Amizade e sentido

Carol (um monstro peludo e gigante) e Max (um garoto de 10 anos) se abraçam em meio a flores laranjas.
“Onde Vivem os Monstros” de Spike Jonze, 2010.

Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.

No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.

Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.

Qual é o sentido de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.

Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.

Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.

Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.

Ninguém sabe por que os preços do Nintendo 3DS dispararam

Provavelmente por ser o melhor videogame de todos os tempos? O New Nintendo 3DS/2DS é capaz de rodar todos todos os jogos de consoles da Nintendo até o N64, e todos os jogos de consoles portáteis da Nintendo. Eu não largo o meu de jeito nenhum. E o sistema é tão gostoso de usar. Lembra quando a Nintendo fazia interfaces que nos deixavam felizes?

As cinco melhores coisas de 2025

Um elefante está sentadinho, olhando o pôr-do-sol. As nuvens formam
Ilistração por Raul (@raulranma)

Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 elas foram publicadas no Pão com Mortadela a do ano passado no meu blog pessoal. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no Irrelefante.

Eu vou mudar um pouco como essa lista é pensada esse ano. Ao invés de só considerar lançamentos, a lista desse ano também terá minhas descobertas favoritas. É uma mudança que ajuda a refletir como minha dieta cultural tá mudando com o tempo também: as vezes eu só consigo jogar um jogo anos depois dele ter sido lançado, ou vejo um filme décadas depois, explorando alguma recomendação antiga que recebi de alguém. Principalmente, eu descubro músicas favoritas lançadas antes mesmo de eu nascer, e raramente leio livros lançados no ano atual. Abrindo a lista para descobertas me permite escrever sobre meus livros favoritos do ano, e refletem melhor como eu escuto música ultimamente.

Talvez a mudança seja sentida menos em listas de filmes e séries, por exemplo. Boa parte da minha dieta cultural no cinema e na TV é de lançamentos, mas não se surpreenda se um filme dos anos 1940 ou uma série que você viu há muitos anos começar a aparecer nessas listas com o tempo.

Lembrando: embora o melhor de cada categoria seja destacado, as outras quatro recomendações estão em ordem alfabética.

(Meu muito obrigado ao Raul (@raulranma pela ilustração no topo desse post. Eu sempre peço as artes de última hora pro Raul e ele sempre arrasa, mesmo no prazo apertado. Ano que vem vou fazer diferente, Raul! Eu juro!)

Eu espero que você goste das sugestões e que essa lista te ajude a descobrir coisas bacanas em 2026. A gente se vê por lá.

O filme:

A nova obra-prima de Jafar Panahi, e talvez seu melhor filme para começar com a carreira do diretor até aqui. Um lindo exemplo de como o cinema iraniano emprega uma poesia visual que cinema nenhum do mundo consegue se equiparar, essa pequena história de um grupo de pessoas que acham que encontram seu torturador e discutem o que devem fazer com ele é assombroso — literalmente, seu final me assombra até hoje, por tudo o que ele não mostra e por tudo o que ele indica.

E também:

  • A Hora do Mal (Zach Cregger, 2025). O evento cinematográfico do ano para mim. Uma conquista ousada na direção, Zach Cregger tem o público na palma da mão enquanto navega pela vida de pessoas desesperadas tentando entender o que aconteceu com elas e com as crianças que desapareceram. A virada de faca no estômago no último ato é tão magnífica que quase ofusca as duas horas de perfeição que vieram antes dela.
  • Uma Batalha Após A Outra (Kelly Reichardt, 2025). Eu não estava esperando um filme tão tópico de Paul Thomas Anderson. Ele entrega um de seus filmes mais ousados, um filme de ação em que o motor é o amor de um pai por uma filha, mas que deixa pelo caminho histórias de revoluções implodidas e arrancadas das mãos das pessoas. É desesperador de assistir, mas tem um fiozinho de esperança tão lindo no final que traz aquele PTA romântico de Trama Fantasma de volta.
  • The Mastermind (Kelly Reichardt, 2025). Kelly Reichardt observa a pequenez do homem ressentido nesse filme de assalto em que, em um filme mais tradicional, um ex-filho prodígio deveria aprender a lidar com a própria mesquinharia. Não aqui: Reichardt leva o ex-artista, ex-arquiteto, agora-ladrão de Josh O’Connor até às últimas consequências do seu egoísmo, e desfere a ele um último golpe de justiça divina no final.
  • Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025). São poucos os filmes que sobrevivem à própria inspiração quando essa inspiração é o drama de Ingmar Bergman mas Joachim Trier consegue ao não confundir inspiração com emulação. Esse não é um filme bergmaniano, mas um filme que, como os de Bergman, se preocupa com as emoções mais ocultas, aquelas que nós fingimos que não sentimos, que escondemos sobre nossos outros sentimentos porque seria doloroso demais mostrar a saudade ao invés da raiva, ou a solidão ao invés do amor. Valor Sentimental é um filme que respira, que vibra, e que sente.

