Posts em 2024

Agora

Vou passar a semana do natal aqui na casa dos meus pais, no interior. Aqui a noite ainda é fria, e eu gosto de andar pelo pátio no meio da noite, para sentir esse frio. É um frio quieto, mas acolhedor.

Eu visitei meus amigos hoje, alguns que eu não via há algum tempo. É tão bom ver eles. Eles parecem tão bem — a vida de um jeito na gente, ou a gente deu um jeito na vida. As coisas funcionaram para nós. Não temos mais o convívio da escola, ou das nossas férias de verão juntos, mas tem algo em rever eles que é bom.

Nos ainda somos aquele bando de inconsequentes que se reunia pra comer batata frita e tomar cerveja no domingo antes do trabalho, mas agora não somos mais? Nos reunimos no domingo antes do trabalho depois de dois anos sem conseguirmos nos ver, e nossos assuntos mudaram. Agora é sobre o trabalho, sobre como o tempo corre, como as coisas mudam — como as pessoas que moravam nas casas em que crescemos não estão mais lá, sobre o que existe hoje nos lugares que íamos antes. A gente muda, o tempo passa, mas isso que a gente tem junto… isso continua.

Favoritos discretos

Tem uns jogos que são uns “favoritos discretos”, né? Aqueles que a gente sempre tem disponível em algum console ou no computador. Que a gente pode não jogar sempre, mas sempre tá ao nosso alcance por que, quando a vontade de jogar ele bate, ela é invencível (pensamento que me veio na cabeça jogando Burnout Paradise, que eu tenho instalado no computador, no Switch e no PS5).

Agora

Hoje é o meu último dia de férias (embora eu só volte a trabalha na segunda-feira). Foi a primeira vez em mais de uma década que eu tirei o meu período integral de férias de uma só vez. Eu acho que vou fazer isso sempre, daqui pra frente. Não só deu tempo para fazer uma viagem bacana, mas consegui colocar em dia várias tarefinhas em casa, fiz alguns exames que eu tava postergando e dei uma limpada no meu guarda-roupa.

Eu também consegui colocar em dia uns jogos que eu queria terminar (Link’s Awakening e Shadow of the Colossus), li bastante e não vi tanto filme quanto eu queria, mas dei um tapa nesse site aqui. Eu consegui descansar muito, também. Essa parte foi a mais importante.

As cinco melhores coisas de 2024

Queridos,

Esse é o último post do ano. Que ano… talvez o mais estranho e difícil que eu tive até aqui. Mas o Tobias está melhor agora, e as contas estão em dia.

Agora é hora de uma antiga tradição que eu tinha no Pão com Mortadela de elencar os cinco destaques da minha dieta cultural do ano. Pela primeira vez, eu vou postar ela no meu site pessoal. Pela última vez, ela vai ser exclusiva de lançamentos do ano. Isso porque muito dos melhores filmes, jogos ou séries que eu encontrei esse ano são, na verdade, mais antigos. E não é que lançamentos não são tão bons quanto os clássicos — é que, conforme o tempo passa, eu tenho menos tempo para acompanhá-los, e muito do meu tempo livre hoje é botando em dia séries que eu queria ter visto antes, livros que eu queria ter lido antes, jogos que eu só consegui terminar agora, e por aí vai.

Então aí vão as cinco melhores coisas de 2024, e cinco outros filmes, jogos, séries, músicas e links que eu gostei bastante.

O filme

Que filme incrível. Uma história de amor tão misteriosa quanto saborosa de assistir. O filme de Tran Anh Hung parece ser um experimento molecular: ele aguça os sentidos com seus planos ao redor da cozinha, em que Juliette Binoche e Benoît Magimel quase dançam entre fornos e tábuas de cortar, entre as carnes e as massas e os legumes; e aquece o coração com uma paixão e um amor que surge entre cozinheiros. Narrado entre as estações do ano, O Sabor da Vida é um daqueles filmes impecáveis — seu diretor desenrola a estética do filme de uma maneira que revê-lo abre uma nova dimensão para o espectador. É um daqueles filmes que fica no nosso corpo.

E também:

  • Dahomey (Mati Diop, 2024). Uma fábula-documentário sobre artefatos que viajam da terra de seus colonizadores de volta para sua terra natal no oeste da África. Diop filma “a história” dessas peças saqueadas e retornadas — o que elas “viram”, do que elas “lembram”. O mais único, e mais especial, filme que eu vi esse ano.
  • La Chimera (Alice Rohrwacher, 2023). Rohrwacher faz filmes mágicos, e La Chimera talvez seja o melhor deles até aqui. Eu saí da sessão querendo viver nesse filme, uma colisão de passado e presente, de mito e de realidade, tradicional e inventivo.
  • Tudo Que Imaginamos Como Luz (Payal Kapadia, 2024). Um filme cheio de alma, e cheio de momentos de vidas. No plural. Retratando a imensa Mumbai, é um filme que nos isola em nossa solidão, em nosso íntimo. Dentre as milhões de histórias que participamos e assistimos, algumas são pérolas milagrosas como as desse filme.
  • Todos Nós Desconhecidos (Andrew Haigh, 2023). Um dos meus filmes favoritos. Eu escrevi sobre ele no Pão: é uma daquelas obras-primas extremamente íntimas. É algo surreal quando um diretor consegue ilustrar uma sensação tão interna, de desejo e de solidão, em um filme. Haigh conseguiu, de novo.

Música: “Clouding Clouds” (Sarah Neufeld, Richard Reed Parry & Rebecca Foon)

Clouding Clouds de Sarah Neufeld, Rebecca Foon & Richard Reed Parry no Apple Music

A música

Eu tava subindo os Andes ouvindo o First Sounds, o novo disco dos instrumentistas do Arcade Fire, quando a dobradinha “Clouding Clouds” e “First Sound” tocou. Tem algo de perfeito nesse momento: as cordas dos violinos pontuaram o dia nublado que cobria o céu e a pedra escura que formava aquele lugar — um mar de montanhas imensas, maiores do que qualquer coisa que eu já vi na minha vida. Envoltos em mistério, como essa música, que parece lapidada pelo próprio vento. Todo o First Sounds reflete o trabalho de Neufeld, Reed Parry e Foon nos seus primeiros anos de colaboração (o que explica alguns trabalhos que parecem terem vindo de Funeral), mas é o ambiente que eles criam — cheio de textura, de espaço entre os instrumentos — que tornaram esse o meu disco do ano, e foi o momento que tornou “Clouding Clouds” a sua música chave pra mim. É uma música que respira o ar que está ao nosso redor, e exala na nossa mente.

E também:

  • “Alone” (The Cure). Um disco novo totalmente tomado pela morte e pela solidão, e “Alone” talvez seja minha nova música favorita do The Cure. E que voz cristalina essa do Robert Smith, hm?
  • “Mary Boone” (Vampire Weekend). Como o novo álbum dos Yeah Yeah Yeahs antes, o Only God Is Above Us encontra o Vampire Weekend naquele momento que você percebe que eles amadureceram, como esse post no Bluesky consegue descrever tão bem. “Mary Boone” nos lembra do tipo de som que essa banda já fez — mas tem uma nova camada de maturidade em cima, que não a torna tão enérgica, mas adiciona uma profundidade no seu som.
  • “TEXAS HOLD’EM” (Beyoncé). Pra mim, Cowboy Carter entregou tudo o que Renaissance não tinha. Em “TEXAS HOLD’EM”, a Beyoncé encontra um ponto entre o que tornou seu Lemonade em uma obra-prima e seu I am… Sasha Fierce tão enérgico de ouvir. Tomou 1/3 do meu ano.
  • “VELUDO MARROM” (Liniker). Quando começa, “VELUDO MARROM” parece uma típica música de Liniker: uma descrição muito íntima de um momento que ela busca eternalizar. A descrição de um toque, de um beijo, de uma manhã. Mas quando a orquestra chega, Liniker explode a música aos quatro ventos em uma grandiosidade que eu não tinha ouvido ela manejar antes. Seu íntimo se transforma em transcendental.

