Poesia é o evento

Ilya Kaminsky em entrevista com Garth Greenwell na edição de março/abril da revista Poets & Writers Magazine (2019):

“Poetry is not about an event. It is the event. Art is the resistance of complacency: It always stands in opposition to numbness. That is why it just doesn’t die, poetry—despite so many death notices. It is always there, waking us up when we get numb, poking us in the eye.”

Via @poetsandwriters.

Minha dieta cultural de janeiro

Eu tô bem contente com esse primeiro mês desde que eu comecei a minha nova “rotina cultural”. Não precisar escolher o que fazer no fim de cada dia liberou muito mais tempo para eu ler, ver e jogar mais. Por exemplo, embora o “dia de ler” seja na terça, o tempo que antes passaria decidindo o que ia fazer na quinta eu acabo usando para ler mais, etc.

Um outro efeito interessante dessa rotina: a pesquisa do filme que eu vou ver, ou do próximo livro que eu vou ler, virou uma diversão. Eu gosto de usar os intervalos do trabalho, ou o meu dia “livre” na sexta, para ler sobre um diretor ou um movimento do cinema que eu quero explorar nas próximas quartas, ou planejar a ida no cinema. É uma empolgaçãozinha que eu não sentia faz tempo. Essa rotina acabou me trazendo aquela curiosidade cultural que eu tinha de volta, e eu tô muito satisfeito com isso.

Enfim. Aí vai um resumo desse início de ano:

  • Filmes: eu corri atrás de alguns dos filmes do ano passado, como Folhas de Outono, Fale Comigo, Anatomia de uma Queda, a restauração de Tempo de Amar e o meu filme de aniversário (e novo favorito!), Segredos de um Escândalo. 2023 foi um bom ano pra filmes!
  • Jogos: pouquíssima coisa nova, eu voltei a jogar Breath of the Wild porque eu sou apaixonado pelo silêncio e a solidão desse jogo, algo que eu sinto falta em Tears of the Kingdom. Eu também dei uma explorada no catálogo do Apple Arcade e joguei um bocado de Outlanders e Japanese Rural Life Adventure. Os dois são joguinhos muito charmosos.
  • Séries: eu comecei a acompanhar a quarta temporada de True Detective, que arrasa (a única temporada boa da série desde a primeira), reprisei as segundas temporadas de The Bear e Somebody Somewhere, e acompanhei a primeira fase de Renascer. Acho que é a novela mais bonita que eu já vi.
  • Livros: eu comecei A Casa de Doces, a continuação espiritual do meu livro favorito (A Visita Cruel do Tempo). Os primeiros dois capítulos são frios demais pro meu gosto, mas logo que Sasha reaparece na história, Jennifer Egan dá aquela imensidão de escopo e emoção na história que atravessa décadas e dezenas de vidas. Ela ainda sabe capturar o tempo, e agora com aquele gostinho da tragédia da promessa do digital. Demorei, mas agora por fevereiro eu engatei nessa leitura.

Agora

Eu ando tendo umas noites sem conseguir dormir nessa última semana, e pela primeira vez nesse quase um ano sem Twitter, eu senti falta daquele lugar.

Não do Twitter em si, mas de ter um lugar em que meus outros amigos que provavelmente estão passando por uma insônia também estejam, para que possamos conversar até um a um cair no sono. Eu até tenho uma conta no Bluesky, mas meus amigos não estão lá — então não tenho ninguém pra comentar o BBB ou o novo episódio de True Detective, por exemplo.

Em noites assim eu sinto falta da companhia das crianças do brilho.

30

Teve um temporal horrível aqui na cidade há uns dois dias. Muitas pessoas perderam tudo, centenas de árvores caíram, a luz e a água começaram a faltar em toda a vizinhança. Mas não na minha casa.

Hoje eu fiz trinta anos, e eu ganhei uma hérnia de aniversário. Eu também ganhei um belo almoço, e (o mais especial de tudo) a certeza de que minha casa é um lar, um abrigo. Nos últimos dois dias, meus amigos se abrigaram na minha casa, onde não falta nem água nem luz. É um porto seguro pra mim e pras pessoas que eu amo.

E foi ao redor delas que eu fiz meus trinta. Foi pequeno e foi gostoso. Teve comida da mãe e do pai. Teve um abraço do Balu, e a companhia da Aldry. A gente ouviu jazz, e eu não senti a dor na perna que eu vinha sentindo há semanas.

Eu fui no cinema com meu melhor amigo e com minha melhor amiga. Eu vi um filme que eu adorei, e eu tomei uma cervejinha no fim do dia. E foi bom. Foi pequeno e foi quieto, como eu espero que essa nova década seja. A paz, eu espero que ela tenha chegado.

