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A queda do céu

Luciana relatou como foi seu dia de eleição — da esperança do voto ao cataclisma da apuração. No seu blog, o sol na cabeça:

Mas hoje é dia de votar! Sem tempo pra analisar o simbolismo gritante do que tinha acabado de sonhar. Meu coração está tão repleto de esperança que a mente faz questão de ignorar o mau presságio e parto pra cabine de votação, com um entusiasmo que não sentia há muitos anos. Foram algumas horas de alegria até o chão ser arrancado dos meus pés, novamente, durante a apuração dos votos.

Tem muito mais que isso no seu lindo texto. A queda do céu, o livro que ela menciona no texto, tá na minha fila pra ler há uns meses. Acho que ele vai furar a fila agora.

Quieto

Hoje foi um dia quieto. Eu estive quieto. Fora uma reunião de meia-hora depois do almoço, e de uma breve visita de uma amiga para buscar um pacote aqui na minha casa, eu passei o dia quieto. Não só não falei, mas eu senti o meu corpo quieto.

Eu tive um punhado de semanas agitado nesse último mês. Eu me relacionei brevemente com uma pessoa que me tirou do eixo, mas que me deixou inquieto, incerto. Tudo acontecia muito rápido, e com muita força. Até que veio o silêncio e, depois dele, a paz. Quando eu vi, a pessoa foi embora e levou com ela todo o sentimento que tive por ela junto. Passei esses últimos dois dias quieto, recuperando o movimento do meu corpo, apreciando um pouco não ter que falar ou fazer nada. Existindo só dentro de mim mesmo.

Acho que deu a sorte de terem feito dois dias de muita chuva aqui na cidade, porque em dias assim o Tobias também fica quieto, enroladinho na cama dele esperando a chuva passar. A gente troca olhares e carinho no dia de hoje, e ficamos quietos juntos. Nos recuperando depois de um temporal, esperando o dia raiar amanhã.

Separe as bananas e maçãs das outras frutas

Trazendo pra cá as dicas de @chadoyofficial (via Boing Boing), já que eu não tenho Instagram pra salvar:

  1. Maçãs amadurecem tudo ao redor delas.
    Elas liberam um gás que pede para outras frutas amadurecerem. Em uma tigela com bananas elas amadurecem tudo em dois dias.
  2. Bananas são as piores.
    Elas liberam ainda mais gás. Penduradas sozinhas elas duram bastante, em uma tigela elas levam tudo com elas.
  3. O que é bom se você quer amadurecer algo.
    Um abacate em um saco de papel com uma maçã amadurece em um dia. O mesmo truque funciona com pêras e pêssegos.
  4. Batatas e alhos se estragam.
    Ambos distribuem umidade e gás, e fazem o outro brotar. Deixe-os separados e em cantos diferentes e ambos vão durar por meses.
  5. Morangos, framboesas e mirtílios vão na geladeira sem limpar.
    Água na pele é o que inicia o mofo. Lave enquanto come e eles duram o dobro do tempo.
  6. Cítricos ficam na geladeira, não no balcão.
    No balcão eles ressecam em uma semana. Na gaveta duram um mês, e mantém o suco.
  7. Tomates nunca vão para a geladeira.
    O frio mata a textura e ela não volta. Eles ficam no balcão, longe das maçãs.
  8. Um fruto ruim estraga todo o resto.
    O mofo se espalha em frutos macios muito rápido. Tire o estragado assim que ver, não no dia que ele fizer amigos.

Mundano

Eu não conheço Mandy Brown nem Nevan Scott, mas achei linda a observação de Brown para a natureza da relação que tinha com Scott, que faleceu recentemente. Em seu in memoriam, ela fez essa linda observação sobre o mundano:

It sounds incredibly mundane to talk about it now, a friendship measured in video calls and commit messages, but then the word mundane comes from the Latin mundi, or world. To be mundane is to belong to the world, to be in the world, of it and within it. Not outside of it—not lost, the way so much technology tries to make us lose ourselves—but in the world as only the truly living can be. As we can only be with each other.

[…]

Near the end of The Blue Place, as Julia is dying, she tells Aud to “stay in the world.” Aud promises to do so, but the truth is she does not know how. It is so very hard to stay in the world, to hold on to the mundane and ordinary, those fragile human connections, amidst all the forces arrayed against us. I think it is only in the effort to learn that we come close to that knowledge; and perhaps only in the effort to teach that the learning really takes hold.

Estar presente, se sentir parte do mundo, é algo que eu consigo fazer cada vez mais raramente, mas sempre que eu consigo eu sinto ser um ato quase revolucionário de persistir. Que as lembranças dessa amizade sejam uma benção.

You Can See Everything

Fissurado no primeiro trailer de You Can See Everything, novo documentário do Nathan Fielder sobre Elizabeth Holmes.

Se Fielder realmente estiver escalando em escopo como fez entre as Nathan for You e as duas temporadas de O Ensaio, eu não duvido que esse filme me tire do cinema com o cérebro como um mingau, estilo Close-up.

Registrando já a minha aposta pra esse filme na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2027, o qual vai resultar na terceira temporada de O Ensaio.

Web Badges World

Um diretório de badges de sites. Na época dos dinossauros, a gente se comunicava assim sobre aquilo que a gente gostava e recomendava que nossos web amigos usassem pra navegar no nosso site. Eu lembro que o meu primeiro blog, o Esporo, usava PNGs transparentes que só funcionavam no Firefox e no Opera naquela época. Hoje em dia os repositórios de código usam um filhote de badges assim pra reportar testes e dependências, status do projeto, etc.

Via a chuva de links n’o sol na cabeça. Me fez pensar que eu queria um diretório desses com outro tipo de badge: o de “sites parceiros”, que era basicamente um jeito mais visual do bom e velho blogroll. Eu lembro que o Esporo listava os badges do O Sim BR, SporeMania, SporeTips, Sporando, SimNetwork… nomes de sites que deixaram de existir há mais de uma década e ainda vivem soltos na minha cabeça.

(Link adicionado na trilha, pra quem quiser passear).

Edifícios Kawaii fotografados por Ken Ohyama

O fotógrafo Ken Ohyama tem um novo livro chamado Architectural Dollhouses, repleto de edifícios cheios de personalidade:

Fachada de prédio comercial japonês em concreto bruto estilo brutalista, com viga saliente sobre o térreo. No térreo, restaurantes com placa ilustrada de uma baleia e máquinas de venda automática, isolados sobre fundo cinza-azulado. © Ken Ohyama

Fachada de prédio residencial de tijolos amarelos com uma faixa central branca e janelas arredondadas. No térreo, uma barbearia com toldo azul e totem giratório, cercada por fios elétricos, isolada sobre fundo cinza-azulado. © Ken Ohyama

Duas fachadas estreitas geminadas (uma em tons terrosos com telhado inclinado, outra em branco e rosa com topo arredondado) ligadas por um varal de lampiões vermelhos e brancos, isoladas sobre fundo cinza-azulado. © Ken Ohyama

O trabalho de Ohyama, que você pode ver no site dele é muito lindo. Ele tem um jeito de fazer a gente enxegar a cidade.

Via Spoon & Tamago, que tem imagens do livro-catálogo com as fotografias dos edifícios Kawaii, que é cheio de surpresas.

O instrumento que fez o som de “Os Pássaros”

Eu descobri hoje que o som dos pássaros perigosos no clássico Os Pássaros de Alfred Hitchcock são, na verdade, sons sintetizados usando um instrumento chamado trautônio por Oskar Sala. Ouvindo eles sem o contexto do filme, eu percebi que justamente o que tornam os pássaros tão assustadores é, justamente, o som estranho que eles fazem. Meio mecânico e meio fantasmagórico (mas, ainda assim, um som que parece o de um pássaro):

Aqui tem é um documentário sobre o trabalho de Oskar Sala, que ajudou no desenvolvimento do instrumento até a sua morte, em 2002.