A série

Alguém em Algum Lugar foi um daqueles milagres que são cada vez mais raros na TV: uma série sobre nada, falando em termos gerais; mas sobre tudo, em específico. Como Betty, era leve, mas nunca foge das imperfeições de suas personagens. Aqui, sobre um grupo de pessoas no interior do Kansas que se sentem fora de si encontram, entre eles, um lugar para chamar de seus. É uma última temporada que não parece um fim, o que é de partir o coração mas também honesta com essa série, esperançosa até seus últimos momentos.

E também:

  • Conan O’Brien Must Go (1ª temporada, HBO). Eu queria muito esse trabalho, encontrar uma desculpa pra viajar o mundo e fazer uma série sobre isso.
  • Ripley (minissérie, Netflix). A série mais linda do ano, as vezes até demais — distraindo da construção de personagem ou de trama porque estamos vislumbrando a beleza estonteante da série, até ela puxar seu tapete.
  • Sunny (1ª temporada, Apple TV+). Que ótima surpresa! Sunny parece um pouco como The Leftovers, um pouco como Westworld, se é que isso faz sentido. É divertido até ser triste, como The Leftovers; e tem o orçamento necessário pra fazer sua ficção científica funcionar, como Westworld — mas também tem aquela textura e vivência de filmes como Ela. Esperando muito a nova temporada.
  • Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (1ª temporada, Disney+). A maior série do ano e, eu acho, a próxima série essencial da TV. Assim como outras grandes séries, como Sopranos e Breaking Bad, a primeira temporada é excelente — mas é melhor ainda no que ela sugere: que será ainda maior, ainda mais profunda, nos anos seguintes. Eu mal posso esperar.

O jogo

Chegou no finzinho do ano, e roubou meu coração. Como os anteriores, Monument Valley 3 é lindo, mas também parece um milagre: ele te ensina a ver de novo, de novos jeitos. Virou uma rotina minha, todo dia de manhã tomar um café e brincar em seus quebra-cabeças arquitetônicos enquanto levo Noor de ilha a ilha, encontrando e formando uma comunidade na imensidão do oceano que tomou seu mundo. Como o original, é um jogo inesquecível.

E também:

  • Animal Well (Shared Memory, PC, PlayStation, Switch, Xbox). Um mistério em forma de metroidvania, Animal Well é o jogo mais impressionante que eu joguei esse ano. Um jogo que te ensina a jogar ele, e te ensina a jogar ele de uma forma completamente nova logo depois. Além disso, é belíssimo.
  • The Legend of Zelda: Echoes of Wisdom (Nintendo, Switch). Eu não tava esperando um novo Zelda esse ano, e nem um Zelda tão bom. Mas foi muito acertado os desenvolvedores voltarem para a fórmula mais clássica da franquia após Tears of the Kingdom e transcrever muito do que eles aprenderam no jogo anterior. É refrescante jogar um novo Zelda que parece, mas não é, aqueles Zeldas de quando eu cresci.
  • Thank Goodness You’re Here! (Coal Supper, PC/Mac, PlayStation e Switch). Mais jogos deviam ser uma comédia como esse “slapformer” de um homem visitando uma cidadezinha e as várias vinhetas das situações que ele encontra por lá. É curtinho, mas é uma delícia de jogar. Antes da chegada do novo Monument Valley, era o meu jogo do ano.
  • UFO 50 (Mossmouth, PC). Uma coletânea de jogos que reune um espírito de diversão, descoberta e experimentação que não se vê nos jogos de hoje em dia. Como os jogos da geração de 8-bit, cada jogo de UFO 50 é como aprender a jogar pela primeira vez de novo.

Eu venho lendo a The New Atlantis há um tempo, mas de alguma forma eu nunca tinha lido esse belíssimo artigo sobre a condição da existência dos elefantes (e de animais como um todo) em um planeta moldado por humanos. Não só a busca pela evidência de alma nessas criaturas magníficas, mas também a busca pela nossa responsabilidade ao moldarmos leis ao redor delas. Eu li esse artigo no avião, indo pro Chile, e chorei várias vezes. Pela beleza do que ele descreve — existe um mundo inteiro intocado e intocável por nós dentro do monumento que é um elefante — e pela atrocidade do sofrimento que causamos nesse mundo, para além da nossa compreensão.

E também:

  • “Madalena” (Le Chouchou). A Aline (@tdbem criou uma newsletter nesse ano e se tornou numa leitura obrigatória pra mim. Esse belíssimo texto sobre Em Busca do Tempo Perdido é um de seus melhores — nos dando um incentivo para ler a obra-prima, mas também nos indicando o que podemos encontrar por lá.
  • Never Post (podcast). Um novo podcast favorito! Never Post, um podcast sobre a internet, é como ler a Wikipédia: cheio de histórias surpreendentes, conexões inesperadas, e a lembrança de que são seres humanos, e não robôs, que criaram tudo isso. Experimente o episódio ao vivo na XOXO desse ano, é o melhor ponto de entrada.
  • “We need to rewild the internet” ((NOĒMA). A melhor descrição que eu já li para a internet está nesse texto — e a melhor descrição de como podemos tomá-la de volta também.
  • “‘Agora somos nós em um barco de resgate, tendo que contar ao mundo que estamos nos afogando’” (SUMAÚMA). Isso aconteceu esse ano. A cidade ainda cheira, ainda tem marcas. A SUMAÚMA registrou durante o ano a destruição e o descaso das enchentes no RS como nenhum outro lugar. Nesse artigo de relatos, eternizou a experiência do que foi. O silêncio da cidade ainda assombra.

É isso pra 2024.

Nos vemos no futuro.

A sequência de trocas de Link's Awakening

Link’s Awakening é o meu jogo de Zelda favorito. Eu tô jogando ele de novo (no remake lançado pro Nintendo Switch em 2019), e eu lembrei da genialidade que é a sequência de trocas que existe nele.

Em Link’s Awakening, o Link se perdeu atravessando o Grande Mar e acaba naufragando na Ilha Koholint. Ela é diferente de tudo o que já vimos na Hyrule dos Zelda anteriores: é uma ilha tropical cheia de monstros vindos de outros jogos da Nintendo, como os Goomba do Super Mario e uma criatura que parece muito o Kirby.

Eu escrevi sobre isso no ranking: o que torna Link’s Awakening especial pra mim é a sua densidade. Embora o mapa seja pequeno (ele foi desenvolvido dentro dos limites do Game Boy original), Koholint está repleta de personagens marcantes. Embora eles sejam aqueles típicos NPCs, com seus roteiros de diálogo prontos e ciclos de movimento, eles complementam a estranheza do cenário: o senhor Ulhira não gosta de falar pessoalmente, então você precisa sempre falar com ele por telefone; a vovó Yahoo adora gritar “yahoo”; o Mr. Write troca correspondências com Christine, uma coelha que dá um catfish nele com a foto da princesa Peach; e por aí vai.

Como em todos os Zelda depois de A Link to the Past, Link não é só um herói que tenta aniquilar um vilão. Ele é um “amigo da vizinhança” que tenta ajudar os habitantes de Hyrule em missões paralelas: seja resgatar os cuckoos de um morador da vila Kakariko ou encontrar as botas de neve de alguém no deserto Gerudo, as aventuras de Link sempre são espiralantes.

Só que, diferente de outros jogos, Link’s Awakening coloca esses aspectos no palco central com a chamada sequência de trocas. No início, ele parece muito algo paralelo e opcional: você compra um boneco do Yoshi para a mãe de uma criança, mas ao invés de ela retribuir com rúpias ou uma arma, ela te retribui com um laço.

Conforme o jogo progride, você encontra um personagem que vai trocar o laço por uma outra coisa, e então isso vai ser trocado por outra. Eventualmente, a sequência de trocas deixa as margens da história e se torna sua missão principal. A essa altura você já vai conhecer Koholint e seus habitantes naturalmente, e você vai saber naturalmente o que fazer com o item que você recebeu — talvez porque alguém tenha falado que precisava de algo com o item que você está agora, ou porque o item tem a cara de um personagem específico.

Acho que a sequência de trocas é o meu detalhe favorito de Link’s Awakening, e provavelmente é meu detalhe favorito dentre todos os jogos que eu já joguei. É incrível, principalmente com o quão trágico esse jogo é. Sua missão nessa lenda de Zelda é acordar o Peixe-Vento, e suas boas ações nesse jogo te faz se aproximar dos personagens, que te ajudam nessa missão. Porém (e spoilers para a trama do jogo), é justamente o que irá “destruir” Koholint e a vida desses personagens que você quis tanto ajudar.

