Um mapa dos relacionamentos dos pinguins nos aquários japoneses

Esses fluxogramas (pra mim isso é mais um mapa) dos relacionamentos dos pinguins dos aquários de Quioto e de Sumida, em Tóquio tão sendo uma leitura impressionante. É tanto drama!

Via Spoon & Tamago:

Penguins are highly social species. They like being with others and, like humans, this can often lead to polyamorous and sometimes scandalous situations. Penguin drama can include serious crushes and heartbreaks but also adultery and egg-stealing. Penguins may even develop crushes on their caretakers. And these Japanese aquariums have it all charted in a flowchart that can be studied for hours.

Posso concordar. Ler esse fluxograma tirou (ou melhorou?) horas da minha quarta-feira.

Agora

Eu tô sentado no pátio dos meus pais, numa cadeira de praia. Eu sinto a grama entre os dedos do meu pé. O dia tá quente, mas aqui sempre tem uma brisa.

Tá num daqueles dias raros de silêncio. Embora meus pais morem no interior, sempre tem algo acontecendo ao redor da casa deles. Ou os cachorros estão resolvendo um problema político entre eles e os cachorros do outro lado da cerca; ou tem alguém aproveitando o fim de semana pra cortar a grama; ou é dia de churrasco em um dos vizinhos, e todo o mundo precisa ouvir a música que vai servir como trilha-sonora do almoço em família.

Hoje é um silêncio diferente. A casa tá quieta. Eu e meus pais voltamos há algumas horas do funeral do meu tio. Eles dormem, cada um em um canto da casa. Meus pais não gostam de mostrar que estão cansados um para o outro, então eles cochilam quase que escondidos um do outro.

Eu decidi vir pra rua. Pisar um pouco na grama. Eu gosto de sentar aqui nesse canto do pátio. É ao lado da árvore sob a qual a Vivi foi enterrada. Hoje é só mais um canto — a grama já cresceu, a árvore tá linda.

Ouvi minha mãe acordar agora. Eu sei que isso aconteceu porque a Zinha, uma das cadelas aqui da casa deles, também acordou. A Zinha acompanha minha mãe pela casa toda. A gente reclama desses comportamentos deles até o momento em que eles não podem mais nos seguir. Daí a gente sente falta.

A Mel veio me fazer companhia. Vou ter que parar de escrever, porque a Mel exige colo e ela não liga se o computador vai atrapalhar ela. Melhor botar ele pra lá.

Era pra chover hoje. Ainda bem que não choveu, tá muito bom de colocar os dedos do pé na grama e sentir ela abraçar meus pés.

Filmes que me fazem me sentir em casa

Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.

Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas.

Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme.

Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede.

Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço.


  1. Daguerreótipos (Agnès Varda, 1975)

O filme que me fez pensar nessa lista. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabeleireiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora.

Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como *Daguerreótipos*. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor. 2. **Meu Amigo Totoro** (Hayao Myazaki, 1988)

Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão.

Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo. 3. **Memórias de Ontem** (Isao Takahata, 1991)

Memórias de Ontem é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória.

(Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.) 4. **Amantes** (John Cassavetes, 1984)

Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em Amantes tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome.

Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma. 5. **Certas Mulheres** (Kelly Reichardt, 2016)

Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo.

Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, [eu escrevi][kelly]:   > Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar.

Isso é se sentir em casa. 6. **Onde Vivem Os Monstros** (Spike Jonze, 2009)

Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver.

Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O em *Food Is Still Hot*. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. 7. **Lovers Rock** (Steve McQueen, 2020)

Grace foge de casa de noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi.

*Lovers Rock* é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar. 8. **Todos Nós Desconhecidos** (Andrew Haigh, 2023)

Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil.

Em *Todos Nós Desconhecidos*, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos. 9. **Pequena Mamãe** (Céline Sciamma, 2021)

Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali.

Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.

The HTML Review, nº 5

Saiu o novo volume da The HTML Review, uma revista sobre a internet feita à mão. Como todos os anos, ela é cheia de pequenos experimentos.

Toda a HTML Review é especial. Eu recomendo começar sempre da primeira página e ir seguindo, como se folheasse uma revista mesmo. Eu ainda tô adentrando essa edição, mas duas seções me cativaram muito:

  • Tell umma I’m walking to Baekdusan, um ensaio de Anne Lee Steele sobre a relação entre a sua “psicogeografia” e o próprio computador.
  • from mine to yours, um “monólogo interno” de Quennie Wu em uma caminhada. Acho que nada, em toda a minha vida, capturou tão bem a sensação que eu tenho de caminhar — um hábito que eu não perco por nada.

Bom sábado!

Encanamento

Tava lendo esse artigo no Unsung sobre a estrutura de URLs do Flickr, e essa continuação com links sobre “design de URLs”.

