Posts sobre morte

Balu

O Balu no gramado do quintal dos meus pais em 2010. 2010.

Uma parte de mim tava genuinamente curioso pra saber como a notícia ia chegar. Eu estaria lá pra presenciar — como estive com a Delinha, a Duquesa, e a Vivi —, ou eu saberia por telefone, como foi com o Ió? Quem me daria a notícia, meus pais ou o veterinário? Seria num dia de sol, ou num dia de chuva? Seria triste e violento, ou silencioso e em paz?

No fim, foi por telefone. Eu recebi a notícia duas vezes. Na primeira, foi minha irmã, me avisando que uma notícia triste estava para chegar. Um tempo depois, meu pai me ligou. Lá no fundo, eu já sabia. Mas a delicadeza do meu pai com a notícia me fez chorar. O Balu morreu hoje de manhã, deitadinho na caminha dele, depois de meu pai colocar ele ali para buscar uma encomenda — os soros que eu havia comprado pra ajudar na alimentação, que estava cada vez mais difícil. Quando meu pai voltou, o Balu estava na mesma posição, sem ter se aninhado como ele costumava se aninhar, com as patas embaixo do corpo. Ele tinha quase vinte anos.

Eu me perguntava como a notícia ia vir porque, nos últimos anos, o Balu nos deu vários sustos. Em 2019, ele perdeu todos os dentes. Alguns anos depois, ele iria desenvolver uma alergia à proteína e perderia todo o pelo do corpo, e sua pele ia ficar quase em carne viva. Ano passado, ele desenvolveria uma síndrome vestibular. Eu me preparava emocionalmente para me despedir do Balu em todas essas situações. Mas, algumas semanas depois de cada um desses problemas aparecerem, ele reagia. Se acostumou a comer papinhas, e depois voltou a comer sólidos; a pele melhorou, e seu pelo voltou a crescer, mais bonitinho do que nunca; em questão de dois dias tomando a medicação, ele voltou a ficar em pé e, depois, a caminhar.

Nesse último ano, embora ele tenha perdido a visão, sua rotina era basicamente a mesma — sentia muito sono, dormia bastante, comia bastante, pedia pra fazer xixi, e dormia mais um pouco. Ela só acontecia mais devagar, e mais silenciosa. O Balu ficou cego e, com o tempo, foi parando de latir também. Ele só nos reconhecia pelos nossos sons e pelo nosso tato. Até o final, ele se aninhou em mim do mesmo jeito que ele fez desde filhote, embrulhadinho no meu braço, com a cabeça apoiada.

Não sei mais o que escrever sobre o Balu. Eu escrevi e apaguei vários parágrafos já, mas a verdade é que escrever sobre a vida do Balu seria basicamente escrever sobre a minha — sobre o fim da minha infância, toda a minha adolescência, e o início da minha vida adulta. Balu foi uma constante na minha vida por muito tempo, e eu ainda não sei o que sua partida vai tirar de mim, e o que sua ausência vai trazer. Uma parte de mim está curioso pra saber. A maior parte, porém, tá com medo.

Domingo, quando vi Balu pela última vez, eu tive um daqueles momentos de paz que as vezes nos acomete. Eu sentei na mesa e olhei para o cantinho em que ele ficava em casa, perto da porta de entrada. Mesmo cego, ele estava deitado com a cabeça virada para a rua, o sol da tarde no rosto. Ele respirava fraquinho, mas foi um momento em que meu cérebro só quis aproveitar o presente, sem nenhuma outra preocupação ao meu redor. Por aqueles instantes em que eu vi o Balu sendo banhado pelo sol, olhando para algo, talvez para o nada, eu só pensei nele. Na vida imensa que ele teve — os lugares que ele conheceu, as pessoas que cruzaram por ele, tudo o que mudou ao redor dele —, mas também naquele momentinho em que ele aproveitava o sol, encolhido na sua almofada. Tudo o que eu mais amei nele continuava ali: a personalidade forte que o fez viver a vida do jeito que ele queria, não importa o que nós tentássemos fazer; a força de ter vivido quase duas décadas com os mais diversos obstáculos; e a doçura com que ele se aninhava no meu braço, ou que se aprumava no sol.

