Posts sobre sentimentos

Mundano

Eu não conheço Mandy Brown nem Nevan Scott, mas achei linda a observação de Brown para a natureza da relação que tinha com Scott, que faleceu recentemente. Em seu in memoriam, ela fez essa linda observação sobre o mundano:

It sounds incredibly mundane to talk about it now, a friendship measured in video calls and commit messages, but then the word mundane comes from the Latin mundi, or world. To be mundane is to belong to the world, to be in the world, of it and within it. Not outside of it—not lost, the way so much technology tries to make us lose ourselves—but in the world as only the truly living can be. As we can only be with each other.

[…]

Near the end of The Blue Place, as Julia is dying, she tells Aud to “stay in the world.” Aud promises to do so, but the truth is she does not know how. It is so very hard to stay in the world, to hold on to the mundane and ordinary, those fragile human connections, amidst all the forces arrayed against us. I think it is only in the effort to learn that we come close to that knowledge; and perhaps only in the effort to teach that the learning really takes hold.

Estar presente, se sentir parte do mundo, é algo que eu consigo fazer cada vez mais raramente, mas sempre que eu consigo eu sinto ser um ato quase revolucionário de persistir. Que as lembranças dessa amizade sejam uma benção.

Homenagem à árvore querida

A Luciana escreveu no seu blog um obituário pra uma árvore, companheira do seu dia-a-dia.

Me lembrou do belíssimo relato da morte da sumaúma que comoveu a cidade de Belém, e das pessoas que mandam emails para árvores.

Eu acho esse tipo de relato profundamente triste, sempre. Eu vejo as árvores ao redor da minha rotina como verdadeiras instituições, e é sempre estranho perceber que, seja por consequência de um vendaval, ou porque o prefeito odeia sombra, uma delas não está mais lá. Crescer no meio do mato me fez reagir a esse tipo de mudança de um jeito estranho.

Encontre sentido

“Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but “steal” some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.”

— Albert Camus em seus cadernos, 1951-1959.

Como curar um coração partido

A newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.

Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:

Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.

[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.

Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?

Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.

Tainara

Essa foto foi tirada depois, na sessão de “O Mágico de Oz” na Cinemateca Capitólio, que foi feita em homenagem à Tai.

Quando a Tai me disse quais filmes ia ver numa mostra da Varda, eu fiquei tão feliz que um deles seria Ulysse. Eu fiquei tão feliz de ver que ela gostou desse filme que eu amo tanto. Só consigo imaginar nosso próximo encontro, muito provavelmente na porta do Capitólio ou na entrada da Paulo Amorim, onde eu ia gritar “ULYSSE?” e ela ia abrir aquele sorrisão, feliz de compartilhar uma boa conversa sobre um filme que gostou comigo.

Já faz um tempo que eu aprendi a respeitar o luto. Não entender, nem aprender algo com ele. Mas quando ele chega, eu preciso respeitar minha insignificância perante ao luto. Ele é um soco de incerteza e de perda. Um vazio, um buraco. Meu luto é medo. Foi medo que eu senti quando eu recebi a notícia da morte da Tai, e foi medo o que eu senti depois.

A relação entre eu e a Tai existia somente entre nós. Embora a gente tenha se conhecido na faculdade, só nos aproximamos depois que nos formamos — ela um ano antes de mim. Desde então, nossa amizade não existia ao redor de trabalho ou de convívio. Existia entre ela e eu. Quando eu recebi a notícia, muitos medos vieram na cabeça — medo de ela ter se sentido sozinha, ou com dor, ou desesperada. Medo de não ter ninguém ao lado dela pra acompanhar ela nesse momento, o mais importante de cada vida. Medo, também, de que agora tudo o que resta da linda amizade que nós tínhamos — dos filmes que gostávamos juntos, dos que a gente desgostava junto também; das teorias sobre Zelda; e do segredo da caponata que ela fez um dia e a gente comeu com sanduíche — era eu. É muita responsabilidade manter uma amizade sozinho. É muito difícil, precisa de dois. É o medo de deixar essa amizade se perder agora que só tem você pra lembrar e sentir tudo isso.

