Me tornei quem eu sempre quis ser: a pessoa que mói café toda manhã antes de trabalhar.
Posts em 2022
A Casa de Doces
Ótima a comparação que Jennifer Egan faz da internet com…
Força Estranha
Que honra ouvir Gal Costa nesse mundo.
E a coisa mais certa de todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol
E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o solPor isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha…
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha
29 de dezembro de 2016 — 30 de outubro de 2022
Meus amigos se despediram de mim na madrugada do dia 29 de dezembro. Eles iam para a casa de uma conhecida nossa. Eu ia ficar mais um tempo na festa em que a gente tinha se encontrado e então eu iria a pé até a rodoviária, para pegar um ônibus até a casa dos meus pais, onde eu ia passar a virada de ano novo. Eu era uma pessoa completamente diferente da que eu sou agora quando eu vi eles entrarem no carro.
Eu não costumo falar sobre essa noite com as pessoas. Mesmo com os meus amigos mais próximos, eu sempre deixei esse assunto quieto. Eles eventualmente me perguntam sobre o que aconteceu, como eu estou me sentindo, e etc. Eu nunca me senti muito seguro pra falar daquela noite até hoje.
Algum tempo depois, conversando com o Erê, eu comentei com ele que o impeachment da Dilma parecia ter dado a partida na minha depressão, que foi e veio desde então. O Erê, bom amigo como sempre foi, não só concordou com a hipótese como contextualizou ela. “Um mal estar se instaurou no ar desde aquele momento”, ele me explicou. É verdade. O mal estar já existia naquela noite, ele estava no ar.
O mal estar ainda existe. Mas ontem a noite, pela primeira vez, parece que uma brisa conseguiu cortá-lo. Há um fio de esperança, de que a maré está mudando talvez o futuro seja um pouco mais seguro, que a felicidade e o amor reapareçam no horizonte. E esse fiozinho de esperança me trouxe a coragem de poder falar sobre como foi viver esses últimos anos morrendo de medo de sentir dor de novo.
Eu fiz aquele percurso a pé da Cidade Baixa até a rodoviária uma penca de vezes antes, então eu achava que eu sabia o que eu estava fazendo. Saindo da João Alfredo, e pegando a República, eu iria até a Lima e Silva. Atravessaria a Perimetral e dali pegaria a André da Rocha, subiria a escadaria que leva para a Duque e seguiria no entorno da Santa Casa. Na Santa Casa, eu esperaria até o dia começar a raiar (eu geralmente fazia esse percurso nas últimas horas da noite), e então eu poderia seguir até a Rodoviária.
Meu maior medo, desde que eu me conheço, é de sentir dor. Dor física. De cortar a ponta do dedo fora quando tá picando a cebola; de escorregar enquanto atravessa a rua e ter as pernas atropeladas. Não a morte em si, mas aquela dor que machuca. Naquela noite, eu senti pela primeira vez, de verdade, essa dor. Ela é cruel, porque não tem como escapar dela; e ela se anuncia: eu vi ela atravessando a rua de noite. Eu sequer tinha saído da João Alfredo, quando eu ouvi ela me xingando e eu senti ela me segurando. É estranho tu saber que tu vai sentir dor, na verdade. Eu nunca tinha pensado que ia perceber isso, mas eu fiquei com vergonha quando eu percebi.
Agora
@tdbem, no Twitter, sempre precisa:
“todas as forças
estão reunidas
para que o dia amanheça”cristóvão tezza
Different Today
Do novo álbum do Yeah Yeah Yeahs, Cool It Down:
I feel different today, different today
Different today, I do
I feel different today, different today
Different today ‘bout you
The natural history of the fishes of Guiana
Nesse livro de Robert H. Schomburgk tem a linda ilustração de um bagre:
Smithsonian Libraries
Via Smithsonian
Caetano
Eu quero ser pro meu sobrinho o que minhas tias foram pra mim: pessoas que conquistaram o impossível. Que me mostraram que o mundo era gigante e belíssimo e cheio de possibilidades, e que mesmo que estivessem lá explorando esse mundo, elas também estavam sempre por aqui, do meu lado.
Caetano, meu sobrinho, nasceu hoje.