O jogo

As vezes, bem raramente, aparece um jogo como Despelote que consegue alcançar o que eu imagino que seja a ambição máxima de um game designer: de permitir que você sinta uma experiência além da sua própria vida através de novos olhos. Em Despelote, é a sensação de orgulho nacional quando a seleção de futebol avança para uma nova etapa na Copa do Mundo. Despelote é todo sobre o amor pelo futebol, pela forma como esse amor move sonhos e cria comunidades. É um jogo que me faz querer estar junto das pessoas, de sentir com elas, de tirar os calçados e sentir a textura do chão. Um dos melhores jogos que eu já joguei.

E também:

  • Blippo+ (Panic para Nintendo Switch, Playdate e PC). Uma das experiências mais mágicas que eu já tive foi ir visitar uns amigos dos meus pais que viviam em outro lugar e, numa noite mal dormida, ficar navegando na TV por canais estranhos, muito longe dos habituais 5, 7, 10, 12 e 14 da TV da minha casa. Blippo+ traduz essa experiência para um jogo, e traz de volta um pouco daquela TV feita na marra, de programas feitos por universidades regionais e colocados na TVE no meio da semana. É tudo tão estranho e tão lindo.
  • Blue Prince (Dogubomb para PlayStation, PC e Xbox). Antes de Despelote tomar o primeiro lugar, Blue Prince foi meu jogo do ano. Um mistério sobre como chegar na última sala de uma mansão com determinadas regras, me lembra muito de um outro jogo que eu amo e que é organizado proceduralmente, Dear Esther. É ótimo se sentir perdido nos corredores de Blue Prince.
  • Metroid Prime 4: Beyond _(Retro Games para Nintendo Switch). Insuportável o discurso ao redor do quarto _Metroid Prime, mas esse é o legado do primeiro jogo da série, uma perfeição que até hoje pouquíssimos jogos conseguiram alcançar. Beyond não chega nos altos do primeiro Prime, mas é um jogo de ação e exploração como poucos — explorar Viewros através dos olhos de Samus é uma das experiências mais bacanas que eu já tive, e o maior motivo hoje para ter um Nintendo Switch 2. É um jogo belíssimo.
  • To a T (uvula para PlayStation, PC e Xbox). Estranho, no melhor sentido em que um jogo pode ser estranho. To a T é um belíssimo jogo que consegue traduzir para a jogabilidade a sensação de ser estranho em uma situação, de não conseguir fazer do jeito que outras pessoas fazem. Nunca vi um jogo explorar as diferentes capacidades humanas na jogabilidade. Que bom que esse charme de jogo tem um olho apurado pra isso.

(Richard MacManus). Virou leitura obrigatória pra mim: de vez em quando, Richard MacManus publica uma cápsula do tempo para a internet que eu cresci. Ele já escreveu sobre como os blogs apareceram e cresceram. Como o RSS se formou. Como o Last.FM capturou algo quando as pessoas começaram a compartilhar o que ouviam. Ele chegou em 2003 agora, o mesmo ano em que eu comecei a usar o computador sem supervisão dos meus pais. Ele provavelmente não vai escrever sobre o Exchange do The Sims 2, mas acho que logo mais chegam os fóruns. Um momento na internet que eu presenciei, que eu participei e que eu adorei. Será que ele vai falar do Orkut também? Lembra quando a internet nos fascinava ao invés de nos ressentir? Esse espírito ainda existe, Cybercultural está me ajudando a reencontrá-lo.

