Arquivos de notas

Quieto

Hoje foi um dia quieto. Eu estive quieto. Fora uma reunião de meia-hora depois do almoço, e de uma breve visita de uma amiga para buscar um pacote aqui na minha casa, eu passei o dia quieto. Não só não falei, mas eu senti o meu corpo quieto.

Eu tive um punhado de semanas agitado nesse último mês. Eu me relacionei brevemente com uma pessoa que me tirou do eixo, mas que me deixou inquieto, incerto. Tudo acontecia muito rápido, e com muita força. Até que veio o silêncio e, depois dele, a paz. Quando eu vi, a pessoa foi embora e levou com ela todo o sentimento que tive por ela junto. Passei esses últimos dois dias quieto, recuperando o movimento do meu corpo, apreciando um pouco não ter que falar ou fazer nada. Existindo só dentro de mim mesmo.

Acho que deu a sorte de terem feito dois dias de muita chuva aqui na cidade, porque em dias assim o Tobias também fica quieto, enroladinho na cama dele esperando a chuva passar. A gente troca olhares e carinho no dia de hoje, e ficamos quietos juntos. Nos recuperando depois de um temporal, esperando o dia raiar amanhã.

You Can See Everything

Fissurado no primeiro trailer de You Can See Everything, novo documentário do Nathan Fielder sobre Elizabeth Holmes.

Se Fielder realmente estiver escalando em escopo como fez entre as Nathan for You e as duas temporadas de O Ensaio, eu não duvido que esse filme me tire do cinema com o cérebro como um mingau, estilo Close-up.

Registrando já a minha aposta pra esse filme na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2027, o qual vai resultar na terceira temporada de O Ensaio.

O instrumento que fez o som de “Os Pássaros”

Eu descobri hoje que o som dos pássaros perigosos no clássico Os Pássaros de Alfred Hitchcock são, na verdade, sons sintetizados usando um instrumento chamado trautônio por Oskar Sala. Ouvindo eles sem o contexto do filme, eu percebi que justamente o que tornam os pássaros tão assustadores é, justamente, o som estranho que eles fazem. Meio mecânico e meio fantasmagórico (mas, ainda assim, um som que parece o de um pássaro):

Aqui tem é um documentário sobre o trabalho de Oskar Sala, que ajudou no desenvolvimento do instrumento até a sua morte, em 2002.

Thimbleweed Park 2

Ótima notícia: Ron Gilbert postou no seu blog ontem que Thimbleweed Park 2 está em desenvolvimento, com lançamento previsto pro início de 2028.

Eu amei o primeiro Thimbleweed Park. Eu acho que é um dos melhores jogos pra se jogar no Nintendo Switch, embora ele seja um jogo de computador de primeira (eu preciso escrever sobre minha ideia de “jogos de computador” um dia). Ele me lembrou de jogos que eu não entendia direito quando eu era pequeno, mas me sentia instigado a jogar mesmo assim. Foi muito legal de revisitar o gênero de aventura de apontar-e-clicar baseada em verbos.

Acho muito interessante como, nesse último ano, as boas notícias que eu leio sobre jogos geralmente vêm de desenvolvedores fora das grandes empresas. Com o passar do tempo, mais e mais do meu tempo jogando acaba indo para jogos definitivamente menores do que da minha juventude. Eu me interesso por projetos pessoais, como A Short Hike, Lil Gator Gate, Time Flies e Blippo+.

Com as péssimas notícias que a indústria tem divulgado todas as semanas, e o relativo silêncio da Nintendo nesse último ano, eu me sinto bastante desinteressado nas super-produções. Meu jogo mais esperado desse ano, por exemplo, é Big Walk.

Acho que com o passar do tempo isso vai acontecer mais e mais. Eu jogo pouquíssimo no meu PlayStation, e vejo ele como uma máquina de potência não utilizada. Eu acho que nunca joguei um jogo que realmente fez ele se forçar. Talvez Grand Theft Auto 6 vá fazer isso no fim do ano, mas eu nem sei se vou ter o tempo necessário pra jogar algo assim. Eu acho que o meu Switch 2 e o meu MacBook são o suficiente pra jogar grande parte de tudo aquilo que eu quero jogar hoje, e no futuro. Mais e mais eu penso que a tecnologia é mais interessante quando faz mais com pouco, e não muito com muito. É o que tornou Breath of the Wild, com seu mundo gigante e lindo rodando no que equivale a um processador de Moto G de segunda geração, como uma espécie de mágica.

A trilha-sonora de Big Walk

Big Walk, o novo jogo da House House (o estúdio por trás do charmosíssimo Untitled Goose Game), talvez seja o projeto mais esperado do ano pra exatas 01 pessoa (eu mesmo). É um jogo de exploração do Grande Lá Fora, em que você e seus amigos vão poder embarcar em várias atividades numa espécie de parque nacional. O jogo deve ser lançado no próximo dia 4 de agosto.

Para comemorar, aksfx (que compôs a trilha sonora do jogo) está lançando a cada dia uma prévia das estações de rádio que os jogadores poderão escolher ouvir durante o jogo.

A primeira, divulgada ontem, foi “Lobby”:

E hoje foi “Breathwork”:

Big Walk vai ser lançado para computadores, PlayStation e Nintendo Switch 2. Os trailers de divulgação do jogo são maravilhosos. Olha só esse que eles usam para explicar o quê, exatamente, você vai fazer quando jogar:

Agora

Nessas últimas semanas o Tobias tem dormido ao meu lado no quarto, e eu comecei a conversar com ele sobre o dia — o que fizemos, onde passeamos, o que eu devia ter feito — até começar a ouvir o som da respiração dele pesar. Tá sendo uma boa rotina, quase que um diário. Gosto de acompanhar ele caindo no sono. É uma sensação gostosa, saber que ele tá se sentindo seguro e confortável a ponto de cair no sono enquanto escuta meu bla-bla-blá.

Encontre sentido

“Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but “steal” some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.”

— Albert Camus em seus cadernos, 1951-1959.

As semelhanças entre sua vida e um cachorro

I never intended to have this life, believe me—
It just happened. You know how dogs turn up
At a farm, and they wag but can’t explain.

It’s good if you can accept your life—you’ll notice
Your face has become deranged trying to adjust
To it. Your face thought your life would look

Like your bedroom mirror when you were ten.
That was a clear river touched by mountain wind.
Even your parents can’t believe how much you’ve changed.

Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers,
Burst out of your hand with a fiery glee.
You see them later in hedges. Teachers praise you,

But you can’t quite get back to the winter sparrow.
Your life is a dog. He’s been hungry for miles,
Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in.

— Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)

Agora

Eu tô sentado no pátio dos meus pais, numa cadeira de praia. Eu sinto a grama entre os dedos do meu pé. O dia tá quente, mas aqui sempre tem uma brisa.

Tá num daqueles dias raros de silêncio. Embora meus pais morem no interior, sempre tem algo acontecendo ao redor da casa deles. Ou os cachorros estão resolvendo um problema político entre eles e os cachorros do outro lado da cerca; ou tem alguém aproveitando o fim de semana pra cortar a grama; ou é dia de churrasco em um dos vizinhos, e todo o mundo precisa ouvir a música que vai servir como trilha-sonora do almoço em família.

Hoje é um silêncio diferente. A casa tá quieta. Eu e meus pais voltamos há algumas horas do funeral do meu tio. Eles dormem, cada um em um canto da casa. Meus pais não gostam de mostrar que estão cansados um para o outro, então eles cochilam quase que escondidos um do outro.

Eu decidi vir pra rua. Pisar um pouco na grama. Eu gosto de sentar aqui nesse canto do pátio. É ao lado da árvore sob a qual a Vivi foi enterrada. Hoje é só mais um canto — a grama já cresceu, a árvore tá linda.

Ouvi minha mãe acordar agora. Eu sei que isso aconteceu porque a Zinha, uma das cadelas aqui da casa deles, também acordou. A Zinha acompanha minha mãe pela casa toda. A gente reclama desses comportamentos deles até o momento em que eles não podem mais nos seguir. Daí a gente sente falta.

A Mel veio me fazer companhia. Vou ter que parar de escrever, porque a Mel exige colo e ela não liga se o computador vai atrapalhar ela. Melhor botar ele pra lá.

Era pra chover hoje. Ainda bem que não choveu, tá muito bom de colocar os dedos do pé na grama e sentir ela abraçar meus pés.

Encanamento

Tava lendo esse artigo no Unsung sobre a estrutura de URLs do Flickr, e essa continuação com links sobre “design de URLs”.

Eu acho muito bonita a forma com que o Flickr, o Last.FM e o Letterboxd trabalham suas URLs. Eu gosto de digitar os endereços dos sites que eu visito — foi assim que eu aprendi a navegar na internet —, e esses sites permitem que a gente descubra as coisas mais bacanas misturando e explorando suas URLs. O que acontece se eu trocar uma geotag no Flickr, ou misturar os gêneros no Last.FM, ou até mesmo filtrar os filmes que meu amigo assistiu por país? Eu posso fazer toda essa descoberta só observando e trocando caminhos.

Enquanto eu tava redesenhando o meu site eu tava pensando nessa estrutura de URLs, e como eu queria possibilitar esse tipo de descoberta. Com o tempo, eu espero que esse site vire uma verdadeira “floresta” em que eu possa me perder em tags e links por aí. Pra isso, eu preciso reorganizar essas tags, criar um jardim, etc.

Mas uma dessas tarefas foi pensar em uma estrutura de URLs, e tendo lido recentemente o texto no Unsung eu me peguei reestruturando as URLs do site pra começar a possibilitar esse tipo de descoberta.

Por regra geral, os posts agora estão organizados assim:

/categoria/ano/mês/dia/nome-do-post/

As tags são fáceis:

/tags/nome-da-tag/

Uma hora eu quero fazer o /tags/ ser um mapa gráfico das relações entre as tags aqui do site.

Se você acessa uma página de categoria (ex. /notas/), você vê o arquivo daquela categoria. Anos, meses e dias também podem ser misturados para navegar por arquivos. Pra acessar os posts de dezembro, você pode navegar pra irrelefante.com.br/2025/12/, e assim por diante.

Eu gosto como fazer esses esquemas de URL, integrar com outros serviços e ver se tudo funciona de uma ponta à outra é como mexer no encanamento do site. E meu site é como minha casa. Até mexer no encanamento e saber que tá tudo bem é uma alegria.

Notas de diretores aos projecionistas

Gosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público.

Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz.

Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de A Árvore da Vida, de 2011:

Carta em papel timbrado da Fox Searchlight Pictures, intitulada Notice to Projectionists Regarding The Tree of Life. Assinada por Terrence Malick, diretor, a carta pede aos projecionistas atenção a detalhes técnicos como aspect ratio de 1:85, volume dos faders em no mínimo 7.5, lâmpadas a 5400 Kelvin com nível de foot Lambert em 14, e alerta que não há créditos iniciais no filme. O tom é respeitoso, chamando os projecionistas de os últimos artesãos remanescentes da exibição cinematográfica e encerrando com a fraternal salute.

Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico Barry Lyndon, e todas as suas especificidades:

Carta datilografada de 8 de dezembro de 1975, com o logotipo estilizado de Barry Lyndon no topo. Assinada à mão por Stanley Kubrick, a carta detalha em 10 pontos as instruções técnicas de projeção do filme, incluindo correção de erro nos dots de changeover do Reel 3B, aspect ratio de 1:1.66, luminosidade entre 15 e 18 foot lamberts, duração total de 184 minutos com intervalo no Reel 6, e instruções para uso de um LP com a trilha sonora durante o pré-filme e o intervalo.

Agora, sobre Cidade dos Sonhos, quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch:

Aviso em formato de pôster tipográfico, dirigido ao departamento de projeção, sobre o filme Mulholland Drive. Assinado à mão por David Lynch, o documento pede que o volume seja aumentado em 3dB acima do normal e que a imagem receba um pequeno headroom extra em relação ao enquadramento padrão 1:85, com um diagrama comparativo ilustrando o ajuste. O tom é direto e pessoal, abrindo com I understand this is an unusual request yet I do need your help e fechando com Your friend, David Lynch.

Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.

Agora

Uma coisa que eu sinto muita falta nos meus dias com a Vivi é a sensação de que ela adorava estar pertinho de mim.

Quando eu ficava trabalhando no escritório, a Vivi gostava de ficar deitada em algum lugar perto dos meus pés — de vez em quando ela até se apoiava neles, e eu tinha que ficar com o pé parado, dobrado, pra não atrapalhar o sonho dela. Quando eu saía pra pegar uma água ou um café, ela ia atrás, e depois voltava comigo. De noite, ela ficava comigo enquanto eu assistia um filme. Ela me acompanhava pelo pátio enquanto eu caminhava depois do trabalho. Ela tava sempre por perto.

Tava pensando nisso agora há pouco enquanto eu estava na cozinha e o Tobias ficava deitado no sofá. Não tô comparando o afeto de um cachorro pelo outro, mas mais um comportamento. Tobias precisa saber onde eu estou — ele levanta a cabeça quando vou de um lugar para o outro — mas ele não precisa estar perto de mim o tempo todo.

São companhias diferentes. As vezes eu sinto uma saudade imensa da companhia da Vivi, mas não é justo eu ficar cobrando do Tobias. Ele é diferente.

Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria

Via swissmiss:

Authoritarians cannot rise if there are strong communities and people are acting with joy. That is, you need despair and anger in order for an authoritarian to rise. Whatever those things are that you bring to the community, do them and do them with joy, and don’t stop doing the things you love because you’re scared, because that actually is a form of resistance.

— Heather Cox Richardson.

Agora

Tá fazendo uns dias de verão bem da minha infância por aqui nessa última semana. Dias de solaço, mas com uma temperatura gostosa: entre os 23 e os 28°C. Hoje é sexta feita e eu ganhei o dia de folga (o trabalho anda intenso, pra dizer o mínimo). Eu tô comendo uma fatia de melancia bem suculenta na minha sacada, vendo o fim de semana chegar na vizinhança.