História de um site

Shea Fitzpatrick fez um histórico de seu site pessoal, uma galeria que mostra a evolução e transformação de seus gostos e interesses sobre o que fazer com o seu cantinho da internet.

Eu sempre quis fazer algo assim para o meu site pessoal (esse aqui!), mas eu não guardo capturas de tela das várias versões que eu criei pra ele ao longo dos anos. Talvez seja a hora de começar a fazer isso.

(Adorei que compartilhamos o mesmo costume de desenvolver nossos sites no período de uma noite, eu só consigo desenvolver algo pro meu site pessoal ou pro Pão com Mortadela assim).

Agora

Eu tô experimentando algumas mudanças na minha rotina nessa semana. Em 2023, eu senti que passei muito tempo pensando que eu não estava fazendo nada, mesmo que isso não fosse verdade. Acho que essa impressão veio pelo fato de eu parar de fazer coisas que eu gostava e que me faziam bem, como estudar francês, caminhar e escrever.

Não que eu não fizesse esse tipo de coisa, mas eu as fiz sem uma frequência que eu gosto, e geralmente de forma paliativa. Eu sentia que eu não estava fazendo nada, e então decidia “tampar” esse sentimento com alguma tarefa. Porém, eu gosto de rotinas, elas costumam me fazer bem.

Entre 2017 e 2020 eu tinha o hábito de estipular minha rotina usando os lembretes no meu celular. Eu criava uma série de tarefas, estipulava a frequência (diariamente, a cada dois dias, semanalmente, etc.) e um horário. Não tenho ideia do porquê eu parei de fazer isso. Acho que, com a pandemia, minha rotina mudou drasticamente nos menores detalhes. Mesmo assim, eu senti falta dessas tarefas no último ano, então coloquei todas elas de volta nos meus lembretes:

Captura de tela de uma lista no aplicativo Lembretes, com as seguintes tarefas: Caminhar (todas as segundas, quartas e sextas); Ver um filme (semanalmente, às quartas); Ler um livro (semanalmente, às terças); Jogar um jogo (semanalmente; às segundas); Assistir uma série (semanalmente, às quintas); e Estudar francês (diariamente, em atraso).

Além de caminhar e estudar francês, eu decidi estipular o que fazer no meu tempo ocioso nos fins de tarde durante a semana. Eu acho que a minha inquietação ou angústia nos fins de tarde vinham pelo fato de eu não ter algo específico pra fazer; ao mesmo tempo, eu sinto que minha dieta cultural no último ano foi bem rala. Eu raramente encontrava tempo para ver filmes ou ler, só que não por falta de tempo mesmo. Só por desorganização mental, se é que isso faz sentido.

Acho que isso libera um pouco do peso de decidir o que fazer todos os dias (eu amo esse vídeo da Aretha Franklin reclamando do que fazer de janta todas as noites), o que me dá mais tempo pra fazer mais coisas que eu quero fazer. Não necessariamente ser mais produtivo (isso também), mas usar melhor o meu tempo.

Eu estou aplicando essa nova rotina há pouco mais de uma semana. Eu comecei ela no recesso, e por enquanto está indo tudo melhor que a encomenda. Por exemplo, eu não só consegui ler muito ontem, como eu também tive tempo de sobra pra assistir um filminho, já que não precisei ficar matutando o que eu deveria estar fazendo. Foi bem bom! E o livro também ajudou, porque é muito bom! (A casa de doces, de Jennifer Egan).

Mesmo assim, é pouco tempo pra dar alguma impressão definitiva por aqui, mas eu quero ir experimentando com isso nesse mês. Eu quero ver se consigo adicionar Yoga à minha lista de tarefas na próxima semana, é algo que eu sinto falta de fazer. Eu só preciso ver se eu tenho um tempo hábil pra fazer isso. Eu não quero correr o risco de estufar meus dias com coisas e acabar fazendo nada de novo.

As cinco melhores coisas de 2023

Ilustração: Raul Fontoura

Duas coisas que percebi fazendo a lista de fim de ano do Pão em 2023:

  1. Minha dieta cultural esse ano foi bem rala. Um pouco culpa do trabalho. Um pouco culpa de Eventos Acontecendo Em Minha Vida (contas).
  2. Eu desaprendi a escrever. Meu maior norte (conte o que acontece, não o que faz) ao escrever minhas resenhas não acontece nas cápsulas a seguir. Me desculpem, eu estou destreinado.