A Tai gostava muito de Fleabag e um dos momentos mais bonitos daquela série era quando a protagonista pergunta pra amiga dela onde botar todo o amor que sente pela mãe, que morreu. A amiga responde que aceitaria ficar com esse amor. Acho que a Tai seguia isso a risca — ela enchia todo mundo que conhecia de carinho, de abraço, de companhia. Agora todo esse amor tá com a gente. Dessa responsabilidade eu tenho medo, mas também tenho um pouco de orgulho. Foi o que ela deixou comigo, e que bom legado é esse.

Últimas memórias

Um pensamento estranho passou pela minha cabeça agora.

As vezes, uns flashes da noite em que a Vivi morreu aparecem, e eu lembro de alguns detalhes. Eu já lembrei dessa noite toda várias vezes, e não tem nada em especial sobre isso. Não precisa de algum evento ter acontecido pra que eu volte a lembrar dessa noite nem nada disso. Ela só vem, como se sempre estivesse ali no fundinho da mente. Eu acho que está.

Enfim, eu pensei que a última memória que eu tenho com a Vivi é uma memória em que ela já não estava mais viva. Vivi morreu no colo do meu pai. Ele saiu na rua, com ela nos braços, quando a gente percebeu o que estava acontecendo. Ele fechou a porta e ficou lá, nanando ela. Eu esperei um pouco pra ir atrás dele. Eu sabia o que eu ia ver quando eu fosse. Eu ainda não tinha começado a chorar.

Quando eu e o pai voltamos da rua, o pai colocou a Vivi de volta no “bercinho” em que ela dormia ao lado da minha cama. Eu trouxe ela pra casa e esperamos. Estava dando um jogo do Grêmio na TV, mas eu acho que o pai pediu pra esperar porque não era para enterrarmos ela ainda. Ela ficou no berço dela enquanto o pai se acalmava. Minha mãe voltou da garagem, onde ela tinha ido, para guardar os pertences da Vivi (ela não queria que eu dormisse ao redor das coisas dela, eu acho).

Minha última memória da Vivi aconteceu ali no chão da sala, onde nós sentamos muitas vezes juntos. Ela me acompanhava enquanto eu via filmes e séries noite adentro. Eu gostava de sentar no chão pra ficar no lado dela, com a mão repousada nas costas dela, fazendo carinho. Minha última memória com a Vivi foi fazendo exatamente isso, mas eu lembro de ter pensado em fazer isso até o fim, porque eu nunca mais ia sentir os pelos dela entre meus dedos. Eu pensei, literalmente, em tentar marcar essa sensação na minha cabeça. Pra lembrar como era fazer carinho na Vivi.

Minha mãe sentou perto da gente por um tempo e tentava fechar os olhos da Vivi, pedindo pra ela descansar. A Vivi não morreu com os olhos esbugalhados nem assustados, mas eles continuaram abertos quando a gente enrolou seu corpo no cobertorzinho em que ela dormia e enterrou ela no lado da casa, num trechinho de grama que dá pra ver da cozinha. Foi uma escolha prática do meu pai (a terra ali estava úmida naquele dia), mas eu agradeço ele até hoje por isso. Quando eu estou lavando uma louça na casa dos meus pais, ou tomando uma água, é impossível não olhar pela janela. E daí eu vejo onde seu corpo ficou.

Eu não chorei naquela noite. Eu não senti nada naquela noite, nem na manhã seguinte. Minha mãe veio me ver quando eu fui me deitar. Eu acho que ela esperasse que eu estivesse chorando. Mas eu nem pensava em nada. Eu lembro de ter contado pra Luiza, que naquela época ainda era minha colega de trabalho, no Slack na manhã seguinte. A saudade ainda não tinha batido ali. As coisas estavam sendo práticas. Ela me pediu pra eu tentar tirar o dia de folga, mas eu não fiz. O trabalho aquele dia foi normal.