Pessoas que pensam antes cortam a grama melhor depois

A edição mais recente do The Pudding é sobre cortar grama, mas na verdade é sobre produtividade, e como o nosso cérebro é, na grande maioria das vezes, tão eficiente quanto um computador para problemas computacionais. É super divertido ler sobre os resultados da pesquisa enquanto você mesmo tenta resolver as grades de grama que precisa cortar com o menor número possível de movimentos.

Uma das coisas mais interessantes nesse texto, pra mim, é a observação de quando o jogador está pensando (e como esse tempo pensando resulta em um melhor resultado no fim do experimento).

Homenagem à árvore querida

A Luciana escreveu no seu blog um obituário pra uma árvore, companheira do seu dia-a-dia.

Me lembrou do belíssimo relato da morte da sumaúma que comoveu a cidade de Belém, e das pessoas que mandam emails para árvores.

Eu acho esse tipo de relato profundamente triste, sempre. Eu vejo as árvores ao redor da minha rotina como verdadeiras instituições, e é sempre estranho perceber que, seja por consequência de um vendaval, ou porque o prefeito odeia sombra, uma delas não está mais lá. Crescer no meio do mato me fez reagir a esse tipo de mudança de um jeito estranho.

Mystery?!

Hoje de noite eu tive um sonho louco.

Meus sonhos costumam ser bem normais. Geralmente são só eventos do meu dia-a-dia, mas nessa última noite as coisas mudaram. Eu sonhei que eu tava vivendo em algum lugar do Canadá, e fui convidado pela Cardboard Computer (os desenvolvedores do meu jogo favorito, Kentucky Route Zero), para testar o novo jogo deles, que se chamava Mystery?!, em Montana. Infelizmente, eu não lembro o subtítulo, eu só lembro que era longo.

O jogo começa com um FMV em que dois atores estão em um prédio antigo. Parece uma antiga repartição pública ou uma fábrica. Tem muito a estética de um filme pornô softcore, orque tanto o ator quanto a atriz estão com roupas de seda e a iluminação é típica de uma produção barata do início dos anos 1990, branca e iluminando tudo.

Eu não lembro direito do que eles falavam, mas eu lembro que essa introdução acaba e o jogo começa. Então, magicamente, eu estava lá naquele prédio (mistério!), e o sonho todo ficou em primeira pessoa (muito The Entertainment!). O jogo era simples:

  • Nós assistíamos um vídeo numa TV velha com vários objetos.
  • Nós recebíamos uma cartilha com várias palavras, e precisávamos circular o nome dos objetos que víamos.
  • A cada rodada, mais um item era introduzido, então a gente tinha que lembrar progressivamente de mais e mais coisas.

Eu lembro que uma das coisas que eu precisava lembrar era o bico de um pássaro, que eu acho que é um dos marcadores para se navegar na Zero em KRZ. Só que as coisas iam complicando conforme o jogo progredia, eu tinha que lembrar mais e mais de coisas específicas, como “urna antiga para se colocar as cinzas da vovó”. Eu joguei algumas partidas do jogo com um cara que eu não conhecia. Eu lembro que eu ia progressivamente me apaixonando por esse jogador. Tinham outras pessoas em outras mesas ao redor.

Depois da partida, nós saímos para a rua, estava anoitecendo. Era um edifício bem antigo e bem grande no meio do nada. Eu lembro que tinha um gramado gigante ao redor, e nós jogadores sentamos juntos próximos de uma árvore e da cerca e ficamos ali. Eu lembro que eu me senti feliz de conhecer outras pessoas e de fazer parte daquele grupo, e de sentir que seríamos amigos depois daquela tarde jogando Mystery?!.

E então eu acordei.

Thimbleweed Park 2

Ótima notícia: Ron Gilbert postou no seu blog ontem que Thimbleweed Park 2 está em desenvolvimento, com lançamento previsto pro início de 2028.

Eu amei o primeiro Thimbleweed Park. Eu acho que é um dos melhores jogos pra se jogar no Nintendo Switch, embora ele seja um jogo de computador de primeira (eu preciso escrever sobre minha ideia de “jogos de computador” um dia). Ele me lembrou de jogos que eu não entendia direito quando eu era pequeno, mas me sentia instigado a jogar mesmo assim. Foi muito legal de revisitar o gênero de aventura de apontar-e-clicar baseada em verbos.

Acho muito interessante como, nesse último ano, as boas notícias que eu leio sobre jogos geralmente vêm de desenvolvedores fora das grandes empresas. Com o passar do tempo, mais e mais do meu tempo jogando acaba indo para jogos definitivamente menores do que da minha juventude. Eu me interesso por projetos pessoais, como A Short Hike, Lil Gator Gate, Time Flies e Blippo+.

Com as péssimas notícias que a indústria tem divulgado todas as semanas, e o relativo silêncio da Nintendo nesse último ano, eu me sinto bastante desinteressado nas super-produções. Meu jogo mais esperado desse ano, por exemplo, é Big Walk.

Acho que com o passar do tempo isso vai acontecer mais e mais. Eu jogo pouquíssimo no meu PlayStation, e vejo ele como uma máquina de potência não utilizada. Eu acho que nunca joguei um jogo que realmente fez ele se forçar. Talvez Grand Theft Auto 6 vá fazer isso no fim do ano, mas eu nem sei se vou ter o tempo necessário pra jogar algo assim. Eu acho que o meu Switch 2 e o meu MacBook são o suficiente pra jogar grande parte de tudo aquilo que eu quero jogar hoje, e no futuro. Mais e mais eu penso que a tecnologia é mais interessante quando faz mais com pouco, e não muito com muito. É o que tornou Breath of the Wild, com seu mundo gigante e lindo rodando no que equivale a um processador de Moto G de segunda geração, como uma espécie de mágica.

Emily Wilson sobre A Odisseia de Christopher Nolan

A tradutora Emily Wilson escreveu sobre a adaptação de Christopher Nolan para A Odisseia, e é uma das melhores críticas de cinema que eu já vi. Wilson avalia tanto a temática e a interpretação que Nolan usa, quanto a erótica do filme — aquilo que o filme a fez sentir.

Wilson no London Review of Books:

Nolan’s Odyssey lacks many of the elements that make the poem great. It has nothing convincing to say about time, memory, history, war, or about the relationship between one warrior’s glorious return and the lives of his family, adversaries, comrades, friends and neighbours. It lacks psychological, emotional, political and ethical depth. Its narrative structure is gimmicky. The writing is abysmal. None of the characters has convincing motivation for their actions or words. There are no sex scenes, and all the food looks horrible.

The most troubling ethical problem with Nolan’s Odyssey concerns the decision to film part of the movie in the occupied territory of Western Sahara, thus normalising the ongoing violence against the indigenous Sahrawi people. It is particularly galling that Nolan used this land simply as a visually striking backdrop for a film that centres, aggrandises and redeems the hero of a territorial war on account of his belated and partial acknowledgment of his own guilt.

A trilha-sonora de Big Walk

Big Walk, o novo jogo da House House (o estúdio por trás do charmosíssimo Untitled Goose Game), talvez seja o projeto mais esperado do ano pra exatas 01 pessoa (eu mesmo). É um jogo de exploração do Grande Lá Fora, em que você e seus amigos vão poder embarcar em várias atividades numa espécie de parque nacional. O jogo deve ser lançado no próximo dia 4 de agosto.

Para comemorar, aksfx (que compôs a trilha sonora do jogo) está lançando a cada dia uma prévia das estações de rádio que os jogadores poderão escolher ouvir durante o jogo.

A primeira, divulgada ontem, foi “Lobby”:

E hoje foi “Breathwork”:

Big Walk vai ser lançado para computadores, PlayStation e Nintendo Switch 2. Os trailers de divulgação do jogo são maravilhosos. Olha só esse que eles usam para explicar o quê, exatamente, você vai fazer quando jogar:

Meu (novo) episódio favorito de Gilmore Girls

Lorelai cobre o rosto enquanto chora e se apoia no ombro de Luke, que a abraça

Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de Gilmore Girls, “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou.

