Wiki Loves Earth 2026 no Brasil

A Wikimedia está organizando o Wiki Loves Earth 2026 no Brasil, um concurso de fotografia ambiental para ajudar a registrar e documentar as belezas naturais do mundo. No Brasil, mais de 80% das espécies brasileiras na Wikipédia não têm registros fotográficos, e 40% dos artigos sobre essas espécies não têm nenhuma imagem para ilustrá-los.

A Wikipédia organizou uma página por cada estado para você conferir o que está ao seu alcance para fotografar. Profissionais e amadores são bem vindos. As fotografias que participarem desse concurso precisarão ter uso livre. Segundo a Wikimedia:

Quando você envia uma fotografia sob licença livre, esse invisível ganha forma. O arquivo passa a existir na Wikimedia Commons como dado científico verificável, acessível para sempre a educadores, pesquisadores e cidadãos em qualquer lugar do planeta. Uma única imagem bem documentada pode ilustrar uma espécie na Wikipédia, entrar num estudo de biodiversidade, subsidiar uma política pública de conservação.

Um mapa-múndi que também é um jogo de campo minado

O fim dos jogos pré-instalados no Windows fez florescer toda uma indústria de joguinhos no navegador pra se jogar no trabalho.

Um que eu encontrei hoje foi esse excelente Países do Mundo Sem Fronteiras, em que o mapa-múndi não tem nenhuma linha demarcando as fronteiras. A cada rodada, você ganha o nome de um país e precisa clicar exatamente onde está aquele país no mapa. É como campo minado (meu favorito no Windows XP).

É um jogo que testa tanto o nosso conhecimento geopolítico quanto a precisão que a gente tem com o ponteiro do mouse… eu sei onde fica o Paraguai, mas num mapa desse tamanho como vou saber se tô clicando exatamente onde é o Paraguai, e não o Paraná?

Agora

Nessas últimas semanas o Tobias tem dormido ao meu lado no quarto, e eu comecei a conversar com ele sobre o dia — o que fizemos, onde passeamos, o que eu devia ter feito — até começar a ouvir o som da respiração dele pesar. Tá sendo uma boa rotina, quase que um diário. Gosto de acompanhar ele caindo no sono. É uma sensação gostosa, saber que ele tá se sentindo seguro e confortável a ponto de cair no sono enquanto escuta meu bla-bla-blá.

Encontre sentido

“Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but “steal” some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.”

— Albert Camus em seus cadernos, 1951-1959.

Eu procuro por meu pai na espiral de estrelas de Blue Prince

Rebekah Valentine (Kotaku), em um lindo ensaio sobre o luto sobre seu pai, e o belíssimo Blue Prince:

Quando joguei Blue Prince, não pensei nele como uma história sobre luto. Falando assim, parece estupidamente óbvio. Eu nem considerei isso até que acidentalmente o usei como uma metáfora para explicar meus sentimentos sobre a morte do meu pai ao meu terapeuta. Eu estava explicando a ela o longo processo que passei no último ano de tentar desvendar o mistério do meu pai: quem ele era, por que ele era do jeito que era e por que morreu da maneira triste e estúpida que morreu. As respostas que eu estava encontrando eram chatas, inúteis, deprimentes ou inexistentes. Eu queria que houvesse mais — eu queria que houvesse uma explicação mais profunda, uma ou duas frases organizadas com as quais eu pudesse explicar meu pai para mim mesma que envolvesse tudo em um arco e me permitisse acabar com toda essa coisa de “luto”. Não existe, e nunca existirá. É claro. Mas e se eu continuar procurando um pouco mais?

A história do meu pai não foi feliz. Eu não percebi o quão infeliz tudo era até depois de sua morte, porque ele literalmente nunca falou sobre si mesmo, sua família, sua história ou seus sentimentos. Ele perdeu seu pai por suicídio quando adolescente, suas duas irmãs muito jovens para complicações de abuso de substâncias, e teve um relacionamento profundamente desagradável com minha mãe. Ele foi bom para mim, na maior parte do tempo. Minhas memórias confusas de infância dele são, eu acho, normais, até agradáveis. Ele me levou a jogos de beisebol, inventou músicas bobas para mim, me ajudou com a lição de casa de matemática, me surpreendeu com doces. Mas algum tempo depois que eu saí de casa, ele começou a mudar.