Balu domou o próprio tempo. Até o final, esse cachorrinho nunca deixou de me impressionar.

O Balu na minha casa em 2024. 2024.

Ann Druyan comenta sobre seu tempo com Carl Sagan

Ann Druyan na Skeptical Inquirer em 2003 (via oncewild no Tumblr):

“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me – it still sometimes happens – and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous – not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance… That pure chance could be so generous and so kind… That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time… That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful… The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived.

That is so much more important than the idea I will see him someday.

I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

Vivi: cinco anos com, seis anos sem

Vivi sentada na grama, com sua cadeirinha de rodas ao lado.

Hoje completam seis anos da morte da Vivi. A partir de hoje, o tempo que eu sinto saudades da Vivi é maior do que o tempo que eu tive perto dela. Foi a primeira coisa que eu pensei quando acordei.

A chegada da Vivi na nossa casa começou com tristeza. Por semanas, ela viveu na frente do nosso pátio, embaixo de um caminhão estacionado na frente da casa de um vizinho. Eu lembro de ter ido lá mais de uma vez dar comida pra ela. Um dia, nós demos comida para ela dentro do nosso pátio, e fechamos o portão. Naquela noite, Vivi conseguiu furar a cerca e fugir pro pátio do vizinho, onde os cachorros dele a atacaram, quebrando sua coluna. Eu lembro de ouvir um barulho de briga durante a noite, mas não juntei os pontos. Tem sempre alguma intriga canina na vizinhança.

Vivi ficou em um dos quartos da casa, onde bate sol e é bem iluminado, e minha mãe a ajudou a se apoiar nas patas dianteiras nos dias seguintes. Ela reaprenderia a caminhar em algumas semanas, e um vizinho nosso iria lá em casa com uma cadeirinha de rodas feita de canos de PVC. Foi durante esses dias, com a Vivi ainda no quarto, que ela ganhou o nome. Minha mãe pensou em Vitória. Virou Vivi.

Eu lembro muito da Vivi desde que ela morreu. Eu já falei sobre esse dia aqui. Dói demais pensar nele, e no meu envolvimento naquele dia. Nada me tira da cabeça que a roupa que eu coloquei nela naquela noite, alguns dias depois de ela ter feito uma cirurgia, estava apertada demais. Pra mim, desde então, eu matei a Vivi.

Mas Vivi viveu uma vida inteirinha. Quando ela aprontava, virava Viviane. Ela fazia uma expressão afrontosa quando a gente xingava ela. Eu acompanhava ela no banheiro antes de dormir (desde o acidente, como eu chamei aquela noite, ela não conseguia mais se segurar). Durante aqueles anos, eu dormi com o colchão no chão. Eu podia colocar a mão dentro do berço dela até ouvir ela roncar (e, leitores, ela roncava). Por muitos anos depois dela, meu colchão continuou no chão.

Eu gosto de lembrar do meu último ano da faculdade quando eu lembro da Vivi. Eu tinha aulas presenciais só uma vez por semana, e nos outros dias eu trabalhava e escrevia o trabalho de conclusão, o que eu tentava deixar para a manhã. Durante as tardes, eu e minha mãe sentávamos na sala com a Vivi e assistíamos séries e filmes. Foi quando a gente maratonou The Wire e Hannibal, acompanhamos a última temporada de The Leftovers ou passamos uma tarde inteirinha assistindo The Keepers. Um de nós sempre sentava no chão, o braço dentro do bercinho da Vivi enquanto ela tirava a soneca da tarde.

Nos dois anos seguintes, quando eu voltei a trabalhar como desenvolvedor, eu usei o quarto vago em que Vivi ficou até se recuperar como um escritório. Durante horas, Vivi ficava lá, deitada no sofá por um tempo, depois apoiada no meu pé. As vezes ela enchia o saco de me esperar e ia para a rua sozinha, na cadeirinha dela, para brigar com os cachorros do vizinho. Ela nunca perdeu a coragem.

