Posts sobre luto

Mundano

Eu não conheço Mandy Brown nem Nevan Scott, mas achei linda a observação de Brown para a natureza da relação que tinha com Scott, que faleceu recentemente. Em seu in memoriam, ela fez essa linda observação sobre o mundano:

It sounds incredibly mundane to talk about it now, a friendship measured in video calls and commit messages, but then the word mundane comes from the Latin mundi, or world. To be mundane is to belong to the world, to be in the world, of it and within it. Not outside of it—not lost, the way so much technology tries to make us lose ourselves—but in the world as only the truly living can be. As we can only be with each other.

[…]

Near the end of The Blue Place, as Julia is dying, she tells Aud to “stay in the world.” Aud promises to do so, but the truth is she does not know how. It is so very hard to stay in the world, to hold on to the mundane and ordinary, those fragile human connections, amidst all the forces arrayed against us. I think it is only in the effort to learn that we come close to that knowledge; and perhaps only in the effort to teach that the learning really takes hold.

Estar presente, se sentir parte do mundo, é algo que eu consigo fazer cada vez mais raramente, mas sempre que eu consigo eu sinto ser um ato quase revolucionário de persistir. Que as lembranças dessa amizade sejam uma benção.

Vivi: cinco anos com, seis anos sem

Vivi sentada na grama, com sua cadeirinha de rodas ao lado.

Hoje completam seis anos da morte da Vivi. A partir de hoje, o tempo que eu sinto saudades da Vivi é maior do que o tempo que eu tive perto dela. Foi a primeira coisa que eu pensei quando acordei.

A chegada da Vivi na nossa casa começou com tristeza. Por semanas, ela viveu na frente do nosso pátio, embaixo de um caminhão estacionado na frente da casa de um vizinho. Eu lembro de ter ido lá mais de uma vez dar comida pra ela. Um dia, nós demos comida para ela dentro do nosso pátio, e fechamos o portão. Naquela noite, Vivi conseguiu furar a cerca e fugir pro pátio do vizinho, onde os cachorros dele a atacaram, quebrando sua coluna. Eu lembro de ouvir um barulho de briga durante a noite, mas não juntei os pontos. Tem sempre alguma intriga canina na vizinhança.

Vivi ficou em um dos quartos da casa, onde bate sol e é bem iluminado, e minha mãe a ajudou a se apoiar nas patas dianteiras nos dias seguintes. Ela reaprenderia a caminhar em algumas semanas, e um vizinho nosso iria lá em casa com uma cadeirinha de rodas feita de canos de PVC. Foi durante esses dias, com a Vivi ainda no quarto, que ela ganhou o nome. Minha mãe pensou em Vitória. Virou Vivi.

Eu lembro muito da Vivi desde que ela morreu. Eu já falei sobre esse dia aqui. Dói demais pensar nele, e no meu envolvimento naquele dia. Nada me tira da cabeça que a roupa que eu coloquei nela naquela noite, alguns dias depois de ela ter feito uma cirurgia, estava apertada demais. Pra mim, desde então, eu matei a Vivi.

Mas Vivi viveu uma vida inteirinha. Quando ela aprontava, virava Viviane. Ela fazia uma expressão afrontosa quando a gente xingava ela. Eu acompanhava ela no banheiro antes de dormir (desde o acidente, como eu chamei aquela noite, ela não conseguia mais se segurar). Durante aqueles anos, eu dormi com o colchão no chão. Eu podia colocar a mão dentro do berço dela até ouvir ela roncar (e, leitores, ela roncava). Por muitos anos depois dela, meu colchão continuou no chão.

Eu gosto de lembrar do meu último ano da faculdade quando eu lembro da Vivi. Eu tinha aulas presenciais só uma vez por semana, e nos outros dias eu trabalhava e escrevia o trabalho de conclusão, o que eu tentava deixar para a manhã. Durante as tardes, eu e minha mãe sentávamos na sala com a Vivi e assistíamos séries e filmes. Foi quando a gente maratonou The Wire e Hannibal, acompanhamos a última temporada de The Leftovers ou passamos uma tarde inteirinha assistindo The Keepers. Um de nós sempre sentava no chão, o braço dentro do bercinho da Vivi enquanto ela tirava a soneca da tarde.

