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Quanto céu tem aqui fora

Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos.

Nós nos levantamos da mesa e vamos ao caixa. Eu insisto em pagar a conta dessa vez. Você finge se irritar, mas me beija na bochecha. A mulher do caixa me olha preocupada, vira o rosto pra você e me olha outra vez.

“Se vocês se separarem, o sonho vai acabar”, ela diz baixinho. Eu não entendo. Não que eu não tenha ouvido o que ela disse, mas eu não entendo o que ela quer dizer. Ela fala mais alto. “Se vocês se separarem”, e olha pra você, “o sonho vai acabar”.

A gente se olha. Você franze o rosto com aquela sua falsa preocupação e pisca o olho pra mim. Eu não lembro de conferir o troco, porque eu só quero chegar perto de você pra sairmos juntos do café. Eu digo bom dia pra moça do caixa e caminhamos, abraçados, em direção à porta.

A manhã está linda. É verão e as roupas são leves. Eu seguro seu rosto com as duas mãos e te beijo. Você me beija de volta, pega minhas mãos e as segura perto do rosto. Você me olha por cima dos nossos dedos entrelaçados. Você sempre encontra meus olhos, acho que foi isso que me fez te amar.

“Até mais tarde”, você me diz, e nossos dedos se desentrelaçam. Você se vira e começa a se afastar. Eu me viro pro outro lado da rua e, também, me afasto. Eu sei que você deu uma olhadinha em mim — sua verdadeira despedida, sempre — enquanto nos afastamos. E aí, tudo começa.

Eu demoro pra reconhecer o som que vem crescendo de longe. Eu percebo que ele é alto e me atrapalha, mas eu demoro para pôr a ideia de que ele existe na minha mente. Meu raciocínio é mais lento que meus olhos, que veem no fim da rua um helicóptero ir direto ao encontro do prédio. A explosão é alta, e as pessoas saem correndo. Umas vão em direção ao caos, e outras correm dele.

Eu fico imóvel, sem conseguir entender o que eu acabei de ver. Todo mundo parece que já entendeu. Um homem sai do carro e corre em minha direção. Eu ouço outra explosão acontecendo em algum lugar, mas não consigo entender de onde.

O homem grita “ei ei ei”, apontando para você. Você também está imóvel, alguns metros atrás de mim, a boca entreaberta e os olhos assustados. Você se acorda do transe feito de pavor e me olha. Seus olhos sempre me encontram, não é mesmo? O homem te chama, e ele repete.

“Se vocês se separarem”, e então bem devagar, “o sonho vai acabar”. Ele te olha, ele me olha. “Vocês entenderam isso?”. Eu quase me ofendo com a sugestão da minha ignorância, mas eu não vou mentir que eu não sei se entendi.

Você segura minha mão, e nos olhamos. E daí eu acho que entendemos tudo ao mesmo tempo. Eu seguro firme em você e saio correndo para longe daquele caos.

Corremos, e corremos. E corremos. Os carros estão todos parados, muitos sem ninguém dentro. Todo mundo fugiu, ou todo mundo foi em direção às explosões que causamos? Eu sei que a gente precisa correr. Você me acompanha, eu sinto o baque dos seus pés no chão ao meu redor.

Quando o fôlego acaba, e a gente chega em uma praça onde as coisas parecem estar mais calmas, eu sento em um banco e olho pra você, que ainda está de pé, respirando fundo. Eu nunca perguntei sobre seu histórico de fumante, mas essa dúvida me passa pela cabeça nesse instante.

“De quem é o sonho?”, você pergunta primeiro. Por um milésimo de segundo eu fico com raiva — eu queria ter perguntado isso, porque eu achei que você sabia a resposta. Agora o peso dessa resposta tá sobre mim, e eu não sei o que dizer. Eu olho ao redor, e não vejo ninguém.

“Eu não sei”, eu digo. “Eu não reconheço esse lugar, e você?”

Você caminha em círculos, olhando os arredores. “Eu não sei. Eu tenho a impressão de que conheço, mas eu não sei onde a gente tá. Faz sentido?”

Nada faz sentido, a raiva cresce um pouquinho. “Como que a gente vai saber quem tá sonhando?” eu pergunto. Você se belisca. Eu me belisco. Parecia fácil demais. É óbvio que não funciona.