A vida tem um jeito de ser linda.

John Gruber sobre a existência dos cinemas

John Gruber, no Daring Fireball, comentando sobre a compra da Warner Bros. pelo Netflix:

The LA Times article goes on to cite concerns from the movie theater industry, based on Netflix’s historic antipathy toward theatrical releases for its films. Netflix is promising to keep Warner Bros.’s film studio a separate operation, maintaining the studio’s current support for theatrical releases. I hope they do. I grew up loving going to the movies. I still enjoy it, but the truth is I go far less often as the years go on. Movie theaters shouldn’t be a protected class of business just because there’s so much affection and nostalgia for them. If they continue sliding into irrelevance, so be it. That’s how disruption, progress, and competition work.

Eu acho tristíssima essa observação, porque ignora o aspecto cultural do cinema como um espaço de comunidade, de acesso à arte na forma mais apropriada pra experimentar ela. Se eu posso ver um filme no Netflix, e o Netflix faz mais dinheiro que uma sala de cinema, o Netflix é mais bem sucedido em exibir aquele filme? É como argumentar que, agora que eu posso olhar pra Mona Lisa na Wikipédia, o Louvre não tem mais razão de existir.

Você e seus amigos blogando

altered0:

something about how informal blogs sometimes work like diaries but better because you don’t get as overexcited and stressed about starting a whole new thick book you have to fill up nicely. instead it’s just you and your friends and you’re all in this infinite world together and it’s never empty and never full and you can add whatever you’d like to it

Agora

Eu comprei um fone de ouvido essa semana que, além de conectar com Bluetooth, também tem a opção de conectar com um bom e velho cabo de áudio de 3,5mm, e isso honestamente mudou minha vida.

Eu usava um fone JBL que só se conecta através do Bluetooth, e isso me dava uma pequena incomodação todo dia, que eu precisava desemparelhar o fone do meu celular para conectá-lo no meu computador de trabalho. Ou quando eu queria usar ele no Switch, que eu precisava desemparelhar ele do computador de trabalho, e por aí vai.

O cabo é tão versátil que eu tinha esquecido como era essa liberdade. Eu tiro ele do laptop e coloco no Switch e, se eu quero sair para correr escutando um podcast, eu posso só desconectar o cabo e ligar o fone e plim, o meu celular já está emparelhado com o fone. Simples assim.

Faça alguma coisa

If you want to make a game, just make something, anything is fine. Don’t make something too big, just complete something small that’s playable. Even if you encounter difficulties, solve them through research and ingenuity. Make adjustments to make it more enjoyable. If possible, have others play it and see their reaction. Make several games, this steady repetition builds the foundation and deepens your understanding.

I think that what I think is fun about playing a game or moving is a training in life. There may be no waste of anything that feels fun.

— Masahiro Sakurai, via nintendocafe

Agora

Escrevi quase nada essa semana. Acabei deixando uma tarefa grande no trabalho pra perto do prazo, e no fim precisei passar a semana correndo atrás dela. No fim vai dar tudo certo, mas essa sensação de estar atrasado sugou toda a minha energia.

Tenham um bom fim de semana

Por aqui estamos com alerta de temporal e vendaval, então eu decidi que meu fim de semana vai ser ficar bem quietinho bem recolhido na minha casinha, assistindo filmes e a nova série, Pluribus. Comprei pipoca e vou fazer um brigadeiro. E por aí, como vai ser o fim de semana?

Eu tô querendo fazer uma maratona de Kentucky Route Zero. Começar no fim da tarde e seguir por todos os atos até amanhã. Eu comento aqui se eu conseguir fazer isso (meu sono geralmente me vence). Ontem eu assisti o Frankenstein do Guillermo Del Toro, e infelizmente não gostei muito — tem algumas coisas que ele acrescenta na história que são bem vindas, como a “maldição da vida” da criatura, mas o resto eu sinto que ele simplificou demais. Hoje eu vou me dedicar à minha ilha no Animal Crossing, já que em janeiro ele vai receber uma nova atualização.

Você gasta demais? Eu adorei essa leitura de A Viagem de Chihiro como uma obra sobre o perigo do consumismo. Sempre bom lembrar que existem outras pessoas no mundo. Você já olhou pro céu hoje? O que você viu?

Hal & Harper

Tem muita arte no mundo sobre como é difícil ser mãe e pai. Eu imagino que seja, mas são poucas as obras que mostram como é difícil ser um filho. Navegar pelas ambições, as expectativas e as frustrações dos adultos que te criam, enquanto você mesmo navega na experiência que é crescer.

Tive essa impressão enquanto assistia Hal & Harper, a minissérie do Cooper Raiff na MUBI, em que dois irmãos precisaram crescer rápido demais para aprender a lidar com o próprio pai.

Ann Druyan comenta sobre seu tempo com Carl Sagan

Ann Druyan na Skeptical Inquirer em 2003 (via oncewild no Tumblr):

“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me – it still sometimes happens – and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous – not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance… That pure chance could be so generous and so kind… That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time… That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful… The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived.

That is so much more important than the idea I will see him someday.

I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

Tenham um bom fim de semana

O que vocês vão fazer esse fim de semana?

Eu vou assistir O Agente Secreto na cinemateca aqui perto de casa. Talvez eu vá num rodízio de pastel depois disso com meus amigos (se a quantidade suficiente de fome bater na gente depois da sessão). Domingo eu estipulei que vai ser meu dia de preguiça oficial. Não quero nem fazer planos pra ele.

O tempo deve ficar bonito aqui na cidade, talvez eu saia pra caminhar em algum momento. Eu tô curtindo muito minha nova rotina — sentar no parque perto de casa pra ler. Eu tô relendo o Frankenstein da Mary Shelley, um livro que me capturou completamente há muitos anos. É excelente!

Vocês sabiam que a Wikipédia tem um grupo de voluntários que se empenham em tirar retratos de pessoas para seus artigos? Eu amo a Wikipédia demais.

Uma leitura pro fim de semana:

Fiquem bem, fiquem seguros.

Happiness

So early it’s still almost dark out.
I’m near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren’t saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other’s arm.
It’s early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn’t enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.

— Raymond Carver

Irrelefante

Em 2013 eu criei um blog colaborativo com meus amigos, o Pão com Mortadela. Com o tempo, meus amigos seguiram em frente com outros projetos e o Pão foi sendo mantido quase exclusivamente por mim. Em 2024, eu decidi “arquivar” o Pão com um último post.

Hoje eu comecei um blog novo, com a mesma ideia do Pão, com textos sobre coisas que eu gosto, links para descobertas bacanas na internet, e qualquer outra coisa que eu ache interessante. Você pode acessar o Irrelefante acessando irrelefante.com.br. Você também pode seguir ele no Tumblr ou assinando o feed.

Minha dieta cultural nas últimas semanas

Faz um tempo que eu não posto um desses resumões, não é mesmo? Eu mudei de emprego nesse último mês e, como eu não estou acostumado a fazer isso, esse tipo de mudança acaba demandando bastante de mim. Tá melhor agora! A mudança de emprego me fez mudar minha rotina, o que acabou me fazendo muito bem — algo que eu não pensei que poderia melhorar. Uma boa surpresa!

Também tem feito dias lindos por aqui, o que me faz escrever mais em outros lugares, geralmente que eu não publico. Eu escrevi um bocado de ficção nessas últimas semanas, coisa que eu não fazia há uns anos já. Eu também escrevi bastante no meu diário. Isso tem me feito muito bem.

Enfim, eu também não escrevi sobre minha dieta cultural porque, desse último mês, duas semanas inteiras foram dedicadas ao festival de filmes do estúdio Ghibli, que eu postei por aqui quase todos os dias. Foi ótimo, então não vou falar sobre isso. Vou falar sobre as outras coisas que fizeram parte da minha dieta cultural.

Jogos: Hades II, Super Mario Galaxy 1+2

Eu joguei um pouco de Hades II. O primeiro jogo nunca me prendeu muito (não é culpa do jogo, eu que não entro muito na zona mental de rogue-likes), e a mesma coisa aconteceu aqui. O que eu curto muito é a história, o desenvolvimento dos personagens conforme as tentativas-e-erros dos protagonistas vão continuando. Tô achando bem divertido assistir pessoas jogando por causa disso.

Eu joguei um bocado de outros jogos: Europa, Hidden Folks (amo), Alba: A Wildlife Adventure (um charme). Eu também rejoguei meu jogo favorito do ano passado, Monument Valley III. Tudo no Switch.

Meu maior tempo, porém, foi jogando os dois Super Mario Galaxy relançados pro Switch. Demorei um tempo pra me adaptar ao giroscópio dos Joy-Con ao invés da precisão da pontaria do Wii Remote, mas assim que eu peguei o jeito o jogo se abriu de novo. São duas obras-primas — eu terminei hoje de manhã o primeiro —, mas eu sempre vou ter um cantinho especial no coração pro segundo, que eu recém tô começando. Quando eu joguei pela primeira vez, em um verão no ensino médio, cada um dos níveis abria minha mente de um jeito novo. Nenhum outro jogo me inspirou tanto em termos de escrita. Tudo é possível se você der espaço suficiente pro jogador experimentar por ele mesmo. Com os relançamentos no Switch, eu finalmente posso aposentar meu Wii, que ficava ligado só pro caso de eu querer jogar Galaxy 2 de vez em quando. Foram 16 anos bem vividos.

Séries: Task, Hal & Harper

Duas séries com o Mark Ruffalo (🔥): Task na HBO Max e Hal & Harper, no MUBI. Ele tá bom nas duas, mas Hal & Harper, que tá no segundo episódio, talvez seja uma das minhas séries favoritas no ano, e muito por causa da atuação de Ruffalo. Como um pai corroído pela culpa, ele é uma parte do trio de protagonistas. Seus dois filhos, os personagens título, são jovens que cresceram rápido demais. Lili Reinhart, que interpreta a irmã mais velha, Harper, é o centro da série — e ela entrega. A jogada de Cooper Raiff de fazer as memórias de infância serem interpretadas pelos próprios atores na idade adulta parece meio bobo no início, mas ali pelo segundo episódio a série me puxou o tapete de um jeito… eu fiquei chorando por uma boa hora depois que ele acabou. Raiff é um excelente dialoguista.

Task é muito boa, e também é uma série sobre paternidade. Ela não é carnuda como Mare of Easttown, a série anterior do showrunner, que se focava tanto no lugar que você poderia se perder nos becos sem saída do cenário junto com a Mare, mas Task é tão boa tanto, e tem uma das sequências de ação mais fantásticas que eu vi esse ano

Livro: Frankenstein

Eu tô relendo pela terceira vez o Frankenstein de Mary Shelley. Não tenho muito o que dizer sobre esse livro além do fato de ele ser uma obra-prima, e provavelmente o melhor livro que eu já li na minha vida. Ele assombra toda a literatura de ficção científica depois dele, todos os filmes de monstros, e praticamente qualquer videogame. É realmente genial.

Música: West End Girl

Conversando com minha amiga sobre, eu disse que West End Girl parece com “Regret”, a música da Fiona Apple, mas explodida em um disco inteiro. Lilly Allen faz da traição uma montanha russa — com toda a raiva, vergonha, tristeza e redenção que ela vai trazer. Como Fetch the Bolt Cutters, que nos faz cantarolar uma música pesada como “Ladies”, West End Girl cria música-chiclete (o melhor estilo de música-chiclete!) de versos sobre descobrir que o marido tem um “pussy palace”, ou de sentir vergonha da raiva que ela está sentindo da outra. É tão divertido quanto genial.

Ghibli Fest: Dia 10

Eu atrasei total esse post, e peço desculpas. Os últimos dias no trabalho — meus últimos dias na empresa que eu trabalhei pelos últimos anos — foram intensos.

Essa primeira etapa do Ghibli Fest acabou com dois filmes charmosos. Sussurros do Coração, que passou na terça-feira, é uma pérola. Um romance que tem um cenário tão marcante que eu nem sabia que ficava na memória com tanta intensidade: a loja de antiguidades que a protagonista Shizuku conhece depois de seguir um gato. Eu amo uma história de amor impossível, e a história de amor que Sussurros do Coração revela (não a dos protagonistas, mas a que existe nessa loja de antiguidades) é bem do tipinho que eu gosto. Toda a trama da frustração que é escrever também é muito a minha zona — e de uma especificidade deliciosa. O jeito como Shizuku parece aliviada a finalmente tirar essa história de dentro de si é linda.

Ponyo “anda” por cima dos espíritos do mar

Já Ponyo, que parece ser o menor filme do Miyazaki em escopo, também é uma pérola. Também é uma história de amor, bem A Pequena Sereia das ideias, mas é contada com tanto vigor e com tanta sinceridade que desarma qualquer um. Fora que a água é o cenário pra Miyazaki — a fluidez do movimento de seus filmes parece ainda maior quando tem líquidos envolvidos. É um bom filme pra acabar essa primeira parte da mostra, pensando em retrospecto. Não é A Viagem de Chihiro ou Totoro, mas deixa um gostinho de quero mais na boca, e uma satisfação no final da sessão. Bem aquilo que a gente quer.

Ghibli Fest: Dia 9

Desculpem a ausência ontem pra falar de Vidas ao Vento e Nausicaä do Vale do Vento. Eu acabei aproveitando pra assistir Uma Batalha Após A Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson (logo mais escrevo um pouquinho sobre o que é, provavelmente, o melhor filme que eu assisti esse ano).

Também tem um motivo de curadoria. Eu acho que A Viagem de Chihiro devia ser o último filme da primeira parte do Ghibli Fest. É um filme tão perfeito, tão definitivo, que não dá pra evitar uma certa decepção com o que vem a seguir, mesmo que os filmes que se seguiram na mostra sejam ótimos filmes.