Nos últimos meses, quando sua saúde foi piorando, eu gostava de passar os fins de tarde com ela explorando o pátio. Eu saía pouco do quarto naquela época, mas era ela quem me levava. Todos os dias. Eu amei ela tanto.

Eu sonhei com a Vivi há uns dias. Eu sonhei que eu chegava na casa dos meus pais em um dia de sol. Acho que era na época que eu ainda trabalhava no escritório, porque eu chegava de carro com meu pai. Minha mãe me deu oi e só me disse “ela tá lá embaixo”. Eu sabia instintivamente quem era. Eu desci as escadas e, embaixo da laranjeira, estava a Vivi, a cadeirinha de um lado, Mel de outro. Eu sentei perto dela na grama e lembrei que ela tinha morrido, e percebi que aquilo era um sonho. Eu acordei e, pela primeira vez em muitos, muitos anos, eu lembrei de como foi viver com a Vivi, ao invés de lembrar de como ela morreu.

Tainara

Essa foto foi tirada depois, na sessão de “O Mágico de Oz” na Cinemateca Capitólio, que foi feita em homenagem à Tai.

Quando a Tai me disse quais filmes ia ver numa mostra da Varda, eu fiquei tão feliz que um deles seria Ulysse. Eu fiquei tão feliz de ver que ela gostou desse filme que eu amo tanto. Só consigo imaginar nosso próximo encontro, muito provavelmente na porta do Capitólio ou na entrada da Paulo Amorim, onde eu ia gritar “ULYSSE?” e ela ia abrir aquele sorrisão, feliz de compartilhar uma boa conversa sobre um filme que gostou comigo.

Já faz um tempo que eu aprendi a respeitar o luto. Não entender, nem aprender algo com ele. Mas quando ele chega, eu preciso respeitar minha insignificância perante ao luto. Ele é um soco de incerteza e de perda. Um vazio, um buraco. Meu luto é medo. Foi medo que eu senti quando eu recebi a notícia da morte da Tai, e foi medo o que eu senti depois.

A relação entre eu e a Tai existia somente entre nós. Embora a gente tenha se conhecido na faculdade, só nos aproximamos depois que nos formamos — ela um ano antes de mim. Desde então, nossa amizade não existia ao redor de trabalho ou de convívio. Existia entre ela e eu. Quando eu recebi a notícia, muitos medos vieram na cabeça — medo de ela ter se sentido sozinha, ou com dor, ou desesperada. Medo de não ter ninguém ao lado dela pra acompanhar ela nesse momento, o mais importante de cada vida. Medo, também, de que agora tudo o que resta da linda amizade que nós tínhamos — dos filmes que gostávamos juntos, dos que a gente desgostava junto também; das teorias sobre Zelda; e do segredo da caponata que ela fez um dia e a gente comeu com sanduíche — era eu. É muita responsabilidade manter uma amizade sozinho. É muito difícil, precisa de dois. É o medo de deixar essa amizade se perder agora que só tem você pra lembrar e sentir tudo isso.

A Tai gostava muito de Fleabag e um dos momentos mais bonitos daquela série era quando a protagonista pergunta pra amiga dela onde botar todo o amor que sente pela mãe, que morreu. A amiga responde que aceitaria ficar com esse amor. Acho que a Tai seguia isso a risca — ela enchia todo mundo que conhecia de carinho, de abraço, de companhia. Agora todo esse amor tá com a gente. Dessa responsabilidade eu tenho medo, mas também tenho um pouco de orgulho. Foi o que ela deixou comigo, e que bom legado é esse.

Últimas memórias

Um pensamento estranho passou pela minha cabeça agora.