Esse episódio é o que tudo dá errado: Lorelai percebe que ela e a Sookie não tem mais dinheiro para continuar a obra no novo hotel, o Dragonfly, e Sookie não consegue ter o mesmo compromisso que Lorelai com o negócio que elas querem começar porque ela acabou de ter o filho; já Rory tem que se despedir de Lane, sua amiga de infância que estava dormindo com ela em Yale, ao mesmo tempo que fica no meio da briga entre duas colegas de quarto e é convidada a diminuir sua carga de aulas na faculdade por estar com notas baixas. Para fechar com chave de ouro, as duas não conseguem se falar — elas trocam mensagens de voz (os áudios de WhatsApp da década de 2000) porque nunca conseguem atender os telefonemas uma da outra.

A quarta temporada de Gilmore Girls talvez seja a melhor das sete. A essa altura, ela já está no terceiro ano irretocável que Amy Sherman-Palladino construiu. Depois de três anos numa mesma fórmula, com Rory no seu ensino médio sendo apresentada ao mundo dos ricos de seus avós, e Lorelai vivendo no idílio excêntrico da cidade que a abraçou quando ela fugiu da vida que Rory está conhecendo. No quarto ano, Lorelai e Rory não convivem mais com tanta frequência e estão conhecendo quem são fora do lar que construíram juntas. Lorelai, por exemplo, escolhe visitar os pais por conta própria, algo impensável duas temporadas atrás; e Rory e Paris agora são amigas, um dos grandes relacionamentos marinados em fogo baixo que Gilmore Girls cria.

Tudo isso explode no episódio 14, que serve como a culminação de várias pequenas tramas que são pinceladas aqui e ali nos episódios anteriores. Lorelai e Rory finalmente desincronizaram suas rotinas totalmente, a ponto de não saberem sobre o dia-a-dia uma da outra. Rory não consegue ser quem ela esperava ser na faculdade, com mais e mais cenas dela percorrendo os corredores de Yale perdida em horários e em compromissos irrelevantes, como seu estágio na cafeteria; e Lorelai não sabe se vai conseguir realizar seu sonho, algo sugerido pela ausência de cenas dela comendo comida do Al’s Pancake World e pela casa usando luzes mais escuras. E tem mais: a série também consegue avançar o desenvolvimento de personagem de Luke, que no episódio anterior levou uma surra do sobrinho, e Lane tem seu primeiro reencontro com a mãe depois de sair de casa (é um dos arcos mais magníficos da série, que culmina no episódio seguinte); já Emily começa a entrar em conflito com Richard ao perceber que ele está cada vez mais distante e desatento (e dá oportunidade para Kelly Bishop e Edward Herrmann serem maravilhosos).

Gilmore Girls é uma das melhores séries que eu já vi em como desdobra o drama a partir de pequenas comédias do dia-a-dia. Embora faça piada com como Paris reage à Lane saber de seu caso com o professor, ou da dinâmica das colegas de quarto de Rory, tudo isso serve para isolá-la mais na frustração de que seus planos pra faculdade parecem não estar dando certo e sua melhor amiga sendo expulsa do quarto. Com Lorelai, é o cabelo cheio de creme e embaraçado, que vira comentário afiado da Emily, mas que só vai ficando mais e mais estranho conforme as coisas vão dando errada com seu dia, até que ela desaba nos braços de Luke que, também, está passando por uma barra.

Tudo isso vai se desdobrar nos episódios seguintes, mas é aqui que todas essas personagens começam a colapsar. Quando o episódio acaba, Rory e Lorelai finalmente conseguem atender o telefonema uma da outra, mas nesse ponto elas já choraram e estão exaustas e já não querem mais falar sobre os problemas pelos quais elas estão passando. Gilmore Girls é tão delicada na forma como essas duas personagens vão se afastando aos poucos enquanto embarcam vidas distintas, e esse é o primeiro passo de seu afastamento. Não com uma briga, como a série vai fazer com a reaproximação entre Rory e Dean que inicia aqui, mas com o silêncio no telefone no outro lado da linha, certas de que a outra não vai entender o que está acontecendo. É de partir o coração, e é exatamente a sensibilidade que faz Gilmore Girls ser uma das minhas séries favoritas.

Wiki Loves Earth 2026 no Brasil

A Wikimedia está organizando o Wiki Loves Earth 2026 no Brasil, um concurso de fotografia ambiental para ajudar a registrar e documentar as belezas naturais do mundo. No Brasil, mais de 80% das espécies brasileiras na Wikipédia não têm registros fotográficos, e 40% dos artigos sobre essas espécies não têm nenhuma imagem para ilustrá-los.

A Wikipédia organizou uma página por cada estado para você conferir o que está ao seu alcance para fotografar. Profissionais e amadores são bem vindos. As fotografias que participarem desse concurso precisarão ter uso livre. Segundo a Wikimedia:

Quando você envia uma fotografia sob licença livre, esse invisível ganha forma. O arquivo passa a existir na Wikimedia Commons como dado científico verificável, acessível para sempre a educadores, pesquisadores e cidadãos em qualquer lugar do planeta. Uma única imagem bem documentada pode ilustrar uma espécie na Wikipédia, entrar num estudo de biodiversidade, subsidiar uma política pública de conservação.

Um mapa-múndi que também é um jogo de campo minado

O fim dos jogos pré-instalados no Windows fez florescer toda uma indústria de joguinhos no navegador pra se jogar no trabalho.

Um que eu encontrei hoje foi esse excelente Países do Mundo Sem Fronteiras, em que o mapa-múndi não tem nenhuma linha demarcando as fronteiras. A cada rodada, você ganha o nome de um país e precisa clicar exatamente onde está aquele país no mapa. É como campo minado (meu favorito no Windows XP).

É um jogo que testa tanto o nosso conhecimento geopolítico quanto a precisão que a gente tem com o ponteiro do mouse… eu sei onde fica o Paraguai, mas num mapa desse tamanho como vou saber se tô clicando exatamente onde é o Paraguai, e não o Paraná?

Agora

Nessas últimas semanas o Tobias tem dormido ao meu lado no quarto, e eu comecei a conversar com ele sobre o dia — o que fizemos, onde passeamos, o que eu devia ter feito — até começar a ouvir o som da respiração dele pesar. Tá sendo uma boa rotina, quase que um diário. Gosto de acompanhar ele caindo no sono. É uma sensação gostosa, saber que ele tá se sentindo seguro e confortável a ponto de cair no sono enquanto escuta meu bla-bla-blá.

Encontre sentido

“Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but “steal” some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.”

— Albert Camus em seus cadernos, 1951-1959.

Eu procuro por meu pai na espiral de estrelas de Blue Prince

Rebekah Valentine (Kotaku), em um lindo ensaio sobre o luto sobre seu pai, e o belíssimo Blue Prince:

Quando joguei Blue Prince, não pensei nele como uma história sobre luto. Falando assim, parece estupidamente óbvio. Eu nem considerei isso até que acidentalmente o usei como uma metáfora para explicar meus sentimentos sobre a morte do meu pai ao meu terapeuta. Eu estava explicando a ela o longo processo que passei no último ano de tentar desvendar o mistério do meu pai: quem ele era, por que ele era do jeito que era e por que morreu da maneira triste e estúpida que morreu. As respostas que eu estava encontrando eram chatas, inúteis, deprimentes ou inexistentes. Eu queria que houvesse mais — eu queria que houvesse uma explicação mais profunda, uma ou duas frases organizadas com as quais eu pudesse explicar meu pai para mim mesma que envolvesse tudo em um arco e me permitisse acabar com toda essa coisa de “luto”. Não existe, e nunca existirá. É claro. Mas e se eu continuar procurando um pouco mais?