Eu não lembro quando eu chorei pela morte da Vivi pela primeira vez. Eu sei que eu chorei muitas vezes nos meses e anos seguintes, quando esse tipo de lembrança me vem em mente. Eu fico furioso comigo mesmo de que é esse momento que eu lembro dela, de toda uma vida que compartilhamos juntos. São essas, as últimas memórias que eu tenho, que me fazem lembrar dela. Eu não sei como me “educar” a lembrar de quando eu vi ela correr com o carrinho pela primeira vez, ou quando ela me xingava porque queria comida, ou se apoiava nos meus pés enquanto eu trabalhava. Eu sei que eu tenho essas memórias dentro de mim também, mas não são elas que aparecem quando eu preciso delas. Por algum motivo, eu sempre preciso lembrar da Vivi, mas eu queria que fossem memórias melhores.

The Leftovers é uma das melhores séries de TV já feitas

Emily St. James, para a Vox:

[…] But the feeling [of needing a life change] The Leftovers had evoked in me persisted. I was satisfied, full up on the show’s particular blend of sorrow and joy. I was convinced that if I never see another TV show I felt as passionately about, well, that would be okay, because I’d had The Leftovers.

Pop culture functions as a kind of subconscious for what humans care about. That’s why I find it so fascinating to watch it fluctuate and change, to observe how it both is molded by our shifting social codes and actively molds them.

[…] everybody’s subconscious is a little bit different, and a meaning I ascribe to something may not be a meaning you would ascribe to it at all […] So I always think of that meaning as a little door in the back of the work. You watch the TV show or the movie, or listen to the album, or whatever, and you can talk about the work itself — the plot elements and images and directorial choices that go into making it.

But always, in the back, there’s a door to everything else, all of the cultural forces and psychological implications and deeper meanings you can find if you go digging. Open the door a little bit, and you might take a peek at those things. Throw it open wide, and you reveal just as much about yourself and what you value as you do the work itself.

What made The Leftovers special — and what most of my favorite TV shows have in common, come to think of it — is that it forced you to open that door and leave it that way permanently.

[…]

The Leftovers, then, is the first TV show I can think of that actively engages with a world where the uncertainty that is core to simply being alive has caused a lot of us to carve out our own completely separate experiences of reality […]

[…] much of existence is basically random, meaningless, and out of our control. What do you do when you’re confronted with that fact?

Well, you start trying to rationalize. You try to put a narrative on what happened. You find an explanation, whether scientific or religious or something else altogether, and you try to fill in the gap between your need for control and your complete and utter powerlessness

[…]

Everybody alive can relate to the feeling of wanting to be in charge of our lives, only to realize that the systems that surround us are waiting to idly flick a fingernail and send us ricocheting through the rapids of chance.

And yet as the show progressed deeper into its run, it became, for me, maybe the most optimistic show on television, because it stared into uncertainty, into darkness, and insisted that we would figure out how to make our own light if we found ourselves stranded.

The series doesn’t focus on bringing its plot to a conclusion; instead, it concentrates on guiding its characters toward wholeness, if not happiness. They might remain deeply sad, or frustrated, or angry, but they are allowed a moment of kindness or gratitude, a moment that pushes them to extend the same to others. If life is meaningless, if nothing has a purpose, then all we have is what we can give to each other. I can’t think of many messages more optimistic, or necessary, than that.

We have made it to the future, and it’s trying to kill us. But it’s also always the future, and life is always trying to kill us. The world is always ending, but it’s also always beginning.

Struggling against the meaningless nature of life is important, but so is remembering that meaning is what we make of it and that we can create meaning for each other. The Leftovers worked so well because it focused not on the flood, but on the Ark, on the people left aboard, watching the skies for a sign of something new. There’s all this water, all around us — but look at us, lucky us, we have a boat.

A internet como uma vizinhança

Algumas citações de leituras que fiz relacionado a amizade, sentido, e a internet como uma vizinhança:

Devin Kelly, Longreads:

What happens if what you once used to make sense of things no longer helps you make sense of things? What happens if the patterns and habits and metaphors we lean on do not serve us in the moments we need them? What happens if the stories we tell ourselves about our lives leave us lonely, wrestling with meaning? What then?