As vezes, uns flashes da noite em que a Vivi morreu aparecem, e eu lembro de alguns detalhes. Eu já lembrei dessa noite toda várias vezes, e não tem nada em especial sobre isso. Não precisa de algum evento ter acontecido pra que eu volte a lembrar dessa noite nem nada disso. Ela só vem, como se sempre estivesse ali no fundinho da mente. Eu acho que está.

Enfim, eu pensei que a última memória que eu tenho com a Vivi é uma memória em que ela já não estava mais viva. Vivi morreu no colo do meu pai. Ele saiu na rua, com ela nos braços, quando a gente percebeu o que estava acontecendo. Ele fechou a porta e ficou lá, nanando ela. Eu esperei um pouco pra ir atrás dele. Eu sabia o que eu ia ver quando eu fosse. Eu ainda não tinha começado a chorar.

Quando eu e o pai voltamos da rua, o pai colocou a Vivi de volta no “bercinho” em que ela dormia ao lado da minha cama. Eu trouxe ela pra casa e esperamos. Estava dando um jogo do Grêmio na TV, mas eu acho que o pai pediu pra esperar porque não era para enterrarmos ela ainda. Ela ficou no berço dela enquanto o pai se acalmava. Minha mãe voltou da garagem, onde ela tinha ido, para guardar os pertences da Vivi (ela não queria que eu dormisse ao redor das coisas dela, eu acho).

Minha última memória da Vivi aconteceu ali no chão da sala, onde nós sentamos muitas vezes juntos. Ela me acompanhava enquanto eu via filmes e séries noite adentro. Eu gostava de sentar no chão pra ficar no lado dela, com a mão repousada nas costas dela, fazendo carinho. Minha última memória com a Vivi foi fazendo exatamente isso, mas eu lembro de ter pensado em fazer isso até o fim, porque eu nunca mais ia sentir os pelos dela entre meus dedos. Eu pensei, literalmente, em tentar marcar essa sensação na minha cabeça. Pra lembrar como era fazer carinho na Vivi.

Minha mãe sentou perto da gente por um tempo e tentava fechar os olhos da Vivi, pedindo pra ela descansar. A Vivi não morreu com os olhos esbugalhados nem assustados, mas eles continuaram abertos quando a gente enrolou seu corpo no cobertorzinho em que ela dormia e enterrou ela no lado da casa, num trechinho de grama que dá pra ver da cozinha. Foi uma escolha prática do meu pai (a terra ali estava úmida naquele dia), mas eu agradeço ele até hoje por isso. Quando eu estou lavando uma louça na casa dos meus pais, ou tomando uma água, é impossível não olhar pela janela. E daí eu vejo onde seu corpo ficou.

Eu não chorei naquela noite. Eu não senti nada naquela noite, nem na manhã seguinte. Minha mãe veio me ver quando eu fui me deitar. Eu acho que ela esperasse que eu estivesse chorando. Mas eu nem pensava em nada. Eu lembro de ter contado pra Luiza, que naquela época ainda era minha colega de trabalho, no Slack na manhã seguinte. A saudade ainda não tinha batido ali. As coisas estavam sendo práticas. Ela me pediu pra eu tentar tirar o dia de folga, mas eu não fiz. O trabalho aquele dia foi normal.

Eu não lembro quando eu chorei pela morte da Vivi pela primeira vez. Eu sei que eu chorei muitas vezes nos meses e anos seguintes, quando esse tipo de lembrança me vem em mente. Eu fico furioso comigo mesmo de que é esse momento que eu lembro dela, de toda uma vida que compartilhamos juntos. São essas, as últimas memórias que eu tenho, que me fazem lembrar dela. Eu não sei como me “educar” a lembrar de quando eu vi ela correr com o carrinho pela primeira vez, ou quando ela me xingava porque queria comida, ou se apoiava nos meus pés enquanto eu trabalhava. Eu sei que eu tenho essas memórias dentro de mim também, mas não são elas que aparecem quando eu preciso delas. Por algum motivo, eu sempre preciso lembrar da Vivi, mas eu queria que fossem memórias melhores.

Ió

O Ió em 2010.