A história do meu pai não foi feliz. Eu não percebi o quão infeliz tudo era até depois de sua morte, porque ele literalmente nunca falou sobre si mesmo, sua família, sua história ou seus sentimentos. Ele perdeu seu pai por suicídio quando adolescente, suas duas irmãs muito jovens para complicações de abuso de substâncias, e teve um relacionamento profundamente desagradável com minha mãe. Ele foi bom para mim, na maior parte do tempo. Minhas memórias confusas de infância dele são, eu acho, normais, até agradáveis. Ele me levou a jogos de beisebol, inventou músicas bobas para mim, me ajudou com a lição de casa de matemática, me surpreendeu com doces. Mas algum tempo depois que eu saí de casa, ele começou a mudar.

Como Rebekah, eu percebi que Blue Prince era sobre perder muito tempo depois de insistir em “ganhar”. É um jogo sem respostas, mas não sem propósito, eu acho. É profundamente triste em algumas jogatinas, e libertador em outras. Eu acho que justamente isso o faz um registro incrível do que é o luto. Sempre inacabado, muitas vezes triste. Algumas vezes bonito, até. Dificílimo de descrever como é um labirinto que a gente nunca sai, exatamente, mas sempre percebe algo novo dentro dele. É o que fica, e em alguns momentos até que esse mistério é suficiente.

Como curar um coração partido

A newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.

Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:

Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.

[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.

Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?

Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.

As semelhanças entre sua vida e um cachorro

I never intended to have this life, believe me—
It just happened. You know how dogs turn up
At a farm, and they wag but can’t explain.

It’s good if you can accept your life—you’ll notice
Your face has become deranged trying to adjust
To it. Your face thought your life would look

Like your bedroom mirror when you were ten.
That was a clear river touched by mountain wind.
Even your parents can’t believe how much you’ve changed.

Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers,
Burst out of your hand with a fiery glee.
You see them later in hedges. Teachers praise you,

But you can’t quite get back to the winter sparrow.
Your life is a dog. He’s been hungry for miles,
Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in.

— Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)

Em defesa dos navegadores em consoles de videogame

Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.

O primeiro, é esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes.

Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página.

Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em um artigo sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para outro artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É nesse link que está essa pequena anedota de Terence Eden:

Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando.

No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com Candy Crush.

Ou, pelo menos, era o que eu pensava.

Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do GOV.UK sobre Auxílio-Moradia. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento.

O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente.

Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos.

Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. Todo o resto de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível.

É um pouco do que me faz querer que o nosso gov.br fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do gov.br é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima.

Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.

Tenham um fim de semana aconchegante

O tempo tá bem incerto nesse fim de semana por aqui. Não tem um raio de sol no céu, e as vezes parece que vai chover. Até cai uns pingos, mas a chuva não desce de vez. Parece bem um dia de inverno, mesmo que ele não tenha chegado ainda.

Meu fim de semana passado foi muito agitado. Eu me atrapalhei com alguns conflitos no calendário e acabei combinando com vários amigos compromissos que se atropelaram. Mas deu tudo certo, todo mundo foi contemplado, mesmo que tenha sido um pouco corrido. No domingo, quando a última visita foi embora, eu simplesmente desmaiei na cama e acordei atrasado no dia seguinte.

Nesse fim de semana eu vou dar uma descansada. Vou fazer uma janta pra um amigo, mas fora isso eu evitei de marcar qualquer coisa. Minhas pernas ainda estão um pouco cansadas do tanto que eu caminhei durante a semana (foram mais de 50km!), então tá sendo um bom dia pra me perder um pouco em Hyrule (eu estou jogando Tears of the Kingdom de novo) e tentar terminar Metroid Prime 4. Eu finalmente consegui configurar o HDR do Nintendo Switch 2 direito, quase um ano depois.

Espero que o fim de semana seja aconchegante como o meu. Aí vão alguns dos links que colecionei essa semana.

  • Wiki File Explorer: uma forma de navegar na Wikipédia como se ela fosse um diretório no seu Windows XP. Provavelmente vai ser meu link favorito do ano.
  • In Good Hands: um textinho breve sobre quando a gente confia em alguém pra mudar um pouco o nosso modo de ver as coisas. É tão bom quando nos cercamos de pessoas que nos deixam exatamente assim — curiosas.
  • How Writing Lead to Thinking (and Not the Other Way Around): eu tinha essa suspeita e esse artigo basicamente confirma que escrever ajuda a gente a pensar. Eu ando escrevendo muito pouco, e tava dando uma olhada no quanto eu escrevia (e pensava) pro Pão, e sinto falta disso. Acho que vou retomar esse tipo de blog no futuro. Pensando como.

Por hoje é isso, muito obrigado por ler.

Um obituário para o metaverso

Nick Heer é um dos melhores autores que observam a tecnologia. Ele sempre tem opiniões muito bem embasadas que, mesmo quando eu não concordo completamente, me fazem ponderar e reconsiderar minhas certezas. No seu blog Pixel Envy, ele publicou recentemente o que eu acho que é o melhor obituário possível para o metaverso, e as loucuras que empresas como o Facebook, a Epic Games e Roblox fizeram (sem falar projetos como o Decentraland):

It turns out we are okay with having meetings and playing games online, but we actually like seeing live music in-person and travelling to real places. The problems each of these things may have — high costs, environmental impact, and so on — are notable and real, but are not ones with metaverse-based solutions.

The pandemic did not make the metaverse. There was sufficient interest in developing it well before then, and it is possible all of these companies would have announced all these products and services on the same timeline. But in a world without a pandemic, I cannot imagine anyone would have treated these metaverse announcements with anything like the seriousness they did. The pandemic officially ended in the U.S. just six months after the first release of ChatGPT, so it is impossible to disentangle the influence of either. But it is notable to me that the nosedive in mentions of “metaverse” on Meta’s investor calls occurred in Q3 2023 — the quarter immediately following the declared end of the pandemic.

Ele ainda termina com um toque quase esperançoso. Dá pra ver que Heer cresceu vendo a internet florescer. Esse tipo de otimismo é de quem viu protocolos e tecnologias sendo criadas na nossa frente no início da internet:

[…] Whatever that ends up being will probably be the result of people finding something useful and intriguing about doing something different. It will not be the product of big companies redirecting the money hose of platform fees onto themselves.

Recomendo muito o Pixel Envy. É uma ótima leitura toda a manhã.

Três coisas sobre dados

Russel Davies escreveu um texto bem interessante sobre a “soberania dos dados” que parece ser a ruína de muitas empresas (undermanager). Alguns destaques da leitura.

Na introdução ele já elenca o paradoxo que é coletar dados para descobrir o motivo dos negócios não irem bem, e’quando os dados não respondem a pergunta você acaba coletando mais dados, o que te afastam ainda mais de procurar a resposta no lugar certo:

a. Data is a risk. Every bit of data has to be managed/looked after/cared for. That costs time and money. And most of it is useless.

b. Data is distracting. Most of it is just noise. You’re gathering it because you can, just in case, because it seems valuable. Then you spend ages trying to work out what to do with it. When you should be paying attention to just a couple of bits of it and actually doing something about it.

c. It becomes a job. Get enough data and you need data scientists. Then you’re stuck in a self-perpetuating structure that requires more data to feed the data scientists.

E, sobre a distância dos dados reais das pessoas que precisam deles:

The more it gets abstracted away to other teams and other softwares the more dangerous and misleading it gets.

Tem várias vezes na semana que eu me pego pensando que eu sou um incompetente no trabalho porque eu recebo dados do negócio fornecidos por outras pessoas que acham que teria alguma relevância pro meu trabalho, e eu não ver serventia nenhuma naquela informação. É muito frustrante receber informações que te dão ideia de um detalhe muito específico de uma parte da audiência e perder a visão do todo. Eu não desenvolvo pra um setor específico das pessoas que vão visitar um site. Eu desenvolvo pra todas as pessoas que possam visitar um site.