Vó Geni
Eu tava pensando na minha avó hoje, em como as pessoas desaparecem. Ela morreu há mais de uma década, e a voz dela não passa de um eco bem distante na minha cabeça.
Eu ainda lembro coisas que ela me falava, e eu lembro do tom de voz que ela tinha. Era uma voz profunda e pesada, boa pra ouvir quando ela me acordava ou me fazia dormir.
Mas eu não lembro da voz dela em si? Eu lembro de traços dessa voz, e não tem nada no mundo que traga esse som de volta. eu não tenho vídeos dela pra ouvir, essa voz não existe mais…
Várias coisas me lembram a voz dela. As músicas da Nina Simone me lembram do tom de voz dela, o livro que eu tô lendo agora me lembra o jeito que ela falava. Mas são só esses traços dela. Nem mesmo um fantasma, uma sombra de verdade. É mais uma fumaça de memória.
Eu nunca senti falta dela até muito recentemente. Em pensar que ela simplesmente não me conheceu, pelo menos não como eu sou hoje, me parte o coração. Eu queria que ela tivesse me visto crescer, tivesse visto que eu ia dar um jeito. Eu acho que ela ia ter gostado.
A toalha
Eu já sabia. Eu soube quando ele chegou na minha casa e me beijou, e eu senti o cheiro de um creme de barbear que ele não usa. No modo quase desesperado que ele quis me agradar, algo que ele não faz porque sabe que não precisa fazer. Eu só confirmei quando vi a toalha pendurada na maçaneta do quarto dele, uma mancha escura no meio dela. Foi com ela que ele secou o outro, minutos antes de ir jantar comigo na minha casa. Agora, ela tá ali, olhando pra mim.
Eu vou lembrar desse detalhe mais do que eu vou lembrar do que eu senti quando eu vi ela — a tristeza profunda de não ser com quem tu queria passar aquele momento que ele decidiu passar com algum outro cara. Essa tristeza vai passar com os dias, e talvez na semana que vem eu não vou lembrar mais dela. O meu carinho vai ficar, o carinho pelos momentos que ele quer passar comigo. As manhãs de meio de semana, as tardes de fim de semana. Ele prefere passar algumas horas com outros, as vezes até dormir com eles. Mas ele me procura para caminharmos numa tarde de domingo, pra fazer uma janta depois do trabalho.
Eu vou lembrar da toalha, assim como eu vou lembrar dos ladrilhos verdes que cobrem a parede do prédio vizinho, onde a luz do quarto em que eu fico deitado com ele rebate suavemente conforme a noite chega. Eu vou lembrar da textura da pele nas costas dele, onde eu sei posicionar cada erupção e cada covinha, em que eu passo meus dedos bem suavemente quando ele dorme com a cabeça apoiada nos meus braços. Eu vou lembrar do cheiro do caldo de moranga que ele prepara antes da janta. Ou da forma como ele calcula a mesma quantidade de vinho em cada uma das taças. Ou de como ele olha pra mim quando eu chego com a xícara de café pra ele na cama. Ele nunca pega ela das minhas mãos. Ele espera eu sentar ao lado dele com a minha para então tomar um gole junto comigo.
Eu não sei quanto tempo eu vou conseguir aguentar. Por um lado, eu sou apaixonado por ele e por esses momentos cheios desses pequenos detalhes. Por outro, porém, eu sinto que a curiosidade dele em se encontrar com outras pessoas e o perigo de ser descoberto por alguém (dessa vez, por mim) é algo muito mais interessante para ele do que qualquer carinho ou cuidado ou afeto que a gente possa compartilhar. Quando a gente tá junto, e esses pequenos detalhes enchem meu coração e a minha cabeça, parece que eu vou aguentar sempre. Quando ele desaparece, e volta horas depois com algum imprevisto, com algum cheiro diferente, com alguma desconfiança, meu coração se parte. “Ah, não era comigo que ele queria ficar agora…”, eu fico pensando.
E então esse pensamento vai desaparecendo aos poucos, conforme os dias e o nosso convívio o afogam em outros pequenos momentos. Eu acho que vou esquecer desse conforto do convívio e do carinho, também. Eu vou ficar com a memória da toalha, da pele, dos ladrilhos, do balanço dos dedos dele no controle remoto. Coisas que eu posso transformar em histórias depois, e tirar de dentro de mim. Que é algo que, eu tive que ouvir do meu terapeuta, é o peso de ser um escritor. Eu vou criar todas essas possibilidades e todas essas histórias na minha cabeça, porque ela guarda todos esses pequenos detalhes e os enche de possibilidades. Algumas, é melhor escrever e deixar por aí, do que assombrando os lugares que eu passei e que, daqui um tempo que eu espero que não demore muito, eu não vou estar mais.
