Moss Moss é um jogo de plataforma desenvolvido com o “console fantasia” PICO-8 por Noel Cody. Eu achei viciante.
Eu procuro por meu pai na espiral de estrelas de Blue Prince
NotasRebekah Valentine (Kotaku), em um lindo ensaio sobre o luto sobre seu pai, e o belíssimo Blue Prince:
Quando joguei Blue Prince, não pensei nele como uma história sobre luto. Falando assim, parece estupidamente óbvio. Eu nem considerei isso até que acidentalmente o usei como uma metáfora para explicar meus sentimentos sobre a morte do meu pai ao meu terapeuta. Eu estava explicando a ela o longo processo que passei no último ano de tentar desvendar o mistério do meu pai: quem ele era, por que ele era do jeito que era e por que morreu da maneira triste e estúpida que morreu. As respostas que eu estava encontrando eram chatas, inúteis, deprimentes ou inexistentes. Eu queria que houvesse mais — eu queria que houvesse uma explicação mais profunda, uma ou duas frases organizadas com as quais eu pudesse explicar meu pai para mim mesma que envolvesse tudo em um arco e me permitisse acabar com toda essa coisa de “luto”. Não existe, e nunca existirá. É claro. Mas e se eu continuar procurando um pouco mais?
A história do meu pai não foi feliz. Eu não percebi o quão infeliz tudo era até depois de sua morte, porque ele literalmente nunca falou sobre si mesmo, sua família, sua história ou seus sentimentos. Ele perdeu seu pai por suicídio quando adolescente, suas duas irmãs muito jovens para complicações de abuso de substâncias, e teve um relacionamento profundamente desagradável com minha mãe. Ele foi bom para mim, na maior parte do tempo. Minhas memórias confusas de infância dele são, eu acho, normais, até agradáveis. Ele me levou a jogos de beisebol, inventou músicas bobas para mim, me ajudou com a lição de casa de matemática, me surpreendeu com doces. Mas algum tempo depois que eu saí de casa, ele começou a mudar.
Como Rebekah, eu percebi que Blue Prince era sobre perder muito tempo depois de insistir em “ganhar”. É um jogo sem respostas, mas não sem propósito, eu acho. É profundamente triste em algumas jogatinas, e libertador em outras. Eu acho que justamente isso o faz um registro incrível do que é o luto. Sempre inacabado, muitas vezes triste. Algumas vezes bonito, até. Dificílimo de descrever como é um labirinto que a gente nunca sai, exatamente, mas sempre percebe algo novo dentro dele. É o que fica, e em alguns momentos até que esse mistério é suficiente.
Como curar um coração partido
AchadosA newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.
Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:
Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.
[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.
Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?
Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.
As semelhanças entre sua vida e um cachorro
AchadosI never intended to have this life, believe me—
It just happened. You know how dogs turn up
At a farm, and they wag but can’t explain.It’s good if you can accept your life—you’ll notice
Your face has become deranged trying to adjust
To it. Your face thought your life would lookLike your bedroom mirror when you were ten.
That was a clear river touched by mountain wind.
Even your parents can’t believe how much you’ve changed.Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers,
Burst out of your hand with a fiery glee.
You see them later in hedges. Teachers praise you,But you can’t quite get back to the winter sparrow.
Your life is a dog. He’s been hungry for miles,
Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in.
— Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)
Em defesa dos navegadores em consoles de videogame
EsquinasPor alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.
O primeiro, é esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes.
Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página.
Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em um artigo sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para outro artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É nesse link que está essa pequena anedota de Terence Eden:
Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando.
No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com Candy Crush.
Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do GOV.UK sobre Auxílio-Moradia. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento.
O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente.
Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos.
Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. Todo o resto de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível.
É um pouco do que me faz querer que o nosso gov.br fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do gov.br é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima.
Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.
Um guia para a leitura desse futuro blog
NotasOlá, e boas vindas ao Irrelefante, um blog de tropeços pela internet. Essa é uma definição bem ampla do que eu espero que o Irrelefante seja no futuro. Mas ele ainda não é isso. Com dedicação o suficiente, nos próximos anos eu imagino que esse blog vai estar repleto de posts sobre pequenas descobertas do dia-a-dia, observações sobre a cultura, e aventuras por cantos ultra-específicos da internet. Eu quero que o Irrelefante seja um blog para pessoas que gostam de navegar pela internet. É uma continuação, mais ampla e menos rigorosa, da forma que o meu antigo blog (o Pão com Mortadela) assumiu.
Agora, para ser específico. Com o passar do tempo você vai ver algumas sessões aparecendo na página inicial desse blog.
Impressões é como eu chamo as “resenhas”. Eu não considero crítica. Tá mais para observações sobre filmes, livros, jogos, séries e músicas que eu experimento por aí. Eu espero que elas se tornem mais comuns nos meses seguintes — meu foco é justamente escrever mais sobre o que eu tenho gostado.
Do Pão com Mortadela esse blog herda as Esquinas, que eram os posts mais bem elaborados, o encontro de ideias e temas que andam me interessando em uma conversa entre elas.
O que mais vai aparecer por aqui, provavelmente, são Achados. São tropeços em descobertas de coisas legais: um link bacana, um filme que eu não tinha encontrado antes, uma recomendação de livro que ficou esperando na minha estante (eu sou um leitor lento!).
O que você está lendo agora, é uma versão longa das Notas, que são posts mais curtos e menos “definidos”. Alguma atualização sobre o que anda acontecendo, uma impressão curta demais para se aprofundar. Geralmente, são ou posts mais pessoais do meu dia-a-dia ou posts sobre o blog em si.
E por motivos de estar meio Rory Gilmore das ideias, Listas é uma seção justamente de… listas. Pode ser ranking, pode ser só uma longa tripa de coisas sem muito critério. Se fazem sentido juntas, provavelmente vai estar numa lista, e provavelmente vai estar por aqui.
Acima de tudo, essas seções são uma tentativa de ajudar você a navegar comigo pelo inesperado. Como no Pão, eu pretendo convidar autores para postar aqui de vez em quando ou para colaborar numa lista comigo. Eu pretendo que as coisas mudem e se desdobrem, mas eu quero que essas bases se mantenham para que me ajudem tanto a dar uma forma ao blog (o que eu sinto falta no Tumblr onde minha escrita tem ficado desde o fim do Pão).
Você vai ver posts mais antigos que esse aparecendo no arquivo do blog. É uma forma de eu recuperar o que eu escrevi nos últimos meses, tentando iniciar o Irrelefante. Considere eles como rascunhos que, no fim das contas, acabaram passando na fila de edição. Eles não são muito bons, mas espero que eles tenham um gostinho do que o Irrelefante pode oferecer no futuro. Eu espero que você goste, e volte sempre que quiser.
Notas de diretores aos projecionistas
AchadosGosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público.
Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz.
Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de A Árvore da Vida, de 2011:

Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico Barry Lyndon, e todas as suas especificidades:

Agora, sobre Cidade dos Sonhos, quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch:

(Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.)
O apogeu dos anos 90
EsquinasVai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas esse post do Chris Collins bateu forte em mim:
Most folk didn’t really care about technology. They had a few things like a CD player, a games console or a phone that just worked to call and maybe text. You bought it, you owned it, and everyone kind of accepted it would die eventually. […]
Photos were just… photos. […] You took one because it mattered.
[…] You waited for stuff and nobody lost their mind about it. Waiting was normal.
People worked hard, but it usually meant something tangible. You could point at it and say “I did that”. Not just emails and meetings and vibes. […]
Me lembrou de duas coisas: uma fala em Matrix, quando Morpheus explica pro Neo que a Matrix é uma simulação da humanidade no seu apogeu (os anos 1990). Também me lembrou de “We Used To Wait” do Arcade Fire pro álbum The Suburbs (um disco sobre os anos 1990, inclusive).
Eu vivi a segunda metade dos anos 1990, e concordo. Até ali por 2009, eu acho que a gente tinha o balanço certo do quanto a tecnologia, ou o digital em si, nos ajudava mais do que nos influenciava. As coisas mudaram com o iPhone.
Eu acho que tinha muita coisa errada naquela época, mas eu acho que as coisas tinham mais peso. Hoje em dia, tudo tem um peso de um post numa rede social — seja a barbárie contra um povo, a violência sexual contra crianças, e o prêmio de música que aconteceu na noite de ontem.
Ter saído do Instagram me ajudou muito a tirar esse efeito esmagador que ele tem de tornar tudo conteúdo. O problema é que muito da vida hoje é moldado por essa experiência. Eu vou num restaurante e ele tem “cenários instagramáveis” para as pessoas criarem memórias. As notícias no jornal tem frases curtas para caberem num post ou para serem lidos num story. É meio desesperador estar de fora mas ainda assim sentir seus efeitos.
Acho que é um caminho, e cada um tem sua própria jornada de volta ao mundo, à grama do jardim, à textura das coisas.
Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria
NotasHeather Cox Richardson, via swissmiss:
Os autoritários não conseguem ascender ao poder se houver comunidades fortes e pessoas agindo com alegria. Ou seja, é preciso desespero e raiva para que um autoritário se posicione. Quaisquer que sejam as coisas que você traz para a comunidade, faça-as com alegria e não deixe de fazer o que ama por medo, pois isso, na verdade, é uma forma de resistência.
↪ Meet Veronika, the tool-using cow
AchadosVeronika é uma vaca muito inteligente e especial: