Posts sobre festivais

Ghibli Fest: Dia 10

Eu atrasei total esse post, e peço desculpas. Os últimos dias no trabalho — meus últimos dias na empresa que eu trabalhei pelos últimos anos — foram intensos.

Essa primeira etapa do Ghibli Fest acabou com dois filmes charmosos. Sussurros do Coração, que passou na terça-feira, é uma pérola. Um romance que tem um cenário tão marcante que eu nem sabia que ficava na memória com tanta intensidade: a loja de antiguidades que a protagonista Shizuku conhece depois de seguir um gato. Eu amo uma história de amor impossível, e a história de amor que Sussurros do Coração revela (não a dos protagonistas, mas a que existe nessa loja de antiguidades) é bem do tipinho que eu gosto. Toda a trama da frustração que é escrever também é muito a minha zona — e de uma especificidade deliciosa. O jeito como Shizuku parece aliviada a finalmente tirar essa história de dentro de si é linda.

Ponyo “anda” por cima dos espíritos do mar

Já Ponyo, que parece ser o menor filme do Miyazaki em escopo, também é uma pérola. Também é uma história de amor, bem A Pequena Sereia das ideias, mas é contada com tanto vigor e com tanta sinceridade que desarma qualquer um. Fora que a água é o cenário pra Miyazaki — a fluidez do movimento de seus filmes parece ainda maior quando tem líquidos envolvidos. É um bom filme pra acabar essa primeira parte da mostra, pensando em retrospecto. Não é A Viagem de Chihiro ou Totoro, mas deixa um gostinho de quero mais na boca, e uma satisfação no final da sessão. Bem aquilo que a gente quer.

Ghibli Fest: Dia 9

Desculpem a ausência ontem pra falar de Vidas ao Vento e Nausicaä do Vale do Vento. Eu acabei aproveitando pra assistir Uma Batalha Após A Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson (logo mais escrevo um pouquinho sobre o que é, provavelmente, o melhor filme que eu assisti esse ano).

Também tem um motivo de curadoria. Eu acho que A Viagem de Chihiro devia ser o último filme da primeira parte do Ghibli Fest. É um filme tão perfeito, tão definitivo, que não dá pra evitar uma certa decepção com o que vem a seguir, mesmo que os filmes que se seguiram na mostra sejam ótimos filmes.

Vidas ao Vento foi, por um pouco mais de uma década, o último filme de Hayao Miyazaki: uma carta de amor ao seu pai e ao conflito ético de ser um criador cujas criações destruiram vidas. O filme é muito lindo, como é de se esperar, mas é claramente um filme menor. As estruturas dos filmes de Miyazaki são movidas muito mais por sentimentos e um crescimento interno de seus personagens. A narrativa progride com uma lógica interna que, se você contar, parece que tá falando bobagem — ela só funciona nos filmes em si. Nesse caso, Vidas ao Vento é um filme menos inventivo, porque o caráter bibliográfico da história nunca bate bem com o fluxo narrativo que Miyazaki entrega, e um acaba interrompendo o outro. O Menino e a Garça parece muito mais um resumo da obra de um mestre que Vidas ao Vento. Não deixa de ser lindo e emocionante. Mas é aquele baque, depois de assistir uma obra-prima. Eu devia ter esperado mais um dia.

Nausicaä no meio de uma floresta de fungos gigantes

Nausicaä do Vale do Vento não tem o obstáculo estrutural que me incomoda em Vidas ao Vento, e não tem culpa também de existir Princesa Mononoke, uma versão muito mais impecável desse filme. Nausicaä foi feito um pouco antes do Studio Ghibli existir de fato, mas as preocupações que Miyazaki explora em sua carreira estão aqui: a ação regida pelo desenvolvimento emocional de sua protagonista mais do que progressão da história, o conflito entre o homem e a natureza, a conexão espiritual com o mundo e os seus mistérios. A animação já é surpreendente — desde cedo Miyazaki tem uma mão fantástica para criar esses mundos repletos de incertezas e caos, e cheios de beco sem saída que eu adoraria me perder. Não é tão impactante quanto Princesa Mononoke nem O Menino e a Garça, seus descententes mais semelhantes na filmografia do diretor, mas é ótimo mesmo assim.