Craig Mod:

Well, I’ve been thinking about it my whole life. It’s difficult to remember a time where I didn’t feel alone or apart or “on my own.”

Aloneness sucks. It’s insidious and becomes habitual. It’s rapacious. It saps the spirit. It twists a peaceful dude all truculent and paranoid. It renders decision making oddly cumbersome. It’s more difficult to feel elevated as a human when swaddled in aloneness. Self-worth plummets as aloneness rises.

Aloneness is not just individual, of course. Entire communities can and do feel abandoned, alone, cut off from the world.

I was shocked by how easy it was for me to do this, to “do therapy.” Like I had been waiting my entire life for a patient, true listener. And here he was, a floating head on a screen.

I’ve found that the honesty I embody (“perform”) during those therapy sessions has spilled into the day to day. Honesty imbricated, a suit of honest. The proof is in life itself: I’ve had more emotionally resonant experiences of non-aloneness in the last five years than my entire life prior.

That’s the real joy of subverting aloneness — luxuriating in solitude. A wholly different, generative beast, apart from aloneness. Solitude is where you cash in on your non-aloneness savings. Retreating into solitude for the day in your backyard shed with no internet connection and a nice keyboard and laptop is one of the greatest feelings in the world, but only because you know you’re emerging at the end of it into a hug, a goofy animal bounding with nincompoop love, a curious kid, cooking dinner — something, anything, that will passively envelop you in non-aloneness, that will make you feel valuable.

I suspect I’ll be battling aloneness and depression for the rest of my life. But today, at 43, I’ve cobbled together my outré toolkit. And tomorrow today, when TOKIO TŌKYŌ TOKYO³ kicks off (the walking starts tomorrow, but the meditations on the walk begin tonight) I’ll be activating one of my most potent tools: days of walking strung together, using the body up, looking closely at the world, photographing, taking notes, greeting people with alacrity like some village idiot, thinking about what was, what is, and what could be in this strange, fleeting, often painful — but just as often breathtaking — world of ours.

Spencer Chang, spencer’s paradoxes:

I like newsletters that feel more like dispatches than editorialized posts.

The world manages to find a way to strike you with the most indescribable beauty when you need it most.

How do we make websites feel more like embodied objects? What does a website that can become well-worn or passed down feel like? How does a website become a living gathering space, one that evolves with the activity of its participants?

Spencer Chang e Kristoffer Tjalve, Syllabus:

we think, that our “internet” comprises the same 10 apps, some flooded with ads and spyware, others with people yelling about everything and nothing. We accept that the only way to get anything useful out of the internet is by trading our privacy for accounts and our self-expression for conformity. Everything is always somehow broken and when social spaces die, we believe that it is how it has always been and that nothing will ever be different.

The Internet is so much vaster than a single worldview. It is a sprawling galaxy of archipelagos, filled with more humanity and personal gestures than any man-made archive.

Amor

Perdido no meio de A Balada do Café Triste tem uma dissertação sobre o amor:

Antes de mais nada, o amor é uma experiência conjunta entre duas pessoas, mas o fato de ser uma experiência conjunta não significa que seja uma experiência semelhante para as duas pessoas envolvidas. Há o amante e o amado, e cada um vem de mundos diferentes. Muitas vezes, o amado é apenas um estímulo para todo amor que, até então, permaneceu guardado no amante. E, de alguma forma, todo amante sabe disso. Ele sente em sua alma que o amor é uma coisa solitária. Ele aprende a conhecer uma nova e estranha solidão, e é este conhecimento que o faz sofrer. Portanto, há somente uma coisa que o amante pode fazer. Ele deve abrigar o seu amor dentro de si, da melhor maneira que conseguir; deve criar para si mesmo um mundo interior totalmente novo, um mundo intenso e estranho, completo em si mesmo. É preciso acrescentar que este amante do qual falamos não precisa necessariamente ser um jovem que economiza para comprar um anel de noivado; este amante pode ser homem, mulher, criança, ou qualquer criatura humana nesta terra.