Vidas ao Vento foi, por um pouco mais de uma década, o último filme de Hayao Miyazaki: uma carta de amor ao seu pai e ao conflito ético de ser um criador cujas criações destruiram vidas. O filme é muito lindo, como é de se esperar, mas é claramente um filme menor. As estruturas dos filmes de Miyazaki são movidas muito mais por sentimentos e um crescimento interno de seus personagens. A narrativa progride com uma lógica interna que, se você contar, parece que tá falando bobagem — ela só funciona nos filmes em si. Nesse caso, Vidas ao Vento é um filme menos inventivo, porque o caráter bibliográfico da história nunca bate bem com o fluxo narrativo que Miyazaki entrega, e um acaba interrompendo o outro. O Menino e a Garça parece muito mais um resumo da obra de um mestre que Vidas ao Vento. Não deixa de ser lindo e emocionante. Mas é aquele baque, depois de assistir uma obra-prima. Eu devia ter esperado mais um dia.

Nausicaä no meio de uma floresta de fungos gigantes

Nausicaä do Vale do Vento não tem o obstáculo estrutural que me incomoda em Vidas ao Vento, e não tem culpa também de existir Princesa Mononoke, uma versão muito mais impecável desse filme. Nausicaä foi feito um pouco antes do Studio Ghibli existir de fato, mas as preocupações que Miyazaki explora em sua carreira estão aqui: a ação regida pelo desenvolvimento emocional de sua protagonista mais do que progressão da história, o conflito entre o homem e a natureza, a conexão espiritual com o mundo e os seus mistérios. A animação já é surpreendente — desde cedo Miyazaki tem uma mão fantástica para criar esses mundos repletos de incertezas e caos, e cheios de beco sem saída que eu adoraria me perder. Não é tão impactante quanto Princesa Mononoke nem O Menino e a Garça, seus descententes mais semelhantes na filmografia do diretor, mas é ótimo mesmo assim.

Ghibli Fest: Dia 8

O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro não fazem sentido. Suas lógicas internas são incertas. As regras de seus mundos são inconstantes. O que uma pessoa vê na outra é um mistério. Nada faz muito sentido. Ainda bem.

O Castelo animado entre as montanhas

Em O Castelo Animado, uma chapeleira solitária é amaldiçoada e assume a forma de uma senhora de noventa anos. Ela foge para as Terras Devastadas, uma região longe da sua cidade, em um país que está em guerra com outro. Lá ela conhece Howl, e seu Castelo Animado. Ela forma uma família dentro daquele castelo, descobre a verdadeira natureza de seus sentimentos. Se apaixona, cruza dimensões, revela a verdadeira forma de um demônio e de um espantalho. Ela acaba se apaixonando por Howl, e ele acaba se apaixonando por ela também.

Não é o que acontece em O Castelo Animado que importa — mas como acontece. Sophie descobre que seus sentimentos importam, e que deve confiar neles. É uma lição simples, mas que reverbera a ponto de influenciar uma guerra inteira, a guiar um grupo de pessoas a formarem uma família. É um filme gigante — ele se extende em horizontes distantes, múltiplas cidades e linhas do tempo que se chocam. No centro de tudo isso, porém, está Sophie, que aprende a lidar com cada um dos sentimentos que ela aprendeu a reprimir — sua curiosidade, sua determinação, sua paixão. Todo esse mundo vasto e incerto vai ficando mais lindo conforme ela mesma vai se reconectando com seus sentimentos. Faz sentido porque o que Sophie sente faz sentido.

Chihiro olha um bonde passando no meio do mar durante a noite

Já A Viagem de Chihiro é uma obra-prima. E não faz sentido nenhum também: Chihiro e seus pais estão se mudando para uma nova cidade. Eles acabam cruzando o limiar e entrando no mundo dos kami. Os pais de Chihiro se comportam mal, e viram porcos. Para salvá-los, Chihiro precisa trabalhar para a bruxa Yubaba em sua casa de banhos.

As regras do lugar são incertas desde o início, e sempre que você acha que pegou o jeito, elas mudam. Mas Chihiro também muda. No início do filme, Chihiro mal sabe tudo o que está sentindo — ela está irritada de deixar os amigos pra trás, e o medo toma conta dela de tal maneira que ela mal consegue descer os degraus da escada que levará ela até o Kamaji. Quando ela toma a iniciativa de ajudar uma das fuligens a terminar seu trabalho, ela é movida pelos mesmos sentimentos grandiosos que ela sentia antes — compaixão, curiosidade, um pouco de medo. Mas ela age sobre eles, e então ganha a confiança do Kamaji. Ao usar seus sentimentos para guiar sua jornada, Chihiro vê seus colegas na casa de banho respeitando-a cada vez mais. Chihiro tem uma missão — duas, quando o filme acaba —, e sua determinação muda tudo dentro dela.

Muito de A Viagem de Chihiro é incompreensível. Por que as pernas de Chihiro param de funcionar? Por que o bebê de Yubaba é gigante? O que faz o selo de Zeniba? O filme passa por essas perguntas muito porque segue a lógica de um conto de fadas, que geralmente deixa mais dúvidas do que respostas em seu caminho; mas também passa por elas porque A Viagem de Chihiro tem confiança total em sua protagonista. Ela segue em frente em meio à essa incerteza toda. Não por falta de interesse, mas porque ela tem uma missão a cumprir. A menina que mal caminhava sem estar sendo carregada pelos pais anda descança pelos trilhos submersos no mar para pedir à uma bruxa a alma de seu amado de volta.

Todo A Viagem de Chihiro é perfeito, mas eu não consegui segurar a emoção quando Chihiro, Boo, o passarinho e o Sem Rosto pegam o trem e cruzam esse mundo de melancolia e solidão. As notas do piano na trilha de Joe Hisaishi parecem o vento noturno nas janelas do trem. Não tem sequência mais linda no cinema. Muito do que acontece ali é misterioso também. Tem a sombra de uma garota sozinha em uma estação de trem. Quem ela está esperando?

Nada disso faz sentido em A Viagem de Chihiro, mas tudo o que Chihiro sente faz. Desespero, medo, fascinação, confusão. E os filmes de Miyazaki são guiados pelos sentimentos de seus protagonistas, muito mais do que lógicas narrativas e arcos dramáticos. Seus vilões são temporários, as estruturas são impermanentes, e muitas vezes já viraram ruínas. Reinos e guerras mudam e acabam. Seus personagens tem apenas seus sentimentos como guia, e como companhia nesse mundo. São seus sentimentos que eles aprendem a entender e confiar. Não há um sentimento ruim — nem o medo, nem o desespero, são fúteis. Como as colinas gramadas gigantescas, os horizontes distantes, a mitologia incerta, os voos triunfais e a trilha de Joe Hisaishi, essa é uma das constantes do cinema de Hayao Miyazaki. E é o vento norte de sua obra-prima. Absurdamente mágico.

Ghibli Fest: Dia 7

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins é um absurdo. Quando eu vi esse filme pela primeira vez eu fiquei impressionado sobre quanto esse filme vai fundo na ideia, sem vergonha de parecer ridículo. É um épico de guerra que consegue, ao mesmo tempo, modular entre a devastação de um conflito e achar graça no comportamento preguiçoso dos seus personagens e seus sacos gigantes.

No meio de PomPoko tem o épico de guerra, a comédia de costumes, o filme de espião e o drama da imigração e assimilação. Sem mentira. E tem Takahata modulando estilos, criando três “camadas” visuais para cada estágio de transformação de um guaxinim. Desde o mais lúdico e fantástico ao mais realista (e triste).

Guaxinins observam casas durante a noite

É a segunda vez que eu assisto PomPoko no cinema. Ano passado a cinemateca exibiu esse filme, e eu fiquei impressionado com a beleza dos cenários no bosque em que os guaxinins, e como Takahata cria um baque quando esse cenário vaificando mais e mais concretado, quando as ruas começam a passar. Takahata trabalha com a mesma melancolia de Memórias de Ontem aqui — com personagens assimilando a transformação que eles vão precisar assumir para continuar existindo, ou o fim trágico que eles vão ter ao se negarem. Ele modula tão bem os aspectos lúdicos e trágicos desse filme que o finalzinho, quando vemos a família na cidade, eu não consigo evitar e choro toda a vez. É um filme triste, mesmo sendo engraçado, já PomPoko mostra logo cedo que essa guerra foi vencida antes mesmo de começar. É o que a derrota parece pros guaxinins que eu acho ainda mais desolador. Ainda bem que tem aquele epílogo, um suspiro no meio da tristeza.

Ghibli Fest: Dia 6

Revendo os filmes do Studio Ghibli assim, um atrás do outro, a gente querendo ou não fica fazendo paralelos e suposições. Por exemplo, os dois filmes menos excelentes até aqui — Eu Posso Ouvir o Oceano e Da Colina Korukiko — parecem querer muito beber da fonte de Memórias de Ontem, uma das pérolas do cinema de Isao Takahata.

Embora Miyazaki seja o mais conhecido dos mestres do Studio Ghibli, Takahata não fica atrás em termos de qualidade. Dos seus cinco filmes pro estúdio, eu acredito que no mínimo três são obras-primas tremendas. Seu primeiro filme, O Túmulo dos Vagalumes, é um dos manifestos mais tristes e lindos contra os horrores da guerra que eu já vi. Seu último filme, O Conto da Princesa Kaguyia, é uma obra de arte, uma viagem sensorial pelo infinito e pelos mistérios da nossa existência, pelos limites do que a gente consegue imaginar que existe no mundo. Amanhã tem sua outra obra prima, PomPoko. (Eu considero Meus Vizinhos, os Yamada outra obra-prima, mas sei que é uma opinião impopular).

Uma plantação de flores em meio às montanhas, com pessoas coletando elas

Embora seja um filme “menor” do diretor, Memórias de Ontem é um colosso de filme. Em uma viagem de verão, uma mulher vai ao campo ajudar em uma fazenda, o que a faz lembrar de sua infância. Ao invés de fazer as memórias serem puxadas por eventos relacionados no presente, Memórias de Ontem parece muito mais interessado em capturar aquele sentimento que a gente tem de quando uma memória rouba a nossa atenção e nossos sentidos. É lindo como Taeko que lembra da vez que provou um abacaxi, e Takahata faz questão de mostrar como a mãe corta a fruta para a filha, como um daqueles detalhes que a gente guarda na memória e que, parece, não fazem sentido.

É como esse apanhado de momentos “aleatórios” da infância de Taeko são usados pelo filme para nos informar quem é essa mulher, o que a frustra e o que ela sente falta, que torna Memórias de Ontem brilhante. Embora seja um filme acessível, como todos os do estúdio são, é um filme sem grandes sequências de aventura ou fantasia. Nem mesmo o ritmo é constante: assim como na vida, tem dias que Taeko está mais no passado do que no presente, enquanto tem dias que o presente chama mais a atenção. Em termos de animação, Takahata está no seu lado mais pé no chão aqui, como em Túmulo dos Vagalumes, mas ele aproveita a estrutura de memórias do filme para contornar esse passado em névoas, com espaços vazios que se desfazem nas bordas da tela — esse é um mundo que existe nos limites das sensações de Taeko, mais do que tudo.

Ghibli Fest: Dia 5

Ontem foi aniversário do meu pai, então não consegui passar no meu computador e escrever sobre o filme de ontem do festival, Da Colina Kokuriko, de Gorō Miyazaki. Também não vou dizer que fiz muita questão, já que o filme não é lá essas coisas. Ele é bonito, mas a melancolia que ele evoca é muito básica, nem parece ser do mesmo estúdio em que o eco do vento pode ser sentido no farfalhar da floresta do Meu Amigo Totoro. Sua narração torna a melancolia em texto, ao invés do subtexto com a qual os melhores filmes do estúdio parecem trabalhar. Te dizer que eu tentei ver esse filme duas vezes, e nas duas vezes eu cochilei. Nem no cinema eu me aguentei.

A família Yamada assistindo TV, com o pai do lado de fora de casa com cara de brabo

Já Meus Vizinhos, os Yamada é genial. Eu amo o trabalho do Takahata, e sua liberdade em usar traços e estilos de animação distintos para dar vida ao cotidiano dos Yamada é de uma delicadeza que eu acho que poucos filmes capturam toda a beleza que existe na dinâmica familiar, em todas as suas especificidades e problemas — os Yamada estão longe de serem amorosos, eles estão sempre implicando entre si. Mas Takahata cria as esquetes da família com tanta beleza e atenção aos detalhes mais básicos da convivência que transparece o carinho desses personagens pela dinâmica que eles criaram entre si. Tem sequências impagáveis, como quando eles esquecem a caçula no shopping, ou quando a mãe corre para recolher as roupas quando a chuva começa, e percebe que ela esqueceu de estendê-las. Ou aquela em que o pai se levanta e oferece para buscar algo caso alguem queira, só por educação. É tão mundano, mas tão lindo, que dá uma animada no meu próprio dia-a-dia. As duas sequências que abrem e fecham o filme, das histórias de casamento, são brilhantes. Um filme que eu amo rever. Amanhã tem Memórias de Ontem, outra obra-prima dele.

Ghibli Fest: Dia 4

O Serviço de Entregas da Kiki foi ontem, mas depois da sessão eu tinha um aniversário pra ir e só consegui sentar agora no computador pra escrever sobre. Mais uma sessão cheia — essa a gente sabia que tava esgotada já fazia uns dias. Tava chovendo bastante, e mesmo assim quase todo mundo veio. Só tinham uns dois ou três lugares vagos nas poltronas da primeira fileira.