Ghibli Fest: Dia 8

O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro não fazem sentido. Suas lógicas internas são incertas. As regras de seus mundos são inconstantes. O que uma pessoa vê na outra é um mistério. Nada faz muito sentido. Ainda bem.

O Castelo animado entre as montanhas

Em O Castelo Animado, uma chapeleira solitária é amaldiçoada e assume a forma de uma senhora de noventa anos. Ela foge para as Terras Devastadas, uma região longe da sua cidade, em um país que está em guerra com outro. Lá ela conhece Howl, e seu Castelo Animado. Ela forma uma família dentro daquele castelo, descobre a verdadeira natureza de seus sentimentos. Se apaixona, cruza dimensões, revela a verdadeira forma de um demônio e de um espantalho. Ela acaba se apaixonando por Howl, e ele acaba se apaixonando por ela também.

Não é o que acontece em O Castelo Animado que importa — mas como acontece. Sophie descobre que seus sentimentos importam, e que deve confiar neles. É uma lição simples, mas que reverbera a ponto de influenciar uma guerra inteira, a guiar um grupo de pessoas a formarem uma família. É um filme gigante — ele se extende em horizontes distantes, múltiplas cidades e linhas do tempo que se chocam. No centro de tudo isso, porém, está Sophie, que aprende a lidar com cada um dos sentimentos que ela aprendeu a reprimir — sua curiosidade, sua determinação, sua paixão. Todo esse mundo vasto e incerto vai ficando mais lindo conforme ela mesma vai se reconectando com seus sentimentos. Faz sentido porque o que Sophie sente faz sentido.

Chihiro olha um bonde passando no meio do mar durante a noite

Já A Viagem de Chihiro é uma obra-prima. E não faz sentido nenhum também: Chihiro e seus pais estão se mudando para uma nova cidade. Eles acabam cruzando o limiar e entrando no mundo dos kami. Os pais de Chihiro se comportam mal, e viram porcos. Para salvá-los, Chihiro precisa trabalhar para a bruxa Yubaba em sua casa de banhos.

As regras do lugar são incertas desde o início, e sempre que você acha que pegou o jeito, elas mudam. Mas Chihiro também muda. No início do filme, Chihiro mal sabe tudo o que está sentindo — ela está irritada de deixar os amigos pra trás, e o medo toma conta dela de tal maneira que ela mal consegue descer os degraus da escada que levará ela até o Kamaji. Quando ela toma a iniciativa de ajudar uma das fuligens a terminar seu trabalho, ela é movida pelos mesmos sentimentos grandiosos que ela sentia antes — compaixão, curiosidade, um pouco de medo. Mas ela age sobre eles, e então ganha a confiança do Kamaji. Ao usar seus sentimentos para guiar sua jornada, Chihiro vê seus colegas na casa de banho respeitando-a cada vez mais. Chihiro tem uma missão — duas, quando o filme acaba —, e sua determinação muda tudo dentro dela.

Muito de A Viagem de Chihiro é incompreensível. Por que as pernas de Chihiro param de funcionar? Por que o bebê de Yubaba é gigante? O que faz o selo de Zeniba? O filme passa por essas perguntas muito porque segue a lógica de um conto de fadas, que geralmente deixa mais dúvidas do que respostas em seu caminho; mas também passa por elas porque A Viagem de Chihiro tem confiança total em sua protagonista. Ela segue em frente em meio à essa incerteza toda. Não por falta de interesse, mas porque ela tem uma missão a cumprir. A menina que mal caminhava sem estar sendo carregada pelos pais anda descança pelos trilhos submersos no mar para pedir à uma bruxa a alma de seu amado de volta.

Todo A Viagem de Chihiro é perfeito, mas eu não consegui segurar a emoção quando Chihiro, Boo, o passarinho e o Sem Rosto pegam o trem e cruzam esse mundo de melancolia e solidão. As notas do piano na trilha de Joe Hisaishi parecem o vento noturno nas janelas do trem. Não tem sequência mais linda no cinema. Muito do que acontece ali é misterioso também. Tem a sombra de uma garota sozinha em uma estação de trem. Quem ela está esperando?