Isso tudo, porém, pontuado o humor e estranheza típicos de Link’s Awakening tornam esse jogo em algo realmente único pra mim. Embora seja engraçado e trágico ao mesmo tempo, Link’s Awakening é o único jogo além de Breath of the Wild que parece capturar um lugar com tanta vivacidade. Mesmo pequena, a ilha Koholint é imensa em história — cada personagem tá fazendo algo ou precisa de algo, tem alguma relação com outro personagem ou outro lugar, e assim por diante. É mágico e surpreendente, porque a sequência de trocas (e Link’s Awakening como um todo) opera como um sonho: você lembra que está lá e lembra que uma coisa leva a outra, mas as especificidades são tão intricadas que você as perde com o tempo, já que para lembrar de algo tão detalhadinho você precisaria lembrar de todos os detalhes ao redor também. Sempre que eu jogo Link’s Awakening, eu me surpreendo de novo.

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Esses dias eu passei por esse post de Ben Wallace, que comentou sobre a existência de centenas de milhares de vídeos pessoais no YouTube que são, na verdade, públicos — devido a um recurso nas primeiras versões do iOS que permitem que você enviasse os vídeos que você criava na câmera do iPhone direto para sua conta no site.

Eu achei essa “descoberta” emocionante. Tem um quê de encontrar cartas de nossos avós, ou relembrar uma memória com amigos que você tinha esquecido. Não são nossos registros, mas são de outras pessoas. Um lembrete sempre muito bonito dos seres humanos que estão nos outros lados da internet.

Enfim, Riley Walz desenvolveu o IMG_0001, um site para navegar e assistir esses vídeos aleatoriamente. Já foi pro meu speed dial do navegador.

Agora

Eu sonhei com a Vivi hoje. Eu fui visitar meus pais e os cachorros vieram me receber. Eu dei oi pro Balu, pro Ió, e pras meninas: a Flor, a Mel e a Cici. Daí a mãe comentou “a Vivi tá lá embaixo”.

Eu não cheguei a estranhar, no sonho. Eu acho que eu estranhei mais o fato de eu ter esquecido de dar oi pra Vivi. Eu fui pro andar de baixo e, realmente: a Vivi tava sentada na sombra que fica no canto da casa, entre os pés de laranjeiras. Ela latiu pra mim e sapateou, como costumava fazer. Eu peguei ela no colo, do jeito que eu pegava — com o meu braço entre as duas patas da frente, apoiando a barriga dela.

A gente caminhou pela casa, os cachorros ao meu redor. Eu tomei um café com minha mãe enquanto segurava a Vivi com um braço. Eu fiquei fazendo carinho nela pelo resto do sonho, ela dando aquela rosnadinha que dava quando queria brincar.

O Departamento de Tudo

Nos anos 80, a Biblioteca Pública do Brooklyn tinha uma “Telephone Reference Division”, que atendia ligações de pessoas querendo saber alguma informação — editores de jornal, aspirantes do Jeopardy, ou pessoas curiosas. Eles respondiam perguntas como os integrantes de uma banda, a população de Marrocos, a expectativa de vida de uma espécie de pássaro, citando as fontes da informação dentro daquela biblioteca.

Esse texto é uma mistura de duas paixões minhas: a carreira de telefonista e a Wikipédia.

The Leftovers é uma das melhores séries de TV já feitas

Emily St. James, para a Vox:

[…] But the feeling [of needing a life change] The Leftovers had evoked in me persisted. I was satisfied, full up on the show’s particular blend of sorrow and joy. I was convinced that if I never see another TV show I felt as passionately about, well, that would be okay, because I’d had The Leftovers.

Pop culture functions as a kind of subconscious for what humans care about. That’s why I find it so fascinating to watch it fluctuate and change, to observe how it both is molded by our shifting social codes and actively molds them.

[…] everybody’s subconscious is a little bit different, and a meaning I ascribe to something may not be a meaning you would ascribe to it at all […] So I always think of that meaning as a little door in the back of the work. You watch the TV show or the movie, or listen to the album, or whatever, and you can talk about the work itself — the plot elements and images and directorial choices that go into making it.

But always, in the back, there’s a door to everything else, all of the cultural forces and psychological implications and deeper meanings you can find if you go digging. Open the door a little bit, and you might take a peek at those things. Throw it open wide, and you reveal just as much about yourself and what you value as you do the work itself.

What made The Leftovers special — and what most of my favorite TV shows have in common, come to think of it — is that it forced you to open that door and leave it that way permanently.

[…]

The Leftovers, then, is the first TV show I can think of that actively engages with a world where the uncertainty that is core to simply being alive has caused a lot of us to carve out our own completely separate experiences of reality […]

[…] much of existence is basically random, meaningless, and out of our control. What do you do when you’re confronted with that fact?

Well, you start trying to rationalize. You try to put a narrative on what happened. You find an explanation, whether scientific or religious or something else altogether, and you try to fill in the gap between your need for control and your complete and utter powerlessness

[…]

Everybody alive can relate to the feeling of wanting to be in charge of our lives, only to realize that the systems that surround us are waiting to idly flick a fingernail and send us ricocheting through the rapids of chance.

And yet as the show progressed deeper into its run, it became, for me, maybe the most optimistic show on television, because it stared into uncertainty, into darkness, and insisted that we would figure out how to make our own light if we found ourselves stranded.

The series doesn’t focus on bringing its plot to a conclusion; instead, it concentrates on guiding its characters toward wholeness, if not happiness. They might remain deeply sad, or frustrated, or angry, but they are allowed a moment of kindness or gratitude, a moment that pushes them to extend the same to others. If life is meaningless, if nothing has a purpose, then all we have is what we can give to each other. I can’t think of many messages more optimistic, or necessary, than that.

We have made it to the future, and it’s trying to kill us. But it’s also always the future, and life is always trying to kill us. The world is always ending, but it’s also always beginning.

Struggling against the meaningless nature of life is important, but so is remembering that meaning is what we make of it and that we can create meaning for each other. The Leftovers worked so well because it focused not on the flood, but on the Ark, on the people left aboard, watching the skies for a sign of something new. There’s all this water, all around us — but look at us, lucky us, we have a boat.

Agora

Passeando com o Tobias hoje de manhã (ele tem acordado às 6h pra dar a primeira saidinha do dia), eu decidi variar um pouco os ares e fomos em direção ao Açorianos. Lá, o Tobias conheceu uma família de caturritas, uns amores.

Eu gosto muito desses nossos passeios da manhã. A cidade ainda não acordou totalmente, mas o sol já tá de pé o suficiente. O dia sempre promete.

Sobre votar

Eu gosto muito de votar. Eu gosto de chegar na minha zona eleitoral e ver alguns vizinhos ali. Estamos todos juntos em um ambiente neutro (eu voto no Palácio da Justiça aqui em Porto Alegre). Os mesários da minha zona são sempre muito gentis.

Eu gosto mais é do senso de comunidade do ambiente de votação. Embora eu reveja alguns vizinhos na zona eleitoral, uns como eleitores e outros como mesários, são poucas as vezes que a gente se reúne em um só lugar pra uma ação que leva alguns segundos e é profundamente imensa. Me faz sentir (ou perceber que eu sou) parte de uma comunidade, um entre muitos.

Ajuda que o dia da votação tende a ser um dia gostoso — o clima das últimas eleições que participei eram um dia de sol, mas fresco (hoje mesmo estava 21°C quando fui votar, e 13°C quando acordei). Torna um dia importante como esse em um dia de esperança, também.

Eu espero que Porto Alegre aprecie esse dia de sol para lembrar do que aconteceu nos dias de chuva — e da destruição que eles deixaram. Que a esperança desse dia não ofusque a memória de ontem.

Agora

Hoje tá sendo um dia bom.

Eu acordei às 6h, e saí pra minha caminhada matutina. Faziam 12° C na rua, mas não tinha uma nuvem sequer no céu. Só o sol, algo que tá ficando cada vez mais raro de aparecer aqui no sul.

Então eu saí pra caminhar antes do Tobias acordar e antes do trabalho começar. Tava frio demais. Depois que eu voltei, eu fiz um café e esperei o Tobias se levantar. Passeamos, e agora eu tô trabalhando (e escrevendo).

