Posts sobre política

A queda do céu

Luciana relatou como foi seu dia de eleição — da esperança do voto ao cataclisma da apuração. No seu blog, o sol na cabeça:

Mas hoje é dia de votar! Sem tempo pra analisar o simbolismo gritante do que tinha acabado de sonhar. Meu coração está tão repleto de esperança que a mente faz questão de ignorar o mau presságio e parto pra cabine de votação, com um entusiasmo que não sentia há muitos anos. Foram algumas horas de alegria até o chão ser arrancado dos meus pés, novamente, durante a apuração dos votos.

Tem muito mais que isso no seu lindo texto. A queda do céu, o livro que ela menciona no texto, tá na minha fila pra ler há uns meses. Acho que ele vai furar a fila agora.

Sobre votar

Eu gosto muito de votar. Eu gosto de chegar na minha zona eleitoral e ver alguns vizinhos ali. Estamos todos juntos em um ambiente neutro (eu voto no Palácio da Justiça aqui em Porto Alegre). Os mesários da minha zona são sempre muito gentis.

Eu gosto mais é do senso de comunidade do ambiente de votação. Embora eu reveja alguns vizinhos na zona eleitoral, uns como eleitores e outros como mesários, são poucas as vezes que a gente se reúne em um só lugar pra uma ação que leva alguns segundos e é profundamente imensa. Me faz sentir (ou perceber que eu sou) parte de uma comunidade, um entre muitos.

Ajuda que o dia da votação tende a ser um dia gostoso — o clima das últimas eleições que participei eram um dia de sol, mas fresco (hoje mesmo estava 21°C quando fui votar, e 13°C quando acordei). Torna um dia importante como esse em um dia de esperança, também.

Eu espero que Porto Alegre aprecie esse dia de sol para lembrar do que aconteceu nos dias de chuva — e da destruição que eles deixaram. Que a esperança desse dia não ofusque a memória de ontem.

29 de dezembro de 2016 — 30 de outubro de 2022

Meus amigos se despediram de mim na madrugada do dia 29 de dezembro. Eles iam para a casa de uma conhecida nossa. Eu ia ficar mais um tempo na festa em que a gente tinha se encontrado e então eu iria a pé até a rodoviária, para pegar um ônibus até a casa dos meus pais, onde eu ia passar a virada de ano novo. Eu era uma pessoa completamente diferente da que eu sou agora quando eu vi eles entrarem no carro.

Eu não costumo falar sobre essa noite com as pessoas. Mesmo com os meus amigos mais próximos, eu sempre deixei esse assunto quieto. Eles eventualmente me perguntam sobre o que aconteceu, como eu estou me sentindo, e etc. Eu nunca me senti muito seguro pra falar daquela noite até hoje.

Algum tempo depois, conversando com o Erê, eu comentei com ele que o impeachment da Dilma parecia ter dado a partida na minha depressão, que foi e veio desde então. O Erê, bom amigo como sempre foi, não só concordou com a hipótese como contextualizou ela. “Um mal estar se instaurou no ar desde aquele momento”, ele me explicou. É verdade. O mal estar já existia naquela noite, ele estava no ar.

O mal estar ainda existe. Mas ontem a noite, pela primeira vez, parece que uma brisa conseguiu cortá-lo. Há um fio de esperança, de que a maré está mudando talvez o futuro seja um pouco mais seguro, que a felicidade e o amor reapareçam no horizonte. E esse fiozinho de esperança me trouxe a coragem de poder falar sobre como foi viver esses últimos anos morrendo de medo de sentir dor de novo.

Eu fiz aquele percurso a pé da Cidade Baixa até a rodoviária uma penca de vezes antes, então eu achava que eu sabia o que eu estava fazendo. Saindo da João Alfredo, e pegando a República, eu iria até a Lima e Silva. Atravessaria a Perimetral e dali pegaria a André da Rocha, subiria a escadaria que leva para a Duque e seguiria no entorno da Santa Casa. Na Santa Casa, eu esperaria até o dia começar a raiar (eu geralmente fazia esse percurso nas últimas horas da noite), e então eu poderia seguir até a Rodoviária.

Meu maior medo, desde que eu me conheço, é de sentir dor. Dor física. De cortar a ponta do dedo fora quando tá picando a cebola; de escorregar enquanto atravessa a rua e ter as pernas atropeladas. Não a morte em si, mas aquela dor que machuca. Naquela noite, eu senti pela primeira vez, de verdade, essa dor. Ela é cruel, porque não tem como escapar dela; e ela se anuncia: eu vi ela atravessando a rua de noite. Eu sequer tinha saído da João Alfredo, quando eu ouvi ela me xingando e eu senti ela me segurando. É estranho tu saber que tu vai sentir dor, na verdade. Eu nunca tinha pensado que ia perceber isso, mas eu fiquei com vergonha quando eu percebi.