Eu acho muito bonita a forma com que o Flickr, o Last.FM e o Letterboxd trabalham suas URLs. Eu gosto de digitar os endereços dos sites que eu visito — foi assim que eu aprendi a navegar na internet —, e esses sites permitem que a gente descubra as coisas mais bacanas misturando e explorando suas URLs. O que acontece se eu trocar uma geotag no Flickr, ou misturar os gêneros no Last.FM, ou até mesmo filtrar os filmes que meu amigo assistiu por país? Eu posso fazer toda essa descoberta só observando e trocando caminhos.

Enquanto eu tava redesenhando o meu site eu tava pensando nessa estrutura de URLs, e como eu queria possibilitar esse tipo de descoberta. Com o tempo, eu espero que esse site vire uma verdadeira “floresta” em que eu possa me perder em tags e links por aí. Pra isso, eu preciso reorganizar essas tags, criar um jardim, etc.

Mas uma dessas tarefas foi pensar em uma estrutura de URLs, e tendo lido recentemente o texto no Unsung eu me peguei reestruturando as URLs do site pra começar a possibilitar esse tipo de descoberta.

Por regra geral, os posts agora estão organizados assim:

/categoria/ano/mês/dia/nome-do-post/

As tags são fáceis:

/tags/nome-da-tag/

Uma hora eu quero fazer o /tags/ ser um mapa gráfico das relações entre as tags aqui do site.

Se você acessa uma página de categoria (ex. /notas/), você vê o arquivo daquela categoria. Anos, meses e dias também podem ser misturados para navegar por arquivos. Pra acessar os posts de dezembro, você pode navegar pra irrelefante.com.br/2025/12/, e assim por diante.

Eu gosto como fazer esses esquemas de URL, integrar com outros serviços e ver se tudo funciona de uma ponta à outra é como mexer no encanamento do site. E meu site é como minha casa. Até mexer no encanamento e saber que tá tudo bem é uma alegria.

Notas de diretores aos projecionistas

Gosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público.

Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz.

Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de A Árvore da Vida, de 2011:

Carta em papel timbrado da Fox Searchlight Pictures, intitulada Notice to Projectionists Regarding The Tree of Life. Assinada por Terrence Malick, diretor, a carta pede aos projecionistas atenção a detalhes técnicos como aspect ratio de 1:85, volume dos faders em no mínimo 7.5, lâmpadas a 5400 Kelvin com nível de foot Lambert em 14, e alerta que não há créditos iniciais no filme. O tom é respeitoso, chamando os projecionistas de os últimos artesãos remanescentes da exibição cinematográfica e encerrando com a fraternal salute.

Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico Barry Lyndon, e todas as suas especificidades:

Carta datilografada de 8 de dezembro de 1975, com o logotipo estilizado de Barry Lyndon no topo. Assinada à mão por Stanley Kubrick, a carta detalha em 10 pontos as instruções técnicas de projeção do filme, incluindo correção de erro nos dots de changeover do Reel 3B, aspect ratio de 1:1.66, luminosidade entre 15 e 18 foot lamberts, duração total de 184 minutos com intervalo no Reel 6, e instruções para uso de um LP com a trilha sonora durante o pré-filme e o intervalo.

Agora, sobre Cidade dos Sonhos, quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch:

Aviso em formato de pôster tipográfico, dirigido ao departamento de projeção, sobre o filme Mulholland Drive. Assinado à mão por David Lynch, o documento pede que o volume seja aumentado em 3dB acima do normal e que a imagem receba um pequeno headroom extra em relação ao enquadramento padrão 1:85, com um diagrama comparativo ilustrando o ajuste. O tom é direto e pessoal, abrindo com I understand this is an unusual request yet I do need your help e fechando com Your friend, David Lynch.

Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.

Software simples

Eu tô tentando zerar minha lista de leitura. Ela tem 209 links para ler, catalogar e arquivar. Pra me forçar a ler um pouco todo o dia, vou começar a postar aqui o que eu estou lendo, e talvez um comentário ou destaques.

Hoje, foi TextEdit and the Relief of Simple Software, no The New Yorker.

Kyle Chayka:

Amid the accelerating automation of our computers—and the proliferation of assistants and companions and agents designed to execute tasks for us—I’ve been thinking more about the desktop that’s hidden in the background of the laptop I use every day. […]

Over the past few years, I’ve found myself relying on TextEdit more as every other app has grown more complicated, adding cloud uploads, collaborative editing, and now generative A.I. TextEdit is not connected to the internet, like Google Docs. It is not part of a larger suite of workplace software, like Microsoft Word. You can write in TextEdit, and you can format your writing with a bare minimum of fonts and styling. Those files are stored as RTFs (short for rich-text format), one step up from the most basic TXT file.

