Posts sobre amor

Como curar um coração partido

A newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.

Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:

Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.

[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.

Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?

Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.

Ann Druyan comenta sobre seu tempo com Carl Sagan

Ann Druyan na Skeptical Inquirer em 2003 (via oncewild no Tumblr):

“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me – it still sometimes happens – and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous – not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance… That pure chance could be so generous and so kind… That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time… That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful… The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived.

That is so much more important than the idea I will see him someday.

I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

Amor

Perdido no meio de A Balada do Café Triste tem uma dissertação sobre o amor:

Antes de mais nada, o amor é uma experiência conjunta entre duas pessoas, mas o fato de ser uma experiência conjunta não significa que seja uma experiência semelhante para as duas pessoas envolvidas. Há o amante e o amado, e cada um vem de mundos diferentes. Muitas vezes, o amado é apenas um estímulo para todo amor que, até então, permaneceu guardado no amante. E, de alguma forma, todo amante sabe disso. Ele sente em sua alma que o amor é uma coisa solitária. Ele aprende a conhecer uma nova e estranha solidão, e é este conhecimento que o faz sofrer. Portanto, há somente uma coisa que o amante pode fazer. Ele deve abrigar o seu amor dentro de si, da melhor maneira que conseguir; deve criar para si mesmo um mundo interior totalmente novo, um mundo intenso e estranho, completo em si mesmo. É preciso acrescentar que este amante do qual falamos não precisa necessariamente ser um jovem que economiza para comprar um anel de noivado; este amante pode ser homem, mulher, criança, ou qualquer criatura humana nesta terra.

O ser que é amado também deve ser descrito. As pessoas mais inesperadas podem servir de estímulo para o amor. Um homem pode tornar-se um velho caduco e continuar amando somente uma estranha garota que certa tarde viu nas ruas de Cheehaw, duas décadas antes. Um pastor pode amar uma mulher perdida. O ser amado pode ser trapaceiro, estúpido e cheio de maus hábitos. Sim, e o amante verá seus defeitos tão claramente quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não afeta a evolução do seu amor. A mais medíocre das pessoas pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios envenenados do pântano. Um homem bom pode ser o estímulo para um amor violento e degradado, ou um louco furioso pode fazer nascer na alma de alguém um carinho terno e simples. Portanto, o valor e a qualidade de qualquer amor só podem ser determinados pelo próprio amante.

Por essa razão, a maioria de nós prefere amar a ser amada. Quase todas as pessoas querem ser amantes. E a dura verdade é que, secretamente, a condição de ser amado é insuportável para muitos. O amado teme e odeia o amante, e com toda a razão. O amante necessita desesperadamente da relação com o amado, mesmo que essa experiência não lhe cause senão sofrimento.

— Carson McCullers.