o pouco que mudou na última semana, o que nos ajuda a enxergar o que muda no meio do marasmo, porque o outro nota esse ou aquele detalhe diferente. Ninguém ali tá progredindo na vida (do jogo ou na vida real), pelo menos não agora. A gente tá ali fazendo algo que eu sinto muita falta de fazer com meus amigos num sábado de sol: conversar, fazendo nada, vendo o tempo passar.
Eu jogo Animal Crossing e fico pensando no futuro
Eu ando pensando bastante em como vai ser daqui pra frente. Acho que todo mundo tá, né. O que vai sobrar depois dessa pandemia? O que vai acontecer? Vamos continuar seguindo rumo ao cataclisma econômico que vai acontecer depois do coronavirus, ou a gente vai parar pra decidir uma alternativa melhor? Agora que uma parte do mundo parou e lembrou que há muito mais além da exploração viciosa do nosso modelo econômico atual, a gente vai querer voltar pra esse ciclo de novo? O peso de ter que produzir mais finalmente vai ser levado em conta?
É isso o que eu penso todos os dias desde a quarentena. Coincidentemente, é mais ou menos o que eu penso todos os dias enquanto eu jogo Animal Crossing: New Horizons, desde que ele foi lançado no fim de março. É quase que irônico que o jogo que a Nintendo lançou um jogo sobre criar e cuidar de uma ilha paradisíaca com seus vizinhos simpáticos, onde a fome e a doença nunca vai nos acometer; enquanto grande parte do mundo se recolhia dentro de casa e começava a se distanciar fisicamente das outras pessoas.
Já tem muito texto por aí sobre 1. como Animal Crossing chegou na hora exata (e o sucesso estrondoso do jogo, o maior lançamento da Nintendo de todos os tempos); e 2. como Tom Nook, o tanuki (não é um guaxinim!) que leva você para a ilha paradisíaca e te enche de dívidas é um monstro capitalista. E, honestamente, eu não tenho nada a adicionar sobre esses dois tópicos, os dois são verdade! O jogo me anima um pouco todos os dias, e eu sinto um ódio profundo do Tom Nook todos os dias também!
Mas Animal Crossing anda me fazendo pensar bastante no futuro também. No que ele poderia ser.
O que me faz pensar no futuro com Animal Crossing é justamente o que faz esse jogo ser tão agradável. A ideia de que é impossível perder. Diferente de The Sims, talvez o único simulador de vida conhecido o suficiente pra ser considerado um concorrente à AC, New Horizons nunca tira do avatar do jogador os seus direitos básicos. Em The Sims, se o seu personagem não arranja um emprego ele não vai ter dinheiro pra pagar o IPTU ou pra comprar comida. Se você não paga o IPTU, seus móveis serão gradualmente confiscados. Se você não comprar comida, você vai morrer de fome.
Animal Crossing: New Horizons garante o básico para o jogador sempre. Se você não estiver bem naquele dia, e não quiser sair pra procurar frutas pra vender e fósseis pra doar pro museu, sem problemas. Comida e um teto não vão faltar. Isso é um direito intrínseco do seu personagem, o que te dá um conforto pra tentar no dia seguinte.
É um detalhe de jogabilidade pequeno esse, mas deixa eu te contar que é exatamente esse detalhe que me faz pensar no futuro. Eu passei os últimos três anos da minha vida sobrevivendo com vários graus de depressão, e enfrentando a ansiedade de que, se eu não melhorar logo pra voltar a produzir como eu produzia antes eu vou eventualmente perder meu emprego, e não vou ter dinheiro. O que me deixava mais ansioso, o que me fazia me sentir mais inútil, o que me deixava mais desapegado à minha própria vida.
Eu sou uma pessoa privilegiada o suficiente pra saber que, se eu perdesse meu emprego, eu não ia ficar sem casa ou sem comida. Eu tenho uma família para contar e uma rede de apoio que iria me receber e me ajudar. Mas muita gente não tem, e o medo constante de perder um emprego que garantia um mínimo de dinheiro para pagar a comida e o lar de sua família virou — ou vai se transformar muito em breve — em realidade. A nossa estrutura social e econômica atual não enxerga a saúde mental como deve. Para ela, ou você está doente, e não pode produzir; ou você está saudável, e deve produzir. Se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos anos foi como minha saúde mental parece muito mais com o clima: tem dias que está bom, muito obrigado; tem dias que é impossível de sair na rua; tem dias que parece que não vai dar pra sair na rua, mas no final do dia o tempo melhora.