O ser que é amado também deve ser descrito. As pessoas mais inesperadas podem servir de estímulo para o amor. Um homem pode tornar-se um velho caduco e continuar amando somente uma estranha garota que certa tarde viu nas ruas de Cheehaw, duas décadas antes. Um pastor pode amar uma mulher perdida. O ser amado pode ser trapaceiro, estúpido e cheio de maus hábitos. Sim, e o amante verá seus defeitos tão claramente quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não afeta a evolução do seu amor. A mais medíocre das pessoas pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios envenenados do pântano. Um homem bom pode ser o estímulo para um amor violento e degradado, ou um louco furioso pode fazer nascer na alma de alguém um carinho terno e simples. Portanto, o valor e a qualidade de qualquer amor só podem ser determinados pelo próprio amante.

Por essa razão, a maioria de nós prefere amar a ser amada. Quase todas as pessoas querem ser amantes. E a dura verdade é que, secretamente, a condição de ser amado é insuportável para muitos. O amado teme e odeia o amante, e com toda a razão. O amante necessita desesperadamente da relação com o amado, mesmo que essa experiência não lhe cause senão sofrimento.

— Carson McCullers.

29 de dezembro de 2016 — 30 de outubro de 2022

Meus amigos se despediram de mim na madrugada do dia 29 de dezembro. Eles iam para a casa de uma conhecida nossa. Eu ia ficar mais um tempo na festa em que a gente tinha se encontrado e então eu iria a pé até a rodoviária, para pegar um ônibus até a casa dos meus pais, onde eu ia passar a virada de ano novo. Eu era uma pessoa completamente diferente da que eu sou agora quando eu vi eles entrarem no carro.

Eu não costumo falar sobre essa noite com as pessoas. Mesmo com os meus amigos mais próximos, eu sempre deixei esse assunto quieto. Eles eventualmente me perguntam sobre o que aconteceu, como eu estou me sentindo, e etc. Eu nunca me senti muito seguro pra falar daquela noite até hoje.

Algum tempo depois, conversando com o Erê, eu comentei com ele que o impeachment da Dilma parecia ter dado a partida na minha depressão, que foi e veio desde então. O Erê, bom amigo como sempre foi, não só concordou com a hipótese como contextualizou ela. “Um mal estar se instaurou no ar desde aquele momento”, ele me explicou. É verdade. O mal estar já existia naquela noite, ele estava no ar.

O mal estar ainda existe. Mas ontem a noite, pela primeira vez, parece que uma brisa conseguiu cortá-lo. Há um fio de esperança, de que a maré está mudando talvez o futuro seja um pouco mais seguro, que a felicidade e o amor reapareçam no horizonte. E esse fiozinho de esperança me trouxe a coragem de poder falar sobre como foi viver esses últimos anos morrendo de medo de sentir dor de novo.

Eu fiz aquele percurso a pé da Cidade Baixa até a rodoviária uma penca de vezes antes, então eu achava que eu sabia o que eu estava fazendo. Saindo da João Alfredo, e pegando a República, eu iria até a Lima e Silva. Atravessaria a Perimetral e dali pegaria a André da Rocha, subiria a escadaria que leva para a Duque e seguiria no entorno da Santa Casa. Na Santa Casa, eu esperaria até o dia começar a raiar (eu geralmente fazia esse percurso nas últimas horas da noite), e então eu poderia seguir até a Rodoviária.

Meu maior medo, desde que eu me conheço, é de sentir dor. Dor física. De cortar a ponta do dedo fora quando tá picando a cebola; de escorregar enquanto atravessa a rua e ter as pernas atropeladas. Não a morte em si, mas aquela dor que machuca. Naquela noite, eu senti pela primeira vez, de verdade, essa dor. Ela é cruel, porque não tem como escapar dela; e ela se anuncia: eu vi ela atravessando a rua de noite. Eu sequer tinha saído da João Alfredo, quando eu ouvi ela me xingando e eu senti ela me segurando. É estranho tu saber que tu vai sentir dor, na verdade. Eu nunca tinha pensado que ia perceber isso, mas eu fiquei com vergonha quando eu percebi.