A música tema de Pokémon Ventos & Ondas

Achei lindo o tema de Pokémon Ventos & Ondas, que deve ser lançado em novembro do ano que vem.

Me remeteu muito ao tema de Diamond & Pearl pro Nintendo DS. Quando eu ouvi o tema pela primeira vez eu me lembro de ter ficado curioso porque a música parecia indicar bastante… mistério, de alguma forma? Ventos & Ondas é mais agitada, mas ali no finzinho parece ter uma sugestão de mistério de novo. Como fã de Diamond & Pearl, minha geração favorita, eu é que não vou reclamar.

Eu não joguei Scarlet & Violet porque tudo o que eu vi do jogo me desanimou, mas tudo que eu vejo de Vento & Ondas me anima. Acho que vai ser o primeiro jogo de Pokémon que eu vou jogar de verdade desde o Let’s Go e Legends: Arceus.

Meio absurdo (e desanimador) esse ser o único grande título pro Nintendo Switch 2 anunciado, e o console lançou já faz quase um ano.

Shape of Dreams (ou: eu quero um filme novo do Spike Jonze)

Eu quero poucas coisas na vida. Uma das coisas que eu mais quero na vida, é um novo filme do Spike Jonze, um dos meus diretores favoritos. Ele fez obras-primas como Onde Vivem Os Monstros, talvez o melhor filme sobre o que é ser criança já feito, e Ela, seu último filme — em 2013.

Desde então, eu espero ansiosamente por um novo trabalho dele. Jonze ia dirigir uma série para a Netflix, mas pelo visto o projeto degringolou. Eu não sei porque a Apple TV ainda não ofereceu pra ele um cheque em branco — tem mais de uma série no serviço que bebe tanto da criatividade de Jonze que quase dá pra processar por cópia (Sunny, Mr. Corman).

Enquanto isso, nos resta o trabalho com publicidade dele. O mais recente é Shape of Dreams, que ele escreveu e dirigiu para a coleção de roupas que a Zendaya criou para a marca suíça On:

Como todos os trabalhos de Jonze, suas publicidades também têm essa impressão tão bonita e cada vez mais rara de serem feitas à mão. A ideia é muito simples — Zendaya “molda” as roupas das outras pessoas “puxando” e “apertando” formas ao redor delas, em um jogo de encenação e posicionamento de câmera. Das ideias de Jonze, é uma das mais simples. Mas a execução é um charme, realmente delicada e bem humorada.

É do Jonze também a insana Kenzo World:

E a minha favorita das suas publicidades recentes, a Welcome Home apresentando o primeiro HomePod da Apple. É genial tanto em ideia (uma simplicidade de dar inveja) e execução (maravilhosa, toda em efeitos práticos):

Lá vou eu rever Quero Ser John Malkovich.

Quanto céu tem aqui fora

Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos.

Nós nos levantamos da mesa e vamos ao caixa. Eu insisto em pagar a conta dessa vez. Você finge se irritar, mas me beija na bochecha. A mulher do caixa me olha preocupada, vira o rosto pra você e me olha outra vez.

“Se vocês se separarem, o sonho vai acabar”, ela diz baixinho. Eu não entendo. Não que eu não tenha ouvido o que ela disse, mas eu não entendo o que ela quer dizer. Ela fala mais alto. “Se vocês se separarem”, e olha pra você, “o sonho vai acabar”.

A gente se olha. Você franze o rosto com aquela sua falsa preocupação e pisca o olho pra mim. Eu não lembro de conferir o troco, porque eu só quero chegar perto de você pra sairmos juntos do café. Eu digo bom dia pra moça do caixa e caminhamos, abraçados, em direção à porta.

A manhã está linda. É verão e as roupas são leves. Eu seguro seu rosto com as duas mãos e te beijo. Você me beija de volta, pega minhas mãos e as segura perto do rosto. Você me olha por cima dos nossos dedos entrelaçados. Você sempre encontra meus olhos, acho que foi isso que me fez te amar.

“Até mais tarde”, você me diz, e nossos dedos se desentrelaçam. Você se vira e começa a se afastar. Eu me viro pro outro lado da rua e, também, me afasto. Eu sei que você deu uma olhadinha em mim — sua verdadeira despedida, sempre — enquanto nos afastamos. E aí, tudo começa.

Eu demoro pra reconhecer o som que vem crescendo de longe. Eu percebo que ele é alto e me atrapalha, mas eu demoro para pôr a ideia de que ele existe na minha mente. Meu raciocínio é mais lento que meus olhos, que veem no fim da rua um helicóptero ir direto ao encontro do prédio. A explosão é alta, e as pessoas saem correndo. Umas vão em direção ao caos, e outras correm dele.

Eu fico imóvel, sem conseguir entender o que eu acabei de ver. Todo mundo parece que já entendeu. Um homem sai do carro e corre em minha direção. Eu ouço outra explosão acontecendo em algum lugar, mas não consigo entender de onde.

O homem grita “ei ei ei”, apontando para você. Você também está imóvel, alguns metros atrás de mim, a boca entreaberta e os olhos assustados. Você se acorda do transe feito de pavor e me olha. Seus olhos sempre me encontram, não é mesmo? O homem te chama, e ele repete.

“Se vocês se separarem”, e então bem devagar, “o sonho vai acabar”. Ele te olha, ele me olha. “Vocês entenderam isso?”. Eu quase me ofendo com a sugestão da minha ignorância, mas eu não vou mentir que eu não sei se entendi.

Você segura minha mão, e nos olhamos. E daí eu acho que entendemos tudo ao mesmo tempo. Eu seguro firme em você e saio correndo para longe daquele caos.

Corremos, e corremos. E corremos. Os carros estão todos parados, muitos sem ninguém dentro. Todo mundo fugiu, ou todo mundo foi em direção às explosões que causamos? Eu sei que a gente precisa correr. Você me acompanha, eu sinto o baque dos seus pés no chão ao meu redor.

Quando o fôlego acaba, e a gente chega em uma praça onde as coisas parecem estar mais calmas, eu sento em um banco e olho pra você, que ainda está de pé, respirando fundo. Eu nunca perguntei sobre seu histórico de fumante, mas essa dúvida me passa pela cabeça nesse instante.

“De quem é o sonho?”, você pergunta primeiro. Por um milésimo de segundo eu fico com raiva — eu queria ter perguntado isso, porque eu achei que você sabia a resposta. Agora o peso dessa resposta tá sobre mim, e eu não sei o que dizer. Eu olho ao redor, e não vejo ninguém.

“Eu não sei”, eu digo. “Eu não reconheço esse lugar, e você?”

Você caminha em círculos, olhando os arredores. “Eu não sei. Eu tenho a impressão de que conheço, mas eu não sei onde a gente tá. Faz sentido?”

Nada faz sentido, a raiva cresce um pouquinho. “Como que a gente vai saber quem tá sonhando?” eu pergunto. Você se belisca. Eu me belisco. Parecia fácil demais. É óbvio que não funciona.

“Onde a gente tá?”. É estranho. Instantes atrás eu achava que sabia onde eu tinha que ir. “Agora parece que eu não reconheço onde a gente tá”, eu digo. “Eu achava que sabia até pouco tempo.”

Você percebe a mesma coisa. Me olha com sua cara confusa — que coisa mais fofa. “Onde é que eu tinha que ir?”

Parece que a gente está nessa praça por muito tempo quando você senta do meu lado e me fala as palavras mais bonitas do mundo. “Acho que a gente pode fazer o que a gente quiser, não acha?”. Eu vejo seu olhar se abrindo pra um sorriso quando eu levanto o rosto e te encaro.

“É verdade”. Eu seguro sua mão e te levanto.