Eu escrevi pouco em 2023. E escrevi menos ainda sobre cultura em 2023. Não é culpa do que eu vi, joguei, li, ouvi, cliquei, etc. Escrever é terapêutico pra mim, mas muito desse último ano eu me descuidei da minha saúde mental, de desvendar o que eu estou sentindo. Eu também fui perdendo, aos poucos, a vontade de falar o que eu estou sentindo ou o que eu experimentei. É algo que eu quero mudar em 2024, e espero que meus queridos leitores, fieis escudeiros, estejam dispostos — eu estou empolgado para uma penca de filmes que vão estrear nos próximos três meses! Espero que estejam preparados para minhas péssimas opiniões!!

Enfim… não foi um ano ruim. Eu consegui realizar meu plano de assistir filmes majoritariamente no cinema, por exemplo. E de jogar quase todos os jogos que eu quis jogar. Eu tive tempo, e eu tive disposição. Mas eu não sei o que houve, mas na maioria das vezes eu não tinha palavras pra descrever o que eu sentia. É pura falta de prática. Como corrida, que eu também parei na segunda parte desse ano, eu só preciso exercitar um pouquinho mais pro ritmo das ideias voltarem. Eu só preciso me organizar. Eu planejo me organizar. Só essa semana eu escrevi bem mais que meses inteiros nesse último ano! Eu tô empolgado por 2024. Vocês acreditam que o blog vai fazer onze anos? Foi nessa idade que eu aprendi a ler!

O filme

Todo ano eu fico com esse questionamento. Meu filme do ano é a melhor experiência que eu tive no cinema (Barbie)? Ou é o filme que mais me deu material pra pensar (Tár)? Ou é o filme que simplesmente me conectou àquela cinefilia adormecida dentro de mim (Showing Up)?

Assassinos da Lua de Flores não é nenhum desses casos. Mas é o meu filme do ano. O filme que eu saí do cinema sabendo que uma parte de mim mudou, que uma parte de mim nunca tinha visto nada igual. Em parte, porque é um dos meus tipos de filme favorito: parece ser uma coisa, mas Scorsese está fazendo outra. E, quando a gente percebe o que ele está fazendo, o filme se abre na nossa frente. Parece mais um dos seus filmes de gângster, mas Assassinos da Lua de Flores é muito mais. É uma história de amor doentio, de uma ganância monstruosa, da beleza arrancada e perdida dos povos nativos. Tudo isso sob os olhos da melhor atriz de sua geração, com Lilly Gladstone entregando ondas de emoção inteiras através de seu olhar, impenetrável e dilacerante.

Tudo isso. Tudo isso enquanto Scorsese se questiona, o tempo todo e humildemente, se ele é capaz de contar essa história como deveria ser contada. Se ele tem o que é capaz de ver através dos olhos de sua protagonista como ele queria tanto ver. Se ele fez jus à história dela. Nem ele, o grande mestre do cinema ainda vivo, sabe responder. É uma cicatriz que ele deixa à mostra para seu espectador.

E também:

  • Barbie (Greta Gerwig, 2023). Provavelmente o filme do ano? Eu sou fascinado pelo cinema de Gerwig, que com apenas três filmes já tem o que é provavelmente a melhor adaptação de um livro para a tela, e agora esse feito inacreditável de um filme realmente questionador, usando o dinheiro de uma mega-corporação. Na primeira vez que eu assisti, ficava me perguntando como a Mattel permitiu um filme desses. Mas foi na segunda, no natal com minha família, que eu me deparei com o filme muito sensível que existe por baixo do conceito de fachada. Uma dramédia às avessas sobre pessoas não aceitando seu espaço na sociedade, e como elas agem para mudar. Umas se fingem de mortas, outras criam o patriarcado, outras conversam umas com as outras e mudam de pouquinho em pouquinho. Quero que o Caetano cresça com esse filme por perto.
  • Monster (Hirokazu Kore-eda, 2023). Até dezembro, Assassinos da Lua de Flores tinha o meu final favorito do ano. Mas Kore-eda fez o que eu achei impossível: um filme tão bem construído que a mera ideia de um final feliz parece um sonho. Não é só de final que Monster se sustenta, é claro. Talvez o melhor roteiro que eu já tenha visto em tela desde que David Fincher encarou o Facebook, aqui vários pontos de vista se juntam para moldar uma história que eu acharia um crime dar mais detalhes. Grande parte da beleza desse filme tão sensível, tão delicado, está na forma que Kore-eda desdobra-o em nossa frente, com sua precisão estética igualmente sensível. É avassalador, mas também sabe ser belíssimo.
  • Showing Up (Kelly Reichardt, 2022). Não tem nem previsão de estreia no Brasil, mas Showing Up é mais uma obra-prima de uma diretora que nunca fez um filme menos que impecável. Eu escrevi no meio do ano como esse filme parece conversar com uma parte de mim que acredita no processo artístico como uma forma de arte em si. Mas Showing Up não é tão chato: é uma comédia sobre uma mulher querendo fazer arte, mas a vida se intrometendo no meio. E é nesse vai-e-vem de vida e trabalho que Reichardt, com a ajuda de sua grande escudeira Michelle Williams, encontra sua arte. A arte do processo, das pequenas coisas, que se constroem devagar. Que preciosidade de filme.