Como Rebekah, eu percebi que Blue Prince era sobre perder muito tempo depois de insistir em “ganhar”. É um jogo sem respostas, mas não sem propósito, eu acho. É profundamente triste em algumas jogatinas, e libertador em outras. Eu acho que justamente isso o faz um registro incrível do que é o luto. Sempre inacabado, muitas vezes triste. Algumas vezes bonito, até. Dificílimo de descrever como é um labirinto que a gente nunca sai, exatamente, mas sempre percebe algo novo dentro dele. É o que fica, e em alguns momentos até que esse mistério é suficiente.

Como curar um coração partido

A newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.

Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:

Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.

[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.

Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?

Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.

As semelhanças entre sua vida e um cachorro

I never intended to have this life, believe me—
It just happened. You know how dogs turn up
At a farm, and they wag but can’t explain.

It’s good if you can accept your life—you’ll notice
Your face has become deranged trying to adjust
To it. Your face thought your life would look

Like your bedroom mirror when you were ten.
That was a clear river touched by mountain wind.
Even your parents can’t believe how much you’ve changed.

Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers,
Burst out of your hand with a fiery glee.
You see them later in hedges. Teachers praise you,

But you can’t quite get back to the winter sparrow.
Your life is a dog. He’s been hungry for miles,
Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in.

— Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)

Em defesa dos navegadores em consoles de videogame

Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.

O primeiro, é esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes.

Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página.

Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em um artigo sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para outro artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É nesse link que está essa pequena anedota de Terence Eden:

Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando.

No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com Candy Crush.

Ou, pelo menos, era o que eu pensava.

Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do GOV.UK sobre Auxílio-Moradia. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento.

O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente.

Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos.

Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. Todo o resto de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível.

É um pouco do que me faz querer que o nosso gov.br fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do gov.br é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima.

Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.

Tenham um fim de semana aconchegante

O tempo tá bem incerto nesse fim de semana por aqui. Não tem um raio de sol no céu, e as vezes parece que vai chover. Até cai uns pingos, mas a chuva não desce de vez. Parece bem um dia de inverno, mesmo que ele não tenha chegado ainda.

Meu fim de semana passado foi muito agitado. Eu me atrapalhei com alguns conflitos no calendário e acabei combinando com vários amigos compromissos que se atropelaram. Mas deu tudo certo, todo mundo foi contemplado, mesmo que tenha sido um pouco corrido. No domingo, quando a última visita foi embora, eu simplesmente desmaiei na cama e acordei atrasado no dia seguinte.

Nesse fim de semana eu vou dar uma descansada. Vou fazer uma janta pra um amigo, mas fora isso eu evitei de marcar qualquer coisa. Minhas pernas ainda estão um pouco cansadas do tanto que eu caminhei durante a semana (foram mais de 50km!), então tá sendo um bom dia pra me perder um pouco em Hyrule (eu estou jogando Tears of the Kingdom de novo) e tentar terminar Metroid Prime 4. Eu finalmente consegui configurar o HDR do Nintendo Switch 2 direito, quase um ano depois.

Espero que o fim de semana seja aconchegante como o meu. Aí vão alguns dos links que colecionei essa semana.

  • Wiki File Explorer: uma forma de navegar na Wikipédia como se ela fosse um diretório no seu Windows XP. Provavelmente vai ser meu link favorito do ano.
  • In Good Hands: um textinho breve sobre quando a gente confia em alguém pra mudar um pouco o nosso modo de ver as coisas. É tão bom quando nos cercamos de pessoas que nos deixam exatamente assim — curiosas.
  • How Writing Lead to Thinking (and Not the Other Way Around): eu tinha essa suspeita e esse artigo basicamente confirma que escrever ajuda a gente a pensar. Eu ando escrevendo muito pouco, e tava dando uma olhada no quanto eu escrevia (e pensava) pro Pão, e sinto falta disso. Acho que vou retomar esse tipo de blog no futuro. Pensando como.