É um show. Kiki não foi o filme que eu vi quando eu era criança, como eu suspeito que muitos na sessão tenham visto. Eu vi ele pela primeira vez alguns anos atrás, mas ele parece ser um ótimo filme para assistir na casa dos avós num sábado. Como outros filmes do Miyazaki, é um filme que voa: a história passa voando, por diversos personagens, sem nunca parecer apressado. Kiki apresenta as dinâmicas da vida de uma bruxa com tanta facilidade, e sem precisar parar a história, que é de dar inveja a qualquer roteirista. Ela precisa sair de casa, encontrar uma cidade sem bruxa, e oferecer seus serviços à população — e, consequentemente, amadurecer. É muito pesado para uma criança de 13 anos, e Miyazaki sabe disso! A conversa com Ursula, sobre como ela não consegue desenhar todos os dias, é de uma honestidade e franqueza que me tira o chão.

O Serviço de Entregas da Kiki acaba exatamente quando o conflito se resolve, mas eu acho que muito do que me chama a atenção no filme é o que está ao redor dele. Por exemplo, eu amo como o marido da Osono parece um durão mas fica andando pelo salão da padaria enquanto a Kiki não volta pra casa numa noite; ou todo o arco de romance do Jiji. É um filme repleto de pessoas queridas e simpáticas e que querem ajudar um ao outro. Não é a toa que a gente sai dele inspirado a fazer parte de um mundo melhor.

Ghibli Fest: Dia 3

Eu e o Tobias estávamos nas manifestações aqui da minha cidade contra a PEC da blindagem e do PL da anistia. Foi muito bonito, muito alegre. Pra uma cidade cada vez mais cinza, até o sol abriu. Deu um bocado de esperança ver toda aquela galera junta.

Algumas horas depois deixei o Tobias em casa pra ir na sessão do Ghibli Fest de hoje. Deu tempo de pegar um pastel no bar aqui do lado de casa e seguir caminho. É muito bom ser brasileiro.

Totoro, totorinho, totorinhoinho, Satsuki e Mei em cima da árvore gigante

Meu Amigo Totoro é um dos filmes mais importantes da minha vida. Eu fui uma criança muito assustada e calma, e meu desenho favorito era a fita VHS desse filme que ficava na casa da minha avó, e que eu via nos fins de semana que eu ficava lá. Totoro é um filme mágico, e revendo ele depois de muitos em muitos anos eu achei ele mais emocionante ainda. Nunca percebi o esforço que a Satsuki faz em parecer forte para a Mei, em fazer a irmã acreditar que tudo vai ficar bem enquanto ela em si tá com muito medo de perder a mãe.

Vai ver eu já tava no espírito quando eu entrei na sessão, mas tem muito do senso de comunidade de um vilarejo pequeno em Meu Amigo Totoro, que me lembra tanto a infância quanto o ditado de que “é preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” (que tem origem incerta). É preciso de uma cidadezinha inteira, tanto as pessoas quanto a natureza dela, para cuidar de Satsuki e Mei, e mesmo assim vão ter momentos em que elas vão se sentir sozinhas e desprotegidas. Sorte a delas de o Totoro estar por perto.

E visualmente lindo, caramba. Não é a toa que esse filme fica na memória. Miyazaki é o rei das transformações da matéria — de tornar o sólido em líquido, o rígido em maleável. O mundo se desdobra na nossa frente de formas absurdas e naturais ao mesmo tempo. A cena em que Mei conhece o Totoro, e adormece sobre ele tirou sorrisos e bocejos do melhor sentido: é um filme que nos deixa tão confortáveis naquele espaço, naquela lembrança de tudo o que a gente consegue ver quando somos crianças e que deixamos pelo caminho conforme vamos crescendo, que parece que o filme vai nos ninar.

É um dos melhores filmes que eu já vi. Era quando eu tinha seis anos, e continua sendo agora. Que bom ter reencontrado ele nesse diazinho perfeito.

Liquid Glass

O Liquid Glass é muito inconsistente no Mac, e isso tá me incomodando muito. Parece até quando o Windows muda de visual, mas fica com “heranças” de redesigns anteriores (como o Explorador de arquivos).

O Safari parece um exemplo de todos os problemas nas inconsistências. A barra lateral, que deveria ser semitransparente, tem um fundo branco. Dá pra ver quando a página da web começa e onde termina a barra lateral. Fica evidente que a barra lateral, nesse caso, só quer ocupar espaço:

Note também como a barra superior tem uma divisão clara entre ela e o conteúdo da janela. Agora, no Finder, essa divisão é diferente, com um gradiente e um filtro de difusão ao invés de uma barra sólida:

Poxa, o Safari é o navegador do macOS, mas não parece ser um aplicativo nativo nem do próprio sistema operacional. Eu sei que o design do Liquid Glass vai amadurecer nas próximas versões, mas o caminho tortuoso vai ser longo se essa é a primeira versão que eles tem pra apresentar.

Eu gosto muito das animações e da profundidade do Liquid Glass no iPad, principalmente nos menus de navegação e nos botões. Ele deve ser realmente impressionante no visionOS. Ele é bem menos impressionante no iPhone e na Apple TV. Mas ele parece muito fora do lugar no Mac. Uma pena.

Ghibli Fest: Dia 2

Porco apoiado na parede enquanto fala em um telefone público — ele tá com uma posa muito charmosa

Sessão cheíssima pra assistir a Porco Rosso: O Último Herói Romântico. Foi bem divertida também. Porco Rosso é muito engraçado, e a plateia tava bem a fim de rir. Por mais séria que a história se torna, a forma física do herói — ele é um porco! — sempre vira um motivo pra sorrir. E é divertido como Hayao Miyazaki usa essa forma pra brincar com nossas expectativas. Porco é sempre filmado em posições típicas de um galã de cinema, ele parece até se vestir como um Jean Garbin em Trágico Amanhecer (do Marcel Carné, 1939).

Dos filmes do Miyazaki, esse é um daqueles fascinantes em segredo. Não é sobre o protagonista tentando quebrar uma maldição, ou aprendendo a amar de novo, ou a confiar em outras pessoas. Tem tudo isso no filme, mas seu final melancólico parece virar toda essa aventura de ponta cabeça — esse desse ser um filme definidor pro Wes Anderson, que adora pregar essa mesma peça nos seus filmes e puxar o tapete do espectador nas cenas finais, e empurrar ele em uma maré de melancolia. Bom demais.

Ghibli Fest: Dia 1

Hoje foi o primeiro dia do Ghibli Fest aqui na Cinemateca Paulo Amorim. Eu vou ir em todas as sessões, e vou tentar escrever sobre todos os filmes (brevemente) aqui.

O filme de hoje foi Eu Posso Ouvir o Oceano, que o Studio Ghibli lançou originalmente em 1993. O filme é uma espécie de romance, uma espécie de filme de memória. Como romance ele não é muito bom, mas acho que é proposital: na história, dois amigos adolescentes se apaixonam pela colega nova na escola. Contando assim parece um triângulo amoroso, mas o diretor Tomomi Mochizuki não parece tão interessado nesse aspecto. Eu Posso Ouvir o Oceano é muito melhor como um filme de memórias, porque é mais preocupado em capturar como esses jovens são desajeitados em se expressarem e nas suas preocupações (a viagem de férias, o festival do colégio, as dinâmicas entre os grupinhos na escola) do que o que eles estão sentindo. Taku é extremamente desajeitado e incerto sobre seus sentimentos — ele age por impulso, tá sempre se apoiando em algo porque parece que nem os pés ele consegue segurar. Quando o salto temporal acontece, o filme fica muito melhor — e me faz querer que ele tivesse indo e vindo no tempo mais vezes. A dinâmica dos ex-colegas na noitada é muito específica para não ser baseada em fatos (eu mesmo já tive noites assim com amigos de infância).

Mochizuki e seus animadores também são muito bons em seus planos inseridos no meio da ação. As vezes é de um detalhe do cenário — como o corrimão de uma escada —, as vezes é do balançar da camisa de uma personagem e o que ela revela por baixo. Dá uma sensação de memória à flor da pele, quando a gente lembra da temperatura de um dia especial, ou do frescor do banheiro da casa de sua avó, que você não entra há muitos anos. São detalhes tão específicos, mas que elevam todo o filme com eles.

É um bom filme pra começar o festival. Não é o melhor, nem o pior, filme do estúdio. Mas é um bom exemplo de como o estúdio é capaz de trabalhar com personagens nem tão simpáticos assim. Nem Taku, nem Yutaka e muito menos Ritako são lá muito legais — mas cada um tá passando por algo nesse momento, e toda a esquisitice que eles aparentam em suas interações é muito honesta para a idade de seus personagens.

Eu peguei a sessão das 17h, então tô saindo mais cedo pra descer na Cinemateca. São dias assim que me fazem ser muito feliz em morar à algumas quadras do meu cinema favorito da cidade, e fazia um tempo que eu não pegava um filme depois do trabalho. Eu chego ali em menos de quinze minutos, e quando eu saio da sessão e cruzo a Andradas, o filme tá todo matutando na minha cabeça. Esse festival vai ser bom pra me deixar todo emocionadinho — são meus últimos dias na empresa que eu trabalho há quase cinco anos —, terminando meus dias saindo de filmes nostálgicos e melancólicos e cruzando pela minha parte favorita da cidade. Me fez lembrar, convenientemente, de quando eu era jovem e tinha a tarde livre para pegar filmes na Paulo Amorim, e voltava correndo para a rodoviária para pegar o ônibus pra minha cidade. A situação é invertida agora, mas a sensação de sair da sala de cinema no fim da tarde com os sentimentos aflorados é a mesma.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje o dia amanheceu cedo. Ontem eu levei o Tobias pra uma das minhas caminhadas longas, pensando que ele ia dormir até mais tarde hoje, mas me enganei. Eram seis e meia quando ele começou a pedir pra sair. Eu até consegui ficar na cama mais um pouquinho — mas não tanto quanto eu queria. Pelo menos o dia está bonito — o céu tá bem azul, e tá fresquinho (15°C). Eu quero aproveitar o máximo possível esse tempo ameno antes do calorão infernal de Porto Alegre começar.

Minha semana foi, ao mesmo tempo, muito longa e muito curta. Muito longa, porque as horas de trabalho foram sem sossego nenhum; muito curta, porque tive pouco tempo pra me divertir. Não consegui ler, porque quando caía na cama eu já pegava no sono (isso não justifica a completa ausência de um livro na dieta cultural dessa semana, eu sei), mas consegui caminhar todos os dias essa semana. Isso foi bacana, faziam meses que eu não conseguia bater o pé no chão e demandar esse tempo pras minhas caminhadas. Quero ver se a próxima semana me trata melhor, e se o tempo continua bom assim.

Filme: O Doce Amanhã.

Puta filme. Eu acho que não vi nenhum filme do Atom Egoyan antes, mas se eles forem tão bons quanto O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter, 1997), vou ter uma cambada de filme bom pra assistir daqui pra frente. Assisti porque foi o filme que o The Next Picture Show fez par com A Hora do Mal, e faz todo sentido. Ambos os filmes são sobre uma tragédia que acometeu as crianças de uma cidadezinha no interior, contados com idas e vindas temporais sob pontos de vida distintos. Se A Hora do Mal me lembrava The Leftovers, O Doce Amanhã foi uma inspiração de estrutura e de tom pra série.

Esse filme talvez a melhor descoberta que eu tive esse ano. É um filme frio e sombrio — quando você acha que a situação é ruim, ela fica pior —, mas O Doce Amanhã parece saber como modular seu tom muito bem. Embora todos os personagens estejam passando por uma barra, Egoyan ainda filma como essas pessoas ainda fazem parte de uma comunidade — e como essa comunidade é formada de indivíduos com seus próprios interesses. Assim como o tom, Egoyan modula muito bem o que é egoísmo e o que é senso de comunidade nessa tragédia.

Anos 90: a melhor década do cinema?

Jogo: Metroid Dread.

Eu ando bem negligente nos meus jogos. Comecei Ocarina of Time, A Link Between Worlds e Hollow Knight: Silksong nas últimas semanas, mas parei todos logo depois. Eu sou tão ruim em Silksong que eu mal cheguei no primeiro chefão antes de desistir e ir pra outra coisa. Silksong me deu vontade de dar mais uma chance à Metroid Dread (Switch), um metroidvania difícil, mas não tanto. E Dread fez muito mais sentido pra mim dessa vez. É difícil sim, mas a tentativa e o erro dos chefões faz mais sentido depois de ter jogado os Metroid Prime, que leva essa tentativa e erro para os ambientes também. Eu acho que esse jogo eu vou continuar até o final. É um jogo massa. A Samus é massa.

Eu fui especialmente negligente com minha ilha essa semana (falta de tempo, eu juro). Só iniciei New Horizons pra tomar café (Rooster é o meu melhor amigo) e tentar comprar uma obra de arte do Redd (a única original essa semana eu já tinha). Ontem de noite foi a única noite que eu tive mais tempo para dar oi pra todos os meus vizinhos. Ontem eu também joguei Breath of the Wild depois de umas duas semanas e iniciei a missão de Vah Ruta no Território Zora. Logo mais pego as flechas de raio.

Série: Mussolini: Filho do Século (primeiro episódio)

Não vi o episódio de Alien: Earth essa semana, talvez eu veja no fim de semana. Vou estar visitando meus pais e nossa assinatura do Disney+ fica na casa deles desde que a Disney bloqueou o compartilhamento de senhas. Essa semana eu terminei de rever a primeira temporada de Community.

Assisti o primeiro capítulo de Mussolini: O Filho do Século (na MUBI), a minissérie do Joe Wright. Gostei bastante do que a série ensaia nesse primeiro episódio — usar o carisma do ator para refletir o carisma que o facista teve na Itália, fazendo ele conversar com a audiência o tempo todo para “vender seu ponto”. Eu tenho um certo problema com bibliografias que se centram demais em seus personagens como as figuras públicas que eram, sem dar tempo para como eles eram ao redor de outros assuntos mais particulares, mas estou relevando isso por enquanto. É só o primeiro episódio.