“Onde a gente tá?”. É estranho. Instantes atrás eu achava que sabia onde eu tinha que ir. “Agora parece que eu não reconheço onde a gente tá”, eu digo. “Eu achava que sabia até pouco tempo.”

Você percebe a mesma coisa. Me olha com sua cara confusa — que coisa mais fofa. “Onde é que eu tinha que ir?”

Parece que a gente está nessa praça por muito tempo quando você senta do meu lado e me fala as palavras mais bonitas do mundo. “Acho que a gente pode fazer o que a gente quiser, não acha?”. Eu vejo seu olhar se abrindo pra um sorriso quando eu levanto o rosto e te encaro.

“É verdade”. Eu seguro sua mão e te levanto.

Você tenta se lembrar onde você mora. Ou onde eu moro. Ou se a gente mora junto. “Eu só lembro que quando eu deito no sofá no fim da tarde, a luz do sol entra pela janela da sala e ilumina os meus pés”, você me explica.

Eu não acho que eu sabia desse detalhe, e meu coração se parte um pouco. Será que a gente não mora junto, então? Se eu tiver dormindo, será que eu te conheço?

Nós estamos passando por um subúrbio cheio de ruas tortas e casas espaçosas, com jardins abertos. “Minha mãe mora aqui”, eu digo de repente, como se isso fosse verdade. A casa dela está ali, logo em frente. Eu bato na porta, mas ninguém atende. A porta está destrancada, então eu entro. Você está logo atrás de mim.

Não existem fotos minhas ou da minha mãe pela casa. Essa poderia ser a casa de qualquer um. Mas eu sei que é a casa da minha mãe — eu sei exatamente onde está o banheiro e te explico, porque você precisa usá-lo, que a descarga é demorada. Eu te peço pra não trancar a porta. Quando você me pede um motivo, eu respondo que eu tenho medo que você desapareça.

Eu ouço você puxar a descarga e a lavar as mãos. Um alívio percorre meu corpo quando eu vejo você abrir a porta.

Nós esperamos minha mãe chegar, mas ela não chega. O dia começa a escurecer quando a gente decide sair dali. Você me dá sua mão e caminhamos de mãos dadas pela rua onde nós crescemos e eu sinto que foi assim que a gente se apaixonou.

Nós estamos na beira da interestadual. Muitos carros ainda andam pra lá e pra cá. O sol recém se pôs quando a gente chega no estacionamento em que você se apaixonou por mim. Não tem carros ali, mas a gente ouve os que andam ao longe. Nós descemos o barranco onde a grama ainda é alta e eu me sento onde sempre me sentei quando ia ali com você. Os fachos de luz dos carros pintam seu rosto por instantes.

“Eu sempre gostei de quanto céu tem aqui fora”, você diz, olhando pra cima. É verdade. O céu vai até muito longe. Não tem nenhum prédio a vista. A estrada vai de um horizonte ao outro. O céu é gigante nesse lugar. O azul ainda não é preto, mas o sol não tá mais no horizonte. É a última luz que a gente vai ver.

Você não me olha quando você fala nossos medos.

“Eu não quero acordar e ver que você não tá comigo”.

“Eu também não”.

“Eu tô com medo de acordar e perceber que a gente nem se conhece”.

Eu penso. “Se a gente não se conhece, onde a gente se viu?”

Você me olha. Até no escuro, você me encontra.

“No trem?”

“No banco?”

Você sorri. “Ou quem sabe no café?”

“Eu acho que eu teria sorrido pra você no café”

“Você sorriu”

“Vou lembrar de sorrir de novo, então”.

Eu acho que a gente chegou no fim do mundo caminhando. A gente olha ao redor, e tem um posto de gasolina fechado. Não tem movimento nenhum, mas eu escuto o som do mar. Você também escuta?

“Sim”, você me responde. Mas eu não fiz essa pergunta.

Eu te olho e você sorri. Com uma barra de ferro você quebra a porta de vidro da loja de conveniência. Eu espero pelo pior, mas ele não vem.

Um flash da luz de emergência pisca e ilumina as prateleiras. “Eu tô com fome”, você se justifica.

A gente entra na loja vazia e você procura por algo muito específico nas prateleiras de salgadinho. Eu vou em direção às geladeiras, e ouço o zumbido delas. Meu coração bate forte. Eu sei o que está acontecendo.

Os rótulos das bebidas estão todos em idiomas que eu não sei identificar. Eu pisco e tento decifrar as linhas das palavras do que obviamente é uma Coca-Cola, mas nada na lata é compreensível pra mim. Eu percebo que meu coração desacelerou, e ao perceber isso o desespero bate. A loja de conveniência não é mais a mesma.

Você me dá um beijo e eu me viro pra te ver, mas você não está mais aqui. Minha respiração começa a ficar curta conforme meu medo vai aumentando. Eu lembro do que você me disse uma vez. “Pra lembrar que está sonhando, lembre de olhar para as palmas das suas mãos”. É a última vez que eu ouço sua voz.

Eu tento respirar fundo. O coração vai sair pela boca se eu não fizer isso.

Eu olho para as palmas das minhas mãos. Eu levanto o rosto e consigo perceber o sonho derretendo ao meu redor. As lojas ao redor começam a desmoronar e os carrinhos de supermercado começam a derreter. Eu volto a perder o fôlego.

Eu sinto a textura do lençol da minha cama, que eu escolhi a dedo. O peso da minha cabeça no travesseiro. Eu ainda sinto que o coração vai explodir e o pulmão não vai aguentar. Por um breve segundo, eu abro os olhos e esqueço onde está a porta do quarto. Eu mudei a posição da cama essa noite, por acaso?

No canto do meu olho eu enxergo a silhueta coberta pelo lençol. Eu a observo com cuidado, com medo do coração se partir. Eu me recuso a puxar a coberta e descobrir a verdade.

Os contos de Raymond Carver

Um dos meus planos para 2020, lá no longínquo ano de 2019, era que eu ia voltar a ler mais. Eu fui uma criança que lia muito, mas quando eu entrei na faculdade eu magicamente parava de ler. É estranho, porque desde que eu me lembro eu estou sempre “lendo um livro”. Nos últimos anos, isso significava ler algumas páginas, ficar alguns meses sem ler, daí ler mais algumas páginas, e assim mais uns meses sem ler até terminá-lo. Mas eu sempre considerava que eu tava lendo um livro. Eu decidi parar com essa baboseira e ler de uma vez, e se o livro não me chama a atenção pra voltar no outro dia, simplesmente procurar outro pra ler. Desde que eu saí da faculdade eu acho que eu lia um livro por ano, e muito porque eu ocupei o que eu considerava meus horários de leitura com outras coisas (ver o Twitter, principalmente). Então eu mudei isso esse ano.

Demorou um bocado pra eu encontrar meu tempo pra ler como eu queria em 2020, mas se tem um plano pra esse ano que eu me dediquei (e que não se chama Animal Crossing), foi o de ler mais. Eu finalmente encontrei meu horário de leitura perfeito: depois do almoço e antes de voltar pro trabalho. Eu costumava usar esses trinta ou quarenta minutos pra ficar descansando na frente do computador, mas eu acho que eu nunca descanso na frente do computador. Então eu decidi usar esse tempo pra ler.

Eu já tô lendo muito mais do que eu li nos últimos anos. Eu decidi que ia ler todos os contos do Raymond Carver, que se espalham por sete livros publicados e duas coleções de “restos” no gigantíssimo 68 Contos de Raymond Carver. Eu comecei relendo Iniciantes, um livro com a versão “original” dos seus primeiros contos publicados. Eu já tinha lido esse livro em 2014 e gostado muito. Reli e continuei gostando muito, então decidi seguir em frente.

Raymond Carver foi considerado um dos grandes autores do minimalismo americano, uma abordagem à escrita que reduz a narrativa aos seus elementos mais básicos. Eu tenho a impressão que isso torna os contos do autor mais cinemáticos, também. Eles são bem diretos em termos do que está acontecendo, e torna o detalhismo bem mais eventual, e bem mais forte quando aparece. Em um dos meus contos favoritos, “Coreto”, Carver detalha a textura do lençol da cama de hotel que o casal está deitado. Mas ele o faz porque eles estão sobre aquele lençol por horas, e a textura começa a chamar a atenção de seus personagens.

Segundo a introdução de Iniciantes, esse minimalismo talvez não fosse um aspecto inicial do autor, mas sim do editor Gordon Lish, que reduziu os contos daquele livro em até 60% para publicação em Do que estamos falando quando falamos de amor. Lendo eles depois de ver suas versões maiores me causou uma estranheza, porque eu já achava Iniciantes bem direto ao ponto, e alguns contos de Do que estamos falando… parecem “capados” de fim ou de início como resultado.