Por hoje é isso, muito obrigado por ler.

Um obituário para o metaverso

Nick Heer é um dos melhores autores que observam a tecnologia. Ele sempre tem opiniões muito bem embasadas que, mesmo quando eu não concordo completamente, me fazem ponderar e reconsiderar minhas certezas. No seu blog Pixel Envy, ele publicou recentemente o que eu acho que é o melhor obituário possível para o metaverso, e as loucuras que empresas como o Facebook, a Epic Games e Roblox fizeram (sem falar projetos como o Decentraland):

It turns out we are okay with having meetings and playing games online, but we actually like seeing live music in-person and travelling to real places. The problems each of these things may have — high costs, environmental impact, and so on — are notable and real, but are not ones with metaverse-based solutions.

The pandemic did not make the metaverse. There was sufficient interest in developing it well before then, and it is possible all of these companies would have announced all these products and services on the same timeline. But in a world without a pandemic, I cannot imagine anyone would have treated these metaverse announcements with anything like the seriousness they did. The pandemic officially ended in the U.S. just six months after the first release of ChatGPT, so it is impossible to disentangle the influence of either. But it is notable to me that the nosedive in mentions of “metaverse” on Meta’s investor calls occurred in Q3 2023 — the quarter immediately following the declared end of the pandemic.

Ele ainda termina com um toque quase esperançoso. Dá pra ver que Heer cresceu vendo a internet florescer. Esse tipo de otimismo é de quem viu protocolos e tecnologias sendo criadas na nossa frente no início da internet:

[…] Whatever that ends up being will probably be the result of people finding something useful and intriguing about doing something different. It will not be the product of big companies redirecting the money hose of platform fees onto themselves.

Recomendo muito o Pixel Envy. É uma ótima leitura toda a manhã.

Três coisas sobre dados

Russel Davies escreveu um texto bem interessante sobre a “soberania dos dados” que parece ser a ruína de muitas empresas (undermanager). Alguns destaques da leitura.

Na introdução ele já elenca o paradoxo que é coletar dados para descobrir o motivo dos negócios não irem bem, e’quando os dados não respondem a pergunta você acaba coletando mais dados, o que te afastam ainda mais de procurar a resposta no lugar certo:

a. Data is a risk. Every bit of data has to be managed/looked after/cared for. That costs time and money. And most of it is useless.

b. Data is distracting. Most of it is just noise. You’re gathering it because you can, just in case, because it seems valuable. Then you spend ages trying to work out what to do with it. When you should be paying attention to just a couple of bits of it and actually doing something about it.

c. It becomes a job. Get enough data and you need data scientists. Then you’re stuck in a self-perpetuating structure that requires more data to feed the data scientists.

E, sobre a distância dos dados reais das pessoas que precisam deles:

The more it gets abstracted away to other teams and other softwares the more dangerous and misleading it gets.

Tem várias vezes na semana que eu me pego pensando que eu sou um incompetente no trabalho porque eu recebo dados do negócio fornecidos por outras pessoas que acham que teria alguma relevância pro meu trabalho, e eu não ver serventia nenhuma naquela informação. É muito frustrante receber informações que te dão ideia de um detalhe muito específico de uma parte da audiência e perder a visão do todo. Eu não desenvolvo pra um setor específico das pessoas que vão visitar um site. Eu desenvolvo pra todas as pessoas que possam visitar um site.

A música tema de Pokémon Ventos & Ondas

Achei lindo o tema de Pokémon Ventos & Ondas, que deve ser lançado em novembro do ano que vem.