Nada disso faz sentido em A Viagem de Chihiro, mas tudo o que Chihiro sente faz. Desespero, medo, fascinação, confusão. E os filmes de Miyazaki são guiados pelos sentimentos de seus protagonistas, muito mais do que lógicas narrativas e arcos dramáticos. Seus vilões são temporários, as estruturas são impermanentes, e muitas vezes já viraram ruínas. Reinos e guerras mudam e acabam. Seus personagens tem apenas seus sentimentos como guia, e como companhia nesse mundo. São seus sentimentos que eles aprendem a entender e confiar. Não há um sentimento ruim — nem o medo, nem o desespero, são fúteis. Como as colinas gramadas gigantescas, os horizontes distantes, a mitologia incerta, os voos triunfais e a trilha de Joe Hisaishi, essa é uma das constantes do cinema de Hayao Miyazaki. E é o vento norte de sua obra-prima. Absurdamente mágico.

Ghibli Fest: Dia 7

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins é um absurdo. Quando eu vi esse filme pela primeira vez eu fiquei impressionado sobre quanto esse filme vai fundo na ideia, sem vergonha de parecer ridículo. É um épico de guerra que consegue, ao mesmo tempo, modular entre a devastação de um conflito e achar graça no comportamento preguiçoso dos seus personagens e seus sacos gigantes.

No meio de PomPoko tem o épico de guerra, a comédia de costumes, o filme de espião e o drama da imigração e assimilação. Sem mentira. E tem Takahata modulando estilos, criando três “camadas” visuais para cada estágio de transformação de um guaxinim. Desde o mais lúdico e fantástico ao mais realista (e triste).

Guaxinins observam casas durante a noite

É a segunda vez que eu assisto PomPoko no cinema. Ano passado a cinemateca exibiu esse filme, e eu fiquei impressionado com a beleza dos cenários no bosque em que os guaxinins, e como Takahata cria um baque quando esse cenário vaificando mais e mais concretado, quando as ruas começam a passar. Takahata trabalha com a mesma melancolia de Memórias de Ontem aqui — com personagens assimilando a transformação que eles vão precisar assumir para continuar existindo, ou o fim trágico que eles vão ter ao se negarem. Ele modula tão bem os aspectos lúdicos e trágicos desse filme que o finalzinho, quando vemos a família na cidade, eu não consigo evitar e choro toda a vez. É um filme triste, mesmo sendo engraçado, já PomPoko mostra logo cedo que essa guerra foi vencida antes mesmo de começar. É o que a derrota parece pros guaxinins que eu acho ainda mais desolador. Ainda bem que tem aquele epílogo, um suspiro no meio da tristeza.

Ghibli Fest: Dia 6

Revendo os filmes do Studio Ghibli assim, um atrás do outro, a gente querendo ou não fica fazendo paralelos e suposições. Por exemplo, os dois filmes menos excelentes até aqui — Eu Posso Ouvir o Oceano e Da Colina Korukiko — parecem querer muito beber da fonte de Memórias de Ontem, uma das pérolas do cinema de Isao Takahata.

Embora Miyazaki seja o mais conhecido dos mestres do Studio Ghibli, Takahata não fica atrás em termos de qualidade. Dos seus cinco filmes pro estúdio, eu acredito que no mínimo três são obras-primas tremendas. Seu primeiro filme, O Túmulo dos Vagalumes, é um dos manifestos mais tristes e lindos contra os horrores da guerra que eu já vi. Seu último filme, O Conto da Princesa Kaguyia, é uma obra de arte, uma viagem sensorial pelo infinito e pelos mistérios da nossa existência, pelos limites do que a gente consegue imaginar que existe no mundo. Amanhã tem sua outra obra prima, PomPoko. (Eu considero Meus Vizinhos, os Yamada outra obra-prima, mas sei que é uma opinião impopular).