Mas é algo que eu acabei me acostumando, e que parece que o escritor foi se adaptando conforme seus próximos contos, que parecem menos capados e mais como momentos eventuais nas vidas ordinárias que Carver se especializou em escrever. Todos os contos do autor são sobre o cotidiano de pessoas de classe média-baixa dos EUA, satisfeitas por não estarem na linha de pobreza, mas conscientes que se algo acontecer — se elas perderem o trabalho, sofrerem um acidente, ou a geladeira estragar — pode ser a catástrofe que vai levar todo o pouco de estabilidade que eles têm. É como a versão literária dos quadros de Edward Hopper, como o famoso Nighthawks: composições simples de pessoas em meio à imensidão americana. Distantes o suficiente pra gente saber o que elas estão sentindo de verdade — mas o rosto delas não nos engana.

Carver nunca escreveu dois personagens iguais (embora alguns livros possuam versões diferentes de contos de outros livros, o que eu acho bacana), mas todos os seus contos parecem ter aspectos autobiográficos. Carver também viveu de bicos e trabalhos temporários enquanto não conseguia publicar seu primeiro livro, e em todas as suas histórias a presença de bebidas alcoólicas (ou a ausência delas) é bastante demarcada, talvez um reflexo do alcoolismo que ele enfrentou até os quarenta anos.

Esses fatores comuns, e o minimalismo que guia a forma de todos os seus contos, fazem suas histórias serem simples de você sair lendo e acompanhando seus personagens; mas os sentimentos que elas provocam estão longe de serem fáceis de suportar. São famílias se desfazendo, amigos percebendo que estão se afastando, ou o medo de se perder tudo que os deixa imóveis. Em V_ocê poderia ficar quieta, por favor?, seu primeiro livro de contos, os personagens estão todos silenciosamente desesperados, mesmo quando estão felizes. O tom se complexifica bastante durante a carreira do autor, até chegar nos magníficos _Catedral e Fogos, seus dois últimos livros.

A coletânea Catedral é considerada a obra-prima do autor, e o seu conto-título talvez seja o mais marcante de todos os que eu li: nele, o marido precisa receber um amigo da esposa que não ama mais, de uma época bem antes dos dois terem se conhecido. O amigo é um homem velho e cego, e o conto acontece todo dentro da cabeça do marido, com seus preconceitos aflorando e então despencando, um após o outro. A história é bem direta: o amigo aparece, eles jantam, o marido tenta não falar bobagem, ele convida o amigo pra assistir TV enquanto a esposa arruma a cozinha, está dando um documentário sobre catedrais, o amigo pede pro marido descrever como são as catedrais, já que ele nunca viu uma, e o marido percebe coisas que ele parece nunca ter visto dessa forma — e o leitor também.

Já é em Fogos que eu vi o autor explorando mais a sua abordagem. Os contos ainda são bastante minimalistas e centrados no que os personagens estão fazendo e pensando, mais do que o que acontece ao seu redor; mas Carver parece mais confortável em transformar sua forma e adaptá-la. Alguns contos têm mais de um narrador em primeira pessoa, e as vezes o que um fala contradiz o outro. Outras vezes o tempo da narrativa muda — começa com uma primeira pessoa no presente, e se transforma numa primeira pessoa no passado, como se o que está acontecendo do nada se transforme em uma memória. Nada que acabe nos tirando da história para observarmos a forma como ela está sendo contada, e essa é a magia dos contos de Carver pra mim: elas acontecem tão naturalmente, mesmo as mais tristes, as mais violentas, que você só percebe o que aconteceu quando elas acabam, quando elas mesmas se transformam em memória para o leitor.

São pequenos momentos na vida de pessoas comuns que eu acompanhei o ano inteiro, e fico muito feliz de ter escolhido esse autor como minha porta de entrada pra literatura de novo. Eu não sei se eu teria a mentalidade de ler um romance nos últimos meses, mas era bom sempre ter um pequeno momento na vida de alguém que eu podia mergulhar e observar, as vezes compartilhar um pensamento, ou as vezes só ver elas com a distância que o autor me deixou.