E também:

  • “21 Facts About Throwing Good Parties” (Uri, Atom Bits). “Festas são um serviço público” é uma constatação que mudou um pouco a forma como eu vejo o porquê de eu gostar de receber meus amigos, de ver eles socializando, de estar feliz em ser uma boa casa para eles. Além de ser um ótimo ensaio sobre como uma festa presta um serviço à sociedade, traz dicas genuinamente boas para tornar as suas melhores (em resumo: faça as pessoas andarem pelo espaço).
  • “Notas sobre zumbis” (Aline, Le chouchou). Le chouchou é uma pérola. De vez em quando, Aline escreve sobre o ofício de ensinar uma língua nova. As vezes, ela aponta uma curiosidade sobre como a língua francesa evoluiu com o tempo. Nesse, ela observa a figura dos mortos-vivos, e encontra a comunhão que temos em como enxergamos a mortalidade e a saudade. Le chouchou sempre emociona.
  • Ringtones and Customization: Summer Yapfest 2025 (Never Post). Outra cápsula do tempo, esse episodio do Never Post, meu podcast favorito, é sobre como a gente podia personalizar tudo: de capinhas removíveis dos celulares a fundos na página do MySpace. Onde foi essa possibilidade de fazer as nossas coisas serem nossas? Como sempre, Never Post é revelador, divertido e um pouco triste demais. Bem como o fim do ano.
  • “You’re overspending because you lack values” (Sherry Ning). Venha para uma análise de como trocamos afeto por consumo. Fique pela resenha belíssima de A Viagem de Chihiro.

A música

(Anna von Hausswolff, do álbum ICONOCLASTS). Eu descobri ICONOCLASTS por acaso: lendo alguns comentários no Stereogum, pessoas estavam suplicando para que o autor de um post desse uma ouvida no novo álbum da sueca Anna von Hausswolff. Ainda bem que sou xereta e fui conferir, porque é um álbum transcendental: a música de von Hausswolff é imensa — uma composição de orquestra sinfônica, para traduzir a grandeza e a pequenez de seus pensamentos. A dobradinha “The Beast” e “Facing Atlas”, que abrem o disco, escancaram a metamorfose da grandeza de sensações que parecem que vão nos consumir em sentimentos que precisamos deixar passar.

E também:

  • “Left For Tomorrow” (Perfume Genius, Glory). É estranho como sentimentos e pensamentos podem ficar muito tempo na minha cabeça, sem nunca deixarmos eles respirarem, assumirem um pouco o nosso ponto de vista para que a gente possa sentir e pensar neles. “Left For Tomorrow” é uma música que parece um desses pensamentos: ela não começa e nem termina, é como se a gente só conseguisse apreciar um momento da música do excelente novo álbum do Perfume Genius antes dela voltar para o fundo da mente. Me lembrou de quando eu era pequeno, e eu viajava com meus pais para visitar os parentes e cochilava olhando para a janela, e ia acordando de vez em quando — as vastidões do pampa aparecendo e desaparecendo enquanto eu abria e fechava os olhos. Que música linda.
  • “Love Theme from the Robe” (Yusef Lateef, Eastern Sounds). Eu comecei a ouvir essa música muito antes de eu encontrar ela. A gente tava subindo uma das muitas escadarias de Valparaíso quando eu comecei a ouvir ela saindo de algum lugar. Conforme a gente seguia na rua, eu encontrei: um pequeno antiquário com um senhorzinho sentado numa cadeira de praia no fundo da loja, com o disco de Lateef tocando no vinil. O chiado era a maior parte da música, mas de alguma forma tudo isso parecia perfeito. Eu coloquei muitas vezes ela pra tocar depois desse dia, só pra lembrar desse momento perfeito que eu vivi.
  • “Minas Geraes” (Milton Nascimento, Geraes). Geraes provavelmente foi minha trilha-sonora do ano. O épico do interior do Brasil que Milton Nascimento fez no fim dos anos 1970 é genial. Sua música final, “Minas Geraes”, é uma música imensa: ela contém uma vida inteira, de um país inteiro. Ela usa toda a voz de Milton, para cantar todas as canções possíveis. Dá pra sentir o tempo passando ao nosso redor.
  • “Ruminating” (Lilly Allen, West End Girl). Nenhuma experiência é única mesmo. Eu já ouvi, senti, pensei muitas das coisas que Lilly Allen descreve no seu escandaloso disco novo. “Ruminating”, que transfere todo um fluxo de pensamento para uma música, sem edições, é cru e cruel para a própria protagonista. É quando ela faz graça dos seus próprios sentimentos. Nunca é mais doloroso, nem mais honesto, do que nesse momento.