Me remeteu muito ao tema de Diamond & Pearl pro Nintendo DS. Quando eu ouvi o tema pela primeira vez eu me lembro de ter ficado curioso porque a música parecia indicar bastante… mistério, de alguma forma? Ventos & Ondas é mais agitada, mas ali no finzinho parece ter uma sugestão de mistério de novo. Como fã de Diamond & Pearl, minha geração favorita, eu é que não vou reclamar.

Eu não joguei Scarlet & Violet porque tudo o que eu vi do jogo me desanimou, mas tudo que eu vejo de Vento & Ondas me anima. Acho que vai ser o primeiro jogo de Pokémon que eu vou jogar de verdade desde o Let’s Go e Legends: Arceus.

Meio absurdo (e desanimador) esse ser o único grande título pro Nintendo Switch 2 anunciado, e o console lançou já faz quase um ano.

Shape of Dreams (ou: eu quero um filme novo do Spike Jonze)

Eu quero poucas coisas na vida. Uma das coisas que eu mais quero na vida, é um novo filme do Spike Jonze, um dos meus diretores favoritos. Ele fez obras-primas como Onde Vivem Os Monstros, talvez o melhor filme sobre o que é ser criança já feito, e Ela, seu último filme — em 2013.

Desde então, eu espero ansiosamente por um novo trabalho dele. Jonze ia dirigir uma série para a Netflix, mas pelo visto o projeto degringolou. Eu não sei porque a Apple TV ainda não ofereceu pra ele um cheque em branco — tem mais de uma série no serviço que bebe tanto da criatividade de Jonze que quase dá pra processar por cópia (Sunny, Mr. Corman).

Enquanto isso, nos resta o trabalho com publicidade dele. O mais recente é Shape of Dreams, que ele escreveu e dirigiu para a coleção de roupas que a Zendaya criou para a marca suíça On:

Como todos os trabalhos de Jonze, suas publicidades também têm essa impressão tão bonita e cada vez mais rara de serem feitas à mão. A ideia é muito simples — Zendaya “molda” as roupas das outras pessoas “puxando” e “apertando” formas ao redor delas, em um jogo de encenação e posicionamento de câmera. Das ideias de Jonze, é uma das mais simples. Mas a execução é um charme, realmente delicada e bem humorada.

É do Jonze também a insana Kenzo World:

E a minha favorita das suas publicidades recentes, a Welcome Home apresentando o primeiro HomePod da Apple. É genial tanto em ideia (uma simplicidade de dar inveja) e execução (maravilhosa, toda em efeitos práticos):

Lá vou eu rever Quero Ser John Malkovich.

Quanto céu tem aqui fora

Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos.

Nós nos levantamos da mesa e vamos ao caixa. Eu insisto em pagar a conta dessa vez. Você finge se irritar, mas me beija na bochecha. A mulher do caixa me olha preocupada, vira o rosto pra você e me olha outra vez.

“Se vocês se separarem, o sonho vai acabar”, ela diz baixinho. Eu não entendo. Não que eu não tenha ouvido o que ela disse, mas eu não entendo o que ela quer dizer. Ela fala mais alto. “Se vocês se separarem”, e olha pra você, “o sonho vai acabar”.

A gente se olha. Você franze o rosto com aquela sua falsa preocupação e pisca o olho pra mim. Eu não lembro de conferir o troco, porque eu só quero chegar perto de você pra sairmos juntos do café. Eu digo bom dia pra moça do caixa e caminhamos, abraçados, em direção à porta.

A manhã está linda. É verão e as roupas são leves. Eu seguro seu rosto com as duas mãos e te beijo. Você me beija de volta, pega minhas mãos e as segura perto do rosto. Você me olha por cima dos nossos dedos entrelaçados. Você sempre encontra meus olhos, acho que foi isso que me fez te amar.

“Até mais tarde”, você me diz, e nossos dedos se desentrelaçam. Você se vira e começa a se afastar. Eu me viro pro outro lado da rua e, também, me afasto. Eu sei que você deu uma olhadinha em mim — sua verdadeira despedida, sempre — enquanto nos afastamos. E aí, tudo começa.