O Tobias tá perdendo bastante pelo por causa da quimioterapia, então eu varro a casa escutando minha playlist para manhãs e, quando eu canso, eu venho aqui e escrevo um pouco mais desse post. Eventualmente ele vai terminar, e eu vou precisar voltar a varrer.

Tá sendo um dia quieto e um dia perfeito. Meus dias favoritos são assim.

A internet é um grande jogo

Spencer Chang, em sua newsletter:

I like newsletters that feel more like dispatches than editorialized posts. Inspired by Laurel and Robin, I’d like to share a little bit about where I am and where I’ve been lately.
[…]
The world manages to find a way to strike you with the most indescribable beauty when you need it most.

[…]
Websites are the future of video games.

They are the “end game” of video games. They are spaces where the end players (the website visitors) have the agency to freely interact with others, and not towards any predetermined object, but purely for themselves, discovering who they are in each new environment and finding new ways of relating to one another.

Somewhere in the push to make the internet the infrastructure of a global capitalist economy, we lost this perspective on what the internet is. If I asked people to define what websites are to them, they might talk about the capabilities they provide: “the world’s information at your fingertips,” “AI that does whatever you ask of it,” “a platform for selling products.” Or as design artifacts: they provide the basis of interactive, creative pieces of art, media, and writing.

But if we distill a website down to its base components, it is a space that allows people to talk to each other. In the era when the internet was new and before we had predetermined what it was “for,” everyday internet pioneers found ways to talk to one another by making websites for each other.

WWW

Jason Kottke, citando um diálogo nos momentos finais de Halt & Catch Fire:

Joe: How did we all get here today? The choices we made? The sheer force of our wills, something like that? Here’s another answer: the winds of fate, random coincidence, some unseen hand pushing us along. Destiny. How did we all get here today? We walked through this door. We don’t have to build a big white box or stadium or invent rock n’ roll. The moment we decide what the Web is, we’ve lost. The moment we try to tell people what to do with it, we’ve lost. All we have to do is build a door and let them inside.

When I was five, my mother took me to the city. And we went through the Holland Tunnel and it was basic, concrete and steel, but it was also my excitement sitting in the backseat, wondering when it was going to be our turn to emerge, it was the explosion of sunlight. And when we exited the tunnel, all of Manhattan was laid out before us. And that was the best part of the trip: the amazing possibility to be able to go anywhere within something that is magnificent and never-ending.

This is the first Web browser, the one CERN built to view and edit research. I wrote it up here for you to see how simple it is. It takes up one whiteboard — that’s basic concrete and steel — but we can take this and we can build a door and we can be the first ones to do it because right now, everyone else sees this…

Donna: …as an online research catalog…

Gordon: …running on NeXT…

Cameron: …on a network in Europe.

Joe: And with this handful of code, we can build the Holland Tunnel.

Essa é uma das melhores traduções da linda possibilidade do que é um navegador, e o que é, em si, navegar na internet.

Kottke:

But the open Web enthusiasts and advocates missed an opportunity to take what the Web was in the 90s and make that available to everyone. Instead of walled gardens like Facebook, Pinterest, and Medium (which echo the closed online services like AOL, Prodigy, and Compuserve that predated the Web), imagine a bunch of smaller services bound together with open protocols where individuals have both freedom and convenience. […] I hope I’m wrong, but with all of the entrenched incumbents and money pumping into online services, I’m afraid that time has truly passed. And it’s breaking my heart.

A web quieta

Brian Koberlein, em seu blog:

The quiet filter isn’t perfect. There are plenty of quiet sites that use Google Analytics just because it’s an easy way to see if anyone is reading. And some sites pass the test while still having a bombastic style. But the filter does reveal hidden treasures. Sites that are thoughtfully and personally written. There’s often intentionality to them that is refreshing to read. I find my own ideas are challenged more on these sites, and that’s a good thing.

The biggest downside of the quiet web is that it can be difficult to find. You can’t simply Google topics of interest. Instead, you have to dig a bit. Go down rabbit holes until you come across an interesting quiet page. It takes time and effort. It’s easier just to doomscroll on Twitter. But the effort is worthwhile. As you gather more of the quiet web into your readership, you will notice the negative effects of the traditional loud web more. And once you get used to the quiet web, you may never want to go back.

Sobre sites pessoais e a web social

Manuel Moreale, em seu blog:

I still believe the first approach is doomed to fail. Because the issue with social media is not the tech, but the people. If you let enough people congregate in the same space some issues will inevitably arise. Grifters are gonna grift, scammers will try to scam, hustlers will hustle, influencers are gonna try to influence, and business people will try to monetise everything. It’s no surprise that Meta is slowly entering that space with Threads. And I don’t see Meta starting a blog platform next, letting everyone share and connect via RSS. So that alone tells me which approach is more appealing to the exact same entities we’re trying to get away from.

Having said that I’m hopeful. I do think people are slowly starting to realise that you can get immense human value from the web outside of traditional social media. You have to work for it but it’s absolutely worth it.

Porque escolher a web como uma plataforma de jogos

Brandon Dillon, 2weeks:

It’s an exciting time to be working in the space. After a long quiet period following the death of Flash, there are fewer and fewer technical barriers to making great games on the web.

The web can be a really vibrant space for games (as it once was). To make it vibrant, people need better tools. We should have a game development toolkit tailored to the web, and Tweaks can be that toolkit.

Clube da Esquina Nº 2

Essa música é física quântica. É quando você sente que está caminhando na mesma velocidade do vento ao redor. Como se você se movimentasse na velocidade do mundo.

Essa música é você anos depois, quando esse vento te encontra de novo. Nunca foi um momento tão distante, nunca foi um momento tão próximo. Tudo ao mesmo tempo. A música que tem o tempo inteiro nela.

Lembrando da morte

Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.

Delinha

Delinha pedindo carinho, enquanto eu dou um beijo na cabeça dela.

Delinha morreu hoje de manhã. Eu saí cedo aqui de casa e fui pra casa dos meus pais. Eu já sabia o que nos esperava hoje. Delinha desenvolveu um câncer nos últimos anos, mas foi nesses últimos dois meses que ele se propagou violentamente no corpo dela. Sem comer pelas últimas semanas, e sem conseguir tomar água já há uns dias. Hoje de manhã, eu e meus pais nos despedimos dela.

Eu não acredito que o sofrimento e a morte dos cachorros com quem cresci e cuidei me ensinam algo. Delinha viveu bem por quase todos os seus 18 anos, mas foi difícil ver sua força se esvair desse jeito, rápido e brutal. Delinha sempre foi uma cachorra muito delicada, não em questão de saúde (ela sempre foi muito forte, e a única complicação que ela já teve foi, justamente, o câncer), com seu olhar manso, seu latido baixo e sua passada silenciosa.

Quando minha irmã encontrou a Delinha, enrolada em uma sacola no meio de uma rua perto de casa, ela tinha dias de vida. Nós dávamos leite pra ela por bastante tempo, porque ela nunca mamou na própria mãe. Delinha era uma filhote feia, com o pelo duro e com cor amarelo-queimado. Conforme crescia, Delinha ficava mais e mais bonita. Seu pelo se alongou, e ficou dourado.

O que nunca mudou na Delinha foi seu olhar. Era meigo, com seus olhos com uma cor castanha, e trazia com ela sua calma e seu silêncio. Delinha sempre foi bastante quieta e solitária. Nós sempre tivemos muitos cachorros e a política interna deles muda de tempos em tempos. Delinha sempre foi alheia a isso. A gente sempre achou ela especial, não só porque ela era belíssima, mas porque sua quietude nos trazia paz em uma casa onde a matilha costuma ser bagunceira. Ela gostava de dormir sozinha, embaixo do carro, depois no banheiro do andar de baixo. Lá ela ficava, e nós precisávamos visita-la para fazer carinho e conversar.

Quando Delinha saía dos seus esconderijos e nos agraciava com sua presença, era um momento especial. Ela “sorria” (algo que ela aprendeu a fazer em algum momento), e pedia um carinho. Por um tempo, ela tinha inclusive uma cadeira pra ela, e meus pais tomavam chimarrão ao seu lado. Ela sempre pareceu uma rainha — era um privilégio quando ela decidia nos fazer companhia, não porque era raro, mas porque sua companhia trazia sua calma, sua doçura.