A série

Foi um ano sensacional para a TV, daqueles que é difícil de escolher quais cinco séries eu vou escolher pra colocar na lista de fim de ano, e qual das cinco eu vou destacar. Eu bambeei durante o ano, porque teve muita coisa boa, mas ninguém tirou o reinado de Ruptura, que veio lá no início de 2025 e assombrou todo o meu ano.

Três anos depois da primeira temporada, eu tava curioso pra ver se Ruptura ia conseguir ser a série estranha mas apaixonante que foi em sua segunda temporada. Segundas temporadas são, eu acho, as mais difíceis de acertar: você precisa entender o que as pessoas gostaram na estréia, mas também precisa “explodir” a série para permitir que ela cresça para além da premissa original. E “explodir” é exatamente o que Ruptura faz em sua segunda temporada, e eu não tenho ideia de como a série vai seguir em frente quando voltar para seu (já confirmado) terceiro ano. O que importa aqui é que Ruptura conseguiu: pegando exatamente do gancho de onde paramos, a série se contorceu e se transformou em uma visão ainda mais madura e assombrosa da relação do ser humano com o trabalho — e encontrou, ali no meio, uma história de amor assombrosa de tão trágica. Nenhuma outra série esse ano foi tão bonita, tão audaciosa, e tão emocionante. Mas não foi por falta de tentativa.

E também:

  • Hal & Harper (minissérie, MUBI). Queria que não fosse uma minissérie, mas é uma pérola — Cooper Raiff cria uma das poucas históricas que conseguem enxergar como é difícil ser filho, de navegar pelas frustrações e expectativas de seus pais, mesmo quando crescemos.
  • Andor (2ª temporada, Disney+). Eu duvidava que iam conseguir, mas o segundo ano de Andor superou a já incrível primeira temporada, e é a melhor história do universo Star Wars, a ponto de ter estragado todo o resto um pouquinho. A gente se contentava com pouco. Andor entregou uma das visões mais didáticas sobre como o fascismo vence, e o custo que é revolucionar.
  • Pluribus (1ª temporada, Apple TV). Eu acho que todo mundo já viu Pluribus, mas se você não viu, eu não quero estragar a maior surpresa que você vai ter nesse ano. Eu não te duvido que ela seja a melhor série do ano na segunda temporada — é muito bem escrita, dirigida, montada e, principalmente, atuada. O tipo de série que a gente quer ir pro escritório conversar sobre com os colegas no dia seguinte. Nem parece feita no nosso tempo.
  • The Pitt (1ª temporada, HBO Max). Outra série que parece vinda de outro tempo: uma mistura de 24 Horas com Plantão Médico. Eu não sabia que eu queria algo assim, mas fiquei tão feliz que The Pitt entrega. Tem a crueza, a intensidade e a emoção do clássico drama médico; mas é nova, empolgante e audaciosa com sua estrutura narrativa. Louco pra ver a segunda temporada que estreia no início de 2026.