Daí eu penso em Animal Crossing, onde todos têm um direito intrínseco àquilo que eles precisam pra sobreviver. Muito provavelmente não é o suficiente pro jogador — você já viu os castelos que as pessoas acabam construindo? (Eu tenho um amigo que tá devendo dois milhões de bells pro Tom Nook!) —, mas aí é com eles. O mínimo necessário pra sobreviver está garantido para ele e para seus vizinhos, o que libera a sua mente para cuidar de si mesmo e, mais importante, para ajudar sua comunidade.
Em Animal Crossing o jogador assume o cargo de representante da população. É você que conversa com Tom Nook sobre as obras que precisam ser feitas (como pontes, ruas, etc.); onde as casas, as lojas e o museu (que é aberto todos os dias em todos os horários, é gratuito e funciona com colaborações dos habitantes) devem ser construídas. Você conversa com seus vizinhos todos os dias — ou quase todos os dias, se você não tiver cabeça praquilo tudo bem faltar uns dias — sobre como eles estão. As vezes eles estão bem, as vezes eles estão doentes. As vezes eles te dão presentes porque você é um bom amigo.
Erik é o MELHOR ALCE DO MUNDO.
De acordo com esse excelente vídeo da professora Naomi Clark, Animal Crossing oferece uma visão nostálgica de furusato, as províncias pastorais que, antes da industrialização do Japão, tinham uma cultura de subsistência básica e de troca de bens. Como em Animal Crossing, os habitantes dessas cidades assumiam dívidas coletivas para pagar por ferramentas como varas de pescar. Como eles não tinham o dinheiro para pagar as dívidas, eles permaneciam nas cidades. Como você deve algo para a comunidade, você deve retribuir tornando-a um lugar melhor.
É uma leitura interessante que explica o porquê de, quando chega aqui no outro lado do mundo, onde o colonialismo e o capitalismo desenfreado dominam e todo o sistema além deles deve ser quebrado e distorcido, Animal Crossing fazer notícia quando seus fãs pagam dinheiro real para outros jogadores para entrar nas vilas de desconhecidos e tentar atrair os vizinhos-celebridade para suas ilhas; ou como eles abusam de recursos do jogo para obter o maior número possível de bells pra ampliar suas casas. Mas também explica o porquê do jogo parecer ser tão confortável em meio à quarentena e ao colapso econômico que ela antecede: em Animal Crossing, todo o esforço é igualmente válido, todo o trabalho feito tem seu valor. Seja a pesca ou a coleta ou a ajuda no museu, você está tornando o seu vilarejo em um lugar melhor pra você e pra seus vizinhos.
Animal Crossing é um jogo que aprecia as conquistas modestas do dia a dia, e não os grandes feitos dos dias excepcionais. É por isso que eu joguei New Leaf por tanto tempo, mesmo depois de desbloquear tudo. Há uma liberdade em saber que, mesmo quando você não tem nada pra fazer, você ainda pode fazer algo para melhorar o seu dia a dia e das pessoas à sua volta. Seja ajudar a pescar um tipo específico de peixe ou de entregar um presente de um vizinho pro outro. Eventualmente New Horizons vai deixar de ter insetos para desbloquear e fósseis pra escavar. E por mim tudo bem, porque o jogo me ensina a apreciar os pequenos feitos dessa comunidade rumo a um futuro melhor.
Ah, a noite de sono bem dormida que só a renda básica universal pode trazer.
No início do jogo, o cãolebridade K.K. Slider aparece em um sonho pro jogador para lembrar ele que são os pequenos feitos de hoje que fazem um amanhã melhor. É uma promessa simplória de se fazer se, na realidade, as pequenas conquistas, os pequenos feitos do dia-a-dia, não são apreciados por um sistema econômico que enxerga ou o dobro ou o nada. Mas Animal Crossing inspira, com sua falta de desafios e celebração de qualquer avanço que o jogador faça em igual medida, uma vida cívica mais atraente. Uma onde não temos o que perder, porque temos o que precisa — o que nos dá tempo, força, ânimo e vontade de querer melhorar tudo para todos.
Animal Crossing: New Leaf
Eu comprei meu Nintendo 3DS em junho de 2013 com…