Nos dois anos seguintes, quando eu voltei a trabalhar como desenvolvedor, eu usei o quarto vago em que Vivi ficou até se recuperar como um escritório. Durante horas, Vivi ficava lá, deitada no sofá por um tempo, depois apoiada no meu pé. As vezes ela enchia o saco de me esperar e ia para a rua sozinha, na cadeirinha dela, para brigar com os cachorros do vizinho. Ela nunca perdeu a coragem.

Nos últimos meses, quando sua saúde foi piorando, eu gostava de passar os fins de tarde com ela explorando o pátio. Eu saía pouco do quarto naquela época, mas era ela quem me levava. Todos os dias. Eu amei ela tanto.

Eu sonhei com a Vivi há uns dias. Eu sonhei que eu chegava na casa dos meus pais em um dia de sol. Acho que era na época que eu ainda trabalhava no escritório, porque eu chegava de carro com meu pai. Minha mãe me deu oi e só me disse “ela tá lá embaixo”. Eu sabia instintivamente quem era. Eu desci as escadas e, embaixo da laranjeira, estava a Vivi, a cadeirinha de um lado, Mel de outro. Eu sentei perto dela na grama e lembrei que ela tinha morrido, e percebi que aquilo era um sonho. Eu acordei e, pela primeira vez em muitos, muitos anos, eu lembrei de como foi viver com a Vivi, ao invés de lembrar de como ela morreu.

Tainara

Essa foto foi tirada depois, na sessão de “O Mágico de Oz” na Cinemateca Capitólio, que foi feita em homenagem à Tai.

Quando a Tai me disse quais filmes ia ver numa mostra da Varda, eu fiquei tão feliz que um deles seria Ulysse. Eu fiquei tão feliz de ver que ela gostou desse filme que eu amo tanto. Só consigo imaginar nosso próximo encontro, muito provavelmente na porta do Capitólio ou na entrada da Paulo Amorim, onde eu ia gritar “ULYSSE?” e ela ia abrir aquele sorrisão, feliz de compartilhar uma boa conversa sobre um filme que gostou comigo.

Já faz um tempo que eu aprendi a respeitar o luto. Não entender, nem aprender algo com ele. Mas quando ele chega, eu preciso respeitar minha insignificância perante ao luto. Ele é um soco de incerteza e de perda. Um vazio, um buraco. Meu luto é medo. Foi medo que eu senti quando eu recebi a notícia da morte da Tai, e foi medo o que eu senti depois.

A relação entre eu e a Tai existia somente entre nós. Embora a gente tenha se conhecido na faculdade, só nos aproximamos depois que nos formamos — ela um ano antes de mim. Desde então, nossa amizade não existia ao redor de trabalho ou de convívio. Existia entre ela e eu. Quando eu recebi a notícia, muitos medos vieram na cabeça — medo de ela ter se sentido sozinha, ou com dor, ou desesperada. Medo de não ter ninguém ao lado dela pra acompanhar ela nesse momento, o mais importante de cada vida. Medo, também, de que agora tudo o que resta da linda amizade que nós tínhamos — dos filmes que gostávamos juntos, dos que a gente desgostava junto também; das teorias sobre Zelda; e do segredo da caponata que ela fez um dia e a gente comeu com sanduíche — era eu. É muita responsabilidade manter uma amizade sozinho. É muito difícil, precisa de dois. É o medo de deixar essa amizade se perder agora que só tem você pra lembrar e sentir tudo isso.

A Tai gostava muito de Fleabag e um dos momentos mais bonitos daquela série era quando a protagonista pergunta pra amiga dela onde botar todo o amor que sente pela mãe, que morreu. A amiga responde que aceitaria ficar com esse amor. Acho que a Tai seguia isso a risca — ela enchia todo mundo que conhecia de carinho, de abraço, de companhia. Agora todo esse amor tá com a gente. Dessa responsabilidade eu tenho medo, mas também tenho um pouco de orgulho. Foi o que ela deixou comigo, e que bom legado é esse.

Últimas memórias

Um pensamento estranho passou pela minha cabeça agora.