John Gruber sobre a existência dos cinemas

John Gruber, no Daring Fireball, comentando sobre a compra da Warner Bros. pelo Netflix:

The LA Times article goes on to cite concerns from the movie theater industry, based on Netflix’s historic antipathy toward theatrical releases for its films. Netflix is promising to keep Warner Bros.’s film studio a separate operation, maintaining the studio’s current support for theatrical releases. I hope they do. I grew up loving going to the movies. I still enjoy it, but the truth is I go far less often as the years go on. Movie theaters shouldn’t be a protected class of business just because there’s so much affection and nostalgia for them. If they continue sliding into irrelevance, so be it. That’s how disruption, progress, and competition work.

Eu acho tristíssima essa observação, porque ignora o aspecto cultural do cinema como um espaço de comunidade, de acesso à arte na forma mais apropriada pra experimentar ela. Se eu posso ver um filme no Netflix, e o Netflix faz mais dinheiro que uma sala de cinema, o Netflix é mais bem sucedido em exibir aquele filme? É como argumentar que, agora que eu posso olhar pra Mona Lisa na Wikipédia, o Louvre não tem mais razão de existir.

Os benefícios de desistir

Molly Glick, na Nautilus:

O otimismo tende a estar fortemente ligado à abertura de uma pessoa para revisar um objetivo para melhor ajustá-lo às suas habilidades e recursos. “Esses achados indicam que a flexibilidade na busca de objetivos tem mais probabilidade de emergir quando os indivíduos se sentem seguros, exibem regulação estável e possuem resiliência emocional”, observa o artigo.

[…] Desistir de objetivos foi significativamente ligado à redução de estresse, ansiedade e depressão, por exemplo. E adotar novos objetivos foi fortemente associado a alto funcionamento social e físico. Encontrar novos objetivos também veio com benefícios de moderados a grandes para o funcionamento psicológico, senso de propósito na vida, satisfação e crescimento pessoal.

O artigo nota que ainda não há uma “medida de persistência” que possa ser considerada saudável antes de desistir de um objetivo. Lendo esse texto me fez lembrar que alguns dos momentos que eu estive genuinamente feliz foi quando eu decidi parar de insistir em uma coisa e replanejei minha rota pra outra. Tava precisando ler isso hoje.

Você e seus amigos blogando

altered0:

something about how informal blogs sometimes work like diaries but better because you don’t get as overexcited and stressed about starting a whole new thick book you have to fill up nicely. instead it’s just you and your friends and you’re all in this infinite world together and it’s never empty and never full and you can add whatever you’d like to it

Agora

Eu comprei um fone de ouvido essa semana que, além de conectar com Bluetooth, também tem a opção de conectar com um bom e velho cabo de áudio de 3,5mm, e isso honestamente mudou minha vida.

Eu usava um fone JBL que só se conecta através do Bluetooth, e isso me dava uma pequena incomodação todo dia, que eu precisava desemparelhar o fone do meu celular para conectá-lo no meu computador de trabalho. Ou quando eu queria usar ele no Switch, que eu precisava desemparelhar ele do computador de trabalho, e por aí vai.

O cabo é tão versátil que eu tinha esquecido como era essa liberdade. Eu tiro ele do laptop e coloco no Switch e, se eu quero sair para correr escutando um podcast, eu posso só desconectar o cabo e ligar o fone e plim, o meu celular já está emparelhado com o fone. Simples assim.

Faça alguma coisa

If you want to make a game, just make something, anything is fine. Don’t make something too big, just complete something small that’s playable. Even if you encounter difficulties, solve them through research and ingenuity. Make adjustments to make it more enjoyable. If possible, have others play it and see their reaction. Make several games, this steady repetition builds the foundation and deepens your understanding.

I think that what I think is fun about playing a game or moving is a training in life. There may be no waste of anything that feels fun.

— Masahiro Sakurai, via nintendocafe

Balu

O Balu no gramado do quintal dos meus pais em 2010. 2010.

Uma parte de mim tava genuinamente curioso pra saber como a notícia ia chegar. Eu estaria lá pra presenciar — como estive com a Delinha, a Duquesa, e a Vivi —, ou eu saberia por telefone, como foi com o Ió? Quem me daria a notícia, meus pais ou o veterinário? Seria num dia de sol, ou num dia de chuva? Seria triste e violento, ou silencioso e em paz?