I trust in TextEdit. It doesn’t redesign its interface without warning, the way Spotify does; it doesn’t hawk new features, and it doesn’t demand I update the app every other week, as Google Chrome does. […] Each encourages you to adapt to a certain philosophy of organization, with its own formats and filing systems. But nothing has served me better than the brute simplicity of TextEdit, which doesn’t try to help you at all with the process of thinking. Using the app is the closest you can get to writing longhand on a screen. I could make lists on actual paper, of course, but I’ve also found that my brain has been so irredeemably warped by keyboards that I can only really get my thoughts down by typing […]

We users have learned that cloud-based apps and digital platforms are more likely to surveil us, mine our data, and manipulate our attention than to provide us the precise content and services we seek […]

Acho que esse relato de como Chayka usa o editor de texto (e como interage com um desktop) me ajudou a entender porque eu acho que nenhum outro dispositivo — celular, tablet, nada disso — consegue capturar: a ideia de que o computador é uma “bicicleta para a mente”. Usar programas que lidam com arquivos, que nos pedem para organizar e catalogar eles nos fazem pensar na nossa própria organização — eles nos deixam responsáveis pelo nosso próprio pensamento, pela forma como estruturamos ele e a forma que criamos sentido.

Um celular, ao contrário, quer moldar sua organização para a abordagem de um app específico. Olha como a gente adapta nossos pensamentos para as limitações do app de notas que usamos, por exemplo, ou como as limitações na hora de organizar a tela de início de um celular não nos permite criar sentido na forma que operamos o dispositivo, diferente de como organizamos (ou não organizamos) nossa área de trabalho no computador.

Agora

Uma coisa que eu sinto muita falta nos meus dias com a Vivi é a sensação de que ela adorava estar pertinho de mim.

Quando eu ficava trabalhando no escritório, a Vivi gostava de ficar deitada em algum lugar perto dos meus pés — de vez em quando ela até se apoiava neles, e eu tinha que ficar com o pé parado, dobrado, pra não atrapalhar o sonho dela. Quando eu saía pra pegar uma água ou um café, ela ia atrás, e depois voltava comigo. De noite, ela ficava comigo enquanto eu assistia um filme. Ela me acompanhava pelo pátio enquanto eu caminhava depois do trabalho. Ela tava sempre por perto.

Tava pensando nisso agora há pouco enquanto eu estava na cozinha e o Tobias ficava deitado no sofá. Não tô comparando o afeto de um cachorro pelo outro, mas mais um comportamento. Tobias precisa saber onde eu estou — ele levanta a cabeça quando vou de um lugar para o outro — mas ele não precisa estar perto de mim o tempo todo.

São companhias diferentes. As vezes eu sinto uma saudade imensa da companhia da Vivi, mas não é justo eu ficar cobrando do Tobias. Ele é diferente.

O apogeu dos anos 90

Vai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas esse post do Chris Collins bateu forte em mim:

Most folk didn’t really care about technology. They had a few things like a CD player, a games console or a phone that just worked to call and maybe text. You bought it, you owned it, and everyone kind of accepted it would die eventually. […]

Photos were just… photos. […] You took one because it mattered.

[…] You waited for stuff and nobody lost their mind about it. Waiting was normal.

People worked hard, but it usually meant something tangible. You could point at it and say “I did that”. Not just emails and meetings and vibes. […]

Me lembrou de duas coisas: uma fala em Matrix, quando Morpheus explica pro Neo que a Matrix é uma simulação da humanidade no seu apogeu (os anos 1990). Também me lembrou de We Used To Wait do Arcade Fire pro álbum The Suburbs (um disco sobre os anos 1990, inclusive).

Eu vivi a segunda metade dos anos 1990, e concordo. Até ali por 2009, eu acho que a gente tinha o balanço certo do quanto a tecnologia, ou o digital em si, nos ajudava mais do que nos influenciava. As coisas mudaram com o iPhone.

Eu acho que tinha muita coisa errada naquela época, mas eu acho que as coisas tinham mais peso. Hoje em dia, tudo tem um peso de um post numa rede social — seja a barbárie contra um povo, a violência sexual contra crianças, e o prêmio de música que aconteceu na noite de ontem.

Ter saído do Instagram me ajudou muito a tirar esse efeito esmagador que ele tem de tornar tudo conteúdo. O problema é que muito da vida hoje é moldado por essa experiência. Eu vou num restaurante e ele tem “cenários instagramáveis” para as pessoas criarem memórias. As notícias no jornal tem frases curtas para caberem num post ou para serem lidos num story. É meio desesperador estar de fora mas ainda assim sentir seus efeitos.

Acho que é um caminho, e cada um tem sua própria jornada de volta ao mundo, à grama do jardim, à textura das coisas.

Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria

Via swissmiss:

Authoritarians cannot rise if there are strong communities and people are acting with joy. That is, you need despair and anger in order for an authoritarian to rise. Whatever those things are that you bring to the community, do them and do them with joy, and don’t stop doing the things you love because you’re scared, because that actually is a form of resistance.

— Heather Cox Richardson.

Agora

Tá fazendo uns dias de verão bem da minha infância por aqui nessa última semana. Dias de solaço, mas com uma temperatura gostosa: entre os 23 e os 28°C. Hoje é sexta feita e eu ganhei o dia de folga (o trabalho anda intenso, pra dizer o mínimo). Eu tô comendo uma fatia de melancia bem suculenta na minha sacada, vendo o fim de semana chegar na vizinhança.

A vida tem um jeito de ser linda.