É uma série que se assenta muito no discurso, Mussolini fala o tempo todo, seja pra agir ou pra explicar para a audiência o porque ele está fazendo tudo. Joe Wright parece saber disso, então preenche a série com seus visuais estonteantes. A cenografia é maravilhosa, o ritmo é muito bom, quase operístico. Ele encena muito bem — todos os seus filmes parecem ter aquele proscênio delimitado pela câmera, onde o mundo todo gira ao redor dela. Eu ainda quero ver ele voltar à fluidez do movimento que ele tinha de Orgulho & Preconceito (2005) até Hanna (2011).

Silksong

Eu tentei jogar Hollow Knight: Silksong esse último final de semana, mas é um jogo muito difícil pra mim. Porém, o pouco que eu joguei me fez querer dar uma segunda chance a outro metroidvania, Metroid Dread, um jogo que eu empaquei e nunca terminei. Dread é difícil, mas Silksong me fez perceber que não é tão difícil assim, e com essa nova perspectiva eu comecei um novo jogo e, realmente, Dread parece ser na medida de dificuldade pra mim.

Silksong me fez perceber que metroidvanias são um jogo quase que de desapego. Meu problema jogando a maioria dos jogos que não são aventura é que eu perco muito tempo explorando cada buraquinho e beco sem saída a procura de algo, e a maioria dos gêneros de jogo não funcionam assim. Metroidvanias, como roguelikes, são jogos de você alcançar um fluxo de consciência que seus dedos apertam os botões do controle quase que por instinto. Existe exploração em Dread, mas ela nunca interrompe esse fluxo de jogabilidade, e é o que torna a Samus Aran em uma baita personagem. É como se esse tipo de jogo transpõe a confiança da personagem pro jogador. É bacana demais.

Tempo Rei

Ontem fui no show do Gilberto Gil, que pelo anúncio faz parte de sua “última turnê”. Eu acredito. Não porque o show foi ruim. Longe disso, talvez tenha sido o show mais alegre e enérgico que eu já fui. Uma exultação da cultura brasileira que Gil tem tanto orgulho de fazer parte. Eu acredito que essa seja sua última turnê porque, além da idade de Gil, ele parecia não querer parar de cantar. Foram quase três horas de show, com um bis imenso.

Gil é um titã, e ir num show dele é presenciar um daqueles momentos transcendentais da nossa vida, em que a gente absorve um pouco do seu tempo no planeta. É impossível não se conectar com a infância dele na Bahia, seus anos de exílio, e sua conexão com sua família. É impossível de pensar o privilégio que é estar presente na companhia de um titã da nossa história, que viu e viveu tanto. E ele tá ali na nossa frente, feliz em cantar e dançar com a gente. Deu pra ver ele tremendo no início do show — tava 11°C ontem de noite — mas ele venceu o frio, moldou o tempo ao redor de nós e fez uma festa. Gil é um titã mesmo.

Minha dieta cultural na última semana

O dia hoje tá lindo, e tá geladinho. Bem como eu gosto. Acho que eu vou pegar o Tobias e ir no Açorianos ler um livro de tarde. Tô pensando em voltar pro Feiticeiro de Terramar agora que terminei Uma Visão Pálida das Colinas, mas esse frescor no ar me pede uma história de mistério. Vou ver o que eu tenho aqui pra ler.

Como eu gosto do frio. Esse provavelmente é o último frio do ano — a primavera chega em algumas semanas, e os dias já estão mais quentes. Hoje amanheceu com 9°C, e eu aproveitei cada segundo tomando um café e vendo o sol se levantar. Vou sentir falta desse friozinho.

A semana foi corrida, profissionalmente falando (eu tô trocando de emprego, longa história), mas mesmo assim deu pra aproveitar bastante. Terminei um livro, vi três filmes (um dia eu alcanço os cinco ou seis por semana que eu via quando era jovem!), tô jogando um punhado de coisas… foi bom!

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro)

Amei. Eu terminei esse livro no sábado passado. Logo depois de terminar de escrever sobre a dieta cultural da semana. Eu achava que a puxada de tapete que acontece na metade da segunda parte do livro era quando Ishiguro ia tirar meu chão, mas ele deixa para as últimas palavras do penúltimo capítulo. Um absurdo de ler. Uma maravilha.

Uma Visão Pálida das Colinas se revela justamente nessa dificuldade de ver que o título sugere. É um livro embaçado e, quando o autor sugere que o que você está lendo é ainda mais incerto do que você imagina, o livro parece se embaçar ainda mais. É um feito difícil de conseguir: tornar a visão incerta do protagonista em algo ainda mais incerto sem que o leitor se sinta traído. Pelo contrário, ele prova nossas suspeitas aqui e ali, mas as peças não se encaixam perfeitamente, a sugestão ainda é imprecisa. Corta que é uma beleza.

Filmes: Interestelar (2014), Invocação do Mal 4: O Último Ritual (2025), Certas Mulheres (2014)

Entre sábado e domingo fez uma madrugada fria, e eu perdi o sono. Eu revi Certas Mulheres, um dos meus filmes favoritos, que é um filme calmo e frio, o que o torna uma boa cobertinha em noites em claro. Eu acho esse um filme perfeito, sutil em como a narrativa progride. Eu amo como a Kelly Reichardt observa essas mulheres trabalhando, se importando em capturar a textura de suas roupas, o frio do ar ao redor delas, o som das folhas e galhos quebrando aos seus pés, o ócio das suas noites. É um filme de solidões, é verdade. E é por isso que é tão lindo quando uma dessas personagens tenta se conectar com alguém. Um daqueles filmes que capturam um milagre.

Segunda-feira fui com a Deise rever o Interestelar do Christopher Nolan. Envelhece bem. Eu não sou o maior fã do diretor, e eu acho que ele precisa urgentemente de um roteirista. O início desse filme é Nolan no seu pior — cheio de frases de efeito que comprovam a inteligência do protagonista contra a burrice de todos os outros. Me fez querer ver Ad Astra de James Gray, um filme também cheio de clichês, mas que os usa para tornar o protagonista cada vez menor em meio à imensidão do espaço. O filme fica muito melhor quando vira um filme espacial de fato, e Nolan pode brincar com a relatividade do tempo, que ele ama tanto. Eu ainda acho que o melhor uso desse artifício ficou lá em O Grande Truque, de 2006, o único filme em que Nolan foi honesto consigo mesmo sobre suas pretenções como artista.

Me decepcionei pra caramba com o Invocação do Mal 4. Eu gosto muito desses filmes, o primeiro é um dos meus filmes de terror favoritos dos anos 2010. Em O Último Ritual, o diretor Michael Chaves tenta demais fazer uma continuação dos dois primeiros filmes da franquia depois do seu desastroso terceiro filme, que fugiu muito à fórmula, se centrando em uma assombração em uma casa. O Último Ritual não entrega nem uma família carismática mas claramente com outros problemas além de paranormais (que é o que faz o primeiro e segundo filme terem tanta textura em seus sustos), nem um bom fantasma. Não há análogo à Basheeba aqui, ou eu cochilei bem na hora que eles expliraram que demônio era esse (eu cochilei por uns 10 minutos nesse filme, eu acho). O filme não consegue unir bem o arco da família e dos Warren, e acaba esquecendo um ou outro por mais de meia hora, o que tira o impulso do filme. Alguém arrasta o James Wan de volta pra essa franquia, por favor.

Silksong chegou quinta-feira e eu sou um zero à esquerda nesse jogo, como de costume. Eu sou bem ruim em metroidvanias em geral, mas eu sou terrível em jogos difíceis. Eu gosto muito da ambientação do jogo, tanto visual quanto narrativa, então quero insistir um pouco. Eu acabei desistindo do Hollow Knight original por causa da dificuldade e acabei assistindo outras pessoas jogarem, mas Silksong tem a mesma qualidade de jogabilidade: os movimentos são bons demais, a resposta aos cliques é forte o suficiente… dá muita vontade de continuar. Inclusive: coisa boa poder pagar menos de 100 reais por um baita jogo.

Além dos jogos eternos que eu continuo jogando (Animal Crossing, Breath of the Wild), eu dei uma jogada em A Link Between Worlds, meu jogo favorito do 3DS. Eu amo como ele é um jogo perfeito para um portátil, e eu acho que é porque a distância do campo de visão é o ideal para esse jogo? Ele é, teoricamente, um jogo de mundo aberto como Breath of the Wild, e a posição da câmera sobre Link é longe o suficiente para sugerir os seus arredores, mas não o suficiente para te fazer questionar o que tem naquela montanha, como é em Breath of the Wild. Me fez sentir uma certa nostalgia por jogos de portátil, que possuem loops de jogabilidade bem sucintos. Sobre isso, Breath of the Wild é meio que excepcional. Seus loops de jogabilidade são modulares o suficiente para você ter objetivos tanto quando está jogando por 20 minutos quanto 12 horas — você quer terminar um shrine antes de dormir, mas tem toda uma montanha para explorar por horas a fio depois disso.

Também me fez querer que jogos do Switch fossem mais adaptativos quanto à como o jogador joga, em relação à câmera. Acho que eu ia ser legal ver mais do horizonte em um Super Mario em 3D quando eu estou jogando na tela grande, mas mais detalhes dos meus arredores quando eu tô jogando no modo portátil.

Séries: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 5), Community (primeira temporada)

Me sentindo meio culpado de ter gostado bem mais do quinto episódio de Alien: Earth depois das decepções dos três episódios anteriores… justamente porque a série praticamente só fez um filme de Alien redux. Eu ainda acho que a série quer muito fazer com o filme o que a série de Watchmen fez com o quadrinho, tanto que a estrutura é parecida. Estamos no meio da temporada e a série interrompe sua propulsão para voltar atrás, beber explicitamente da fonte original enquanto revela alguns detalhes que ainda não tinha largado pro espectador. Me parece muito This Extraordinary Being, o magnífico sexto episódio que revela as origens do Justiceiro Mascarado.

Continuo revendo Community (tô nostálgico!), e cheguei nos finalmentes da primeira temporada. Como essa série tem coração nesse início, não é a toa que essa primeira temporada garantiu duas renovações diretas. É o melhor momento tanto para Britta quanto para Chang, que continuam bons na segunda temporada mas degringolam para versões ininteligíveis deles mesmos depois disso. Passei pelo episódio do frango frito, inspirado nos filmes do Martin Scorsese, que eu acho que é um dos melhores episódios temáticos que a série entregou justamente pelo carinho que tem tanto pelos seus personagens quanto pela dinâmica entre eles. Esqueço sempre que esse episódio é a origem do Peitos da Annie, o macaco do Troy. Tô soltando uma risadinha só de escrever essa bobagem.

Minha dieta cultural na última semana

Hoje tá um dia lindo e a temperatura está gostosa. 21°C e ensolarado, com uma brisa leve e gostosa. Vou passar a tarde na praça lendo com o Tobias… mas agora pela manhã, eu tô fazendo feijão. Ontem saí de um dia bem bomba porrada e tiro do trabalho e desci aqui no bar do lado de casa pra tomar uma cerveja com o Erê e me senti bem feliz por ser brasileiro. Sensação boa, essa.

Em outras realizações sobre ser brasileiro, eu decidi que Vale Tudo vai ser a última novela que eu vou acompanhar. Vale Tudo não é tão boa assim (é mais divertido assistir pra falar mal com os amigos) e gasto um tempinho pós-trabalho que eu queria gastar fazendo outras coisas. Como Vale Tudo deve acabar em setembro, e setembro tá logo ali, logo mais vou ter uma mudança na rotina. Vamos ver como vai mudar minha dieta cultural semanal. Vou avisando por aqui.

Filme: Wanda (1970).

Wanda é o único filme dirigido por Barbara Lorden, e que pecado isso, porque Wanda é magnífico. Eu descrevi pro Erê como se John Cassavetes tivesse dirigido o Acossado de Jean-Luc Godard, mas isso não faz justiça ao trabalho de Lorden na direção e na atuação. É justamente na confusão entre as duas coisas que o filme brilha: direção e atuação estão tão intrinsicamente ligadas nesse filme que parece que Lorden controla a câmera com seu olhar, de tanto que a imagem absorve seu estado de espírito em cena. É um filme tão perdido quanto sua personagem principal, que com sua falta de rumo acaba se relacionando com um assaltante e fugindo com ele. Mas Wanda não tem uma “trama” em si. Ela segue acontecimentos que em outros filmes talvez fossem becos sem saída. Mas aqui tudo revela algo sobre Wanda, mesmo que nem ela saiba o que é.

Jogo: The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D (Nintendo 3DS).

Comecei a jogar a versão para o Nintendo 3DS de Ocarina of Time, que eu considero a melhor versão do jogo. Eu tô bem no início — eu acabei de encontrar a Zelda e logo mais vou para Kakariko Village antes de seguir para a vila dos Gorons.

Sempre me esqueço como esse jogo é triste. Sua primeira missão acaba com a morte do seu mentor, e tem uma melancolia já na tela de start que define o tom do jogo todo, mesmo quando ele é bobo (Gorons!). Eu jogo ele no meu New 2DS, que eu particularmente acho o melhor videogame que a Nintendo já fez, e embora o jogo ainda tenha os visuais do Nintendo 64, eu acho ele lindo. Seu trabalho de animação é fantástico, e seu uso esparso das cores é muito inteligente (mesmo que tenha sido uma limitação de hardware). Eu geralmente empaco no reino dos Zoras, vou ver se dessa vez eu avanço mais.

Série: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 4).

O episódio dessa semana anda mais com a narrativa, mas eu ainda acho todo o uso da história de Peter Pan aqui meio cansativa. Não consigo parar de comparar com a série de Watchmen que a HBO lançou há uns anos e que usa uma paródia de American Horror Story para pontuar a série também. Mas lá era algo muito mais pontual. Em Alien: Earth a série para pra alinhar a analogia com os personagens o tempo todo. Pelo menos um Xenomorfo nasceu no fim desse episódio, o que é sempre um bom sinal. Logo mais começa o carnaval.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro).