As vezes, uns flashes da noite em que a Vivi morreu aparecem, e eu lembro de alguns detalhes. Eu já lembrei dessa noite toda várias vezes, e não tem nada em especial sobre isso. Não precisa de algum evento ter acontecido pra que eu volte a lembrar dessa noite nem nada disso. Ela só vem, como se sempre estivesse ali no fundinho da mente. Eu acho que está.

Enfim, eu pensei que a última memória que eu tenho com a Vivi é uma memória em que ela já não estava mais viva. Vivi morreu no colo do meu pai. Ele saiu na rua, com ela nos braços, quando a gente percebeu o que estava acontecendo. Ele fechou a porta e ficou lá, nanando ela. Eu esperei um pouco pra ir atrás dele. Eu sabia o que eu ia ver quando eu fosse. Eu ainda não tinha começado a chorar.

Quando eu e o pai voltamos da rua, o pai colocou a Vivi de volta no “bercinho” em que ela dormia ao lado da minha cama. Eu trouxe ela pra casa e esperamos. Estava dando um jogo do Grêmio na TV, mas eu acho que o pai pediu pra esperar porque não era para enterrarmos ela ainda. Ela ficou no berço dela enquanto o pai se acalmava. Minha mãe voltou da garagem, onde ela tinha ido, para guardar os pertences da Vivi (ela não queria que eu dormisse ao redor das coisas dela, eu acho).

Minha última memória da Vivi aconteceu ali no chão da sala, onde nós sentamos muitas vezes juntos. Ela me acompanhava enquanto eu via filmes e séries noite adentro. Eu gostava de sentar no chão pra ficar no lado dela, com a mão repousada nas costas dela, fazendo carinho. Minha última memória com a Vivi foi fazendo exatamente isso, mas eu lembro de ter pensado em fazer isso até o fim, porque eu nunca mais ia sentir os pelos dela entre meus dedos. Eu pensei, literalmente, em tentar marcar essa sensação na minha cabeça. Pra lembrar como era fazer carinho na Vivi.

Minha mãe sentou perto da gente por um tempo e tentava fechar os olhos da Vivi, pedindo pra ela descansar. A Vivi não morreu com os olhos esbugalhados nem assustados, mas eles continuaram abertos quando a gente enrolou seu corpo no cobertorzinho em que ela dormia e enterrou ela no lado da casa, num trechinho de grama que dá pra ver da cozinha. Foi uma escolha prática do meu pai (a terra ali estava úmida naquele dia), mas eu agradeço ele até hoje por isso. Quando eu estou lavando uma louça na casa dos meus pais, ou tomando uma água, é impossível não olhar pela janela. E daí eu vejo onde seu corpo ficou.

Eu não chorei naquela noite. Eu não senti nada naquela noite, nem na manhã seguinte. Minha mãe veio me ver quando eu fui me deitar. Eu acho que ela esperasse que eu estivesse chorando. Mas eu nem pensava em nada. Eu lembro de ter contado pra Luiza, que naquela época ainda era minha colega de trabalho, no Slack na manhã seguinte. A saudade ainda não tinha batido ali. As coisas estavam sendo práticas. Ela me pediu pra eu tentar tirar o dia de folga, mas eu não fiz. O trabalho aquele dia foi normal.

Eu não lembro quando eu chorei pela morte da Vivi pela primeira vez. Eu sei que eu chorei muitas vezes nos meses e anos seguintes, quando esse tipo de lembrança me vem em mente. Eu fico furioso comigo mesmo de que é esse momento que eu lembro dela, de toda uma vida que compartilhamos juntos. São essas, as últimas memórias que eu tenho, que me fazem lembrar dela. Eu não sei como me “educar” a lembrar de quando eu vi ela correr com o carrinho pela primeira vez, ou quando ela me xingava porque queria comida, ou se apoiava nos meus pés enquanto eu trabalhava. Eu sei que eu tenho essas memórias dentro de mim também, mas não são elas que aparecem quando eu preciso delas. Por algum motivo, eu sempre preciso lembrar da Vivi, mas eu queria que fossem memórias melhores.

Lembrando da morte

Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.