Tár (Todd Field, 2022). Nenhum filme esse ano me deu material como o novo do Todd Field. Tár é um colosso de cinema, daqueles poucos filmes que tudo reverbera, que é difícil de apontar e classificar. E, ainda assim, é bem claro sobre o que ele quer: dissecar a alma de uma regente no topo do mundo, no seu poder máximo. Quando se tá no topo, porém, o único movimento possível é a queda. E Tár dá tons operísticos à queda de sua personagem título (Cate Blanchett, em uma performance pra vida toda). O verdadeiro filme ruminante — pra ficar mastigando por meses após visto.

O jogo

Eu me debati muito se Mario ou Zelda levariam esse ano, mas foi em uma breve conversa com o Erê, a qual transcreverei abaixo, em que isso foi decidido:

Arthur: É Mario ou Zelda?
Erê: Zelda, né?
Arthur: É, é Zelda.

Significativo, porque Tears of the Kingdom, a continuação do monumental Breath of the Wild, só fez sentido pra mim quando eu compartilhei o controle com o Erê, e nós tivemos algumas das madrugadas mais divertidas que eu tive em anos. Não só pra ver o que é possível de fazer nesse jogo gigantesco, mas também pra poder dividir essa aventura com alguém. TotK é um jogo de se criar histórias — sobre como você subiu aquela montanha, ou como construiu algo para enfrentar aquele quebra-cabeça — e depois contá-las, compartilhar notas e descobertas. É um jogo comunal, como seu antecessor foi, que expande e aprofunda os conceitos de BotW. Nem sempre de maneiras necessárias, mas sempre inesquecíveis.

E também:

  • Cocoon (Geometric Interactive; PlayStation, Switch, Windows, Xbox). Como seus antecessores, Limbo e Inside, Cocoon maneja entrar na sua mente. À primeira vista, parece ser um daqueles jogos que se joga automaticamente, que as respostas para seus quebra-cabeças são fáceis demais, ou lineares demais. Mas é a pura alquimia do próprio jogo: de apresentar seus conceitos tão bem e espaçá-los com uma cadência precisa para fazer você pensar na velocidade que seus desenvolvedores delimitaram. É uma delícia de jogar. De uma fluidez de botar inveja em muitos arrasa-quarteirão por aí.
  • Japanese Rural Life Adventure (GameSTART, Apple Arcade). Obrigado Victor, que me apresentou esse jogo depois de eu (finalmente) aposentar minha ilha em Animal Crossing. JRLA é, acredite, um Stardew Valley aperfeiçoado. Um simulador rural simples, mas charmoso, que me fez perder horas do meu dia enquanto eu tentava coletar bambu o suficiente para construir meu templo. Me fez querer ir morar numa fazenda no Japão, e a me questionar se minhas preocupações são realmente preocupações. Tá aí um novo objetivo de vida.
  • Lil Gator Game (MegaWobble; macOS, PlayStation, Switch, Windows, Xbox). Não foi só Breath of the Wild que ganhou continuação esse ano. Outro jogo seminal dos anos 2010, A Short Hike, ganhou uma sequência espiritual com esse jogo de aventura carismático e delicado. Inspirado em BotW e, de maneiras peculiares, Link’s Awakening, Lil Gator Game é uma aventura sobre um irmão se deparando com uma irmã que cresceu para além de suas brincadeiras de infância. Curtinho e lindo, foi uma boa entrada para o mundo de Zelda antes de Tears of the Kingdom chegar.
  • Super Mario Bros. Wonder (Nintendo, Switch). Esse é o melhor Super Mario desde Super Mario World (e tenho dito!!!), um jogo pingando criatividade e genialidade, imenso sem ser maçante. O único jogo que eu joguei esse ano em que eu cogitei que, talvez, tivesse superado TotK em sua engenhosidade. Em alguns momentos, eu ainda acho que sim. É tão — mas tão — divertido, de maneiras completamente inesperadas, que foi como jogar um Super Mario pela primeira vez outra vez. Que tipo de feito grandioso, e impossível, é esse?

A música

Sabe o que eu mais gosto nos mitos de criação? Como eles dão precisão para os verbos mais complicados. Atos como criar a luz, ou assoprar a vida, são maiores do que a minha cabeça pode compreender. Mas eles trazem essa complexidade inteira com um toque de fascínio, de mágica.