No fim, foi por telefone. Eu recebi a notícia duas vezes. Na primeira, foi minha irmã, me avisando que uma notícia triste estava para chegar. Um tempo depois, meu pai me ligou. Lá no fundo, eu já sabia. Mas a delicadeza do meu pai com a notícia me fez chorar. O Balu morreu hoje de manhã, deitadinho na caminha dele, depois de meu pai colocar ele ali para buscar uma encomenda — os soros que eu havia comprado pra ajudar na alimentação, que estava cada vez mais difícil. Quando meu pai voltou, o Balu estava na mesma posição, sem ter se aninhado como ele costumava se aninhar, com as patas embaixo do corpo. Ele tinha quase vinte anos.

Eu me perguntava como a notícia ia vir porque, nos últimos anos, o Balu nos deu vários sustos. Em 2019, ele perdeu todos os dentes. Alguns anos depois, ele iria desenvolver uma alergia à proteína e perderia todo o pelo do corpo, e sua pele ia ficar quase em carne viva. Ano passado, ele desenvolveria uma síndrome vestibular. Eu me preparava emocionalmente para me despedir do Balu em todas essas situações. Mas, algumas semanas depois de cada um desses problemas aparecerem, ele reagia. Se acostumou a comer papinhas, e depois voltou a comer sólidos; a pele melhorou, e seu pelo voltou a crescer, mais bonitinho do que nunca; em questão de dois dias tomando a medicação, ele voltou a ficar em pé e, depois, a caminhar.

Nesse último ano, embora ele tenha perdido a visão, sua rotina era basicamente a mesma — sentia muito sono, dormia bastante, comia bastante, pedia pra fazer xixi, e dormia mais um pouco. Ela só acontecia mais devagar, e mais silenciosa. O Balu ficou cego e, com o tempo, foi parando de latir também. Ele só nos reconhecia pelos nossos sons e pelo nosso tato. Até o final, ele se aninhou em mim do mesmo jeito que ele fez desde filhote, embrulhadinho no meu braço, com a cabeça apoiada.

Não sei mais o que escrever sobre o Balu. Eu escrevi e apaguei vários parágrafos já, mas a verdade é que escrever sobre a vida do Balu seria basicamente escrever sobre a minha — sobre o fim da minha infância, toda a minha adolescência, e o início da minha vida adulta. Balu foi uma constante na minha vida por muito tempo, e eu ainda não sei o que sua partida vai tirar de mim, e o que sua ausência vai trazer. Uma parte de mim está curioso pra saber. A maior parte, porém, tá com medo.

Domingo, quando vi Balu pela última vez, eu tive um daqueles momentos de paz que as vezes nos acomete. Eu sentei na mesa e olhei para o cantinho em que ele ficava em casa, perto da porta de entrada. Mesmo cego, ele estava deitado com a cabeça virada para a rua, o sol da tarde no rosto. Ele respirava fraquinho, mas foi um momento em que meu cérebro só quis aproveitar o presente, sem nenhuma outra preocupação ao meu redor. Por aqueles instantes em que eu vi o Balu sendo banhado pelo sol, olhando para algo, talvez para o nada, eu só pensei nele. Na vida imensa que ele teve — os lugares que ele conheceu, as pessoas que cruzaram por ele, tudo o que mudou ao redor dele —, mas também naquele momentinho em que ele aproveitava o sol, encolhido na sua almofada. Tudo o que eu mais amei nele continuava ali: a personalidade forte que o fez viver a vida do jeito que ele queria, não importa o que nós tentássemos fazer; a força de ter vivido quase duas décadas com os mais diversos obstáculos; e a doçura com que ele se aninhava no meu braço, ou que se aprumava no sol.

Balu domou o próprio tempo. Até o final, esse cachorrinho nunca deixou de me impressionar.

O Balu na minha casa em 2024. 2024.

Agora

Escrevi quase nada essa semana. Acabei deixando uma tarefa grande no trabalho pra perto do prazo, e no fim precisei passar a semana correndo atrás dela. No fim vai dar tudo certo, mas essa sensação de estar atrasado sugou toda a minha energia.