Eu demoro pra reconhecer o som que vem crescendo de longe. Eu percebo que ele é alto e me atrapalha, mas eu demoro para pôr a ideia de que ele existe na minha mente. Meu raciocínio é mais lento que meus olhos, que veem no fim da rua um helicóptero ir direto ao encontro do prédio. A explosão é alta, e as pessoas saem correndo. Umas vão em direção ao caos, e outras correm dele.

Eu fico imóvel, sem conseguir entender o que eu acabei de ver. Todo mundo parece que já entendeu. Um homem sai do carro e corre em minha direção. Eu ouço outra explosão acontecendo em algum lugar, mas não consigo entender de onde.

O homem grita “ei ei ei”, apontando para você. Você também está imóvel, alguns metros atrás de mim, a boca entreaberta e os olhos assustados. Você se acorda do transe feito de pavor e me olha. Seus olhos sempre me encontram, não é mesmo? O homem te chama, e ele repete.

“Se vocês se separarem”, e então bem devagar, “o sonho vai acabar”. Ele te olha, ele me olha. “Vocês entenderam isso?”. Eu quase me ofendo com a sugestão da minha ignorância, mas eu não vou mentir que eu não sei se entendi.

Você segura minha mão, e nos olhamos. E daí eu acho que entendemos tudo ao mesmo tempo. Eu seguro firme em você e saio correndo para longe daquele caos.

Corremos, e corremos. E corremos. Os carros estão todos parados, muitos sem ninguém dentro. Todo mundo fugiu, ou todo mundo foi em direção às explosões que causamos? Eu sei que a gente precisa correr. Você me acompanha, eu sinto o baque dos seus pés no chão ao meu redor.

Quando o fôlego acaba, e a gente chega em uma praça onde as coisas parecem estar mais calmas, eu sento em um banco e olho pra você, que ainda está de pé, respirando fundo. Eu nunca perguntei sobre seu histórico de fumante, mas essa dúvida me passa pela cabeça nesse instante.

“De quem é o sonho?”, você pergunta primeiro. Por um milésimo de segundo eu fico com raiva — eu queria ter perguntado isso, porque eu achei que você sabia a resposta. Agora o peso dessa resposta tá sobre mim, e eu não sei o que dizer. Eu olho ao redor, e não vejo ninguém.

“Eu não sei”, eu digo. “Eu não reconheço esse lugar, e você?”

Você caminha em círculos, olhando os arredores. “Eu não sei. Eu tenho a impressão de que conheço, mas eu não sei onde a gente tá. Faz sentido?”

Nada faz sentido, a raiva cresce um pouquinho. “Como que a gente vai saber quem tá sonhando?” eu pergunto. Você se belisca. Eu me belisco. Parecia fácil demais. É óbvio que não funciona.

“Onde a gente tá?”. É estranho. Instantes atrás eu achava que sabia onde eu tinha que ir. “Agora parece que eu não reconheço onde a gente tá”, eu digo. “Eu achava que sabia até pouco tempo.”

Você percebe a mesma coisa. Me olha com sua cara confusa — que coisa mais fofa. “Onde é que eu tinha que ir?”

Parece que a gente está nessa praça por muito tempo quando você senta do meu lado e me fala as palavras mais bonitas do mundo. “Acho que a gente pode fazer o que a gente quiser, não acha?”. Eu vejo seu olhar se abrindo pra um sorriso quando eu levanto o rosto e te encaro.

“É verdade”. Eu seguro sua mão e te levanto.

Você tenta se lembrar onde você mora. Ou onde eu moro. Ou se a gente mora junto. “Eu só lembro que quando eu deito no sofá no fim da tarde, a luz do sol entra pela janela da sala e ilumina os meus pés”, você me explica.

Eu não acho que eu sabia desse detalhe, e meu coração se parte um pouco. Será que a gente não mora junto, então? Se eu tiver dormindo, será que eu te conheço?