Foi exatamente o mesmo sentimento, de excitação, de presenciar essa mágica primordial que dá vida e que cria sentido, que eu senti ao ouvir The Great Collapse, uma das músicas que Joe Hisaishi compôs para O Menino e a Garça, pela primeira vez. Como ver alguém dobrar um origami na frente dos meus olhos pela primeira vez. Ver algo que eu não sabia o que seria ganhar forma, e então significado. Eu não sei exatamente o que é isso que se cria ao ouvir essa música. Mas ele é real, eu sinto ele no fundo do meu peito. No infinito da minha mente.

E também:

  • A Running Start (Sufjan Stevens, Javelin). O delicado novo álbum do Sufjan Stevens é pra se ouvir de manhã, tomando café. De certa forma, qualquer música dele poderia estar nessa lista (foi, e ainda é, um dos álbuns que eu mais ouvi logo depois de acordar nos sábados). Mas tem algo em A Running Start que me chama a atenção. Talvez seja o lampejo de animação, ou talvez seja porque ela me faz parar e prestar atenção, não só servir como música de fundo enquanto eu lavo a louça do café da manhã. É íntima, como todo Javelin, mas é estranhamente etérea, como uma música ambiente. Entra na pele.
  • Deceiver (M83, Fantasy). O novo álbum do M83 foi a trilha-sonora do meu ano. Deceiver, em especial, me acompanhou em dois dos momentos mais inesquecíveis que eu tive. Muito pelo fato de eu estar ouvindo a música certa na hora certa: o primeiro raio de sol em uma estrada infinita, e Anthony Gonzalez gritando “distance driver” com aquela imensidão musical que ele sabe criar? Foi a minha música do ano até o novo trabalho do Joe Hisaishi aparecer, quase que no último minuto.
  • Madrugada Maldita (FBC, O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta). A batida dessa música, a abertura do disco, é a mais contagiante que eu ouvi em anos. As letras continuam sendo o que menos me impressiona no trabalho de FBC, mas ele trabalha com o som que as acompanha em um espaço todo dele. Madrugada Maldita é uma daquelas músicas que eu não teria problema nenhum se durasse para sempre.
  • One Without (Oliver Coates, Aftersun). Provavelmente a música que eu mais ouvi esse ano, essa faixa da trilha-sonora de Aftersun me ajudou a decodificar o que torna o filme tão eficaz, e algo que eu tentei traduzir nesse texto. É um trabalho fantástico de entender o tom de um filme e transpô-lo para outro meio. É como ouvir a maré de um mar até então silencioso finalmente rugir.

A série

Talvez seja a resposta mais óbvia de se dar, mas também é a única que eu consigo. Misturando o tom farsesco com uma tragédia shakespereana, Succession finaliza com uma quarta temporada que alcança os pontos altos da segunda, e então os extravasa. Seja na perfeição de um episódio como Connor`s Wedding quanto a construção do arco narrativo que desemboca no devastador All The Bells Say, talvez a series finale mais emblemática desse lado de The Leftovers.

Succession sempre foi de difícil classificação. É uma série sobre seres humanos horríveis que, mesmo assim, nos força a ter empatia por suas dores (é o que nos diferencia deles, afinal de contas). É, também, uma comédia de erros, em que herdeiros se provam incapazes de navegar nos absurdos capitalistas que seu pai ajudou a fundar. É uma típica novela das oito, mas também é uma tragédia de como inescapável e destruidor pode ser o legado de nossas famílias em nós mesmos. É tudo isso, e é também uma baita duma série que me faz passar a vergonha alheia mais dolorosa, semanalmente. Vai fazer muita falta.

E também:

  • Alguém em Algum Lugar (2ª temporada, HBO). Já faz muito tempo que meu subgênero favorito da TV são as tragicomédias de meia-hora da HBO (Looking, Togetherness, Betty). Alguém em Algum Lugar talvez seja a melhor delas, e a sua segunda temporada aperfeiçoou os acertos da temporada anterior, expandindo a série em intensidade, e não em escopo. Uma série sobre procurar, encontrar e construir uma comunidade ao redor de si, é um deleite e uma preciosidade, sempre carismática e melancólica (e, quase sempre, as duas ao mesmo tempo).
  • Barry (4ª temporada, HBO). Por toda a sua trajetória na TV, Barry tem sido um joia oculta na programação. É uma comédia, mas não é engraçada. Na maior parte de suas duas últimas temporadas, é até muito depressiva. Mas é única e, se o experimento nem sempre funcionou (principalmente na terceira temporada), ainda assim entregou os episódios mais interessantes dos últimos anos. Unindo o cômico e o doloroso, Barry nunca perdeu o coração humano de seus personagens de vista. Não oferece nenhuma resposta fácil para os dilemas morais de um assassino arrependido, uma atriz arrependida, e um pai arrependido. Mas termina seus arcos com aquela precisão cirúrgica entre absurdo e humanismo em que Barry sempre encontrou algo de muito real.
  • Mrs. Davis (1ª temporada, seu torrent favorito). Que saudade que eu tava das séries de Damon Lindelof (The Leftovers, Watchmen). A estranheza perfeita. A construção de significados cumulativos através do tempo. O drama absurdo. O manejo entre a tragédia e a comédia. Não existem séries iguais às dele. Mrs. Davis, curtinha (vai ser uma antologia daqui pra frente), hilária e emocionalmente dilacerante em igual medida, faz as nossas perguntas difíceis que todo o mundo está com medo de fazer sobre IA. E as faz sem medo de olhar ao redor das respostas, e de questionar aquele belo e se que Lindelof sabe tão bem fazer. Aposta mais alto, e daí aposta mais alto ainda.
  • O Urso (2ª temporada, Star+). Das séries que parecem um milagre por existirem, O Urso mistura a comédia de espaço de trabalho com a tragédia da vida mundana. Todos os seus episódios beiram a perfeição (e Fishes e Forks a encontram), então é uma série boa de recomendar por momentos específicos. Para mim, porém, O Urso brilha pela construção, as vezes quase imperceptível, dos seus personagens. É uma série como as poucas que sabem construir e nutrir significado através do tempo. Seja com um talher, com um prato ou um jogo de olhares. O segredo de uma série que vai longe. Eu aceito, no mínimo, oito temporadas.

Me emociona toda a vez ler o relato sobre a morte da sumaúma. Um apelo à natureza, mas uma lembrança da nossa humanidade, capaz de velar a morte, mesmo daqueles tão diferentes de nós. Eu linkei pra esse texto no início do ano aqui no blog, e eu ainda paro para relê-lo de tempos em tempos.

Também me fez conhecer o site em si, SUMAÚMA, que se transformou em um dos meus feeds favoritos no meu RSS.

E também:

  • Aftermath. Meus escritores favoritos sobre jogos debandaram um a um, o Kotaku nos últimos anos. Foi difícil de acompanhar o trabalho deles desde então, em cadernos de jornais que foram terminados logo depois, ou em sites questionáveis. Um pouco disso porque textos sobre jogos ainda tem muito de publicidade, e o trabalho desse pessoal é questionador e difícil. Outro, porque jornalismo de jogos não é levado a sério, e publicações desistem logo que veem que a comunidade ao redor, geralmente avessa às críticas, tende ao violento. Aftermath segue o exemplo de Defector, e cria algo uma comunidade, sem publicidade, voltado para seus assinantes, e já tem alguns dos melhores textos desde o tempo deles no Kotaku. É bom ter eles de volta.
  • Everything is Alive Presents: The Animals. Pensando seriamente em tornar Everything is Alive um hors-concurs nessa categoria, porque todo o ano eles entregam um dos meus podcasts favoritos. Esse ano, um spin-off entrevista alguns animais sobre suas vidas, e o charme e deleite em encontrar humanidade em tudo continua. Curtinho, delicado e mágico, como sempre.
  • Radio Garden. Minha dificuldade de listar cinco músicas que me marcaram esse ano se deve ao Radio Garden, meu principal meio de ouvir música desde que eu o descobri: eu sintonizo em uma estação de rádio aleatória no mundo (eu ando gostando muito das rádios romenas, por algum motivo?), e fico ouvindo absurdos. Músicas que eu nunca vou ouvir de novo, comentários em idiomas que eu não entendo. Como a Wikipédia, o Radio Garden deixa o mundo grande.
  • The Retrievals. Desde a terceira temporada de Serial, a equipe de produtores e escritores vem trabalhando em minisséries que seguem a mesma linha do podcast-fenômeno: uma história, contada com maestria em vários episódios. Esse método produziu alguns dos melhores podcasts dos últimos anos, como S-Town e We Were Three. The Retrievals talvez seja o melhor até aqui, e o meu podcast favorito no ano. O caso de um crime médico em uma clínica de fertilidade nos EUA é surreal, mas em cinco episódios, The Retrievals torna a dor e a injustiça palpáveis.

É isso! Muito obrigado por esse décimo ano acompanhando esse espacinho na internet. Muito obrigado, especialmente, ao meu amigo Raul, que fez a ilustração de capa do post (e o sanduíche que você vê em todas as páginas desse blog).

Feliz 2024, nos vemos lá!

Ela

Scott Tobias, The Dissolve:

“Dramatizing one man’s love affair with a computer is only slightly less absurd than imagining a portal into John Malkovich’s head, but at a certain point, the whimsy gives way to raw desire and hurt. It’s a deft kind of magic.”

