Agora

Esse foi um bom fim de semana, depois de uma semana caótica.

Ontem foi um dia perfeito. Tinha um céu lindo, bem azul, com poucas nuvens. E tava frio, com um ventinho gelado.

Eu amo dias assim. Tem um certo conforto em um dia gelado, mas em que o sol brilha. O cheiro do café da manhã alcança lugares mais distantes. Os sons da manhã são mais macios.

Os sentimentos ficam mais aguçados, e os sentimentos também. Eu saí para levar as roupas na lavanderia, e o dono do bar ao lado da minha casa já estava abrindo o negócio dele. A gente trocou nosso bom dia antes de eu descer a escadaria. Na lavanderia, a mesma coisa. Existe uma calma em manhãs que a temperatura é fria, mas o céu acalenta.

Durante a pandemia, eu pensei muito se aquele tempo ia sinalizar o fim da ideia de “comunidade”, de se sentir parte de uma comunidade no nosso dia-a-dia. Os dias ficaram mais impessoais durante aqueles anos. Usávamos máscaras e saíamos só quando era necessário. Eu morria de medo de não conseguir me aproximar dos meus novos vizinhos por causa disso. Mas é tudo questão de tempo. Em algumas semanas, eu e o dono do bar do lado da minha casa já tínhamos um acordo que nunca foi falado — quando eu chego tarde em casa, nós trocamos um aceno e ele me pergunta se tá tudo bem. O mesmo vale com a moça da lavanderia, e a senhora da padaria. Eu nunca consegui ter uma aproximação com a mulher do mini-mercado perto da minha casa, mas até isso é um conforto (não são todos os que a gente consegue se aproximar nos nossos dias).

Dias assim, que tiram o incômodo do calor que durou quase seis meses nessa primavera e nesse verão, dão mais espaço pra calma. Ou vai ver, como a Bruna me comentou, é a paz inerente da chegada dos 30, em que incertezas se tornam insignificantes porque a vida não nos dá muito tempo — ou vontade — de ficar ponderando decisões não tomadas. Meus vizinhos, as primeiras pessoas que eu vejo no dia (e geralmente as últimas também), continuam ali. Nossos acordos, alguns nunca falados e outros acertados, vigoram.

Esse domingo foi outro dia frio, mas dessa vez foi nublado. É um outro tipo de dia que eu adoro. A manhã começa mais cedo, e dura um bocadinho a mais. O dia demora mais pra começar, e ninguém culpa ninguém por isso. Há um silêncio comunitário no ar — é um dia de pouco barulho, de muito sono. O cheiro do café fica no ar por mais tempo. Os sons abafados, também.

O legado sem limites de Breath of the Wild

Algumas passagens do texto do Lewis Gordon para o The Ringer:

On the one hand, a sense of adventure that has few peers in video games: wanderlust, dread, the sublime, all achieved within a vast, meticulously designed open world. On the other, systems and mechanics that combine in such a way that they both react physically to the player and seem to exist independently of them, alternately inspiring awe and glee and making a virtual setting feel truly alive.

By the mid-2010s, Ubisoft’s icon-filled open-world “map games” (a pejorative term expressing players’ frustration with having to scour a map to find things to do rather than looking at the world itself) had reached their logical extremes

[…]

At their most cynical, these ballooning virtual spaces appeared less like living, breathing worlds than sites to consume ever more content.

Breath of the Wild was born from a crystalline picture: Link climbing a cliff before paragliding to the ground below, moving seamlessly from rock to air, and then, finally, landing comfortably on terra firma. There was more, though: survival and what director Hidemaro Fujibayashi called the “creativity of combination”—for example, lighting wood with fire to create a larger bonfire. The Zelda series, whose game mechanics were usually so precise and predictable, would open itself up to the natural elements. In the process, it would have to embrace a degree of chaos and chance.

Central to the game’s production was figuring out how such a world should behave. After all, a space that lacks consequence, friction, or discord is arguably one without life.

What Nintendo’s game gave Kythreotis, beyond direction about how this mechanic should function, was a sense of belief—not just in himself and Fineberg, but in the player, who with expanded input would become more of a “collaborator in the experience.”

Maybe Breath of the Wild is the Platonic ideal of a type of action game that almost everyone who has ever picked up a controller has envisioned: one in which a lone warrior explores a mythic landscape that responds to their actions in a meaningful way. […] Perhaps because Nintendo operates according to its own set of rules, forgoing the graphical arms race to focus on design, it was able to burrow deeper than anyone else into the systems that bring such a game to life. As Kythreotis stresses, “Zelda is never trying to be a film. It wants to tell its story through systems and mechanics. It embraces video games as a form.”

Agora

Um momentinho que eu gosto depois de voltar do intervalo de almoço no trabalho é escovar bem os dentes e tomar aquele primeiro gole de café.

Mana

Minha mãe tirou essa foto da minha irmã e eu sentados embaixo da árvore que fica no lado da casa em que a gente cresceu. Essa foto já tem quase dois anos, foi tirada em agosto de 2022.

Eu gosto muito dessa foto. Nem eu e nem minha irmã estávamos bonitos nela. Estávamos, os dois, cansados depois de um longo dia de trabalho, e nós dois estávamos na casa dos nossos pais porque precisávamos descansar. Eu estava passando por um momento bem difícil depois de um término. Minha irmã tava a algumas semanas de dar a luz ao Caetano.

Nós dois nos refugiamos no jardim em que crescemos, e eu adoro lembrar desse momento específico. Eu acho, hoje, que foi nossa última oportunidade de sermos “só” irmãos um do outro. Fazia um tempo que a gente não fazia isso. A Mana saiu cedo de casa para trabalhar, e eu fui logo depois, e tivemos poucas oportunidades desde então de estarmos sem outras responsabilidades na cabeça, envolvidos com os problemas de outras pessoas.

Por duas semanas em agosto de 2022 eu corri pros braços da minha irmã mais velha e pedi ajuda dela pra lidar com algo que eu não entendia direito, mas que sabia que ela ia poder me ajudar. Eu fazia isso há vinte anos, quando quebrava um prato ou copo dos meus pais e corria pra minha irmã e pedindo ajuda pra ela ajeitar a situação. Ela sempre dava um jeito. Ela deu um jeito ali também.

Eu gosto de como somos irmãos independentes um do outro, mas eu gosto do nosso companheirismo mais ainda. A gente tem a coragem de se virar sozinho porque sabe que, se não der certo, tem o outro pra ajudar. Só de saber que minha irmã tá a um “mana” e de distância me dá toda a coragem que eu preciso.

Quer um exemplo? Entre os vários apartamentos que visitei, teve um que tava um caos. Mas foi nesse que minha irmã imaginou que, tirando uma parede, limpando uns azulejos, e decorando do jeito certo, ia virar uma casa. Desde então, é a minha casa. A Mana tem esse tipo de visão, esse tipo de coragem. Tendo ela ali do meu lado na hora de tomar a decisão, eu tive essa coragem também.