O Ió faleceu nesse sábado, dia 11. Meus pais chegaram em casa no fim da tarde e perceberam que ele não foi encontrá-los, como de costume. Encontraram o corpo do Ió deitado sob a sombra da sibipiruna que fica do lado de casa. Eu não recebi a ligação da minha mãe na hora porque desliguei o celular numa sessão de cinema. Quando vi a mensagem, caí no choro.

Todos os cachorros (e gatos, e galinhas, e coelhos) que já passaram pela casa dos meus pais são únicos. Nenhum deles tem a mesma personalidade. Eles criam em mim memórias específicas, afetos diferentes. Do Ió eu provavelmente vou lembrar do carinho infinito que ele sempre teve.

Não por mim em especial, o Ió tinha um carinho gigantesco pela minha mãe. Onde ela ia, ele ia. Minha mãe passa o dia andando pela casa e pelo pátio ao redor dela, e você podia apostar que, se o Ió já não estivesse do lado dela, é porque ele estava indo encontrar ela. Com o passar dos anos, e com a piora do seu problema cardíaco, ele foi ficando mais devagar. Mas, tiro e queda. Se minha mãe estava na garagem, o Ió estava fazendo a volta pela casa pra encontrá-la (ele não conseguia mais subir a escada nesse último ano).

Embora tivesse dezesseis anos, o Ió sempre foi um filhote pra mim. Ele sempre foi muito doce, muito sensível. O Ió sempre teve olhos tristes, mas ele nunca desviava o olhar. Ele ficava nervoso fácil, mas ele também tinha uma felicidade imensa. Ele ganhou esse nome porque o rabo dele era tão pequeno que não dava pra ver — então o Ió não balançava o rabo quando estava feliz, ele rebolava.

O que me deixa triste na partida do Ió foi a circustância. Ele não teve um ano fácil, é verdade, mas ele parecia estar melhor. Meus pais tiveram semanas que não conseguiam dormir direito, porque o Ió ou tinha um ataque de tosse ou chorava. Eu decidi ir visitá-los pra fazer um revezamento no turno da noite com eles. Eu levava o Ió para o meu quarto e ele dormia comigo e com o Tobias, e quando ele acordava assustado e chorava, eu acalmava ele até ele dormir de novo. Umas boas noites de sono pareciam ter resolvido os problemas deles. No mês seguinte a tosse diminuiu e ele tava comendo melhor. Meus pais finalmente deixaram os cachorros em casa no sábado para visitar meus tios, e então voltaram e encontraram o corpinho do Ió deitado na sombra que ele gostava de deitar quando a mãe tomava chimarrão na rua.

Eu quero pensar que o Ió não morreu sozinho. Eu imagino que a Zinha, a companheira dele nesses últimos anos, esteve com ele até o fim. É algo que ela faria. Ele provavelmente não chorou, ou sentiu dor, porque os vizinhos não ouviram. Eu acho que uma amiga da mãe decifrou o momento como ninguém: ele esperou minha mãe sair, para ela não ver; para ela não se preocupar, não sair correndo com ele para o veterinário — que ele sempre odiou ir.

Eu não sei o que aconteceu naquela tarde, não sei o que acometeu naquele corpinho rechonchudo e orelhudo. Eu espero que realmente não tenha doído, eu espero que ele não tenha se sentido sozinho. Mas eu não tenho como garantir. Eu quero pensar que ele se despediu da mãe pela manhã, e foi descansar sob a sombra da árvore que ele acompanhava ela no fim do dia. Até na hora de partir, ele foi carinhoso.

O Ió e a Zinha em 2020.

Lembrando da morte

Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.

Delinha

Delinha pedindo carinho, enquanto eu dou um beijo na cabeça dela.

Delinha morreu hoje de manhã. Eu saí cedo aqui de casa e fui pra casa dos meus pais. Eu já sabia o que nos esperava hoje. Delinha desenvolveu um câncer nos últimos anos, mas foi nesses últimos dois meses que ele se propagou violentamente no corpo dela. Sem comer pelas últimas semanas, e sem conseguir tomar água já há uns dias. Hoje de manhã, eu e meus pais nos despedimos dela.