Ok. Eu cheguei na parte que Ishiguro decide tirar seu chão. Eu tô nos finalmentes do livro. Pelo que diz o progresso no ebook, 68%, mas a progressão é muito rápida, acho que acabo ele esse fim de semana. É incrível como Ishiguro torna um livro bastante interno em um virador de página com muita facilidade. Acho que semana que vem já vou ter mais ideia de onde esse íntimo todo vai dar. Por mais que o livro esteja desabrochando agora, eu não tenho ideia de onde ele quer chegar (e que sentimento legal esse).

Desativando notificações

Vou fazer um experimento essa semana: desativei todas as notificações no celular. Nem mesmo o calendário e os lembretes se salvaram.

Meu objetivo é ver quais notificações são realmente essenciais pra mim (suspeito que nenhuma) para poder reativar na semana que vem. Também quero ver como meu celular se comporta. Por exemplo: se eu desativar as notificações do telefone e do FaceTime, eu não receberei chamadas desses apps?

Vou atualizando por aqui durante a semana.

Haiku OS

Quinta-feira eu instalei o Haiku em uma máquina virtual e tenho brincado desde então… é um sisteminha bastante usável? É super rápido, e a interface é muito bem pensada. Me deu saudades verdadeiras do macOS na época do Snow Leopard, quando botões eram botões e as coisas faziam mais sentido do que os espaços em branco do macOS desde o Big Sur. Tô pensando em pegar um computadorzinho velho em um OLX da vida e instalar ele e ver o que dá.

Minha dieta cultural na última semana

Tá chovendo bastante por aqui hoje. Dá pra ouvir o vento subir correndo a escadaria aqui do lado de casa. Não vou mentir, eu tava torcendo por essa chuva. Minha semana foi tão movimentada que eu tava torcendo por uma chuvinha pra me forçar a ficar quietinho em casa, tomando café e vendo Gilmore Girls.

Não quero prometer nada, mas quero escrever mais essa semana. Eu fiquei feliz de ter organizado meu tempo bem o suficiente pra conseguir caminhar todos os dias, e pra estudar francês todos os dias. Quem sabe eu vou conseguir escrever todos os dias mais pra frente? Não custa tentar.

Filme: Hard Truths.

Hard Truths (2024) é incrível. Eu amei toda a primeira parte, quando ele se estrutura de um jeito quase que como um filme de esquetes — vemos quatro mulheres, cada uma em um punhado de situações pequenas, e como elas reagem às adversidades dessas situações. Lentamente, Mike Leigh vai tecendo as tramas ao redor delas — as irmãs, a morte da mãe, a relação delas com suas respectivas famílias — sem pressa e sem julgamentos. Criamos uma antipatia tremenda (e muito bem humorada) com Pansy, uma mulher furiosa com sua própria vida e interpretada com uma força descomunal pela Marianne Jean-Baptiste (que se reúne com Leigh depois do magnífico Segredos e Mentiras). Ela é cruel com seu filho, com seu marido, com sua irmã, com suas sobrinhas, e com qualquer pessoa que ouse estar perto dela. Hard Truths é sensível o suficiente para nos mostrar as causas da dor de Pansy, mas não as vê como desculpa para a dor que ela aflige. É incrível, então, que ao final do filme você está aos prantos querendo o melhor para Pansy, que ela consiga se livrar dessa dor tremenda que ela carrega e que ela despeja por aí. Jogada de mestre.

Séries: Alien: Earth, Community.

Terceiro episódio de Alien: Earth não leva a lugar nenhum. Nem sempre isso é um problema. Várias séries se enriquecem em episódios onde “nada acontece” mas tudo acontece também. A gente conhece mais os personagens, ou a série aproveita a falta de movimento para aprofundar as dinâmicas. Não acontece aqui. “Metamorfose” (S01E03) só existe para jogar migalhas dos mistérios que já tínhamos pegado nos dois primeiros episódios — o que a Weyland-Yutani quer? Qual o limite da humanidade dos “meninos perdidos”? Até onde a série vai abraçar essa analogia com Peter Pan???… Meu pé atrás com o Noah Hawley tem seus motivos.

Comecei a rever Community (S01E01 — S01E03). Sempre me impressiono ao lembrar como a primeira temporada tem um coração gigante pra esses personagens. É uma temporada que mostra porque as pessoas se tornam amigas. Muito desse espírito se perde ali pela terceira temporada, quando ela abraça os episódios temáticos com força, mas é justamente o que deu a força pra Community ser o que quisesse em cada episódio.

Jogos: Herdling.

Tava empolgado fazia um tempo pra jogar Herdling (Okomotive), é um jogo em montanhas e me lembra muito os Andes. Eu acho que a versão pro Switch é bem ruim: tem problemas sérios de performance e as texturas parecem ser de jogo do Nintendo 64. Eu imagino que isso é fruto do fato de que o estúdio não recebeu dev kits do Switch 2 antes do lançamento do jogo, e eu espero que eles lancem algumas atualizações para melhorar a performance do jogo no console. Ele parece muito bonito, mas esse port é um pouco desleixado.

Além de Herdling, eu joguei os jogos da rotina também: Breath of the Wild (tô indo pro Domínio de Zora) e Animal Crossing: New Horizons (fiz nada na ilha essa semana, mas tentei pegar o Blue Marlin).

Música: Nina Simone, The Tomato Collection.

Encontrei o CD duplo da coletânea The Tomato Collection (1994) da Nina Simone essa semana. É o mesmo disco que toca durante os momentos finais de Antes do Pôr-do-Sol (Linklater, 2004). Esse CD não existe no Apple Music (e não existia no Spotify quando eu tinha uma conta lá), e a única cópia que encontrei para baixar tinha algumas faixas cortadas — “Porgy” e “But Beautiful”, e “When I Was In My Prime” tinha uma deforminade no final.

O CD, em dois volumes, tem um livreto com um ensaio sobre a curadoria da coleção, e tem algumas das minhas versões favoritas de “Just in Time” (a música que toca no filme do Linklater), “See-Line Woman” e “Ain’t Got No”. Acho que a maioria é ao vivo.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas.

Cheguei na metade do livro, começando a segunda parte, e ainda sinto que ele tá escondendo o jogo de mim. No outro livro de Ishiguro que eu li esse sentimento era comum também, mas a essa altura do livro já dava pra ver que o autor estava desenhando algo. Uma Visão Pálida das Colinas se limita tanto ao ponto de vista de sua protagonista que as limitações dela sobre as outras pessoas (seus anseios, suas frustrações) parece ser a própria história. Não é ruim em nenhuma página, vale dizer. É tão bom estar imerso na mente de Etsuko e naquilo que ela não sabe (principalmente as circunstâncias da vida e morte de sua filha mais velha, Keiko). Toda a realização que Etsuko tem é feita com sutilezas, como uma paisagem que se revela devagar na neblina. Eu ainda acho que o livro vai tirar o meu chão — e talvez o faça justamente dessa forma silenciosa.

Minha dieta cultural na última semana

Tem feito muito frio por aqui, mas tem feito sol. Então eu tento aproveitar o máximo de tempo que eu tenho na rua com o Tobias. O que me dá menos tempo na frente da TV (eu tô tentando ficar menos tempo sentado no sofá, porque eu acabo dormindo), e mais tempo caminhando pela cidade — a coisa que eu mais gosto de fazer de todas. Mesmo assim, consegui fazer minha rotina cultural bem certinha, e fui atualizando esse rascunho pela semana. Agora, sentado no fim da tarde de sábado, vertendo coriza e com uma dor de cabeça descomunal, eu consegui escrever essa introdução. Queria que ela fosse mais inteligente, comentando como foi meu dia (foi um bom dia!), mas o cansaço tá batendo. Talvez semana que vem…

Eu queria ter escrito isso pela manhã, mas eu fiquei tão doente nessa última semana que eu acordei às 9h parecendo que eu apanhei a noite inteira. E isso que eu ando dormindo todos os segundos possíveis. Não escrevi sobre nenhum disco porque eu ainda não parei de tocar Geraes o tempo inteiro. Que disco gigante.

Jogos: Breath of the Wild, New Horizons.

Nada de novo essa semana. Eu tive pouco tempo de jogar na segunda, o dia que eu “reservo” pra isso. O pouco tempo que tive foi fazendo as rondas na minha ilha em Animal Crossing: New Horizons (Switch 2). Eu também cheguei à Vila Kakariko e encontrei a Impa pela primeira vez em Breath of the Wild (também no Switch 2), e comecei meu rumo até Hateno. Eu gosto de fazer esse trajeto a pé, como eu fiz na primeira vez que eu joguei esse jogo. Mais pra frente, quando a gente domina o mapa, esse trajeto é bem curto e comum. Mas nesse início ele parece imenso e perigoso. Bacana demais as mudanças de perspectiva que BOTW provoca no jogador conforme ele vai dominando os sistemas do jogo.

Eu dei uma jogada no beta de Battlefield 6 (PlayStation 5) na sexta-feira. Eu sou péssimo em jogos de tiro. Eu também joguei um pouco de Hades (Switch 2), um jogo que eu jogo muito mas nunca fui muito longe. Dessa vez eu ativei o “modo deus”, porque eu sou péssimo em jogos e só quero me divertir e não me sentir um fracasso. Acho que gostei mais dele assim.

Filme: A Hora do Mal.

Coisa boa ver um filme-montanha-russa como A Hora do Mal (Weapons). Zach Cregger é um baita diretor, e modula o ritmo e o humor do filme pra atingir picos altíssimos até descarrilhar numa loucurada das boas e voltar pros eixos (aqui acaba a analogia com a montanha-russa). É muito bom, muito divertido e muito inesperado. O grande suspense do filme é apresentado no prólogo mesmo, e todo o resto é consequência. Eu amo filmes estruturados assim, dividindo a história em pontos de vista que circulam os mesmos eventos e progridem a narrativa um passo de cada vez. Me lembrou muito a segunda temporada de The Leftovers (HBO), tanto pela angústia dos personagens não saberem o que está acontecendo, quanto pela capacidade de mostrar com bom humor o absurdo da situação quando ela é apresentada por outro ponto de vista (e não existe um elogio melhor). Quando o filme realmente se revela, Cregger já nos tem presos nas mãos dele, e daí ele faz o que ele quiser — e que chacoalhada das boas que é.

Séries: A Idade Dourada, Alien: Earth.

Tô botando A Idade Dourada (HBO, terceira temporada) em dia. A série tá ainda melhor esse ano, com os conflitos confluindo mais naturalmente sem precisar de uma muleta como a guerra das óperas da temporada anterior: tem a crise financeira do George, o casamento da Gladys, a crise no casamento dos Russel. Marion ainda não tem muita história, mas acho que talvez emplaque algo na segunda metade da temporada (tô no quarto episódio ainda!) Eu gosto muito da observação da Kathryn VanArendonk para a Vulture que A Idade Dourada vive numa “zona infinitesimal de consequências”, e a grande sacada da série é de criar o suspense se algum evento vai abalar as estruturas rígidas dessa alta sociedade. Aqui, a todo o momento, parece que tudo está pra mudar, e é muito divertido ver essas mulheres segurando esse mundo no lugar com as próprias mãos.

Comecei os dois primeiros episódios de Alien: Earth (Disney+, primeira temporada). Por enquanto, parece uma mistura perfeita entre o Alien original (1979) e Aliens: O Resgate (1986): tem o terror de estar preso em um lugar com uma máquina de carnificina; e a ação de uma trupe de “heróis” querendo exterminar essa máquina. Eu ainda não abracei muito a analogia da corrida pela imortalidade das grandes corporações que compõem o futuro dessa série com a analogia à Peter Pan. Também tenho um pé atrás com o Noah Hawley: embora eu goste muito das três primeiras temporadas de Fargo e do piloto de Legião, essas séries se perdem muito depois do início e não conseguem parar em pé. Espero que Alien: Earth seja diferente.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas.

Hoje de tarde eu e o Tobias fomos na praça aproveitar o sol e tomar um ar fresco e eu comecei esse livro do Kazuo Ishiguro que carrego há anos no Kindle e nunca comecei a ler. Em duas horas eu engoli metade do livro. Ishiguro é sempre genial, e eu adoro mergulhar nos livros dele sem saber de absolutamente nada antes. A forma com que ele desdobra tanto o interior quanto o exterior dos seus personagens é fascinante — e tem uma limpidez na sua narrativa, que parece que enxugou todo o desnecessário ao redor sem tirar dele a riqueza dos detalhes. Eu ainda não tenho ideia de onde o livro, sobre uma mulher que relembra uma amizade de sua juventude após o suicídio de sua filha mais velha, quer chegar. Mas como em Não Me Abandone Jamais, eu tô adorando ser carregado pelo autor daqui pra lá com tanta delicadeza e com tanta força ao mesmo tempo que eu nem sei se quero descobrir o que ele tá aprontando tão cedo.

(Dei uma pausa no O Feiticeiro de Terramar essa semana pela densidade, meu trabalho tá muito puxado).

Minha dieta cultural na última semana

Eu vou tentar escrever toda semana sobre o que eu tô vendo, lendo, jogando e ouvindo. Eu parei de usar o Letterboxd há uns meses e sinto que eu tô esquecendo dos filmes que eu vejo. Não quero voltar para o Letterboxd por enquanto, então acho que uma boa solução é manter minhas impressões por aqui mesmo. A partir da semana que vem, esses resumos devem ser publicados no sábado pela manhã.

Jogos: skate., Time Flies.