A toalha

Eu já sabia. Eu soube quando ele chegou na minha casa e me beijou, e eu senti o cheiro de um creme de barbear que ele não usa. No modo quase desesperado que ele quis me agradar, algo que ele não faz porque sabe que não precisa fazer. Eu só confirmei quando vi a toalha pendurada na maçaneta do quarto dele, uma mancha escura no meio dela. Foi com ela que ele secou o outro, minutos antes de ir jantar comigo na minha casa. Agora, ela tá ali, olhando pra mim.

Eu vou lembrar desse detalhe mais do que eu vou lembrar do que eu senti quando eu vi ela — a tristeza profunda de não ser com quem tu queria passar aquele momento que ele decidiu passar com algum outro cara. Essa tristeza vai passar com os dias, e talvez na semana que vem eu não vou lembrar mais dela. O meu carinho vai ficar, o carinho pelos momentos que ele quer passar comigo. As manhãs de meio de semana, as tardes de fim de semana. Ele prefere passar algumas horas com outros, as vezes até dormir com eles. Mas ele me procura para caminharmos numa tarde de domingo, pra fazer uma janta depois do trabalho.

Eu vou lembrar da toalha, assim como eu vou lembrar dos ladrilhos verdes que cobrem a parede do prédio vizinho, onde a luz do quarto em que eu fico deitado com ele rebate suavemente conforme a noite chega. Eu vou lembrar da textura da pele nas costas dele, onde eu sei posicionar cada erupção e cada covinha, em que eu passo meus dedos bem suavemente quando ele dorme com a cabeça apoiada nos meus braços. Eu vou lembrar do cheiro do caldo de moranga que ele prepara antes da janta. Ou da forma como ele calcula a mesma quantidade de vinho em cada uma das taças. Ou de como ele olha pra mim quando eu chego com a xícara de café pra ele na cama. Ele nunca pega ela das minhas mãos. Ele espera eu sentar ao lado dele com a minha para então tomar um gole junto comigo.

Eu não sei quanto tempo eu vou conseguir aguentar. Por um lado, eu sou apaixonado por ele e por esses momentos cheios desses pequenos detalhes. Por outro, porém, eu sinto que a curiosidade dele em se encontrar com outras pessoas e o perigo de ser descoberto por alguém (dessa vez, por mim) é algo muito mais interessante para ele do que qualquer carinho ou cuidado ou afeto que a gente possa compartilhar. Quando a gente tá junto, e esses pequenos detalhes enchem meu coração e a minha cabeça, parece que eu vou aguentar sempre. Quando ele desaparece, e volta horas depois com algum imprevisto, com algum cheiro diferente, com alguma desconfiança, meu coração se parte. “Ah, não era comigo que ele queria ficar agora…”, eu fico pensando.

E então esse pensamento vai desaparecendo aos poucos, conforme os dias e o nosso convívio o afogam em outros pequenos momentos. Eu acho que vou esquecer desse conforto do convívio e do carinho, também. Eu vou ficar com a memória da toalha, da pele, dos ladrilhos, do balanço dos dedos dele no controle remoto. Coisas que eu posso transformar em histórias depois, e tirar de dentro de mim. Que é algo que, eu tive que ouvir do meu terapeuta, é o peso de ser um escritor. Eu vou criar todas essas possibilidades e todas essas histórias na minha cabeça, porque ela guarda todos esses pequenos detalhes e os enche de possibilidades. Algumas, é melhor escrever e deixar por aí, do que assombrando os lugares que eu passei e que, daqui um tempo que eu espero que não demore muito, eu não vou estar mais.