Delinha foi a última integrante da segunda geração de cachorros que chegou em nossa casa. Quando ela chegou, em 2006, eu tinha doze anos, nas férias entre a quinta e a sexta série. Ela fazia parte de uma turma com outros três cachorros: o Pepi, a Cida e o Luva. Ela era a mais nova dos quatro, e foi a que viveu a vida mais longa.

Foi uma dádiva crescer com esse grupo. Eles foram bons companheiros para a minha infância, brincalhões e sábios como só os cachorros podem ser para uma criança. Mas foi a Delinha, dos quatro, que me viu crescer. Ela me acompanhou no ensino médio e na faculdade, me recebia quando eu chegava em casa depois do trabalho e, quando saí de casa, foi sempre meu primeiro abraço ao visitar meus pais. Mesmo quando ficava mais de mês sem visitá-los, ela sempre me olhava com aquele mesmo olhar calmo, doce. “Ah, como é bom ver você” ela parecia dizer, entre cochilos.

Ela não perdeu seu olhar. Quando me despedi dela, na maca do veterinário enquanto ela era anestesiada, ela ainda me olhou daquela forma. Por um momento, seu olhar teve medo. Eu finalmente pude retribuir pra ela a calma e a sabedoria que ela sempre me proporcionou nessas quase duas décadas juntos. Eu segurei sua patinha, fiz um cafuné e esperei ela adormecer. “Ela descansou”, eu fiquei pensando, mas uma parte egoísta de mim pensou “esse foi o último olhar dela pra mim“.

Egoísta, mas sincero. Vou sentir falta dessa companhia, desse olhar. É o tamanho da falta que essa doçura, esse carinho, vão deixar em mim. Foram 18 anos maravilhosos ao lado dela. Um privilégio que foi, crescer ao lado de uma verdadeira rainha.

A magia do StreetPass

Merrit K, VGBees:

Why have we turned away from the light of local multiplayer and the beauty of fleeting social gaming connections in an era when more people than ever own devices capable of wifi and Bluetooth communication?

Maybe we don’t want to be connected to those around us. The pandemic didn’t help, to be certain, but the trend away from the developments of the early 2010s started long before it hit. The Streetpass LED on the 3DS, an early form of notification, was a joyful signal. Today, we’re bombarded with notifications and alerts, and many of us have grown weary of them. In theory, modern smartphones could support apps with Streetpass-like features, and location-based dating apps are somewhat similar. But that experience of delight at connecting with another player likely wouldn’t be there because of how ubiquitous the hardware has become.

As both millennials who grew up with the internet and watched it transform and zoomers who have only ever known it in its current, centralized and corporatized mode are beginning to reevaluate their relationships to personal technologies, perhaps now is the time to rediscover what has been lost.

Whelks

Here are the perfect
fans of the scallops,
quahogs, and weedy mussels
still holding their orange fruit –
and here are the whelks –
whirlwinds,
each the size of a fist,
but always cracked and broken –
clearly they have been traveling
under the sky-blue waves
for a long time.
All my life
I have been restless –
I have felt there is something
more wonderful than gloss –
than wholeness –
than staying at home.
I have not been sure what it is.
But every morning on the wide shore
I pass what is perfect and shining
to look for the whelks, whose edges
have rubbed so long against the world
they have snapped and crumbled –
they have almost vanished,
with the last relinquishing
of their unrepeatable energy,
back into everything else.
When I find one
I hold it in my hand,
I look out over that shanking fire,
I shut my eyes. Not often,
but now and again there’s a moment
when the heart cries aloud:
yes, I am willing to be
that wild darkness,
that long, blue body of light.

— Mary Oliver

Colheres

littleselkie:

earhartsease:

nohoperadio:

A spoon’s only objective in life is to make soup go upwards, and it knows this. That’s why when you put one under a running tap it blasts the water way high. The spoon thinks there’s suddenly TONS of soup to deal with and it freaks out.

spoon under a tap:

for this was I made

I read this post aloud to my roommates earlier, and one of them said “now I feel bad about waterboarding my spoons in the sink.”

Nós precisamos retomar o estado selvagem da internet

O melhor ensaio que eu leio em muito tempo, Maria Farrell e Robin Berjon analisam a web como um ambiente, e como eles realmente pode ser “salva”: como uma floresta, não é salvando uma ou outra árvore, ou espécie — mas tentando manter todo o ecossistema vivo e sustentável. Cuidando dos protocolos, dos serviços, dos sites e das pessoas.

Onde vamos agora

Alguns recortes do texto de Madison Butler, para o Sidequest:

But while getting to 5 Dogwood Drive is the goal of the game, it isn’t the point of it. […] Financial instability keeps the characters forever caught in the liminal space that stretches between one stage of life and the next. The uncertainty makes each choice feel weighty yet meaningless at the same time. Ultimately their fates are shaped—some more bluntly than others—by capitalism’s hand, which lends the narrative a unique anxiety.

The liminal state, as defined by anthropologist Victor Turner, is the period of in-betweenness and transition from one stage to another; liminal personae do not abide by the rules and groups that determine social order elsewhere.

Kentucky Route Zero takes on liminality as defined by two different anthropologists. The first definition is by Victor Turner, who defined liminality as the period of time a person spends between two states or stages of life. The second is what anthropologist Paul Rabinow called purgatorial anxiety, a type of liminality characterized by a feeling that the future is on the line. One important aspect of Turner’s definition of liminality is that personal or social transformation awaits liminal personae on the other side; for better or worse, their lives will somehow change from one stage to the next.

Dr. Susan Merrill Squier argues the heightened stake in the future is the key difference between Turner’s liminality and Rabinow’s purgatorial anxiety. In Liminal Lives: Imagining The Human At The Frontiers Of Biomedicine, she writes, “The liminal is an arena of possibility, the purgatorial is an arena of responsibility.” Turner’s liminality is one of potential; in Kentucky Route Zero, the night takes characters to the most unexpected places. Rabinow’s liminality is one of reckoning; the morning comes and the characters have to make decisions that will determine their futures.

[…] The game asks a lot of both its characters and its audience; it asked me to consider questions big and small, many explicit and some implied. But mostly it asked me to observe, without affecting in any meaningful way, its narrative and outcome. I could change the tone of the scene by choosing a slightly more positive or negative response, but Conway was always going to end up at Hard Times Distillery and Shannon’s livelihood was always going to hang in the balance. The audience, like the skeletons who work for the distillery and the ghosts who roam the town and the characters who live in it, is trapped in a state of purgatorial anxiety. We can only guess what happens to Shannon, Ezra, and the others once the curtains have closed and the game has ended.

If music is a ritual of goodbyes, it is also a ritual of beginning. Kentucky Route Zero leaves so much open to interpretation, but in asking me to imagine a future, it gave me the space to imagine a better one, one where the pain and hardship are worth it—a future worth fighting for.

Halt and Catch Fire entende os videogames

Devan Suber, para a Polygon:

The much-beloved AMC show made no secret of the fact that it was never really about the technology covered in a season; in the words of Joe MacMillan (Lee Pace), the computer was always “the thing that gets us to the thing,” a vector for connection, expression, or some other deeper human need.

Uma encapsulação perfeita de uma das minhas séries favoritas. Halt and Catch Fire sempre capturou muito bem seus personagens como os desbravadores do início da computação pessoal: querendo criar tecnologia para conexão e expressão, e a empolgação deles de encontrar aquela nova fronteira – como se fosse a criação de um novo idioma, a descoberta de um novo continente. Já dá vontade de rever.

“Nós não perdemos nada”

Ariane do Carmo, no Twitter:

“Nós não perdemos nada”, disseram as cabeças tristes, cansadas, baixas.

“Nós não perdemos nada, aqui apenas faltou luz por uns dias”

“Apenas não tive água”

“Apenas fiquei uns dias ilhada com meu bebê de dois anos”

“Apenas precisei sair e buscar abrigo em um local não alagado”

“Mas nós, nós não perdemos nada. Pois há outros que perderam bens, perderam casas, perderam histórias, perderam vidas. Então isso, isso não é nada. E eu nem sei porque estou tão triste.”