Nós estamos passando por um subúrbio cheio de ruas tortas e casas espaçosas, com jardins abertos. “Minha mãe mora aqui”, eu digo de repente, como se isso fosse verdade. A casa dela está ali, logo em frente. Eu bato na porta, mas ninguém atende. A porta está destrancada, então eu entro. Você está logo atrás de mim.

Não existem fotos minhas ou da minha mãe pela casa. Essa poderia ser a casa de qualquer um. Mas eu sei que é a casa da minha mãe — eu sei exatamente onde está o banheiro e te explico, porque você precisa usá-lo, que a descarga é demorada. Eu te peço pra não trancar a porta. Quando você me pede um motivo, eu respondo que eu tenho medo que você desapareça.

Eu ouço você puxar a descarga e a lavar as mãos. Um alívio percorre meu corpo quando eu vejo você abrir a porta.

Nós esperamos minha mãe chegar, mas ela não chega. O dia começa a escurecer quando a gente decide sair dali. Você me dá sua mão e caminhamos de mãos dadas pela rua onde nós crescemos e eu sinto que foi assim que a gente se apaixonou.

Nós estamos na beira da interestadual. Muitos carros ainda andam pra lá e pra cá. O sol recém se pôs quando a gente chega no estacionamento em que você se apaixonou por mim. Não tem carros ali, mas a gente ouve os que andam ao longe. Nós descemos o barranco onde a grama ainda é alta e eu me sento onde sempre me sentei quando ia ali com você. Os fachos de luz dos carros pintam seu rosto por instantes.

“Eu sempre gostei de quanto céu tem aqui fora”, você diz, olhando pra cima. É verdade. O céu vai até muito longe. Não tem nenhum prédio a vista. A estrada vai de um horizonte ao outro. O céu é gigante nesse lugar. O azul ainda não é preto, mas o sol não tá mais no horizonte. É a última luz que a gente vai ver.

Você não me olha quando você fala nossos medos.

“Eu não quero acordar e ver que você não tá comigo”.

“Eu também não”.

“Eu tô com medo de acordar e perceber que a gente nem se conhece”.

Eu penso. “Se a gente não se conhece, onde a gente se viu?”

Você me olha. Até no escuro, você me encontra.

“No trem?”

“No banco?”

Você sorri. “Ou quem sabe no café?”

“Eu acho que eu teria sorrido pra você no café”

“Você sorriu”

“Vou lembrar de sorrir de novo, então”.

Eu acho que a gente chegou no fim do mundo caminhando. A gente olha ao redor, e tem um posto de gasolina fechado. Não tem movimento nenhum, mas eu escuto o som do mar. Você também escuta?

“Sim”, você me responde. Mas eu não fiz essa pergunta.

Eu te olho e você sorri. Com uma barra de ferro você quebra a porta de vidro da loja de conveniência. Eu espero pelo pior, mas ele não vem.

Um flash da luz de emergência pisca e ilumina as prateleiras. “Eu tô com fome”, você se justifica.

A gente entra na loja vazia e você procura por algo muito específico nas prateleiras de salgadinho. Eu vou em direção às geladeiras, e ouço o zumbido delas. Meu coração bate forte. Eu sei o que está acontecendo.

Os rótulos das bebidas estão todos em idiomas que eu não sei identificar. Eu pisco e tento decifrar as linhas das palavras do que obviamente é uma Coca-Cola, mas nada na lata é compreensível pra mim. Eu percebo que meu coração desacelerou, e ao perceber isso o desespero bate. A loja de conveniência não é mais a mesma.

Você me dá um beijo e eu me viro pra te ver, mas você não está mais aqui. Minha respiração começa a ficar curta conforme meu medo vai aumentando. Eu lembro do que você me disse uma vez. “Pra lembrar que está sonhando, lembre de olhar para as palmas das suas mãos”. É a última vez que eu ouço sua voz.

Eu tento respirar fundo. O coração vai sair pela boca se eu não fizer isso.

Eu olho para as palmas das minhas mãos. Eu levanto o rosto e consigo perceber o sonho derretendo ao meu redor. As lojas ao redor começam a desmoronar e os carrinhos de supermercado começam a derreter. Eu volto a perder o fôlego.