Você tenta se lembrar onde você mora. Ou onde eu moro. Ou se a gente mora junto. “Eu só lembro que quando eu deito no sofá no fim da tarde, a luz do sol entra pela janela da sala e ilumina os meus pés”, você me explica.

Eu não acho que eu sabia desse detalhe, e meu coração se parte um pouco. Será que a gente não mora junto, então? Se eu tiver dormindo, será que eu te conheço?

Nós estamos passando por um subúrbio cheio de ruas tortas e casas espaçosas, com jardins abertos. “Minha mãe mora aqui”, eu digo de repente, como se isso fosse verdade. A casa dela está ali, logo em frente. Eu bato na porta, mas ninguém atende. A porta está destrancada, então eu entro. Você está logo atrás de mim.

Não existem fotos minhas ou da minha mãe pela casa. Essa poderia ser a casa de qualquer um. Mas eu sei que é a casa da minha mãe — eu sei exatamente onde está o banheiro e te explico, porque você precisa usá-lo, que a descarga é demorada. Eu te peço pra não trancar a porta. Quando você me pede um motivo, eu respondo que eu tenho medo que você desapareça.

Eu ouço você puxar a descarga e a lavar as mãos. Um alívio percorre meu corpo quando eu vejo você abrir a porta.

Nós esperamos minha mãe chegar, mas ela não chega. O dia começa a escurecer quando a gente decide sair dali. Você me dá sua mão e caminhamos de mãos dadas pela rua onde nós crescemos e eu sinto que foi assim que a gente se apaixonou.

Nós estamos na beira da interestadual. Muitos carros ainda andam pra lá e pra cá. O sol recém se pôs quando a gente chega no estacionamento em que você se apaixonou por mim. Não tem carros ali, mas a gente ouve os que andam ao longe. Nós descemos o barranco onde a grama ainda é alta e eu me sento onde sempre me sentei quando ia ali com você. Os fachos de luz dos carros pintam seu rosto por instantes.

“Eu sempre gostei de quanto céu tem aqui fora”, você diz, olhando pra cima. É verdade. O céu vai até muito longe. Não tem nenhum prédio a vista. A estrada vai de um horizonte ao outro. O céu é gigante nesse lugar. O azul ainda não é preto, mas o sol não tá mais no horizonte. É a última luz que a gente vai ver.

Você não me olha quando você fala nossos medos.

“Eu não quero acordar e ver que você não tá comigo”.

“Eu também não”.

“Eu tô com medo de acordar e perceber que a gente nem se conhece”.

Eu penso. “Se a gente não se conhece, onde a gente se viu?”

Você me olha. Até no escuro, você me encontra.

“No trem?”

“No banco?”

Você sorri. “Ou quem sabe no café?”

“Eu acho que eu teria sorrido pra você no café”

“Você sorriu”

“Vou lembrar de sorrir de novo, então”.

Eu acho que a gente chegou no fim do mundo caminhando. A gente olha ao redor, e tem um posto de gasolina fechado. Não tem movimento nenhum, mas eu escuto o som do mar. Você também escuta?

“Sim”, você me responde. Mas eu não fiz essa pergunta.

Eu te olho e você sorri. Com uma barra de ferro você quebra a porta de vidro da loja de conveniência. Eu espero pelo pior, mas ele não vem.

Um flash da luz de emergência pisca e ilumina as prateleiras. “Eu tô com fome”, você se justifica.

A gente entra na loja vazia e você procura por algo muito específico nas prateleiras de salgadinho. Eu vou em direção às geladeiras, e ouço o zumbido delas. Meu coração bate forte. Eu sei o que está acontecendo.

Os rótulos das bebidas estão todos em idiomas que eu não sei identificar. Eu pisco e tento decifrar as linhas das palavras do que obviamente é uma Coca-Cola, mas nada na lata é compreensível pra mim. Eu percebo que meu coração desacelerou, e ao perceber isso o desespero bate. A loja de conveniência não é mais a mesma.

Você me dá um beijo e eu me viro pra te ver, mas você não está mais aqui. Minha respiração começa a ficar curta conforme meu medo vai aumentando. Eu lembro do que você me disse uma vez. “Pra lembrar que está sonhando, lembre de olhar para as palmas das suas mãos”. É a última vez que eu ouço sua voz.

Eu tento respirar fundo. O coração vai sair pela boca se eu não fizer isso.

Eu olho para as palmas das minhas mãos. Eu levanto o rosto e consigo perceber o sonho derretendo ao meu redor. As lojas ao redor começam a desmoronar e os carrinhos de supermercado começam a derreter. Eu volto a perder o fôlego.

Eu sinto a textura do lençol da minha cama, que eu escolhi a dedo. O peso da minha cabeça no travesseiro. Eu ainda sinto que o coração vai explodir e o pulmão não vai aguentar. Por um breve segundo, eu abro os olhos e esqueço onde está a porta do quarto. Eu mudei a posição da cama essa noite, por acaso?

No canto do meu olho eu enxergo a silhueta coberta pelo lençol. Eu a observo com cuidado, com medo do coração se partir. Eu me recuso a puxar a coberta e descobrir a verdade.

Long Grass

Do álbum Will Butler + The Sister Squares:

In the long grass, in the long grass
By the train tracks, by the train tracks
Waiting with nothing in my hands
Losing your voicе against the wind
Across my face the flow of timе
My shadow slowly fill the night
I found it fading in my mind
The final place I feel alive
Let me stay, let me stay, let me stay
Oh, let me stay here

Links pra essa quinta-feira, 30 de abril

Aqui vão alguns links bacanas pra explorar no feriado:

  • Linha do tempo da Artemis II em fotos: criada por Hank Green graças à informação pública na web. O Flickr preserva os dados EXIF das fotos que a NASA publica em suas contas por lá; e a própria NASA tem uma API pública para a posição da Orion em qualquer momento no intervalo de tempo da missão. Tirei um papel de parede daqui.
  • Cursor Camp: o meu tipo de MMO. Um parquinho para você dar um tempo com outros cursores ao redor do mundo. É surpreendente a quantidade de atividades bacanas que tem por lá, eu até fiz um gol numa partida de futebol e caí de um tobogã.
  • Quem são os amigos inesperados em sua vida?: belíssimo texto sobre uma amizade que surgiu através da rotina e do convívio com um vizinho. Muitas das minhas amizades pós-faculdade vieram assim. O poder que um “oi, bom dia” todo dia cria através do tempo é mágico.
  • rip.so: um “obituário para coisas da internet”. MSN, Orkut, Google Reader… todos tem um textinho que celebrou o que essas coisas trouxeram, e o que o fim delas levou da internet. GeoCities, meu tão adorado, é um deles.

Sugestões: Arquitetura & Decoração

Neal Wittington, em Present & Correct:

Na Alemanha, no fim de semana, vasculhando um mercado de pulgas em busca de coisas para a loja, também encontramos um livro de projetos/planos para casas modernistas. Publicado em São Paulo em 1956, abaixo digitalizamos alguns favoritos.

As ilustrações são lindas. Me lembro de encontrar algumas casas e prédios assim. Com o tempo elas foram ficando mais e mais raras. Aqui no centro de Porto Alegre ainda tem um prédio que mantém esse estilo, mas é um dos poucos que resiste à ditadura do concreto da Melnick.

Ilustração de casa modernista térrea com garagem de porta rosa, telhado inclinado com ripas de madeira e base em pedra irregular. Caminho de lajotas até a entrada, onde duas pessoas conversam sob uma marquise sustentada por pilar em V, com árvore grande ao lado.
Ilustração de prédio modernista de três andares com faixas horizontais coral e painéis amarelos nas laterais, caixa d'água cilíndrica no topo. Duas escadarias triangulares levam a portas de entrada distintas no térreo, com arbustos e árvore pequena à esquerda.
Ilustração de casa modernista com segundo andar em balanço sobre pilotis, fachada de vidro e brises de madeira. Três pessoas na varanda superior, outras no pátio e à porta térrea. Carro antigo à esquerda, piscina em primeiro plano, mata ao fundo sob céu estilizado em azul.
Ilustração de prédio modernista de múltiplos andares com fachada em faixas horizontais amarelas e brancas, sustentado por pilotis sobre base de pedra. Torre cilíndrica azul com nervuras verticais ao centro abriga a escada. Carro azul antigo estacionado à direita, pessoas caminhando na entrada.