Uma plantação de flores em meio às montanhas, com pessoas coletando elas

Embora seja um filme “menor” do diretor, Memórias de Ontem é um colosso de filme. Em uma viagem de verão, uma mulher vai ao campo ajudar em uma fazenda, o que a faz lembrar de sua infância. Ao invés de fazer as memórias serem puxadas por eventos relacionados no presente, Memórias de Ontem parece muito mais interessado em capturar aquele sentimento que a gente tem de quando uma memória rouba a nossa atenção e nossos sentidos. É lindo como Taeko que lembra da vez que provou um abacaxi, e Takahata faz questão de mostrar como a mãe corta a fruta para a filha, como um daqueles detalhes que a gente guarda na memória e que, parece, não fazem sentido.

É como esse apanhado de momentos “aleatórios” da infância de Taeko são usados pelo filme para nos informar quem é essa mulher, o que a frustra e o que ela sente falta, que torna Memórias de Ontem brilhante. Embora seja um filme acessível, como todos os do estúdio são, é um filme sem grandes sequências de aventura ou fantasia. Nem mesmo o ritmo é constante: assim como na vida, tem dias que Taeko está mais no passado do que no presente, enquanto tem dias que o presente chama mais a atenção. Em termos de animação, Takahata está no seu lado mais pé no chão aqui, como em Túmulo dos Vagalumes, mas ele aproveita a estrutura de memórias do filme para contornar esse passado em névoas, com espaços vazios que se desfazem nas bordas da tela — esse é um mundo que existe nos limites das sensações de Taeko, mais do que tudo.

Ghibli Fest: Dia 5

Ontem foi aniversário do meu pai, então não consegui passar no meu computador e escrever sobre o filme de ontem do festival, Da Colina Kokuriko, de Gorō Miyazaki. Também não vou dizer que fiz muita questão, já que o filme não é lá essas coisas. Ele é bonito, mas a melancolia que ele evoca é muito básica, nem parece ser do mesmo estúdio em que o eco do vento pode ser sentido no farfalhar da floresta do Meu Amigo Totoro. Sua narração torna a melancolia em texto, ao invés do subtexto com a qual os melhores filmes do estúdio parecem trabalhar. Te dizer que eu tentei ver esse filme duas vezes, e nas duas vezes eu cochilei. Nem no cinema eu me aguentei.

A família Yamada assistindo TV, com o pai do lado de fora de casa com cara de brabo

Já Meus Vizinhos, os Yamada é genial. Eu amo o trabalho do Takahata, e sua liberdade em usar traços e estilos de animação distintos para dar vida ao cotidiano dos Yamada é de uma delicadeza que eu acho que poucos filmes capturam toda a beleza que existe na dinâmica familiar, em todas as suas especificidades e problemas — os Yamada estão longe de serem amorosos, eles estão sempre implicando entre si. Mas Takahata cria as esquetes da família com tanta beleza e atenção aos detalhes mais básicos da convivência que transparece o carinho desses personagens pela dinâmica que eles criaram entre si. Tem sequências impagáveis, como quando eles esquecem a caçula no shopping, ou quando a mãe corre para recolher as roupas quando a chuva começa, e percebe que ela esqueceu de estendê-las. Ou aquela em que o pai se levanta e oferece para buscar algo caso alguem queira, só por educação. É tão mundano, mas tão lindo, que dá uma animada no meu próprio dia-a-dia. As duas sequências que abrem e fecham o filme, das histórias de casamento, são brilhantes. Um filme que eu amo rever. Amanhã tem Memórias de Ontem, outra obra-prima dele.

Ghibli Fest: Dia 4

O Serviço de Entregas da Kiki foi ontem, mas depois da sessão eu tinha um aniversário pra ir e só consegui sentar agora no computador pra escrever sobre. Mais uma sessão cheia — essa a gente sabia que tava esgotada já fazia uns dias. Tava chovendo bastante, e mesmo assim quase todo mundo veio. Só tinham uns dois ou três lugares vagos nas poltronas da primeira fileira.