“Call it narcissism, but everyone seeks a partner who understands and appreciates them, and it’s only human that Theodore would fall for an entity that reflects his best image of himself.”

“If there’s a measure of hope to Her, it’s in the thought that we’re capable of learning lessons and evolving—maybe not as fast as Samantha, with her seemingly infinite processing power, but enough to understand ourselves and other human beings better the next time around.”

“There’s comedy in asking a computer how it feels, but the answer feels important, because Samantha has become every bit as real to the audience as she is to Theodore. Her is a reminder of how much love is a melding of psyches, and how the memories it produces can judder and lose resolution once it’s over. Whether it can transcend the body is another question, but the film’s stunning final shot implies an answer.”

História de amor

Postado por Humans of New York:

“Mom died on the first day of school. She’d been really sick that entire summer. And she passed away on a Monday. At 7 AM. Almost exactly the time I’d be leaving for school. I don’t think I fully grasped how traumatic it was for me. I was there when she took her last breath. I comforted my little sister while she said goodbye. And the next week I had to start classes at a brand new school. I was a junior at the time. All the teachers knew what happened. And they had told all the students, so everyone was pitying me when I showed up. I met Alex that very first day. We were in choir together. We became friends almost immediately, but we didn’t start dating until we were both cast as leads in Seussical The Musical. We became more serious during college, and we ended up getting married right after graduation. I felt so sad that my mom couldn’t see any of it. Every time a big event would happen, it would be like-she’s not here. And she’s never going to be here. I was a moody, shitty teenager when she died. And I’m having this whole life where I become the person I’m supposed to be, and she doesn’t get to see any of it. She’s not going to see me graduate. She’s not going to meet my children. And it especially sucks that she’ll never get to meet Alex. We lit a lantern at our wedding to signify that my mom was still with us. It was a beautiful ceremony, and afterwards we took our honeymoon in Hawaii. A few days into the trip, I received a call from my oldest friend Meredith. She sounded excited. She’d just discovered a picture of our childhood soccer team, and there was a boy who looked just like Alex. When I showed Alex the photo, he confirmed that it was him-he’d played goalie on that team. I just started laughing. It was such a God moment. It was a moment when everything felt connected. Alex and I had known each other as children, back when my mom was still alive. The first thing I did was call my dad. I asked him if he remembered anything about the Swan’s Dermatology Soccer Team. ‘I remember the goalie, he replied. ‘During the games he’d always sit down in the net and play with the dirt. And your mother thought it was hilarious!”

Via dontliveinthefuture

Sobre “blogar”

Algumas leituras dessa madrugada foram sobre o ato de escrever em um blog.

Whiona, wiwi blog:

I want to write more frequently about anything and everything, because it’s good for you, and I have so many thoughts constantly assailing this brain of mine

Tim Larew, Complex:

Sometimes it feels like we’ve traded drawn-out storytelling for fleeting moments where the audience bounces from one to the next
[…] The blog era represented freedom and opportunity.

There was no central hub, like a Spotify today, where all the playlists and means of discovering music are organized neatly within the platform. You had to search, to dig! Even when you grabbed a song directly from an artist’s social media, you almost always wanted to know more because context was the norm. So you’d go to your favorite blog, which is what everyone did the night “Acid Rain” surfaced out of nowhere, and you’d get the full story.

I, however, miss going to Blockbuster because it forced me to actively discover, to take in more elements of the art beyond just the film file. Did the cover catch my eye? How about the description on the back? Did it rope me in? Was the film I wanted not in stock, forcing me to search for something new?

A perfeição de Zodíaco

Emily St. James, Episodes:

The comfort in Zodiac is the comfort of doomerism, the idea that we are completely fucked, and it’s better to just admit it. The only people who matter are the monsters in the shadows who’ve broken the world and the people sitting right in front of you, who might be able to help you shine what meager light you possess into those shadows.

[…]

The kind of light dehumanization that peppers the edges of Zodiac’s frames is something we all practice from time to time. When you are engaged in a really intense conversation in a restaurant, the server might become an abstraction to you. You’re aware they’re there, but you’re also really locked in on what you and your friend are chatting about. This filtering of the world is normal, even healthy. Our brains have to shut out some information to make sense of what’s important to us in that moment.

Yet watch Zodiac again with an eye toward how Fincher utilizes this technique. The longer the movie goes on, the more other people only seem to exist as disconnected blobs in the background somewhere. The second you start to really look at them, you might start to think they mean to do something horrible to you. So you learn not to see them, and the world becomes a collection of scary stories waiting to happen.