Eu joguei bastante dois testes de jogabilidade: o novo skate. (PlayStation 5), que eu gostei bastante, e o playtest online da Nintendo (Switch 2), que eu ainda não sei o que é e não gostei muito. Eu não joguei os jogos anteriores de Skate pra poder falar, mas eu gostei da fluidez das manobras desse novo. Ele não tá nada otimizado ainda, mas se o mundo aberto tiver mais cheio de gente depois do lançamento (o acesso antecipado vai começar até o fim do ano), acho que vai ser um jogo legal de passar o tempo com os amigos no Discord.

Eu também joguei o curtíssimo Time Flies (Switch 2), e tem a chance dele chegar na minha lista de jogos favoritos no fim do ano (vai ser o segundo lançamento da Panic no top 5 se isso acontecer). É curtinho de propósito e eu achei bem emocionante — me lembrou muito de jogos que eu jogava no Kongregate, e é um grande elogio.

Jogos de rotina continuam sendo Breath of the Wild (recomecei pela enésima vez, mas agora com a desculpa de testar a edição pro Switch 2) e Animal Crossing: New Horizons. Minha ilha finalmente alcançou o nível da Léte original, que eu apaguei sem querer em 2023.

Filme: Amores Materialistas, Superman.

Eu adorei Amores Materialistas (Celine Song, 2025), o novo filme da diretora de Vidas Passadas (2023). Não despedaçou o meu coração como seu filme anterior, mas tem a mesma fluidez. Amei como Song apresenta a personagem da Dakota Johnson, uma verdadeira casamenteira, que procura pares para seus clientes se apaixonarem. Tem uma leveza na forma como Song move a câmera e o ritmo do filme que parece flutuar, o que conversa bem com o humor do filme também.

Gostei muito do novo Superman (James Gunn, 2025). Acho que tem o mesmo feito de Barbie (Greta Gerwig, 2023), de conseguir ser um bom arrasa-quarteirão que tem algo a dizer e que consegue não parar o filme em nenhum momento pra isso. Também assume a inteligência do espectador, o que poupa um bocado de tempo que blockbusters ultimamente parecem perder em tentar justificar ações de seus personagens. Aqui, tudo o que importa sobre esse Super-Homem a gente aprende nas ações e nas suas reações: ele ainda tá começando a ser um super-herói, e está aprendendo a entender onde está sua própria força. É uma ideia muito bacana e muitíssimo bem feita. Me lembrou muito da dinâmica familiar de Os Incríveis (Brad Bird, 2007) e dos desenhos animados de super-herói que davam sábado de manhã na TV. Acho esse o ritmo e o humor correto pro Super-Homem.

Também revi dois filmes: Orgulho e Preconceito (Joe Wrightm, 2005) e O Profeta (Jacques Audiard, 2009), dois favoritos. Wright era tão bom no início da carreira, dá uma tristeza de ver como sua direção ficou cheia de afetação a partir de Anna Karenina (2012). Ele traduz muito bem a fluidez da prosa de Austen em uma câmera que dança entre seus personagens em um filme que não para um segundo, e mesmo assim consegue respirar. Ainda acho O Profeta incrível (é a primeira vez que eu revejo ele em muitos anos). Sempre acho a transformaçào do protagonista em algo ao mesmo tempo inevitável e surpreendente. Dá pra saber logo no início que ele vai se transformar na prisão, mas é muito eficaz como Audiard transforma ele. (Pela primeira vez eu percebi que os intertítulos são, na verdade, a divisão de capítulos do filme…)

Livro: O Feiticeiro de Terramar.

Em 2021 eu li todos os livros do Ciclo Hainish, e agora eu tô começando a ler o ciclo Terramar da Ursula K. Le Guin. O Feiticeiro de Terramar ( ed. Morro Branco) é fundo. É um livro que se passa tanto dentro quanto fora da mente do protagonista, Ged, e é incrível como a escritora captura tão bem sua transformação tanto interna quanto externa, enquanto cria um mundo riquíssimo de histórias, lendas e tradições. Me lembra muito tanto o Princesa Mononoke (Hayao Myazaki, 1997) quanto Zelda na sua fantasia, que faz parte de um mundo que existe muito antes de nós entrarmos nele e continuará quando o livro acaba — e não cai na bobagem de querer contar a história de um escolhido. Algo que eu já sabia que ela evitaria por causa dos seus livros de ficção científica.

Tô lendo devagarinho.

Música: Geraes.

Não consigo parar de ouvir o Geraes (1976) do Milton Nascimento. Nada de novo… Milton cria músicas imensas, e Geraes parece ser a música do fundo das montanhas e do campo. Parece uma música que ecoa pra sempre nos lugares que ela foi cantada. A voz de Milton parece o próprio vento. “O Ceio da Terra” é lindo. (Dei o vinil pro meu pai do dia dos pais).

Agora

Eu decidi começar a jogar Kentucky Route Zero de novo.

KRZ é o meu jogo favorito, mas é a primeira vez que eu vou jogar ele de novo desde que o último ato foi lançado, no início de 2020. Eu demorei meses pra conseguir escrever sobre.

Algo parecido aconteceu com The Leftovers, minha série favorita. Eu não consegui rever ela de novo, do início ao fim, desde a series finale em 2017. Eu vejo episódios ou cenas soltas aqui ou ali, pra lembrar de algo, mas ainda não consegui rever ela de verdade.

Agora

Esses últimos meses foram difíceis. Meu trabalho não deu sossego, e eu mal consegui escrever.

Eu também tive algumas crises de escrita. Eu decidi sair do Letterboxd. Eu sentia que escrever por lá não me trazia muito mais alegria, parecia mais uma obrigação. Eu quero voltar a escrever como eu fazia no Pão com Mortadela: encontrando links e fazendo ligações mentais entre os assuntos que eu achei interessante nos últimos dias. Eu não tô conseguindo fazer nem isso.

Escrever é musculação: você faz de pouco em pouco até que se torna um hábito, e você vai fazendo cada vez mais. Eu sinto falta de quando eu praticava essa musculação com mais frequência. O projeto acaba amanhã, e eu espero que eu consiga me reeducar. Eu acho que vou finalmente tirar o irrelefante.com.br do estacionamento.

Agora

Vou passar a semana do natal aqui na casa dos meus pais, no interior. Aqui a noite ainda é fria, e eu gosto de andar pelo pátio no meio da noite, para sentir esse frio. É um frio quieto, mas acolhedor.

Eu visitei meus amigos hoje, alguns que eu não via há algum tempo. É tão bom ver eles. Eles parecem tão bem — a vida de um jeito na gente, ou a gente deu um jeito na vida. As coisas funcionaram para nós. Não temos mais o convívio da escola, ou das nossas férias de verão juntos, mas tem algo em rever eles que é bom.

Nos ainda somos aquele bando de inconsequentes que se reunia pra comer batata frita e tomar cerveja no domingo antes do trabalho, mas agora não somos mais? Nos reunimos no domingo antes do trabalho depois de dois anos sem conseguirmos nos ver, e nossos assuntos mudaram. Agora é sobre o trabalho, sobre como o tempo corre, como as coisas mudam — como as pessoas que moravam nas casas em que crescemos não estão mais lá, sobre o que existe hoje nos lugares que íamos antes. A gente muda, o tempo passa, mas isso que a gente tem junto… isso continua.

Favoritos discretos

Tem uns jogos que são uns “favoritos discretos”, né? Aqueles que a gente sempre tem disponível em algum console ou no computador. Que a gente pode não jogar sempre, mas sempre tá ao nosso alcance por que, quando a vontade de jogar ele bate, ela é invencível (pensamento que me veio na cabeça jogando Burnout Paradise, que eu tenho instalado no computador, no Switch e no PS5).

Agora

Hoje é o meu último dia de férias (embora eu só volte a trabalha na segunda-feira). Foi a primeira vez em mais de uma década que eu tirei o meu período integral de férias de uma só vez. Eu acho que vou fazer isso sempre, daqui pra frente. Não só deu tempo para fazer uma viagem bacana, mas consegui colocar em dia várias tarefinhas em casa, fiz alguns exames que eu tava postergando e dei uma limpada no meu guarda-roupa.

Eu também consegui colocar em dia uns jogos que eu queria terminar (Link’s Awakening e Shadow of the Colossus), li bastante e não vi tanto filme quanto eu queria, mas dei um tapa nesse site aqui. Eu consegui descansar muito, também. Essa parte foi a mais importante.

Agora

Eu sonhei com a Vivi hoje. Eu fui visitar meus pais e os cachorros vieram me receber. Eu dei oi pro Balu, pro Ió, e pras meninas: a Flor, a Mel e a Cici. Daí a mãe comentou “a Vivi tá lá embaixo”.

Eu não cheguei a estranhar, no sonho. Eu acho que eu estranhei mais o fato de eu ter esquecido de dar oi pra Vivi. Eu fui pro andar de baixo e, realmente: a Vivi tava sentada na sombra que fica no canto da casa, entre os pés de laranjeiras. Ela latiu pra mim e sapateou, como costumava fazer. Eu peguei ela no colo, do jeito que eu pegava — com o meu braço entre as duas patas da frente, apoiando a barriga dela.

A gente caminhou pela casa, os cachorros ao meu redor. Eu tomei um café com minha mãe enquanto segurava a Vivi com um braço. Eu fiquei fazendo carinho nela pelo resto do sonho, ela dando aquela rosnadinha que dava quando queria brincar.

Agora

Passeando com o Tobias hoje de manhã (ele tem acordado às 6h pra dar a primeira saidinha do dia), eu decidi variar um pouco os ares e fomos em direção ao Açorianos. Lá, o Tobias conheceu uma família de caturritas, uns amores.

Eu gosto muito desses nossos passeios da manhã. A cidade ainda não acordou totalmente, mas o sol já tá de pé o suficiente. O dia sempre promete.

Agora

Hoje tá sendo um dia bom.

Eu acordei às 6h, e saí pra minha caminhada matutina. Faziam 12° C na rua, mas não tinha uma nuvem sequer no céu. Só o sol, algo que tá ficando cada vez mais raro de aparecer aqui no sul.

Então eu saí pra caminhar antes do Tobias acordar e antes do trabalho começar. Tava frio demais. Depois que eu voltei, eu fiz um café e esperei o Tobias se levantar. Passeamos, e agora eu tô trabalhando (e escrevendo).

O Tobias tá perdendo bastante pelo por causa da quimioterapia, então eu varro a casa escutando minha playlist para manhãs e, quando eu canso, eu venho aqui e escrevo um pouco mais desse post. Eventualmente ele vai terminar, e eu vou precisar voltar a varrer.

Tá sendo um dia quieto e um dia perfeito. Meus dias favoritos são assim.

Clube da Esquina Nº 2

Essa música é física quântica. É quando você sente que está caminhando na mesma velocidade do vento ao redor. Como se você se movimentasse na velocidade do mundo.

Essa música é você anos depois, quando esse vento te encontra de novo. Nunca foi um momento tão distante, nunca foi um momento tão próximo. Tudo ao mesmo tempo. A música que tem o tempo inteiro nela.

Lembrando da morte

Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.

Whelks

Here are the perfect
fans of the scallops,
quahogs, and weedy mussels
still holding their orange fruit –
and here are the whelks –
whirlwinds,
each the size of a fist,
but always cracked and broken –
clearly they have been traveling
under the sky-blue waves
for a long time.
All my life
I have been restless –
I have felt there is something
more wonderful than gloss –
than wholeness –
than staying at home.
I have not been sure what it is.
But every morning on the wide shore
I pass what is perfect and shining
to look for the whelks, whose edges
have rubbed so long against the world
they have snapped and crumbled –
they have almost vanished,
with the last relinquishing
of their unrepeatable energy,
back into everything else.
When I find one
I hold it in my hand,
I look out over that shanking fire,
I shut my eyes. Not often,
but now and again there’s a moment
when the heart cries aloud:
yes, I am willing to be
that wild darkness,
that long, blue body of light.

— Mary Oliver

Colheres

littleselkie:

earhartsease:

nohoperadio:

A spoon’s only objective in life is to make soup go upwards, and it knows this. That’s why when you put one under a running tap it blasts the water way high. The spoon thinks there’s suddenly TONS of soup to deal with and it freaks out.

spoon under a tap:

for this was I made

I read this post aloud to my roommates earlier, and one of them said “now I feel bad about waterboarding my spoons in the sink.”

udm=14

Lembrete: se você quiser fazer pesquisas no Google e não ser bombardeado com os resumos gerados por IA, clipes da web nem outros recursos inúteis, você pode adicionar o parâmetro &udm=14 no fim da URL.

(É possível adicionar o parâmetro também no mecanismo de busca do navegador pra que pesquisas sejam feitas assim automaticamente).

Agora

Esse foi um bom fim de semana, depois de uma semana caótica.

Ontem foi um dia perfeito. Tinha um céu lindo, bem azul, com poucas nuvens. E tava frio, com um ventinho gelado.

Eu amo dias assim. Tem um certo conforto em um dia gelado, mas em que o sol brilha. O cheiro do café da manhã alcança lugares mais distantes. Os sons da manhã são mais macios.

Os sentimentos ficam mais aguçados, e os sentimentos também. Eu saí para levar as roupas na lavanderia, e o dono do bar ao lado da minha casa já estava abrindo o negócio dele. A gente trocou nosso bom dia antes de eu descer a escadaria. Na lavanderia, a mesma coisa. Existe uma calma em manhãs que a temperatura é fria, mas o céu acalenta.

Durante a pandemia, eu pensei muito se aquele tempo ia sinalizar o fim da ideia de “comunidade”, de se sentir parte de uma comunidade no nosso dia-a-dia. Os dias ficaram mais impessoais durante aqueles anos. Usávamos máscaras e saíamos só quando era necessário. Eu morria de medo de não conseguir me aproximar dos meus novos vizinhos por causa disso. Mas é tudo questão de tempo. Em algumas semanas, eu e o dono do bar do lado da minha casa já tínhamos um acordo que nunca foi falado — quando eu chego tarde em casa, nós trocamos um aceno e ele me pergunta se tá tudo bem. O mesmo vale com a moça da lavanderia, e a senhora da padaria. Eu nunca consegui ter uma aproximação com a mulher do mini-mercado perto da minha casa, mas até isso é um conforto (não são todos os que a gente consegue se aproximar nos nossos dias).