Dissemos nós, cercados por lama, sem perceber que nessa enchente perdemos tanto que até nossos padrões do que é sofrer foram reduzidos.

udm=14

Lembrete: se você quiser fazer pesquisas no Google e não ser bombardeado com os resumos gerados por IA, clipes da web nem outros recursos inúteis, você pode adicionar o parâmetro &udm=14 no fim da URL.

(É possível adicionar o parâmetro também no mecanismo de busca do navegador pra que pesquisas sejam feitas assim automaticamente).

Como eu blogo por aqui

O Ghedin trouxe pra esse lado da internet uma corrente gringa de como é o fluxo para blogar.

Eu posto no Tumblr, o que é mais fácil. Alguns posts mais breves surgem do celular ou do navegador mesmo (como uma foto ou uma efêmera). Esse é um deles.

No geral, os textos mais longos são criados de outra forma. Eu demoro pra escrever, então eles nascem e são publicados usando o MarsEdit, onde eu costumo editar meus posts e gerenciar suas tags. O suporte a Markdown na nova versão do MarsEdit melhorou muito, e acho um fluxo de escrita muito melhor que o editor de blocos padrão do Tumblr.

Eu desenvolvi o tema do meu blog pensando nisso. O MarsEdit usa a forma “antiga” de tipos de post do Tumblr, e eles possuem variáveis de template específicas. Já o NPF, o novo formato de posts que é gerado pelo editor de blocos nativo do Tumblr, usa somente o formato de texto com uma estrutura específica, com classes CSS para formatação. Eu basicamente “copiei” a estrutura gerada pelos blocos de link, vídeo, áudio e citação do NPF para o formato clássico. Assim eu posso ter um CSS único para os dois formatos de publicação.

Eu já mantive esse blog com WordPress e com o Jekyll no GitHub Pages, mas a versatilidade de usar o Tumblr no celular para postar uma efemeridade e a simplicidade do seu motor de temas comparado ao Gutenberg nos dias de hoje me trouxe a falta de preocupação que faltava. Domínios personalizados de graça foi um extra (hoje em dia esse é um recurso pago por aqui, mas como fiz o mapeamento há muito tempo, eles mantiveram como algo gratuito).

Casa

Já faz um tempo que eu me planejo pra escrever sobre a minha casa. Ela tem sido um “projeto de vida” imenso para mim, e o meu foco principal nesses últimos três anos. Minha casa revelou tanto de mim para mim mesmo, e me confortou em tantos momentos (em tão pouco tempo!), e foi o lugar que eu mais encontrei alegria em meus dias.

Eu tenho pensado em escrever sobre tudo isso por um tempo já. E daí a enchente veio.

Minha casa não foi afetada pela tragédia. Eu estou a salvo nela de novo. Mas, por quinze dias, eu tive que deixá-la. Eu passei duas semanas longe dela (não é muito tempo!), mas o alívio de vê-la de novo só assentou em mim ao ver as fotos da vida que eu construí nela em suas paredes. Eu estava em casa.

Essa é uma história feliz em meio a muitas histórias tristes, terríveis, de pessoas perdendo suas casa e suas vidas. Algumas estavam reconstruindo-as desde a última enchente, e a água veio e levou tudo de novo. Eu vejo as pessoas sendo salvas ou encontradas nas ruínas de suas próprias casas. Eu vejo cachorros e gatos e galinhas e porcos e cavalos lutando para sobreviver. Alguns são resgatados. Outros não conseguem encontrar abrigo a tempo. É tudo tào triste, é tudo tão trágico. Tudo o que eu faço para ajudar não é muito. É uma tragédia que me lembra sempre da pequenez da minha existência quando estou sozinho. Um pouco de doações aqui e ali parecem pequenas gotas em um balde vazio. Eu posso passear com os cachorros abrigados, doar algum dinheiro e comprar algumas coisas para os abrigos. E então eu volto para casa, e o som da chuva — que já foi meu som favorito para ir para a cama — assombra minha noite.

Eu e alguns amigos deixamos nossas casas bem rápido. Eu já estava sem luz e sem água por três dias quando nós decidimos deixar Porto Alegre. Meu prédio já estava vazio. Todos deixaram e dormir em um prédio vazio em um bairro alagado ficou preocupante. Eu moro no centro, o que me fez no passado desejar que o bar ao lado da minha casa fechasse mais cedo, ou que as pessoas falassem mais baixo. Mas depois de dias (e, agora, semanas) dormindo no silêncio completo de um bairro esvaziado, eu sinto falta do barulho reconfortante de viver ao redor das pessoas.

Eu lembro que eu coloquei minhas plantas na minha sacada, para que a água da chuva pudesse molhá-las enquanto eu estava fora. Eu fechei minhas janelas, e deixei minha geladeira (já esvaziada) aberta. E então eu fui para a casa de minha amiga, onde eu dormi na sala para que pudéssemos sair na primeira hora da manhã.

Eu viajo nas minhas férias, e vou visitar meus pais nos fins de semana. Deixar minha casa nunca foi um drama antes, mas era um sentimento diferente dessa vez. Já dava para perceber como a cidade que eu estava deixando não era a mesma na qual eu vivia. A escuridão e o silêncio pairavam sobre ela, cercados pela água e pelo lodo.

É devastador. Pelos próximos dias, nós assistíamos as notícias e a destruição total de tudo ao redor de nossas casas — bairros alagados em menos de uma hora, cidades inteiras destruídas, algumas pela terceira vez em menos de um ano. Pessoas perdidas, pilhas de corpos de animais aparecendo.

Eu sou muito sortudo de ter uma casa para voltar enquanto abrigos estão cheios de pessoas que não sabem se suas casas ainda existem, ou já sabem que precisarão começar de novo, de novo. Quando eu voltei, eu liguei as luzes e o barulho da minha casa, silenciado por semanas, começou de novo. Eu coloquei minhas plantas de volta em seus lugares, lavei a louça que estava acumulada pela falta d’água, e sentei na minha mesa e olhei para as fotos dos momentos vividos nesse mesmo lugar. As memórias que essa casa me deu. E então eu chorei.

Eu tenho chorado aqui e ali desde então, pelas menores e maiores das razões. Pelas histórias que eu ouço, de salvamentos e de perdas. E por detalhes que eu amo na minha casa.

Pelos últimos três anos, eu venho construído ela devagar, mas com carinho. Em troca, ela me revela coisas sobre mim — como eu organizo as coisas, ou o que eu acho bonito ou interessante. E, lentamente, essa casa me dá conforto, e me dá meu reflexo em suas paredes e nas coisas que habitam ela. E então me dá memórias de como era antes, e o que mudou para me fazer querer mudá-la. Ela é, literalmente, tudo pra mim.

E eu não consigo imaginar a dor que seria de perdê-la, mas eu vejo essa dor em todo o lugar, o tempo todo, ao redor. Ela é silenciosa e escura. Ela cheira a lodo e a animais mortos. Eu a vejo quando atravesso as ruas do centro e o barulho da água aparece. Ela é a fome, o frio e o medo. E ela tá em todo o lugar ultimamente.

Transformando a internet em um lugar

Tenho feito um experimento de “isolar” meu contato direto com a web para a minha escrivaninha, e os resultados têm sido bons. É impossível isolar a internet da minha vida hoje em dia, mas estou me referindo como “contato direto” à minha navegação na web, tanto para trabalho quanto para lazer. Com isso, meu relacionamento com ela tem sido cada vez melhor.

Essa experiência vem de uma espécie de nostalgia por um tempo em que eu só podia acessar a internet depois da meia-noite nos dias de semana ou aos finais de semana, quando o pulso era mais barato. Era como atravessar por um portal para a internet. Era um lugar — na “salinha do computador” na casa dos meus pais, explorando a Wikipédia ou o blog de alguém sobre um tópico específico. Foi assim que descobri meu amor pela história do cinema e meu primeiro contato com os jogos e a própria arquitetura da web. Coisas que moldaram profundamente minha vida profissional e pessoal.