Ontem, na Casa de Cultura
Nina Simone: “22nd Century”
Eu sou apaixonado por essa performance de Nina Simone para uma música de Exuma. As letras são assombrosas:
Liberation of animals
Prevention of cruelty to animals men and beast
Flying and on flying flying things
Revolution of music poetry love and life
Sex change change change
Man is woman woman is man
Even your brain is not your brain
Your heart is a plastic thing which can be bought
There are no more diseases which can be caughtMan became the thing that he worships
Man today became his god
That was the day that man and woman truly became bored
Man became his good
Man became his evil
Man became his god
And man became his devil
Berger gardait un troupeau
The monumental, solitary figure of a cloaked shepherd, sunlight framing his head like a halo, stands watch over his flock of sheep in the French countryside. Jean-Francois Millet’s dignified yet unglorified depictions of the rural laborers near his home were popular in France and the United States, where urban audiences perceived them as peaceful, spiritual, and nostalgic.
Other viewers saw in their realism unadorned visions of contemporary poverty. A few years after the Civil War, one American writer described Millet’s paintings as portraying “the patient, hopeless weariness of the overtasked workman… .we saw the unpaid slave of our country, the pauper workman of France and England.”
Vivi
Já são três anos de saudades suas, minha querida.

Ruin with a Green Roof
O original está no Flickr do fotógrafo.
Onde o dia vai?
Arquivando numa tag para links terapêuticos.
Sobre estar sozinho
David Whyte em Consolations:
To be alone for any length of time is to shed an outer skin. The body is inhabited in a different way when we are alone than when we are with others. Alone, we live in our bodies as a question rather than a statement.
Deixe acontecer, e então deixe ir embora
So much of our suffering is about resistance. Accepting our struggles for what they are, without overthinking them, can be incredibly liberating.
Let it happen. And then let it go.
Betty Blue na CCMQ
Em setembro de 2019 eu estava esperando uma sessão na cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana. Lá tem uma discoteca — literalmente uma biblioteca de discos — que tava tocando a trilha-sonora de Betty Blue, um dos meus filmes favoritos.
Foi uma memória bacana que eu tive hoje, um momento inusitado. A Vivi tinha morrido há menos de um mês, e essa foi a primeira vez em que algo inusitado aconteceu.
Nova música do Arcade Fire
Unconditional I (Lookout Kid), do álbum WE:
lookout kid
trust your body
you can dance
and you can shake
things will break
you make mistakes
you lose your friends again and again
‘cause nothing’s ever perfect
no one’s perfect
let me say it again…
no one’s perfect
Kentucky Route Zero: Ato V
Via executables:
“Must have been four hours dragging them out of the water, I got their measurements down now. Carved into my muscles. Permanent.”
A poesia do texto de Kentucky Route Zero pode ser brutal, mas é sempre precisa.
Déja vù
© Cardboard Computer
Conway: “O quê?”
Shannon: “Só… você sabe, déja vù”.
Conway: “Eu também”.
Shannon: “Eu sempre me sinto um pouco envergonhada quando isso acontece. Como se eu estivesse em uma peça, mas não soubesse minha fala”.
Kentucky Route Zero: Ato II
Não toque na obra-prima
Alguém deveria escrever sobre o humor do Tumblr, que está comemorando quinze aninhos.
take me to art museums and make out with me
But they said to not touch the masterpieces
Well somebody’s gotta pin the artwork to the wall
This is Johnson, those idiots are fucking in the east wing again.
NORCO
O jogo de estreia do estúdio Geometry of Robots sobre “um sentimento estranho e solitário que visita nos fins de tarde. É uma jornada tranquila por pequenos segredos e dimensões ocultas no sul dos Estados Unidos”.



Me lembrou muito da sensação de jogar Kentucky Route Zero durante a madrugada. Uma demonstração do jogo está disponível na GOG e na Steam.