Um mapa dos relacionamentos dos pinguins nos aquários japoneses

Esses fluxogramas (pra mim isso é mais um mapa) dos relacionamentos dos pinguins dos aquários de Quioto e de Sumida, em Tóquio tão sendo uma leitura impressionante. É tanto drama!

Via Spoon & Tamago:

Penguins are highly social species. They like being with others and, like humans, this can often lead to polyamorous and sometimes scandalous situations. Penguin drama can include serious crushes and heartbreaks but also adultery and egg-stealing. Penguins may even develop crushes on their caretakers. And these Japanese aquariums have it all charted in a flowchart that can be studied for hours.

Posso concordar. Ler esse fluxograma tirou (ou melhorou?) horas da minha quarta-feira.

Agora

Eu tô sentado no pátio dos meus pais, numa cadeira de praia. Eu sinto a grama entre os dedos do meu pé. O dia tá quente, mas aqui sempre tem uma brisa.

Tá num daqueles dias raros de silêncio. Embora meus pais morem no interior, sempre tem algo acontecendo ao redor da casa deles. Ou os cachorros estão resolvendo um problema político entre eles e os cachorros do outro lado da cerca; ou tem alguém aproveitando o fim de semana pra cortar a grama; ou é dia de churrasco em um dos vizinhos, e todo o mundo precisa ouvir a música que vai servir como trilha-sonora do almoço em família.

Hoje é um silêncio diferente. A casa tá quieta. Eu e meus pais voltamos há algumas horas do funeral do meu tio. Eles dormem, cada um em um canto da casa. Meus pais não gostam de mostrar que estão cansados um para o outro, então eles cochilam quase que escondidos um do outro.

Eu decidi vir pra rua. Pisar um pouco na grama. Eu gosto de sentar aqui nesse canto do pátio. É ao lado da árvore sob a qual a Vivi foi enterrada. Hoje é só mais um canto — a grama já cresceu, a árvore tá linda.

Ouvi minha mãe acordar agora. Eu sei que isso aconteceu porque a Zinha, uma das cadelas aqui da casa deles, também acordou. A Zinha acompanha minha mãe pela casa toda. A gente reclama desses comportamentos deles até o momento em que eles não podem mais nos seguir. Daí a gente sente falta.

A Mel veio me fazer companhia. Vou ter que parar de escrever, porque a Mel exige colo e ela não liga se o computador vai atrapalhar ela. Melhor botar ele pra lá.

Era pra chover hoje. Ainda bem que não choveu, tá muito bom de colocar os dedos do pé na grama e sentir ela abraçar meus pés.

Filmes que me fazem me sentir em casa

Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.

Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas.

Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme.

Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede.

Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço.


  1. Daguerreótipos (Agnès Varda, 1975)

O filme que me fez pensar nessa lista. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabeleireiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora.

Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como *Daguerreótipos*. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor. 2. **Meu Amigo Totoro** (Hayao Myazaki, 1988)

Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão.

Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo. 3. **Memórias de Ontem** (Isao Takahata, 1991)

Memórias de Ontem é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória.

(Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.) 4. **Amantes** (John Cassavetes, 1984)

Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em Amantes tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome.

Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma. 5. **Certas Mulheres** (Kelly Reichardt, 2016)

Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo.

Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, [eu escrevi][kelly]:   > Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar.

Isso é se sentir em casa. 6. **Onde Vivem Os Monstros** (Spike Jonze, 2009)

Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver.

Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O em *Food Is Still Hot*. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. 7. **Lovers Rock** (Steve McQueen, 2020)

Grace foge de casa de noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi.

*Lovers Rock* é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar. 8. **Todos Nós Desconhecidos** (Andrew Haigh, 2023)

Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil.

Em *Todos Nós Desconhecidos*, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos. 9. **Pequena Mamãe** (Céline Sciamma, 2021)

Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali.

Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.

The HTML Review, nº 5

Saiu o novo volume da The HTML Review, uma revista sobre a internet feita à mão. Como todos os anos, ela é cheia de pequenos experimentos.

Toda a HTML Review é especial. Eu recomendo começar sempre da primeira página e ir seguindo, como se folheasse uma revista mesmo. Eu ainda tô adentrando essa edição, mas duas seções me cativaram muito:

  • Tell umma I’m walking to Baekdusan, um ensaio de Anne Lee Steele sobre a relação entre a sua “psicogeografia” e o próprio computador.
  • from mine to yours, um “monólogo interno” de Quennie Wu em uma caminhada. Acho que nada, em toda a minha vida, capturou tão bem a sensação que eu tenho de caminhar — um hábito que eu não perco por nada.

Bom sábado!

Encanamento

Tava lendo esse artigo no Unsung sobre a estrutura de URLs do Flickr, e essa continuação com links sobre “design de URLs”.

Eu acho muito bonita a forma com que o Flickr, o Last.FM e o Letterboxd trabalham suas URLs. Eu gosto de digitar os endereços dos sites que eu visito — foi assim que eu aprendi a navegar na internet —, e esses sites permitem que a gente descubra as coisas mais bacanas misturando e explorando suas URLs. O que acontece se eu trocar uma geotag no Flickr, ou misturar os gêneros no Last.FM, ou até mesmo filtrar os filmes que meu amigo assistiu por país? Eu posso fazer toda essa descoberta só observando e trocando caminhos.

Enquanto eu tava redesenhando o meu site eu tava pensando nessa estrutura de URLs, e como eu queria possibilitar esse tipo de descoberta. Com o tempo, eu espero que esse site vire uma verdadeira “floresta” em que eu possa me perder em tags e links por aí. Pra isso, eu preciso reorganizar essas tags, criar um jardim, etc.

Mas uma dessas tarefas foi pensar em uma estrutura de URLs, e tendo lido recentemente o texto no Unsung eu me peguei reestruturando as URLs do site pra começar a possibilitar esse tipo de descoberta.

Por regra geral, os posts agora estão organizados assim:

/categoria/ano/mês/dia/nome-do-post/

As tags são fáceis:

/tags/nome-da-tag/

Uma hora eu quero fazer o /tags/ ser um mapa gráfico das relações entre as tags aqui do site.

Se você acessa uma página de categoria (ex. /notas/), você vê o arquivo daquela categoria. Anos, meses e dias também podem ser misturados para navegar por arquivos. Pra acessar os posts de dezembro, você pode navegar pra irrelefante.com.br/2025/12/, e assim por diante.

Eu gosto como fazer esses esquemas de URL, integrar com outros serviços e ver se tudo funciona de uma ponta à outra é como mexer no encanamento do site. E meu site é como minha casa. Até mexer no encanamento e saber que tá tudo bem é uma alegria.

Notas de diretores aos projecionistas

Gosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público.

Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz.

Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de A Árvore da Vida, de 2011:

Carta em papel timbrado da Fox Searchlight Pictures, intitulada Notice to Projectionists Regarding The Tree of Life. Assinada por Terrence Malick, diretor, a carta pede aos projecionistas atenção a detalhes técnicos como aspect ratio de 1:85, volume dos faders em no mínimo 7.5, lâmpadas a 5400 Kelvin com nível de foot Lambert em 14, e alerta que não há créditos iniciais no filme. O tom é respeitoso, chamando os projecionistas de os últimos artesãos remanescentes da exibição cinematográfica e encerrando com a fraternal salute.

Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico Barry Lyndon, e todas as suas especificidades:

Carta datilografada de 8 de dezembro de 1975, com o logotipo estilizado de Barry Lyndon no topo. Assinada à mão por Stanley Kubrick, a carta detalha em 10 pontos as instruções técnicas de projeção do filme, incluindo correção de erro nos dots de changeover do Reel 3B, aspect ratio de 1:1.66, luminosidade entre 15 e 18 foot lamberts, duração total de 184 minutos com intervalo no Reel 6, e instruções para uso de um LP com a trilha sonora durante o pré-filme e o intervalo.

Agora, sobre Cidade dos Sonhos, quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch:

Aviso em formato de pôster tipográfico, dirigido ao departamento de projeção, sobre o filme Mulholland Drive. Assinado à mão por David Lynch, o documento pede que o volume seja aumentado em 3dB acima do normal e que a imagem receba um pequeno headroom extra em relação ao enquadramento padrão 1:85, com um diagrama comparativo ilustrando o ajuste. O tom é direto e pessoal, abrindo com I understand this is an unusual request yet I do need your help e fechando com Your friend, David Lynch.

Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.

Software simples

Eu tô tentando zerar minha lista de leitura. Ela tem 209 links para ler, catalogar e arquivar. Pra me forçar a ler um pouco todo o dia, vou começar a postar aqui o que eu estou lendo, e talvez um comentário ou destaques.

Hoje, foi TextEdit and the Relief of Simple Software, no The New Yorker.

Kyle Chayka:

Amid the accelerating automation of our computers—and the proliferation of assistants and companions and agents designed to execute tasks for us—I’ve been thinking more about the desktop that’s hidden in the background of the laptop I use every day. […]

Over the past few years, I’ve found myself relying on TextEdit more as every other app has grown more complicated, adding cloud uploads, collaborative editing, and now generative A.I. TextEdit is not connected to the internet, like Google Docs. It is not part of a larger suite of workplace software, like Microsoft Word. You can write in TextEdit, and you can format your writing with a bare minimum of fonts and styling. Those files are stored as RTFs (short for rich-text format), one step up from the most basic TXT file.

I trust in TextEdit. It doesn’t redesign its interface without warning, the way Spotify does; it doesn’t hawk new features, and it doesn’t demand I update the app every other week, as Google Chrome does. […] Each encourages you to adapt to a certain philosophy of organization, with its own formats and filing systems. But nothing has served me better than the brute simplicity of TextEdit, which doesn’t try to help you at all with the process of thinking. Using the app is the closest you can get to writing longhand on a screen. I could make lists on actual paper, of course, but I’ve also found that my brain has been so irredeemably warped by keyboards that I can only really get my thoughts down by typing […]

We users have learned that cloud-based apps and digital platforms are more likely to surveil us, mine our data, and manipulate our attention than to provide us the precise content and services we seek […]

Acho que esse relato de como Chayka usa o editor de texto (e como interage com um desktop) me ajudou a entender porque eu acho que nenhum outro dispositivo — celular, tablet, nada disso — consegue capturar: a ideia de que o computador é uma “bicicleta para a mente”. Usar programas que lidam com arquivos, que nos pedem para organizar e catalogar eles nos fazem pensar na nossa própria organização — eles nos deixam responsáveis pelo nosso próprio pensamento, pela forma como estruturamos ele e a forma que criamos sentido.

Um celular, ao contrário, quer moldar sua organização para a abordagem de um app específico. Olha como a gente adapta nossos pensamentos para as limitações do app de notas que usamos, por exemplo, ou como as limitações na hora de organizar a tela de início de um celular não nos permite criar sentido na forma que operamos o dispositivo, diferente de como organizamos (ou não organizamos) nossa área de trabalho no computador.

Agora

Uma coisa que eu sinto muita falta nos meus dias com a Vivi é a sensação de que ela adorava estar pertinho de mim.

Quando eu ficava trabalhando no escritório, a Vivi gostava de ficar deitada em algum lugar perto dos meus pés — de vez em quando ela até se apoiava neles, e eu tinha que ficar com o pé parado, dobrado, pra não atrapalhar o sonho dela. Quando eu saía pra pegar uma água ou um café, ela ia atrás, e depois voltava comigo. De noite, ela ficava comigo enquanto eu assistia um filme. Ela me acompanhava pelo pátio enquanto eu caminhava depois do trabalho. Ela tava sempre por perto.

Tava pensando nisso agora há pouco enquanto eu estava na cozinha e o Tobias ficava deitado no sofá. Não tô comparando o afeto de um cachorro pelo outro, mas mais um comportamento. Tobias precisa saber onde eu estou — ele levanta a cabeça quando vou de um lugar para o outro — mas ele não precisa estar perto de mim o tempo todo.

São companhias diferentes. As vezes eu sinto uma saudade imensa da companhia da Vivi, mas não é justo eu ficar cobrando do Tobias. Ele é diferente.

O apogeu dos anos 90

Vai ver é a crise que eu tô passando no trabalho, vai ver porque eu realmente tô valorizando esperar mais, mas esse post do Chris Collins bateu forte em mim:

Most folk didn’t really care about technology. They had a few things like a CD player, a games console or a phone that just worked to call and maybe text. You bought it, you owned it, and everyone kind of accepted it would die eventually. […]

Photos were just… photos. […] You took one because it mattered.

[…] You waited for stuff and nobody lost their mind about it. Waiting was normal.

People worked hard, but it usually meant something tangible. You could point at it and say “I did that”. Not just emails and meetings and vibes. […]

Me lembrou de duas coisas: uma fala em Matrix, quando Morpheus explica pro Neo que a Matrix é uma simulação da humanidade no seu apogeu (os anos 1990). Também me lembrou de We Used To Wait do Arcade Fire pro álbum The Suburbs (um disco sobre os anos 1990, inclusive).

Eu vivi a segunda metade dos anos 1990, e concordo. Até ali por 2009, eu acho que a gente tinha o balanço certo do quanto a tecnologia, ou o digital em si, nos ajudava mais do que nos influenciava. As coisas mudaram com o iPhone.

Eu acho que tinha muita coisa errada naquela época, mas eu acho que as coisas tinham mais peso. Hoje em dia, tudo tem um peso de um post numa rede social — seja a barbárie contra um povo, a violência sexual contra crianças, e o prêmio de música que aconteceu na noite de ontem.

Ter saído do Instagram me ajudou muito a tirar esse efeito esmagador que ele tem de tornar tudo conteúdo. O problema é que muito da vida hoje é moldado por essa experiência. Eu vou num restaurante e ele tem “cenários instagramáveis” para as pessoas criarem memórias. As notícias no jornal tem frases curtas para caberem num post ou para serem lidos num story. É meio desesperador estar de fora mas ainda assim sentir seus efeitos.

Acho que é um caminho, e cada um tem sua própria jornada de volta ao mundo, à grama do jardim, à textura das coisas.

Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria

Via swissmiss:

Authoritarians cannot rise if there are strong communities and people are acting with joy. That is, you need despair and anger in order for an authoritarian to rise. Whatever those things are that you bring to the community, do them and do them with joy, and don’t stop doing the things you love because you’re scared, because that actually is a form of resistance.

— Heather Cox Richardson.

Agora

Tá fazendo uns dias de verão bem da minha infância por aqui nessa última semana. Dias de solaço, mas com uma temperatura gostosa: entre os 23 e os 28°C. Hoje é sexta feita e eu ganhei o dia de folga (o trabalho anda intenso, pra dizer o mínimo). Eu tô comendo uma fatia de melancia bem suculenta na minha sacada, vendo o fim de semana chegar na vizinhança.

A vida tem um jeito de ser linda.

Amizade e sentido

Carol (um monstro peludo e gigante) e Max (um garoto de 10 anos) se abraçam em meio a flores laranjas.
“Onde Vivem os Monstros” de Spike Jonze, 2010.

Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.

No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.

Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.

Qual é o sentido de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.

Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.

Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.

Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.