É um show. Kiki não foi o filme que eu vi quando eu era criança, como eu suspeito que muitos na sessão tenham visto. Eu vi ele pela primeira vez alguns anos atrás, mas ele parece ser um ótimo filme para assistir na casa dos avós num sábado. Como outros filmes do Miyazaki, é um filme que voa: a história passa voando, por diversos personagens, sem nunca parecer apressado. Kiki apresenta as dinâmicas da vida de uma bruxa com tanta facilidade, e sem precisar parar a história, que é de dar inveja a qualquer roteirista. Ela precisa sair de casa, encontrar uma cidade sem bruxa, e oferecer seus serviços à população — e, consequentemente, amadurecer. É muito pesado para uma criança de 13 anos, e Miyazaki sabe disso! A conversa com Ursula, sobre como ela não consegue desenhar todos os dias, é de uma honestidade e franqueza que me tira o chão.

O Serviço de Entregas da Kiki acaba exatamente quando o conflito se resolve, mas eu acho que muito do que me chama a atenção no filme é o que está ao redor dele. Por exemplo, eu amo como o marido da Osono parece um durão mas fica andando pelo salão da padaria enquanto a Kiki não volta pra casa numa noite; ou todo o arco de romance do Jiji. É um filme repleto de pessoas queridas e simpáticas e que querem ajudar um ao outro. Não é a toa que a gente sai dele inspirado a fazer parte de um mundo melhor.

Ghibli Fest: Dia 3

Eu e o Tobias estávamos nas manifestações aqui da minha cidade contra a PEC da blindagem e do PL da anistia. Foi muito bonito, muito alegre. Pra uma cidade cada vez mais cinza, até o sol abriu. Deu um bocado de esperança ver toda aquela galera junta.

Algumas horas depois deixei o Tobias em casa pra ir na sessão do Ghibli Fest de hoje. Deu tempo de pegar um pastel no bar aqui do lado de casa e seguir caminho. É muito bom ser brasileiro.

Totoro, totorinho, totorinhoinho, Satsuki e Mei em cima da árvore gigante

Meu Amigo Totoro é um dos filmes mais importantes da minha vida. Eu fui uma criança muito assustada e calma, e meu desenho favorito era a fita VHS desse filme que ficava na casa da minha avó, e que eu via nos fins de semana que eu ficava lá. Totoro é um filme mágico, e revendo ele depois de muitos em muitos anos eu achei ele mais emocionante ainda. Nunca percebi o esforço que a Satsuki faz em parecer forte para a Mei, em fazer a irmã acreditar que tudo vai ficar bem enquanto ela em si tá com muito medo de perder a mãe.

Vai ver eu já tava no espírito quando eu entrei na sessão, mas tem muito do senso de comunidade de um vilarejo pequeno em Meu Amigo Totoro, que me lembra tanto a infância quanto o ditado de que “é preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” (que tem origem incerta). É preciso de uma cidadezinha inteira, tanto as pessoas quanto a natureza dela, para cuidar de Satsuki e Mei, e mesmo assim vão ter momentos em que elas vão se sentir sozinhas e desprotegidas. Sorte a delas de o Totoro estar por perto.

E visualmente lindo, caramba. Não é a toa que esse filme fica na memória. Miyazaki é o rei das transformações da matéria — de tornar o sólido em líquido, o rígido em maleável. O mundo se desdobra na nossa frente de formas absurdas e naturais ao mesmo tempo. A cena em que Mei conhece o Totoro, e adormece sobre ele tirou sorrisos e bocejos do melhor sentido: é um filme que nos deixa tão confortáveis naquele espaço, naquela lembrança de tudo o que a gente consegue ver quando somos crianças e que deixamos pelo caminho conforme vamos crescendo, que parece que o filme vai nos ninar.

É um dos melhores filmes que eu já vi. Era quando eu tinha seis anos, e continua sendo agora. Que bom ter reencontrado ele nesse diazinho perfeito.

Ghibli Fest: Dia 2

Porco apoiado na parede enquanto fala em um telefone público — ele tá com uma posa muito charmosa

Sessão cheíssima pra assistir a Porco Rosso: O Último Herói Romântico. Foi bem divertida também. Porco Rosso é muito engraçado, e a plateia tava bem a fim de rir. Por mais séria que a história se torna, a forma física do herói — ele é um porco! — sempre vira um motivo pra sorrir. E é divertido como Hayao Miyazaki usa essa forma pra brincar com nossas expectativas. Porco é sempre filmado em posições típicas de um galã de cinema, ele parece até se vestir como um Jean Garbin em Trágico Amanhecer (do Marcel Carné, 1939).