A internet como uma vizinhança

Algumas citações de leituras que fiz relacionado a amizade, sentido, e a internet como uma vizinhança:

Devin Kelly, Longreads:

What happens if what you once used to make sense of things no longer helps you make sense of things? What happens if the patterns and habits and metaphors we lean on do not serve us in the moments we need them? What happens if the stories we tell ourselves about our lives leave us lonely, wrestling with meaning? What then?

Craig Mod:

Well, I’ve been thinking about it my whole life. It’s difficult to remember a time where I didn’t feel alone or apart or “on my own.”

Aloneness sucks. It’s insidious and becomes habitual. It’s rapacious. It saps the spirit. It twists a peaceful dude all truculent and paranoid. It renders decision making oddly cumbersome. It’s more difficult to feel elevated as a human when swaddled in aloneness. Self-worth plummets as aloneness rises.

Aloneness is not just individual, of course. Entire communities can and do feel abandoned, alone, cut off from the world.

I was shocked by how easy it was for me to do this, to “do therapy.” Like I had been waiting my entire life for a patient, true listener. And here he was, a floating head on a screen.

I’ve found that the honesty I embody (“perform”) during those therapy sessions has spilled into the day to day. Honesty imbricated, a suit of honest. The proof is in life itself: I’ve had more emotionally resonant experiences of non-aloneness in the last five years than my entire life prior.

That’s the real joy of subverting aloneness — luxuriating in solitude. A wholly different, generative beast, apart from aloneness. Solitude is where you cash in on your non-aloneness savings. Retreating into solitude for the day in your backyard shed with no internet connection and a nice keyboard and laptop is one of the greatest feelings in the world, but only because you know you’re emerging at the end of it into a hug, a goofy animal bounding with nincompoop love, a curious kid, cooking dinner — something, anything, that will passively envelop you in non-aloneness, that will make you feel valuable.

I suspect I’ll be battling aloneness and depression for the rest of my life. But today, at 43, I’ve cobbled together my outré toolkit. And tomorrow today, when TOKIO TŌKYŌ TOKYO³ kicks off (the walking starts tomorrow, but the meditations on the walk begin tonight) I’ll be activating one of my most potent tools: days of walking strung together, using the body up, looking closely at the world, photographing, taking notes, greeting people with alacrity like some village idiot, thinking about what was, what is, and what could be in this strange, fleeting, often painful — but just as often breathtaking — world of ours.

Spencer Chang, spencer’s paradoxes:

I like newsletters that feel more like dispatches than editorialized posts.

The world manages to find a way to strike you with the most indescribable beauty when you need it most.

How do we make websites feel more like embodied objects? What does a website that can become well-worn or passed down feel like? How does a website become a living gathering space, one that evolves with the activity of its participants?

Spencer Chang e Kristoffer Tjalve, Syllabus:

we think, that our “internet” comprises the same 10 apps, some flooded with ads and spyware, others with people yelling about everything and nothing. We accept that the only way to get anything useful out of the internet is by trading our privacy for accounts and our self-expression for conformity. Everything is always somehow broken and when social spaces die, we believe that it is how it has always been and that nothing will ever be different.

The Internet is so much vaster than a single worldview. It is a sprawling galaxy of archipelagos, filled with more humanity and personal gestures than any man-made archive.

O Assassino é “sigma cinema”

Max Read:

The killer thinks of himself as having an unmatched clarity about his life and the world, but the movie mostly regards him as self-deluded. He botches his hits, he forms attachments, he misunderstands his own importance. Rather than being freed by his careful planning and elaborately articulated life philosophy, he’s trapped by his own paranoias and resentments.

“The killer as sigma male” is obviously not the only way to read this movie; as suggested in the footnotes you could see it as an personal story about a fastidious craftsman learning his own limits, or also a movie about how annoying work is, especially as a contractor. (To quote the killer’s favorite band: “this position I’ve held/It pays my way and it corrodes my soul.”)

But I like the sigma male reading because it reminds us that throughout his career Fincher has been in dialogue with the concerns of 4chan and the rest of Loser Internet

To be clear, I don’t think that Fincher is endorsing these ideas, specifically–except for goth gf–just that he’s interested in exploring them and the kinds of characters who believe them.What’s particularly interesting for such an internet-y set of ideas is that Fincher doesn’t really make movies “about” the internet–even The Social Network was a lot more about ambition, sociopathy, and freak loners than it was about “the internet,” per se. Instead, he made a body of work around a set of broad social (and gender) anxieties that have been particularly shaped by digital culture.

More to the point, it reminds us that the killer and his sociopathic boorishness live in the same tech-wrecked world as the rest of us.

What we get instead of “action,” it turns out, is a lot of travel and logistical work, which suggests that the funniest way to read the movie is “autobiographically”: it is, after all, roughly two hours of an meticulous and obsessive freak planning and executing a tightly scheduled multi-city production.