Eu sinto a textura do lençol da minha cama, que eu escolhi a dedo. O peso da minha cabeça no travesseiro. Eu ainda sinto que o coração vai explodir e o pulmão não vai aguentar. Por um breve segundo, eu abro os olhos e esqueço onde está a porta do quarto. Eu mudei a posição da cama essa noite, por acaso?

No canto do meu olho eu enxergo a silhueta coberta pelo lençol. Eu a observo com cuidado, com medo do coração se partir. Eu me recuso a puxar a coberta e descobrir a verdade.

Long Grass

Do álbum Will Butler + The Sister Squares:

In the long grass, in the long grass
By the train tracks, by the train tracks
Waiting with nothing in my hands
Losing your voicе against the wind
Across my face the flow of timе
My shadow slowly fill the night
I found it fading in my mind
The final place I feel alive
Let me stay, let me stay, let me stay
Oh, let me stay here

Links pra essa quinta-feira, 30 de abril

Aqui vão alguns links bacanas pra explorar no feriado:

  • Linha do tempo da Artemis II em fotos: criada por Hank Green graças à informação pública na web. O Flickr preserva os dados EXIF das fotos que a NASA publica em suas contas por lá; e a própria NASA tem uma API pública para a posição da Orion em qualquer momento no intervalo de tempo da missão. Tirei um papel de parede daqui.
  • Cursor Camp: o meu tipo de MMO. Um parquinho para você dar um tempo com outros cursores ao redor do mundo. É surpreendente a quantidade de atividades bacanas que tem por lá, eu até fiz um gol numa partida de futebol e caí de um tobogã.
  • Quem são os amigos inesperados em sua vida?: belíssimo texto sobre uma amizade que surgiu através da rotina e do convívio com um vizinho. Muitas das minhas amizades pós-faculdade vieram assim. O poder que um “oi, bom dia” todo dia cria através do tempo é mágico.
  • rip.so: um “obituário para coisas da internet”. MSN, Orkut, Google Reader… todos tem um textinho que celebrou o que essas coisas trouxeram, e o que o fim delas levou da internet. GeoCities, meu tão adorado, é um deles.

Sugestões: Arquitetura & Decoração

Neal Wittington, em Present & Correct:

Na Alemanha, no fim de semana, vasculhando um mercado de pulgas em busca de coisas para a loja, também encontramos um livro de projetos/planos para casas modernistas. Publicado em São Paulo em 1956, abaixo digitalizamos alguns favoritos.

As ilustrações são lindas. Me lembro de encontrar algumas casas e prédios assim. Com o tempo elas foram ficando mais e mais raras. Aqui no centro de Porto Alegre ainda tem um prédio que mantém esse estilo, mas é um dos poucos que resiste à ditadura do concreto da Melnick.

Ilustração de casa modernista térrea com garagem de porta rosa, telhado inclinado com ripas de madeira e base em pedra irregular. Caminho de lajotas até a entrada, onde duas pessoas conversam sob uma marquise sustentada por pilar em V, com árvore grande ao lado.
Ilustração de prédio modernista de três andares com faixas horizontais coral e painéis amarelos nas laterais, caixa d'água cilíndrica no topo. Duas escadarias triangulares levam a portas de entrada distintas no térreo, com arbustos e árvore pequena à esquerda.
Ilustração de casa modernista com segundo andar em balanço sobre pilotis, fachada de vidro e brises de madeira. Três pessoas na varanda superior, outras no pátio e à porta térrea. Carro antigo à esquerda, piscina em primeiro plano, mata ao fundo sob céu estilizado em azul.
Ilustração de prédio modernista de múltiplos andares com fachada em faixas horizontais amarelas e brancas, sustentado por pilotis sobre base de pedra. Torre cilíndrica azul com nervuras verticais ao centro abriga a escada. Carro azul antigo estacionado à direita, pessoas caminhando na entrada.