Dias assim, que tiram o incômodo do calor que durou quase seis meses nessa primavera e nesse verão, dão mais espaço pra calma. Ou vai ver, como a Bruna me comentou, é a paz inerente da chegada dos 30, em que incertezas se tornam insignificantes porque a vida não nos dá muito tempo — ou vontade — de ficar ponderando decisões não tomadas. Meus vizinhos, as primeiras pessoas que eu vejo no dia (e geralmente as últimas também), continuam ali. Nossos acordos, alguns nunca falados e outros acertados, vigoram.

Esse domingo foi outro dia frio, mas dessa vez foi nublado. É um outro tipo de dia que eu adoro. A manhã começa mais cedo, e dura um bocadinho a mais. O dia demora mais pra começar, e ninguém culpa ninguém por isso. Há um silêncio comunitário no ar — é um dia de pouco barulho, de muito sono. O cheiro do café fica no ar por mais tempo. Os sons abafados, também.

Agora

Um momentinho que eu gosto depois de voltar do intervalo de almoço no trabalho é escovar bem os dentes e tomar aquele primeiro gole de café.

Poesia é o evento

Ilya Kaminsky em entrevista com Garth Greenwell na edição de março/abril da revista Poets & Writers Magazine (2019):

“Poetry is not about an event. It is the event. Art is the resistance of complacency: It always stands in opposition to numbness. That is why it just doesn’t die, poetry—despite so many death notices. It is always there, waking us up when we get numb, poking us in the eye.”

Via @poetsandwriters.

Agora

Eu ando tendo umas noites sem conseguir dormir nessa última semana, e pela primeira vez nesse quase um ano sem Twitter, eu senti falta daquele lugar.

Não do Twitter em si, mas de ter um lugar em que meus outros amigos que provavelmente estão passando por uma insônia também estejam, para que possamos conversar até um a um cair no sono. Eu até tenho uma conta no Bluesky, mas meus amigos não estão lá — então não tenho ninguém pra comentar o BBB ou o novo episódio de True Detective, por exemplo.

Em noites assim eu sinto falta da companhia das crianças do brilho.

Agora

Eu tô experimentando algumas mudanças na minha rotina nessa semana. Em 2023, eu senti que passei muito tempo pensando que eu não estava fazendo nada, mesmo que isso não fosse verdade. Acho que essa impressão veio pelo fato de eu parar de fazer coisas que eu gostava e que me faziam bem, como estudar francês, caminhar e escrever.

Não que eu não fizesse esse tipo de coisa, mas eu as fiz sem uma frequência que eu gosto, e geralmente de forma paliativa. Eu sentia que eu não estava fazendo nada, e então decidia “tampar” esse sentimento com alguma tarefa. Porém, eu gosto de rotinas, elas costumam me fazer bem.

Entre 2017 e 2020 eu tinha o hábito de estipular minha rotina usando os lembretes no meu celular. Eu criava uma série de tarefas, estipulava a frequência (diariamente, a cada dois dias, semanalmente, etc.) e um horário. Não tenho ideia do porquê eu parei de fazer isso. Acho que, com a pandemia, minha rotina mudou drasticamente nos menores detalhes. Mesmo assim, eu senti falta dessas tarefas no último ano, então coloquei todas elas de volta nos meus lembretes:

Captura de tela de uma lista no aplicativo Lembretes, com as seguintes tarefas: Caminhar (todas as segundas, quartas e sextas); Ver um filme (semanalmente, às quartas); Ler um livro (semanalmente, às terças); Jogar um jogo (semanalmente; às segundas); Assistir uma série (semanalmente, às quintas); e Estudar francês (diariamente, em atraso).

Além de caminhar e estudar francês, eu decidi estipular o que fazer no meu tempo ocioso nos fins de tarde durante a semana. Eu acho que a minha inquietação ou angústia nos fins de tarde vinham pelo fato de eu não ter algo específico pra fazer; ao mesmo tempo, eu sinto que minha dieta cultural no último ano foi bem rala. Eu raramente encontrava tempo para ver filmes ou ler, só que não por falta de tempo mesmo. Só por desorganização mental, se é que isso faz sentido.

Acho que isso libera um pouco do peso de decidir o que fazer todos os dias (eu amo esse vídeo da Aretha Franklin reclamando do que fazer de janta todas as noites), o que me dá mais tempo pra fazer mais coisas que eu quero fazer. Não necessariamente ser mais produtivo (isso também), mas usar melhor o meu tempo.

Eu estou aplicando essa nova rotina há pouco mais de uma semana. Eu comecei ela no recesso, e por enquanto está indo tudo melhor que a encomenda. Por exemplo, eu não só consegui ler muito ontem, como eu também tive tempo de sobra pra assistir um filminho, já que não precisei ficar matutando o que eu deveria estar fazendo. Foi bem bom! E o livro também ajudou, porque é muito bom! (A casa de doces, de Jennifer Egan).

Mesmo assim, é pouco tempo pra dar alguma impressão definitiva por aqui, mas eu quero ir experimentando com isso nesse mês. Eu quero ver se consigo adicionar Yoga à minha lista de tarefas na próxima semana, é algo que eu sinto falta de fazer. Eu só preciso ver se eu tenho um tempo hábil pra fazer isso. Eu não quero correr o risco de estufar meus dias com coisas e acabar fazendo nada de novo.

História de amor

Postado por Humans of New York:

“Mom died on the first day of school. She’d been really sick that entire summer. And she passed away on a Monday. At 7 AM. Almost exactly the time I’d be leaving for school. I don’t think I fully grasped how traumatic it was for me. I was there when she took her last breath. I comforted my little sister while she said goodbye. And the next week I had to start classes at a brand new school. I was a junior at the time. All the teachers knew what happened. And they had told all the students, so everyone was pitying me when I showed up. I met Alex that very first day. We were in choir together. We became friends almost immediately, but we didn’t start dating until we were both cast as leads in Seussical The Musical. We became more serious during college, and we ended up getting married right after graduation. I felt so sad that my mom couldn’t see any of it. Every time a big event would happen, it would be like-she’s not here. And she’s never going to be here. I was a moody, shitty teenager when she died. And I’m having this whole life where I become the person I’m supposed to be, and she doesn’t get to see any of it. She’s not going to see me graduate. She’s not going to meet my children. And it especially sucks that she’ll never get to meet Alex. We lit a lantern at our wedding to signify that my mom was still with us. It was a beautiful ceremony, and afterwards we took our honeymoon in Hawaii. A few days into the trip, I received a call from my oldest friend Meredith. She sounded excited. She’d just discovered a picture of our childhood soccer team, and there was a boy who looked just like Alex. When I showed Alex the photo, he confirmed that it was him-he’d played goalie on that team. I just started laughing. It was such a God moment. It was a moment when everything felt connected. Alex and I had known each other as children, back when my mom was still alive. The first thing I did was call my dad. I asked him if he remembered anything about the Swan’s Dermatology Soccer Team. ‘I remember the goalie, he replied. ‘During the games he’d always sit down in the net and play with the dirt. And your mother thought it was hilarious!”

Via dontliveinthefuture

Agora

Eu adoro acordar e ir pra cozinha na primeira hora da manhã. A luz, ainda azulada, do início do dia ilumina o balcão com calma. A cidade não acordou totalmente, e o frio da noite ainda entra pela janela da cozinha.

Amor

Perdido no meio de A Balada do Café Triste tem uma dissertação sobre o amor:

Antes de mais nada, o amor é uma experiência conjunta entre duas pessoas, mas o fato de ser uma experiência conjunta não significa que seja uma experiência semelhante para as duas pessoas envolvidas. Há o amante e o amado, e cada um vem de mundos diferentes. Muitas vezes, o amado é apenas um estímulo para todo amor que, até então, permaneceu guardado no amante. E, de alguma forma, todo amante sabe disso. Ele sente em sua alma que o amor é uma coisa solitária. Ele aprende a conhecer uma nova e estranha solidão, e é este conhecimento que o faz sofrer. Portanto, há somente uma coisa que o amante pode fazer. Ele deve abrigar o seu amor dentro de si, da melhor maneira que conseguir; deve criar para si mesmo um mundo interior totalmente novo, um mundo intenso e estranho, completo em si mesmo. É preciso acrescentar que este amante do qual falamos não precisa necessariamente ser um jovem que economiza para comprar um anel de noivado; este amante pode ser homem, mulher, criança, ou qualquer criatura humana nesta terra.

O ser que é amado também deve ser descrito. As pessoas mais inesperadas podem servir de estímulo para o amor. Um homem pode tornar-se um velho caduco e continuar amando somente uma estranha garota que certa tarde viu nas ruas de Cheehaw, duas décadas antes. Um pastor pode amar uma mulher perdida. O ser amado pode ser trapaceiro, estúpido e cheio de maus hábitos. Sim, e o amante verá seus defeitos tão claramente quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não afeta a evolução do seu amor. A mais medíocre das pessoas pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios envenenados do pântano. Um homem bom pode ser o estímulo para um amor violento e degradado, ou um louco furioso pode fazer nascer na alma de alguém um carinho terno e simples. Portanto, o valor e a qualidade de qualquer amor só podem ser determinados pelo próprio amante.

Por essa razão, a maioria de nós prefere amar a ser amada. Quase todas as pessoas querem ser amantes. E a dura verdade é que, secretamente, a condição de ser amado é insuportável para muitos. O amado teme e odeia o amante, e com toda a razão. O amante necessita desesperadamente da relação com o amado, mesmo que essa experiência não lhe cause senão sofrimento.

— Carson McCullers.

Agora

Eu não sei se eu vou voltar a ter uma Rede Social Para Mim, como o Twitter foi há mais de uma década. Não parece ser algo que faz sentido na minha vida nesse momento… ter uma presença web daquela forma e tal. Mas eu tô curtindo demais brincar no Tumblr ultimamente. Eu não conheço quase ninguém aqui, e isso é um pouco libertador, eu acho. Eu converso com pessoas que eu não conheço, eu leio textos e vejo fotos de coisas que eu não sei o que são, e assim vou explorando um mundinho novo. E as vezes eu mesmo coloco aqui meus interesses estranhos. Sem muito contexto, sem muita ordem, é mais algo no “fluxo do pensamento”, como o Twitter parecia ser no início. Tá sendo divertido.

Agora

Eu tava procurando um livro aqui na minha estante. Acabei encontrando um desenho que uma amiga minha, que eu não vejo há mais de uma década, fez pra mim.

Atrás do desenho tinha uma dedicatória, “Da Bibi pro Atum”. Ela foi a única pessoa a me apelidar de “atum”. Eu esqueci completamente que, um dia, alguém já me chamou assim.

Foi estranho de lembrar da Bibi e do apelido e daquele tempo que essa amizade durou. A gente perdeu o contato. As redes sociais e os mensageiros instantâneos que a gente usava pra se comunicar deixaram de existir nesse meio tempo. O desenho ficou.

Caetano

Eu quero ser pro meu sobrinho o que minhas tias foram pra mim: pessoas que conquistaram o impossível. Que me mostraram que o mundo era gigante e belíssimo e cheio de possibilidades, e que mesmo que estivessem lá explorando esse mundo, elas também estavam sempre por aqui, do meu lado.

Caetano, meu sobrinho, nasceu hoje.

Vó Geni

Eu tava pensando na minha avó hoje, em como as pessoas desaparecem. Ela morreu há mais de uma década, e a voz dela não passa de um eco bem distante na minha cabeça.

Eu ainda lembro coisas que ela me falava, e eu lembro do tom de voz que ela tinha. Era uma voz profunda e pesada, boa pra ouvir quando ela me acordava ou me fazia dormir.

Mas eu não lembro da voz dela em si? Eu lembro de traços dessa voz, e não tem nada no mundo que traga esse som de volta. eu não tenho vídeos dela pra ouvir, essa voz não existe mais…

Várias coisas me lembram a voz dela. As músicas da Nina Simone me lembram do tom de voz dela, o livro que eu tô lendo agora me lembra o jeito que ela falava. Mas são só esses traços dela. Nem mesmo um fantasma, uma sombra de verdade. É mais uma fumaça de memória.

Eu nunca senti falta dela até muito recentemente. Em pensar que ela simplesmente não me conheceu, pelo menos não como eu sou hoje, me parte o coração. Eu queria que ela tivesse me visto crescer, tivesse visto que eu ia dar um jeito. Eu acho que ela ia ter gostado.

Berger gardait un troupeau

Jean-François Millet (meados de 1860, óleo sobre tela)

Brooklyn Museum:

The monumental, solitary figure of a cloaked shepherd, sunlight framing his head like a halo, stands watch over his flock of sheep in the French countryside. Jean-Francois Millet’s dignified yet unglorified depictions of the rural laborers near his home were popular in France and the United States, where urban audiences perceived them as peaceful, spiritual, and nostalgic. 

Other viewers saw in their realism unadorned visions of contemporary poverty. A few years after the Civil War, one American writer described Millet’s paintings as portraying “the patient, hopeless weariness of the overtasked workman… .we saw the unpaid slave of our country, the pauper workman of France and England.”

Betty Blue na CCMQ

Em setembro de 2019 eu estava esperando uma sessão na cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana. Lá tem uma discoteca — literalmente uma biblioteca de discos — que tava tocando a trilha-sonora de Betty Blue, um dos meus filmes favoritos.

Foi uma memória bacana que eu tive hoje, um momento inusitado. A Vivi tinha morrido há menos de um mês, e essa foi a primeira vez em que algo inusitado aconteceu.