Como as tirinhas salvaram a minha vida

É cansativo viver em 2019. Nunca tivemos tanto poder sobre a informação — podemos aprender sobre qualquer coisa e podemos estar a par de qualquer notícia a qualquer momento — e, enquanto isso é bom para a maior parte, eu acho que teve alguns efeitos colaterais estranhos em minha mente. É fácil se perder nesse acesso infinito. Podemos ter a ilusão de que sabemos tudo ou que podemos saber tudo. Assim, abraçamos a crença de que as injustiças podem ser desfeitas e verdades objetivas são o cerne das regras em que vivemos. Mas ter essa quantidade de informações também deixa claro que não podemos consertar todos os problemas deste mundo e que, como por mais que discutamos, brigamos e ficamos com raiva na internet, as coisas não vão ficar bem no final do dia, porque do outro lado da seção de comentários há outro ser vivo, que teoricamente tem tanto acesso à informação quanto você, e mesmo assim ainda pensa diferente. A era em que vivemos nos torna conscientes do estado do mundo, e ele não vai bem, e nos pede para fazer algo sobre isso. Mas também nos torna conscientes de quão pequenos somos, como só podemos realizar um certo tanto, e como essa lacuna entre o que deve ser feito e o que podemos fazer é maior do que nossos comentários irritados na internet fazem parecer.

Eu vivi no meio de uma depressão nos últimos dois anos, e é uma luta constante para encontrar um significado para a vida. Não o Sentido da Vida, aquele grande desconhecido da existência humana, mas um significado para acordar de manhã, fazer algum trabalho, pegar algo para comer e dormir novamente. Parecia egoísta para mim, estar perdido em minha própria mente e em meu próprio conflito interno enquanto o mundo desmorona. Como eu poderia encontrar um lugar no mundo se eu não sei se ele vai estar lá se eu conseguisse sair dessa algum dia?

Esses últimos dois anos me fizeram reconsiderar muito. O que eu fiz com a minha vida, o que eu acreditava ser meus sonhos e o que eu deveria esperar de mim mesmo. Ainda há alguns dias que eu acordo e luto para entender um pouco disso tudo. Eu também tive um bom tempo para considerar o que aconteceu com a Internet, porque muito de mim, minha própria existência e talvez de toda a minha geração existe não apenas neste mundo agonizante, mas também nesta tela brilhante que adorávamos porque nós podíamos ser nós mesmos, e agora odiamos, porque o que revelou sobre nós mesmos não era tão bom assim. Eu vi como o Facebook e o Twitter e o Medium e o YouTube e etc. transformou notícias e informações em um sistema de gamificação, onde havia dois lados, o certo e o errado, os vencedores e os perdedores, e deveríamos lutar uns contra os outros para que pudéssemos ganhar essa pequena dose de dopamina quando conseguíamos aquela Curtida contra essa outra pessoa que estava errada. Isso nos deixou amargos, nos deixou mais irritados.

Como eu disse, cansativo.

Então, como eu poderia encontrar significado, ou pelo menos tentar desempacotar tudo isso, na bagunça em que vivemos agora? Como eu poderia sair daquele casulo de autodestruição sem querer voltar a ele no momento em que visse como é a extinção? Bem, eu comecei a ler tirinhas.

Animatiras, por Jean Galvão

Meu primeiro contato com tirinhas aconteceu na Revista Recreio. Eu comprava a revista por causa dos Letronix, e nunca lia as matérias da revista porque eram longas demais e eu ficava cansado, mas na última página da revista tinha uma seção de tiras. A minha favorita era a Animatiras, do Jean Galvão. O personagem principal era o Tuneba (vocês não sabem a alegria que eu tive planejando esse post de descobrir que eu lembrava o nome dele), mas o grupo de amigos era extenso. A página também me apresentou aos clássicos, e a partir dela eu conheci a Mafalda, o Calvin e Haroldo e a minha grande paixão até hoje, Peanuts.