Eu ainda tenho uma TV que funciona majoritariamente pela internet, por exemplo, e meu relógio também é “inteligente”. Ele me avisa que está chovendo muito e eu não deveria sair de casa esta semana (o que é verdade, está chovendo muito lá fora!), mas meu telefone geralmente está perto da minha escrivaninha hoje em dia — ou no meu bolso quando estou cozinhando e esperando uma ligação. Eu acabo respondendo às minhas mensagens e ao meu e-mail apenas quando chego perto do computador, e tem sido ótimo. “Hora de conversar com meus amigos” ou “hora de ler sobre o design de circuitos do GameCube”. Chega de lutar contra o tédio enquanto estou sentado no sofá, tentando prestar atenção em um programa de TV ou na cama, antes de dormir. Meu tempo de leitura tem aumentado muito ultimamente, e também minha pesquisa na web. Quando chego na internet, geralmente é para fazer algo específico — escrever no meu blog, pesquisar sobre um tema, me aventurar no meu Pocket…

Eu acho que isso tem sido tão, tão bom. A internet se tornou um lugar na minha casa, e não uma coisa que eu guardo no meu bolso. Tornou-se um portal novamente, para a curiosidade e para a descoberta. Também tem sido libertador. Depois de um dia inteiro de trabalho, deixo ela para trás para fazer outra coisa, e não está mais me incomodando no meu telefone — agora que é uma ferramenta “entediante”, com as notificações desativadas.

Agora

Esse foi um bom fim de semana, depois de uma semana caótica.

Ontem foi um dia perfeito. Tinha um céu lindo, bem azul, com poucas nuvens. E tava frio, com um ventinho gelado.

Eu amo dias assim. Tem um certo conforto em um dia gelado, mas em que o sol brilha. O cheiro do café da manhã alcança lugares mais distantes. Os sons da manhã são mais macios.

Os sentimentos ficam mais aguçados, e os sentimentos também. Eu saí para levar as roupas na lavanderia, e o dono do bar ao lado da minha casa já estava abrindo o negócio dele. A gente trocou nosso bom dia antes de eu descer a escadaria. Na lavanderia, a mesma coisa. Existe uma calma em manhãs que a temperatura é fria, mas o céu acalenta.

Durante a pandemia, eu pensei muito se aquele tempo ia sinalizar o fim da ideia de “comunidade”, de se sentir parte de uma comunidade no nosso dia-a-dia. Os dias ficaram mais impessoais durante aqueles anos. Usávamos máscaras e saíamos só quando era necessário. Eu morria de medo de não conseguir me aproximar dos meus novos vizinhos por causa disso. Mas é tudo questão de tempo. Em algumas semanas, eu e o dono do bar do lado da minha casa já tínhamos um acordo que nunca foi falado — quando eu chego tarde em casa, nós trocamos um aceno e ele me pergunta se tá tudo bem. O mesmo vale com a moça da lavanderia, e a senhora da padaria. Eu nunca consegui ter uma aproximação com a mulher do mini-mercado perto da minha casa, mas até isso é um conforto (não são todos os que a gente consegue se aproximar nos nossos dias).

Dias assim, que tiram o incômodo do calor que durou quase seis meses nessa primavera e nesse verão, dão mais espaço pra calma. Ou vai ver, como a Bruna me comentou, é a paz inerente da chegada dos 30, em que incertezas se tornam insignificantes porque a vida não nos dá muito tempo — ou vontade — de ficar ponderando decisões não tomadas. Meus vizinhos, as primeiras pessoas que eu vejo no dia (e geralmente as últimas também), continuam ali. Nossos acordos, alguns nunca falados e outros acertados, vigoram.

Esse domingo foi outro dia frio, mas dessa vez foi nublado. É um outro tipo de dia que eu adoro. A manhã começa mais cedo, e dura um bocadinho a mais. O dia demora mais pra começar, e ninguém culpa ninguém por isso. Há um silêncio comunitário no ar — é um dia de pouco barulho, de muito sono. O cheiro do café fica no ar por mais tempo. Os sons abafados, também.

O legado sem limites de Breath of the Wild

Algumas passagens do texto do Lewis Gordon para o The Ringer:

On the one hand, a sense of adventure that has few peers in video games: wanderlust, dread, the sublime, all achieved within a vast, meticulously designed open world. On the other, systems and mechanics that combine in such a way that they both react physically to the player and seem to exist independently of them, alternately inspiring awe and glee and making a virtual setting feel truly alive.

By the mid-2010s, Ubisoft’s icon-filled open-world “map games” (a pejorative term expressing players’ frustration with having to scour a map to find things to do rather than looking at the world itself) had reached their logical extremes

[…]

At their most cynical, these ballooning virtual spaces appeared less like living, breathing worlds than sites to consume ever more content.

Breath of the Wild was born from a crystalline picture: Link climbing a cliff before paragliding to the ground below, moving seamlessly from rock to air, and then, finally, landing comfortably on terra firma. There was more, though: survival and what director Hidemaro Fujibayashi called the “creativity of combination”—for example, lighting wood with fire to create a larger bonfire. The Zelda series, whose game mechanics were usually so precise and predictable, would open itself up to the natural elements. In the process, it would have to embrace a degree of chaos and chance.

Central to the game’s production was figuring out how such a world should behave. After all, a space that lacks consequence, friction, or discord is arguably one without life.

What Nintendo’s game gave Kythreotis, beyond direction about how this mechanic should function, was a sense of belief—not just in himself and Fineberg, but in the player, who with expanded input would become more of a “collaborator in the experience.”

Maybe Breath of the Wild is the Platonic ideal of a type of action game that almost everyone who has ever picked up a controller has envisioned: one in which a lone warrior explores a mythic landscape that responds to their actions in a meaningful way. […] Perhaps because Nintendo operates according to its own set of rules, forgoing the graphical arms race to focus on design, it was able to burrow deeper than anyone else into the systems that bring such a game to life. As Kythreotis stresses, “Zelda is never trying to be a film. It wants to tell its story through systems and mechanics. It embraces video games as a form.”

Agora

Um momentinho que eu gosto depois de voltar do intervalo de almoço no trabalho é escovar bem os dentes e tomar aquele primeiro gole de café.

Mana

Minha mãe tirou essa foto da minha irmã e eu sentados embaixo da árvore que fica no lado da casa em que a gente cresceu. Essa foto já tem quase dois anos, foi tirada em agosto de 2022.

Eu gosto muito dessa foto. Nem eu e nem minha irmã estávamos bonitos nela. Estávamos, os dois, cansados depois de um longo dia de trabalho, e nós dois estávamos na casa dos nossos pais porque precisávamos descansar. Eu estava passando por um momento bem difícil depois de um término. Minha irmã tava a algumas semanas de dar a luz ao Caetano.

Nós dois nos refugiamos no jardim em que crescemos, e eu adoro lembrar desse momento específico. Eu acho, hoje, que foi nossa última oportunidade de sermos “só” irmãos um do outro. Fazia um tempo que a gente não fazia isso. A Mana saiu cedo de casa para trabalhar, e eu fui logo depois, e tivemos poucas oportunidades desde então de estarmos sem outras responsabilidades na cabeça, envolvidos com os problemas de outras pessoas.

Por duas semanas em agosto de 2022 eu corri pros braços da minha irmã mais velha e pedi ajuda dela pra lidar com algo que eu não entendia direito, mas que sabia que ela ia poder me ajudar. Eu fazia isso há vinte anos, quando quebrava um prato ou copo dos meus pais e corria pra minha irmã e pedindo ajuda pra ela ajeitar a situação. Ela sempre dava um jeito. Ela deu um jeito ali também.

Eu gosto de como somos irmãos independentes um do outro, mas eu gosto do nosso companheirismo mais ainda. A gente tem a coragem de se virar sozinho porque sabe que, se não der certo, tem o outro pra ajudar. Só de saber que minha irmã tá a um “mana” e de distância me dá toda a coragem que eu preciso.

Quer um exemplo? Entre os vários apartamentos que visitei, teve um que tava um caos. Mas foi nesse que minha irmã imaginou que, tirando uma parede, limpando uns azulejos, e decorando do jeito certo, ia virar uma casa. Desde então, é a minha casa. A Mana tem esse tipo de visão, esse tipo de coragem. Tendo ela ali do meu lado na hora de tomar a decisão, eu tive essa coragem também.

Poesia é o evento

Ilya Kaminsky em entrevista com Garth Greenwell na edição de março/abril da revista Poets & Writers Magazine (2019):

“Poetry is not about an event. It is the event. Art is the resistance of complacency: It always stands in opposition to numbness. That is why it just doesn’t die, poetry—despite so many death notices. It is always there, waking us up when we get numb, poking us in the eye.”