Eu não acredito que o sofrimento e a morte dos cachorros com quem cresci e cuidei me ensinam algo. Delinha viveu bem por quase todos os seus 18 anos, mas foi difícil ver sua força se esvair desse jeito, rápido e brutal. Delinha sempre foi uma cachorra muito delicada, não em questão de saúde (ela sempre foi muito forte, e a única complicação que ela já teve foi, justamente, o câncer), com seu olhar manso, seu latido baixo e sua passada silenciosa.

Quando minha irmã encontrou a Delinha, enrolada em uma sacola no meio de uma rua perto de casa, ela tinha dias de vida. Nós dávamos leite pra ela por bastante tempo, porque ela nunca mamou na própria mãe. Delinha era uma filhote feia, com o pelo duro e com cor amarelo-queimado. Conforme crescia, Delinha ficava mais e mais bonita. Seu pelo se alongou, e ficou dourado.

O que nunca mudou na Delinha foi seu olhar. Era meigo, com seus olhos com uma cor castanha, e trazia com ela sua calma e seu silêncio. Delinha sempre foi bastante quieta e solitária. Nós sempre tivemos muitos cachorros e a política interna deles muda de tempos em tempos. Delinha sempre foi alheia a isso. A gente sempre achou ela especial, não só porque ela era belíssima, mas porque sua quietude nos trazia paz em uma casa onde a matilha costuma ser bagunceira. Ela gostava de dormir sozinha, embaixo do carro, depois no banheiro do andar de baixo. Lá ela ficava, e nós precisávamos visita-la para fazer carinho e conversar.

Quando Delinha saía dos seus esconderijos e nos agraciava com sua presença, era um momento especial. Ela “sorria” (algo que ela aprendeu a fazer em algum momento), e pedia um carinho. Por um tempo, ela tinha inclusive uma cadeira pra ela, e meus pais tomavam chimarrão ao seu lado. Ela sempre pareceu uma rainha — era um privilégio quando ela decidia nos fazer companhia, não porque era raro, mas porque sua companhia trazia sua calma, sua doçura.

Delinha foi a última integrante da segunda geração de cachorros que chegou em nossa casa. Quando ela chegou, em 2006, eu tinha doze anos, nas férias entre a quinta e a sexta série. Ela fazia parte de uma turma com outros três cachorros: o Pepi, a Cida e o Luva. Ela era a mais nova dos quatro, e foi a que viveu a vida mais longa.

Foi uma dádiva crescer com esse grupo. Eles foram bons companheiros para a minha infância, brincalhões e sábios como só os cachorros podem ser para uma criança. Mas foi a Delinha, dos quatro, que me viu crescer. Ela me acompanhou no ensino médio e na faculdade, me recebia quando eu chegava em casa depois do trabalho e, quando saí de casa, foi sempre meu primeiro abraço ao visitar meus pais. Mesmo quando ficava mais de mês sem visitá-los, ela sempre me olhava com aquele mesmo olhar calmo, doce. “Ah, como é bom ver você” ela parecia dizer, entre cochilos.

Ela não perdeu seu olhar. Quando me despedi dela, na maca do veterinário enquanto ela era anestesiada, ela ainda me olhou daquela forma. Por um momento, seu olhar teve medo. Eu finalmente pude retribuir pra ela a calma e a sabedoria que ela sempre me proporcionou nessas quase duas décadas juntos. Eu segurei sua patinha, fiz um cafuné e esperei ela adormecer. “Ela descansou”, eu fiquei pensando, mas uma parte egoísta de mim pensou “esse foi o último olhar dela pra mim“.

Egoísta, mas sincero. Vou sentir falta dessa companhia, desse olhar. É o tamanho da falta que essa doçura, esse carinho, vão deixar em mim. Foram 18 anos maravilhosos ao lado dela. Um privilégio que foi, crescer ao lado de uma verdadeira rainha.