Eu não sei o que me levou a parar de ler tirinhas, mas provavelmente foi porque existe muito conteúdo na internet, e a gente sempre acaba substituindo algo por outra coisa. Por muito tempo eu ligava meu computador pra começar a trabalhar pela manhã e a primeira coisa que eu fazia era ler alguns tuítes. Nos últimos anos isso me fazia mais mal do que bem, e então eu voltei a adotar o leitor de RSS, essa tecnologia de dinossauro. Além de uns blogs que eu sempre gostei de ler e um ou outro colunista de jornal, eu lembrei como era bom ler Peanuts de manhã, então comecei a assinar o feed de tirinhas. É como se fosse um jornal: todo o dia pela manhã, em meio aos posts que eu leio, há quatro quadros com a turma do Charlie Brown tentando resolver algum problema, ou simplesmente se deparando com um, e aprendendo a viver com ele.

Outros autores mais inteligentes são capazes de explicar a genialidade desse formato. Umberto Eco, por exemplo, era o maior fã de Peanuts. Para mim, resta apenas dizer que ver que esse confronto dos últimos anos não é algo exclusivo meu, mas sim o cotidiano de todo o mundo, aparentemente. A natureza fechada desses pequenos quadros diários não me permite mergulhar na melancolia de Charlie Brown ou no medo do Calvin, mas me permite olhar para eles e ver que sim, mais alguém passou por isso. Não existem muitas soluções para os problemas dos personagens dessas tirinhas. A gente nunca sentiu tanto o peso do mundo nas nossas costas como agora, a pressão de fazer algo porque o tempo tá acabando ao mesmo tempo em que a gente precisa dar um jeito na nossa vida. O que Peanuts e Mafalda e Nancy me lembram, um pouco todos os dias, é que nem sempre a gente vai conseguir dar um jeito. Mas a vida continua, e na manhã seguinte o Snoopy vai escrever mais uma página do seu grande romance.

A simplicidade de uma tirinha — alguns poucos quadros, um acontecimento simples, e as vezes uma piada — é revigorante nesse rio eterno de informação que a gente vive hoje em dia. Episódios de séries estão cada vez maiores, franquias de cinema não acabam nunca. Um artigo sobre o último tuíte do Bolsonaro faz a gente se sentir tão mal que a gente passa vinte minutos lendo ele aos poucos. Saber se o Snoopy vai conseguir derrubar Woodstock do galho demora vinte segundos, mas traz uma finalidade. Essa simplicidade também esconde o que as tirinhas parecem fazer de melhor pra mim: refletir um pouco o constante desafio que é viver o cotidiano, se deparar com obstáculos grande demais. Da falta que uma mãe faz para seu filho à frustração de não ser bom o suficiente naquilo que você queria ser excelente. No meio de tanta coisa que vai contra esses personagens, o que dá a eles a força para seguir em frente?

Seja Charlie Brown encarando seu fracasso ou a Mônica aprendendo a lidar com o ego, esses personagens enfrentam o cotidiano de uma forma semelhante a nossa: um pouquinho a cada dia. As tirinhas são um espaço curto para Grandes Declarações da Humanidade, então elas trabalham muito mais em refletir algo eventual, e isso acaba criando uma aproximação nossa com os acontecimentos da vida desses personagens, que geralmente são coisas pequenas, nada excepcionais. Como no nosso dia-a-dia, onde a gente enfrenta não só os nossos conflitos internos constantemente, mas também essa e aquela tarefa do cotidiano. Então a gente dorme, acorda no outro dia, e encontra elas de novo.

Peanuts, por Charles M. Schulz

Não digo que esse foi o antídoto da minha tristeza, e nem que essa é a solução definitiva para os problemas do mundo. Mas encontrar conforto num breve momento de empatia com o outro todos os dias ajudou a me deixar saudável, e a querer ficar saudável para seguir em frente. Isso eventualmente me ajudou a escrever mais, a me preocupar mais comigo mesmo e com as pessoas ao meu redor e, o mais importante, me fez aprender a apreciar esses breves momentos de uma introspecção repentina que acontece, seja na hora de lavar a louça ou quando a gente sai do ônibus e um carro passa e nos encharca com a água da rua. Apreciar esses pequenos momentos no papel me fez ver eles de uma nova forma na vida real. É algo que eu pretendo levar no meu dia-a-dia daqui pra frente.