Dos filmes do Miyazaki, esse é um daqueles fascinantes em segredo. Não é sobre o protagonista tentando quebrar uma maldição, ou aprendendo a amar de novo, ou a confiar em outras pessoas. Tem tudo isso no filme, mas seu final melancólico parece virar toda essa aventura de ponta cabeça — esse desse ser um filme definidor pro Wes Anderson, que adora pregar essa mesma peça nos seus filmes e puxar o tapete do espectador nas cenas finais, e empurrar ele em uma maré de melancolia. Bom demais.

Ghibli Fest: Dia 1

Hoje foi o primeiro dia do Ghibli Fest aqui na Cinemateca Paulo Amorim. Eu vou ir em todas as sessões, e vou tentar escrever sobre todos os filmes (brevemente) aqui.

O filme de hoje foi Eu Posso Ouvir o Oceano, que o Studio Ghibli lançou originalmente em 1993. O filme é uma espécie de romance, uma espécie de filme de memória. Como romance ele não é muito bom, mas acho que é proposital: na história, dois amigos adolescentes se apaixonam pela colega nova na escola. Contando assim parece um triângulo amoroso, mas o diretor Tomomi Mochizuki não parece tão interessado nesse aspecto. Eu Posso Ouvir o Oceano é muito melhor como um filme de memórias, porque é mais preocupado em capturar como esses jovens são desajeitados em se expressarem e nas suas preocupações (a viagem de férias, o festival do colégio, as dinâmicas entre os grupinhos na escola) do que o que eles estão sentindo. Taku é extremamente desajeitado e incerto sobre seus sentimentos — ele age por impulso, tá sempre se apoiando em algo porque parece que nem os pés ele consegue segurar. Quando o salto temporal acontece, o filme fica muito melhor — e me faz querer que ele tivesse indo e vindo no tempo mais vezes. A dinâmica dos ex-colegas na noitada é muito específica para não ser baseada em fatos (eu mesmo já tive noites assim com amigos de infância).

Mochizuki e seus animadores também são muito bons em seus planos inseridos no meio da ação. As vezes é de um detalhe do cenário — como o corrimão de uma escada —, as vezes é do balançar da camisa de uma personagem e o que ela revela por baixo. Dá uma sensação de memória à flor da pele, quando a gente lembra da temperatura de um dia especial, ou do frescor do banheiro da casa de sua avó, que você não entra há muitos anos. São detalhes tão específicos, mas que elevam todo o filme com eles.

É um bom filme pra começar o festival. Não é o melhor, nem o pior, filme do estúdio. Mas é um bom exemplo de como o estúdio é capaz de trabalhar com personagens nem tão simpáticos assim. Nem Taku, nem Yutaka e muito menos Ritako são lá muito legais — mas cada um tá passando por algo nesse momento, e toda a esquisitice que eles aparentam em suas interações é muito honesta para a idade de seus personagens.

Eu peguei a sessão das 17h, então tô saindo mais cedo pra descer na Cinemateca. São dias assim que me fazem ser muito feliz em morar à algumas quadras do meu cinema favorito da cidade, e fazia um tempo que eu não pegava um filme depois do trabalho. Eu chego ali em menos de quinze minutos, e quando eu saio da sessão e cruzo a Andradas, o filme tá todo matutando na minha cabeça. Esse festival vai ser bom pra me deixar todo emocionadinho — são meus últimos dias na empresa que eu trabalho há quase cinco anos —, terminando meus dias saindo de filmes nostálgicos e melancólicos e cruzando pela minha parte favorita da cidade. Me fez lembrar, convenientemente, de quando eu era jovem e tinha a tarde livre para pegar filmes na Paulo Amorim, e voltava correndo para a rodoviária para pegar o ônibus pra minha cidade. A situação é invertida agora, mas a sensação de sair da sala de cinema no fim da tarde com os sentimentos aflorados é a mesma.