Via @poetsandwriters.

Minha dieta cultural de janeiro

Eu tô bem contente com esse primeiro mês desde que eu comecei a minha nova “rotina cultural”. Não precisar escolher o que fazer no fim de cada dia liberou muito mais tempo para eu ler, ver e jogar mais. Por exemplo, embora o “dia de ler” seja na terça, o tempo que antes passaria decidindo o que ia fazer na quinta eu acabo usando para ler mais, etc.

Um outro efeito interessante dessa rotina: a pesquisa do filme que eu vou ver, ou do próximo livro que eu vou ler, virou uma diversão. Eu gosto de usar os intervalos do trabalho, ou o meu dia “livre” na sexta, para ler sobre um diretor ou um movimento do cinema que eu quero explorar nas próximas quartas, ou planejar a ida no cinema. É uma empolgaçãozinha que eu não sentia faz tempo. Essa rotina acabou me trazendo aquela curiosidade cultural que eu tinha de volta, e eu tô muito satisfeito com isso.

Enfim. Aí vai um resumo desse início de ano:

  • Filmes: eu corri atrás de alguns dos filmes do ano passado, como Folhas de Outono, Fale Comigo, Anatomia de uma Queda, a restauração de Tempo de Amar e o meu filme de aniversário (e novo favorito!), Segredos de um Escândalo. 2023 foi um bom ano pra filmes!
  • Jogos: pouquíssima coisa nova, eu voltei a jogar Breath of the Wild porque eu sou apaixonado pelo silêncio e a solidão desse jogo, algo que eu sinto falta em Tears of the Kingdom. Eu também dei uma explorada no catálogo do Apple Arcade e joguei um bocado de Outlanders e Japanese Rural Life Adventure. Os dois são joguinhos muito charmosos.
  • Séries: eu comecei a acompanhar a quarta temporada de True Detective, que arrasa (a única temporada boa da série desde a primeira), reprisei as segundas temporadas de The Bear e Somebody Somewhere, e acompanhei a primeira fase de Renascer. Acho que é a novela mais bonita que eu já vi.
  • Livros: eu comecei A Casa de Doces, a continuação espiritual do meu livro favorito (A Visita Cruel do Tempo). Os primeiros dois capítulos são frios demais pro meu gosto, mas logo que Sasha reaparece na história, Jennifer Egan dá aquela imensidão de escopo e emoção na história que atravessa décadas e dezenas de vidas. Ela ainda sabe capturar o tempo, e agora com aquele gostinho da tragédia da promessa do digital. Demorei, mas agora por fevereiro eu engatei nessa leitura.

Agora

Eu ando tendo umas noites sem conseguir dormir nessa última semana, e pela primeira vez nesse quase um ano sem Twitter, eu senti falta daquele lugar.

Não do Twitter em si, mas de ter um lugar em que meus outros amigos que provavelmente estão passando por uma insônia também estejam, para que possamos conversar até um a um cair no sono. Eu até tenho uma conta no Bluesky, mas meus amigos não estão lá — então não tenho ninguém pra comentar o BBB ou o novo episódio de True Detective, por exemplo.

Em noites assim eu sinto falta da companhia das crianças do brilho.

30

Teve um temporal horrível aqui na cidade há uns dois dias. Muitas pessoas perderam tudo, centenas de árvores caíram, a luz e a água começaram a faltar em toda a vizinhança. Mas não na minha casa.

Hoje eu fiz trinta anos, e eu ganhei uma hérnia de aniversário. Eu também ganhei um belo almoço, e (o mais especial de tudo) a certeza de que minha casa é um lar, um abrigo. Nos últimos dois dias, meus amigos se abrigaram na minha casa, onde não falta nem água nem luz. É um porto seguro pra mim e pras pessoas que eu amo.

E foi ao redor delas que eu fiz meus trinta. Foi pequeno e foi gostoso. Teve comida da mãe e do pai. Teve um abraço do Balu, e a companhia da Aldry. A gente ouviu jazz, e eu não senti a dor na perna que eu vinha sentindo há semanas.

Eu fui no cinema com meu melhor amigo e com minha melhor amiga. Eu vi um filme que eu adorei, e eu tomei uma cervejinha no fim do dia. E foi bom. Foi pequeno e foi quieto, como eu espero que essa nova década seja. A paz, eu espero que ela tenha chegado.

História de um site

Shea Fitzpatrick fez um histórico de seu site pessoal, uma galeria que mostra a evolução e transformação de seus gostos e interesses sobre o que fazer com o seu cantinho da internet.

Eu sempre quis fazer algo assim para o meu site pessoal (esse aqui!), mas eu não guardo capturas de tela das várias versões que eu criei pra ele ao longo dos anos. Talvez seja a hora de começar a fazer isso.

(Adorei que compartilhamos o mesmo costume de desenvolver nossos sites no período de uma noite, eu só consigo desenvolver algo pro meu site pessoal ou pro Pão com Mortadela assim).

Agora

Eu tô experimentando algumas mudanças na minha rotina nessa semana. Em 2023, eu senti que passei muito tempo pensando que eu não estava fazendo nada, mesmo que isso não fosse verdade. Acho que essa impressão veio pelo fato de eu parar de fazer coisas que eu gostava e que me faziam bem, como estudar francês, caminhar e escrever.

Não que eu não fizesse esse tipo de coisa, mas eu as fiz sem uma frequência que eu gosto, e geralmente de forma paliativa. Eu sentia que eu não estava fazendo nada, e então decidia “tampar” esse sentimento com alguma tarefa. Porém, eu gosto de rotinas, elas costumam me fazer bem.

Entre 2017 e 2020 eu tinha o hábito de estipular minha rotina usando os lembretes no meu celular. Eu criava uma série de tarefas, estipulava a frequência (diariamente, a cada dois dias, semanalmente, etc.) e um horário. Não tenho ideia do porquê eu parei de fazer isso. Acho que, com a pandemia, minha rotina mudou drasticamente nos menores detalhes. Mesmo assim, eu senti falta dessas tarefas no último ano, então coloquei todas elas de volta nos meus lembretes:

Captura de tela de uma lista no aplicativo Lembretes, com as seguintes tarefas: Caminhar (todas as segundas, quartas e sextas); Ver um filme (semanalmente, às quartas); Ler um livro (semanalmente, às terças); Jogar um jogo (semanalmente; às segundas); Assistir uma série (semanalmente, às quintas); e Estudar francês (diariamente, em atraso).

Além de caminhar e estudar francês, eu decidi estipular o que fazer no meu tempo ocioso nos fins de tarde durante a semana. Eu acho que a minha inquietação ou angústia nos fins de tarde vinham pelo fato de eu não ter algo específico pra fazer; ao mesmo tempo, eu sinto que minha dieta cultural no último ano foi bem rala. Eu raramente encontrava tempo para ver filmes ou ler, só que não por falta de tempo mesmo. Só por desorganização mental, se é que isso faz sentido.

Acho que isso libera um pouco do peso de decidir o que fazer todos os dias (eu amo esse vídeo da Aretha Franklin reclamando do que fazer de janta todas as noites), o que me dá mais tempo pra fazer mais coisas que eu quero fazer. Não necessariamente ser mais produtivo (isso também), mas usar melhor o meu tempo.

Eu estou aplicando essa nova rotina há pouco mais de uma semana. Eu comecei ela no recesso, e por enquanto está indo tudo melhor que a encomenda. Por exemplo, eu não só consegui ler muito ontem, como eu também tive tempo de sobra pra assistir um filminho, já que não precisei ficar matutando o que eu deveria estar fazendo. Foi bem bom! E o livro também ajudou, porque é muito bom! (A casa de doces, de Jennifer Egan).

Mesmo assim, é pouco tempo pra dar alguma impressão definitiva por aqui, mas eu quero ir experimentando com isso nesse mês. Eu quero ver se consigo adicionar Yoga à minha lista de tarefas na próxima semana, é algo que eu sinto falta de fazer. Eu só preciso ver se eu tenho um tempo hábil pra fazer isso. Eu não quero correr o risco de estufar meus dias com coisas e acabar fazendo nada de novo.